.EXORDIUM.
Acabas de entrar no vestíbulo do SER. Aqui encontras Pedestrianismo para os lugares tresmalhados da mente, trekking pelas almas adormecidas e montanhismo pelos altos do companheirismo e tolerância… Desperta e junta-te à vigília…
andarilhus@sapo.pt
Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
As Sombras que Nos Inflamam

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Avultava, grasnante, grou necrófago,
Confiante, repousado
Em galho de longa espera.
Entoava bruxedos
Incitando ao definhamento,
Esculpindo sarcófago,
Em lenho esconjurado.
Aves vis subjugavam a Primavera
Atrás da porta dos medos,
Adubavam o desalento
Bem fundo da alma:
… A alma desanimada.
Trepanaram o Céu
Em astronómica cavidade.
Invadiram-no pelo covil da traição,
Roeram os livros sagrados
Da justiça;
Estropiaram os candelabros
Do iluminismo divino;
Apagaram as estrelas
Em opressor véu.
E, em tamanha insanidade,
Emboscaram-se na força da razão,
Arremessando dúvidas a apostolados,
Cravando de cristais de cortiça
O íntimo da alma:
… A alma cruzada.
E a alma
Fez-se corpórea,
Reencarnando num sono manso,
Em demanda do remendo do céu,
Amputada de audição
Para o sinistro grasnar.
Arvorou-se de confortos
Entre os seus,
Abrigada, de fibras de palma
Teceu a ponte para a vitória.
Estrebuchou e de um balanço
Esfarrapou o abjecto véu
E atulhou a fossa da maldição.
Calou-se pernicioso cantar
Com o tombar de todos os grous, mortos.
Rasgaram-se as tenebrosidades
No coração da alma:
… A alma reacendida.
Andarilhus
IX : II : MMX
Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
A Culpa Sublime

http://i.ytimg.com/vi/itkzaT9yk9Y/0.jpg
Sim, mea culpa…
Moldar a realidade
Pelo feitiço da utopia,
Deixar a crueldade
Aveludar na fantasia
Como as dores da idade
Em panaceia de óleos e mimos
De profecia propícia.
Sim, já fiz de tudo
Para esconder
O que não quero ver;
Para inventar
O que não existe.
Fico mudo
E estático
De tanto gritar
De tanto correr,
Por campos fecundos
De maleitas que dão saúde
De desertos que são nascentes cristalinas
De aleijões que dão virtude
De insípidos pântanos que são salinas.
...De tanto libertar o paraíso na Terra…
Sim, mea culpa…
Acreditar na revolução
Do universal amor
Na elevada solução
Da verdade nua remendar
Com os tecidos da mágica
Ternura do labor
De novo mundo idealizar.
Sim, suspirei por empenho
Sempre esperançado
Por te encontrar
E não te perder.
Da vida,
Tracei florido desenho
E, como Quixote alucinado,
Arquitectei pórtico para entrar
No teu abraço, e nele colher
Os afectos com que me saudaste
Sobre a colina do meu contentamento.
Sim, mea culpa…
A cegueira, a sede, a precipitação.
A tolice da credulidade
De poder atar a felicidade
Com o cordel de balão
Que nos acompanha,
Esvoaçante sobre nossa aura.
A ingenuidade não é pecado;
O sonho não é delinquente:
São, afinal, obras solitárias
Que criam rugas, e olhares perdidos.
Estou cansado, estou velho,
De me enganar, de fugir.
Sim, entrego-me
Ao juiz de toda a gente
Confesso o disparate
Desta minha culpa … sublime.
Andarilhus
XXVIII : I : MMX
Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009
Mondar o Mundo

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Esta luz que ainda resiste
Tão perto do fim,
Este frio que alimenta
Tão próximo do esgotamento,
Numa das últimas manhãs
De muitos dias, de experiências…
Debruça, estica o olhar
Para além do que está para vir.
Desejas o feliz, o bem, insiste!
Busca alguém dentro de mim,
Deixa a sabedoria da gasta sebenta!
E chegados ao alto de mais um momento
Esperançamos novas vivências, sãs.
Morrer, vestir novas existências…
É tempo de renovo, de procurar
As oportunidade do advir.
Na ponderação de um expirado ciclo,
Como Jano,
Contemplamos…
Esta luz exangue,
Este frio feito calor,
Que empurram inexoravelmente
As nossas fronteiras para o rosto das batalhas
E agitadas uma vez mais,
Exige-nos determinação
Das forças efusivas do sangue!
Demanda em nós a cumplicidade
Dos afectos incondicionais do amor!
Limpamos o corpo, limpamos a mente,
Das cicatrizes, das mágoas, das falhas;
Lustramos os troféus, os brilhos intelectuais.
Venturosos, seguimos pela mão…
Na descoberta de um destino…
Na prospectiva de um nascido ciclo,
Como Jano,
Sonhamos…
Andarilhus
XXX : XII : MMIX
... Que a vossa passagem por 2010 seja preciosa...
Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009
O Sósia de DEUS

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Ergueu-se tua mão
Na colheita do visco imaculado,
Ainda fresco, orvalhado,
Pela aura mais tímida
De tua reverência pela génese;
Animou-se tua alma
Na queima do incenso abençoado,
Já maduro, experimentado,
Pelo zénite mais confiante
Do apogeu das tuas virtudes;
Corrompeu-se tua moral
Na depuração do sacro óleo,
Transformado, domesticado,
Pela tarde mais decadente
Do declínio da tua veneração…
Hoje,
Que templo constróis
Em memória dos actos
De teus ancestrais pais?!
Nasceste em razão,
Na procura da chave,
Dos mistérios, das dúvidas,
Dos teus infindáveis medos.
Descobriste a incontestável solução:
Descobriste-O e, com Ele,
Descobriste o Poder.
Desde então,
Cresceste a Gigante, a Senhor,
Usurpando o equilíbrio, fundando o jugo…
Desde então,
Bajulando, divides, como “bom” patrão,
Como carrasco e ditador.
Hoje,
Que mundo edificas
Com o saber recebido
De teus vetustos pares?!
Negas, renegas, abnegas!
Rejeitas,
Conspurcas a verdade
Com álibis sarcásticos… gastos…
Como ilibar-te da tua autofagia?
Como rogar o perdão
Pela tua ecuménica extinção?!!!
…fugiram já tua razão,
Tuas dúvidas e teus temores.
…morreu já tua admiração pela vida,
Sucumbida à maioridade da cobiça…
Destronado,
Depressa tombou O que ungiste,
Para empunhares
O ceptro da Terra e dos Céus,
Para te agasalhares
Sob o manto do dogma,
Para cingires
A coroa de Tirano absoluto.
Hoje,
Que porta abres
Para o advir desconhecido
De teus descendentes filhos?
Hoje,
Que sementeira lanças
Nos céus futuros
De teus noviços herdeiros?
Não!!!!
Não emparedes as portas
Antes que alguém as possa atravessar;
Não devores as sementes
Antes que alguém as possa fazer germinar;
Não calcines de negro
A luz que nunca foi tua…
… Regressa às tuas pegadas brandas
Na Terra…
Andarilhus
XXVIII : XII : MMIX
Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009
Natal 2009

A todos:
Oxalá...
Oxalá a felicidade toque cada um de vós com ternura;
Oxalá a saúde e a alegria habite em vossa moradia, lar também de vossa família.
Oxalá o Natal vos traga o simples e a ousadia de querer e manter o ser humano...
Oxalá o Novo Ano vos visite com muitos e belos projectos, e vos torne os sonhos tangíveis...
... e
Oxalá que, qualquer ser, em qualquer lugar, em qualquer momento, encontre forma e solidariedade para superar as suas dores e as suas carências elementares e afectivas...
Boas festas!!!!!!!!
Andarilhus
XXIII : XII : MMIX
Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
Em Nós

http://img478.imageshack.us/img478/7241/foto075b65dsb7.jpg
Na casa que nos guarda
Dos acasos
Que lá fora nos procuram,
Enseba a nuvem turva
Inchada de chuva barrenta
Opacidade na luz do sorriso.
Esburaca o tecto,
Arrasta a solidez das paredes,
Busca a ruína do nosso Sol …
Na casa que nos guarda
Das inclemências do mundo
Que nos rondam a porta,
Agita-se o oceano negro,
Em correntes letais,
Inunda a ilha do paraíso,
Afunda continentes,
Almeja a destruição do nosso cais…
Sempre que
Entre nós
Se emaranham rugosos nós,
O nós,
Incansável anfitrião
Da plácida sujeição
Do meu ego e do teu ego
Em sono profundo,
Esvoaçantes em partículas
Pelo sonho de diletante fundir,
Encolhe-se na sua azáfama,
Desvela o dormir que nos fascina…
Na casa que nos resguarda
Da amorfa solidão
Que, paciente, nos observa do mar de gente,
Irrompe o vulcão da impaciência,
Ferve em erupções ímpias,
Rasga fossos profundos,
Incinera sólidas pontes,
Cobiça aniquilar as nossas cores…
Na casa que nos agasalha
Dos frios da insensibilidade
Ainda habita um coração,
Que bate síncrono a dois tempos,
O meu, o teu,
No movimento harmónico
De injectar o sangue da tolerância,
Respira forte na contínua reconstrução do nós…
E sempre que
Entre nós
Se emaranham rugosos nós,
O nós,
Incansável anfitrião
Da plácida sujeição
Do meu ego e do teu ego
Em sono profundo,
Esvoaçantes em partículas
Pelo sonho de diletante fundir,
Redobra-se na sua azáfama,
No provir do doce dormir que nos fascina…
…E que liberta, imponente, o NÓS!!!!
Andarilhus
XI : XII : MMIX
Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009
Os Votos Finais

Aqui, sentado na pedra da soleira gasta, encostado à tosca coluna que suporta a câmara velada pelo incenso fumegante, preparo-me para deixar a residência de dEUS desconhecido.
Em solene tributo, reverencio o lugar sagrado onde exorcizei a magnificência da vida, elevando as preces das criptas aluídas da alma, recolhido em marmóreas memórias do passado, contemplativo nos fenómenos do presente.
Foi doce arder nesta tribuna de labaredas afeiçoadas de fogo profano, enquanto deambulava na odisseia da minha procura. O círculo do encontro completou-se.
Oxalá.
Num derradeiro suspiro, rogo ao oráculo a dádiva da constância e a virtude da sabedoria que permita tanger a felicidade numa existência digna e almejar ser a razão de todos os teus sorrisos, até que cheguem as cinzas de prata…
E chegadas, aportados a celeste dimensão, nos braços da ousadia do destino e sob qualquer desígnio do ânimo de criação ou de destruição, poderemos sempre escutar a voz inspirada d’
O Oráculo do Fogo!
Epílogo
Vai peregrino!
Busca a saída por porta distinta da que te trouxe à entrada.
Guarda os teus silêncios agasalhados na bandeira pura da paz interior.
Nos diálogos das torres dos fundamentos, nos sorrisos verbalizados do coração,
Resgatarás a amizade do teu semelhante, reabilitarás o amor dos teus mais próximos
Por tua paixão pela humana condição…
Êxito
(Encerram-se os ritos)
Retirado de “O Oráculo do Fogo”.
Andarilhus
III : XII : MMIX
Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
O Jogral de Letras

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… E se por guisa,
Formosas damas e gentis senhores,
Sorristes, apegados,
Com estes mistérios de videntes
E desejais uma gesta de vida conhecer,
Quedai repousados entre flores
Enquanto ventos alados
Vos cativam nos braços de fólios confidentes,
Folheando-os para vosso juízo e saber.
E se não o tendes por cousa de encanto ou utilidade
Algo, pelo menos, deveis atentar:
Aprender não tem idade
E alguma experiência irei eu aqui partilhar!
… Desvendai-a, colhei-a e reflecti.
Andarilhus
VIII : II : MMIX
Retirado do "Oráculo do Fogo", texto "[Sedução]".
Lírica: Sisters Of Mercy: First, last and always
Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Edita-Me: Encontros com os Autores

... Amigos, conhecidos, interessados, curiosos???... Venha sempre mais um!
Haverá uma palavra, um abraço, um cumprimento, um sorriso à espera...
Apareçam!...
Jorge Pópulo
Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
O Castanheiro

http://3.bp.blogspot.com/_gX2hm3QuRUQ/R8NPk_aG_1I/AAAAAAAAABs/HPFRtEiO_9k/s320/castanheiro.jpg
Pelos teus campos de Outono
De terra lavrada, tenra, fresca,
Chãos de soutos seculares,
Passeias majestosamente, no passo
De quem já correu todos os ciclos
Das estações, das experiências, da vida.
Ou quase todos…
És farol hirto e desperto
Em dias de nevoeiro,
Agitando os braços de abrigo
A tresmalhado companheiro.
Assim, imponente castanheiro,
Semeado por vento quente
E chuva fria,
Firme, resistente, ardente,
Cerrado nos teus arbustos de arnês
Guardas os segredos dos pássaros
Que no teu cuidado repousam.
E quando se arrasta marasmo dia
Por longo sono que não se atura
Sacodes o tédio e o pó dos calcanhares,
Despes o casaco de ouriço
E desces castanha madura
Para festa ou eloquente reboliço!
Solta-se, então, o aroma do teu enleante feitiço…
Dedicado…
Andarilhus
XXVI : XX : MMIX
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Opus Magnus

http://www.nationalgallery.org.uk/upload/img/michelangelo-dream-human-life-NG8-fm.jpg
Ingénuo e visionário
Sulca a dimensão do mundo
Ao alcance da sua mão.
Desafia-se e temerário,
Estranho à cautela,
Dá-se à feição da penhora
Como petisco
À usura de esfaimados grifos.
“Dai-lhe o engodo,
Engordem-no de ilusão,
Empertiguem-no de confiança!
E logo que crente
Apunhalem-no com delicada lentidão,
Tracem-lhe na alma
O cruel mundo decadente…”
Perdem-se as causas,
Perdem-se os amores…
Humilhado e indiferente
Não resiste todavia
A elevar-se do pesado chão.
Alenta a mão trémula
No sulco de novo mundo,
Novas contidas fronteiras,
Para além da tábua esguia
Do seu prematuro caixão…
E quando, arrancado do fundo sombrio,
Cresce calejada centelha,
Ergue-se em autêntico ser
Enquanto para si murmura
(enquanto para mim murmuro):
“Vive dignamente,
Vive apaixonadamente,
Vive graciosamente,
Sempre!
E morre
Uma ou mais vezes
Em repouso contigo mesmo.
Na sofrida revelação, experimentaste
Que até com a cartilha do pérfido
Se pode ensinar o Bem
Porque
A obra maior do ser humano
É aprender a viver
E honrar a Vida com saber.”
Andarilhus “(º0º)”
XXI : X : MMIX
Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
Indolor

http://farm1.static.flickr.com/66/199059492_3dec7ee184.jpg
Quando em ti morar a dor
Sai,
Visita uma flor.
Dá-lhe mimo,
Um afago de saudade
Um toque acolhedor.
Apazigua assim o teu sofrer
No sorriso de odor
Doce e encorpado
Como o de um enternecer
Abraço amigo
Longo, perseverante,
Que mitiga o padecer…
E se num qualquer alvor
Escutares
Á tua porta
Alguém soluçar
Carregado pela Dor
Dá-lhe abrigo,
Dá-lhe vento,
Dá-lhe mar
Um beijo cobertor…
Entrega-lhe humana atenção,
Dedica-lhe fraterno amor.
Lembra-te que também
Lá bem no pêndulo
Do coração
Tu podes ser
Uma flor…
Andarilhus
II : X : MMIX
Domingo, 20 de Setembro de 2009
O Gelo Rubro II

http://www.juicygeography.co.uk/images/aurora.jpg
(continuação...)
- “Assim seja.” – Anuiu Opah.
No cômputo das forças leais à princesa-rainha e já com o apoio dos vikings, contar-se-iam pouco mais do que 450 lanças. Do outro lado da liça, poderiam esperar mais de três milhares de goblins, só na capital, Dríadson. Precisavam de um plano…
Opah convocou o conselho dos seus ilustres para preparar a estratégia de combate e começou a reluzir na sua aura de valquíria. Aproximava-se um daqueles momentos solenes em que cumpriria o seu destino em honra dos deuses. Melhor! Desta vez, trataria dos guerreiros vivos primeiro, como humana e depois vestiria a sua túnica de deidade e escolheria os melhores guerreiros entre os que tombariam no campo de batalha.
A surpresa e a audácia seriam as armas a empunhar. Explicou o seu plano e apurou-o ao detalhe com os membros do concílio. Era essencial capturar Mordaz, chefe militar e sacerdote maior dos goblins, a quem seguiam como se fosse um deus vivo. A perspicácia de Opah apontava para uma das fraquezas do líder dos inimigos. Mordaz ambicionava capturar o Linho, o mais forte dos 3 últimos cavalos túmedros para, com os exorcismos de feitiçaria que tão bem dominava, tomar-lhe os poderes mágicos e assim adquirir o domínio de se transformar em centauro, o que o tornaria invencível e muito próximo da imortalidade. Aliás, fora também essa a razão que o movera à insubordinação e à conquista dos Dríades, mas os equídeos haviam escapado à sua teia.
De acordo com o plano, puseram-se em marcha para Dríadson, para lá chegar no crepúsculo do dia seguinte. Pelo entardecer calculado, aproximaram-se das fortes muralhas da capital. Opah usou os poderes da metamorfose e perdeu-se no grupo dos elfos. Era agora mais um dos da comitiva viking que se acercava da urbe. O plano estava em marcha e já não podiam desistir. Dirigiram-se a um dos portões.
-“Alto! Quem vem lá?”, grunhiu um dos guardas goblins, em palavras tärkish, o dialecto mais popular e conhecido em Zenith.
Yopulus respondeu pausadamente: -“Somos um grupo dissidente dos vikings das Terras Baixas. Somos mercenários e caçadores de troféus, dispostos a servir quem pagar mais. Deixa-nos entrar, temos algo que pode interessar ao teu senhor…”
-“Alto! Nem mais uma passada ou sereis frechados e dizimados como gansos do fiorde” - gritou o guarda, apontando para as ameias, onde inúmeros arqueiros esticavam as armas - “Que negócio quereis com o nosso amo?”
Yopulus, fez-lhe a vontade e respondeu-lhe com uma visão que aterrou o goblin, Orvi, de nome. Com um suave gesto, ordenou aos seus homens que se afastassem e destapassem a magnífica imagem do Linho.
- “Encontrámos… ahahahaha… saqueámos algo que de certeza fará as delícias do senhor desta grande cidade. Não foi fácil. Aquela gente deu luta, mas foram todos passados a espada. Foi pena é terem escapado os outros dois cavalos semelhantes a este. Agora, com este belo exemplar, contamos colectar um pequeno tesouro e, já agora, agasalho e estadia por uns dias”.
Orvi engoliu em seco mas evitou os comentários. Sabia que seria castigado e poderia estragar o negócio ao seu chefe. – “Esperem. Vou relatar a vossa chegada”.
Encerrou os grossos portões sem grande alarido para, depois, longe dos olhares dos estranhos, desatar a correr como se fugisse do Sol. Não demorou muito a regressar e a deixar entrar os cerca de 30 companheiros que seguiam Yopulus.
- “Venham, tenho ordens para vos levar à cidadela. A todos não. Escolhe uma dezena dos teus guerreiros para te acompanharem. Estão convidados para cear com o nosso muito ilustre senhor, Mordaz. E tragam o equídeo. Os restantes irão acampar junto à segunda muralha”.
Dríadson era uma grande cidade e uma verdadeira fortaleza. Ostentava uma poderosa muralha exterior e mais duas, ligeiramente mais leves, no interior. No ponto mais alto contava ainda com um último reduto de segurança, uma cidadela, onde se elevava o palácio e o centro político e religioso da capital.
Uma escolta conduziu os viandantes à presença do grande líder. Entraram numa sumptuosa e gigantesca sala. Estribaram após a porta. Em frente e espalhados pelo chão do salão, dezenas de goblins comiam descontraidamente. Não havia mesas ou cadeiras. Mantinham o costume das cavernas. Um dos elfos suspirou baixinho, decepcionado. Era Opah. Porém, logo se aprumou porque um dos comensais levantou-se, passou por eles e posicionou-se a admirar o Linho. Brilhavam os olhos e um sorriso macabro esgueirava-se dos lábios brancos de Mordaz. – “Deveis saber quem sou. Juntai-vos ao repasto. Veremos que tipo de fortuna vos traz por cá…”
- “A do ouro!” gracejou Yopulus.
Este e três dos seus homens agruparam-se com Mordaz e os dignitários goblins. Os restantes permaneceram junto do Linho.
- “O que pretendeis em troca desse animal de gelo? Sem esquecer que estais sob a minha hospitalidade e mesmo, se não me agradar a vossa arrogância, sob os meus caprichos…”
- “Ora, ora, senhor Mordaz, este belo espécime é de uma raça singular e exemplar quase único. Com todo o respeito, vale bem uma recompensa generosa de vossa parte. Dai-nos 100 lingotes de ouro e a guarida por 3 dias.” - Retorquiu o líder dos elfos.
- “Muito bem, a guarida fica acertada. Quanto ao ouro, vou pensar se vos darei 50 ou 25 lingotes. Agora, sereis levados para uma ala do palácio onde passareis a noite, bem guardados. O cavalo ficará convosco. Com a vossa ânsia pelo vil metal, ninguém o protegerá melhor”.
Foram instalados noutra grandiosa sala, mais uma vez, sem qualquer mobiliário. Opah assumiu a sua fisionomia de valquíria e humana e correu para uma laje vertical que se demarcava numa das paredes. A grande maioria das divisões do palácio estava munida de uma ou mais passagens secretas, que ramificavam no interior dos grossos muros da cidadela e muralhas até ao exterior. - “Rápido! Ajudem-me a puxar esta pedra azul, é o manípulo para abrir a porta da vingança!”.
Pela manhã, os goblins acordaram com a cidade cercada com todo o tipo de criaturas das paragens mais escusas de Zenith. Parte do plano consistia em procurar e anunciar a todos os seres o iminente confronto com os opressores goblins, procurando recrutar todos os que se quisessem bater pela liberdade e a paz. O Fio correra à Floresta Mágica e reunira todos os dríades extraviados e tantos outros, de outras espécies, que quiseram engrossar as fileiras da reconquista. O Cordel, de cavalgada de luz, visitara os muitos povoados e agremiara para a causa umas largas centenas de guerreiros.
Uma algazarra de vozes e dialectos anunciava a presença de humanos, fadas, gnomos, gigantes, duendes, dragões, elfos, faunos, gárgulas, entes, grifos e até trolls. Nunca a terra de Zenith e os seus habitantes estiveram tão unidos.
Avisado, Mordaz subiu a um torreão da cidadela para avaliar a situação.
-“Pobres, desgraçados e pretensiosos. Finalmente, tiveram coragem. Mas, não terão qualquer hipótese de vencerem a nossa fortaleza. É um bom momento para lhes dar um golpe de misericórdia e capturar os rebeldes. Preparem-se! Vamos fazer uma sortida de surpresa e esmagar estes imbecis. Um lingote de ouro para quem me trouxer Opha – que os deve estar a comandar – viva ou morta!”
As falanges goblins começaram a abandonar a cidadela e a concentrarem-se no largo adjacente à porta principal da muralha exterior, para a formação de ataque. Tudo tinha resultado bem para Opah e os seus, até então. A reacção dos goblins fora bem ponderada. O palácio estava agora ocupado apenas pela minguada guarda pessoal de Mordaz. Era o momento de ferrar a tenaz na hierarquia goblin.
Quando se preparava para deixar o torreão, o pálido Mordaz ficou translúcido. Sem saber como e de onde, contemplou a cidadela a encher-se de grupos crescendos de elfos e humanos, sobretudo. Estes, rapidamente, correram a manipular a guarnição das portas da cidadela, para as encerrar e assim, isolá-la da restante cidade e do grosso do exército sitiado.
Durante a noite, Opah fizera com que os seus leais súbditos e aliados se infiltrassem na cidade, através dos túneis e portas secretas, que tão bem conhecia. Fora um golpe de mestre. Encontra-se agora em perigo a elite goblin.
Os aliados da reconquista lançaram-se em caça daqueles, abatendo, um a um, todos os que oferecessem resistência. Por fim, cercaram Mordaz no seu último reduto: um amplo terraço da cidadela e o seu ponto menos alto. Com pouco mais do que 20 dos seus seguidores, o chefe procurava fugir da sua própria fortaleza, através de uma longa corda que – amarguradamente, verificou – mal chegava para cobrir metade da vertigem da muralha.
Opah e os seus dominaram os goblins, com a preciosa ajuda do porte do Linho. Aprisionado, Mordaz rangia os dentes, espumando de ódio e não tirando os olhos do cavalo de cristal. Estava desesperado e disposto a tudo e enquanto humanos e elfos, risonhos, relaxavam após a contenda, empurrou os guerreiros que o agarravam, conseguiu pegar num machado e correu para o Linho.
-“Maldito sejas! Se não és meu, também não serás de ninguém!”. Na passada, puxou a arma acima do ombro e desferiu um violento golpe. O Linho, expoente máximo da agilidade, facilmente se esquivou ao ataque, colocou-se em posição de defesa e presenteou Mordaz com um potente coice de luz que o fez passar directamente sobre as ameias e cair no terreiro, de uma altura equivalente a 6 árvores centenárias. Terminava assim e ali a vida mal fadada de Mordaz, o responsável por tanto mal, destruição e dor.
O exército goblin presenciou a queda e morte do seu senhor e a notícia espalhou-se qual fogo em erva seca. Como num fosso, entre os dois braços do adversário e decapitados no comando, depuseram as armas e renderam-se.
Opah deixou que regressassem às Cavernas da Penumbra, com a obrigação de enviarem periodicamente os seus representantes às reuniões do Conselho Geral das terras dos dríades. Queria-os controlados, integrando-as nas decisões governativas daquelas paragens.
A princesa-rainha tinha um longo caminho pela frente para reorganizar o reino e restabelecer os padrões da vida e das vivências. Contava com o Linho, o Fio e o Cordel para a ajudarem.
Os vikings elfos receberam um novo rubi, o gelo rubro que tanto aguardava o seu povo. E, na despedida, Yopulus sentiu um arrepiar com as promessas de amor no olhar descuidado da valquíria rainha…
… mas isso é uma outra LONGA história…
Andarilhus
XX – IX - MMIX
O Gelo Rubro I

http://2.bp.blogspot.com/_copRHv93JEI/Sk6drzj-CMI/AAAAAAAABrs/UYKnLb0H4Gc/s320/ice.jpg
O Gelo Rubro I
(reacendido e atiçado)
Opah, valquíria das terras dos Dríades, no extremo norte de Zenith, tinha porte e gesto de bela princesa humana. E fora princesa e mesmo rainha na sua gesta de vida. Porém, pelo solstício de Verão, a insurreição súbita dos goblins, adoradores das estalactites de cobre e provenientes das misteriosas Cavernas da Penumbra, colocara o território a ferro e fogo e destronara a regente. Opah, a custo escapara a um destino mais atroz, conseguindo fugir e refugiar-se na fronteira dos seus antigos domínios, em zona remota e de acesso difícil. Aí, inalcançável nas grandes estepes geladas, sobrevivia com os parcos recursos que pudera arrastar aquando da evasão. O seu exército e demais súbditos erravam, foragidos, algures pelos segredos da densa Floresta Mágica.
Conseguira escapar prodigiosamente graças aos seus 3 magníficos cavalos da linhagem da Túmedra: o Linho, o Fio e o Cordel. Os possantes animais corriam como um só novelo, de vento e mel, com uma desenvoltura que deixava marca no olhar a quem houvesse privilégio de os mirar no deleite da velocidade e da formatura estética. Eram do mais puro cristal e partilhavam o espírito e a racionalidade com os humanos e demais seres de Zenith.
O Linho era branco opaco e geria bem e com sabedoria a liderança reconhecida pelos companheiros. O Fio era de um azul-água, verdadeiro golfinho da superfície dos lagos gelados e o Cordel de um verde-líquen que enchia as copas alvas das árvores com promessas de Primavera.
O trono de Opah era agora a sela de prata e couro dedilhado com que trajava majestosamente os seus cavalos, à vez. Tratava-se de uma cavaleira impar, sem rival na arte equestre. Eles respeitavam-na na minúcia e alegravam-se na sua pureza animal quando lhes tocava a oportunidade de transportar a sua senhora.
No desterro, passavam-se os dias sem que Opah lograsse juntar as forças suficientes para reclamar o que lhe pertencia por direito de herança e tradição. Magoava a sua beleza com o carregar de expressões tristes e preocupadas. Consumia horas em silêncio e olhares vagos e perdidos. Esmorecia em farrapos de manhãs ou tardes, deitava-se em dormitar desiludido mas despertava alegre e confiante pelo grito da alvorada. E retomava, do início, a contagem de forças e a preparação da estratégia, como se fosse o primeiro dia de exílio. Todavia, as horas continuavam a passar e o desalento avançava com o Sol…
Nos fiéis cavalos encontrava alguma paz, algum consolo. Esquecia-se por momentos das agruras deixando-se levar por longos passeios. Num desses deambulares, junto do ponto em que o mar beija a terra, viu numa enseada, sita no sopé do monte onde repousava, a chegada de umas embarcações estranhas. Eram barcos longos e esguios, com uma longa vela quadrada ao centro, temíveis cabeças de animais à popa e uma espécie de cauda nas proas. Reluziam como ouro.
- “Conheço-os…”, disse o Cordel, prontamente. – “São os elfos dos Canais Floridos, também designados de vikings. Vêm de terras ligeiramente mais a Sul, belas e coloridas, resgatadas aos Pântanos do Azedume. São guerreiros formidáveis, mas muito cruéis. Vamo-nos daqui antes que nos vejam!” E saíram dali com o repente do trovão.
Nos dias seguintes não se afastaram demasiado do acampamento. A rotina continuava. Opah fazia planos sobre planos e debatia-os com os equídeos, enquanto deambulavam pela floresta próxima. Nessa tarde, estavam mais efusivos do que o normal na discussão, tanto que não se deram contam de estranhas presenças. Quando entraram numa solarenga clareira, fechou-se à sua volta um forte e metálico biombo de seres muito semelhantes aos humanos. Os vikings! Eram guerreiros possantes, esguios, de longos cabelos e barbas, claros, cintilantes nas suas armaduras.
O Linho tomou posição imediata de defesa, exortando os parceiros na protecção a Opah. Cerraram fileiras e mostraram os cascos e os dentes e sobretudo a sua beleza sem par, na mescla das suas tezes.
Adiantou-se um distinto dos elfos, de farta guedelha castanha clara, ao jeito do carvalho polido e que sobressaía naquela pequena multidão de loiros.
- “Nada temam. As nossas intenções são pacíficas. Eu sou Yopulus e estes são os meus conterrâneos. Sou o chefe ungido desta expedição. O que nos trás por cá, tão a Norte, é a busca de solução para um momento de flagelo que cobre a nossa pátria. Mas, quem sois vós, estranhas criaturas?”
Linho não facilitou e manteve a formação disciplinada. Ela, menos alarmada e mais relaxada, respondeu de dentro da sua fortaleza de cristal: - “Sou Opah, Rainha das terras que pisais. Fui destronada por uma seita que, como erva daninha, irrompeu do solo e tomou vorazmente toda beleza e alegria do meu reino. Estou exilada nestes lugares gelados, onde eles não conseguem chegar por falta de resistência ao frio extremo. Estes são os meus bravos companheiros. Não são meros cavalos, mas isso até um bárbaro como vós já deve ter reparado”. Firme e segura, mostrava-se digna da realeza. Mesmo em perigo e desvantagem manifesta, impunha-se perante os estranhos.
- “O que nos quereis? Porquê este cerco? Que fazeis aqui?”
Yopulus olhou em volta e fez um sinal. Foi obedecido num ápice. Os guerreiros afastaram-se e procuraram lugar para repousar e recuperar forças. Quedou-se apenas o chefe viking.
- “Perdoai a nossa rudeza, mas tínhamos de nos certificar que éreis inofensivos e de confiança. Agrada-me a vossa coragem e arrojo. Rivaliza definitivamente com a vossa beleza… Bem, mas falemos do que nos trouxe às vossas costas.
Arghard, a nossa pátria, sempre foi uma terra próspera. Abundante e fértil nas suas mulheres e culturas, venturosa nas suas demandas comerciais e engenhosa nos mil ofícios. Escolhemos desde há muito a via pacífica e a troca de saberes e produtos com outros povos. Seguimos o curso da guerra apenas quando olhares de cobiça se lançam sobre as nossas casas e posses. Infelizmente, estamos em guerra agora. Todavia, é uma peleja diferente e não convencional. A amargura veio connosco, mas o desespero e a dor ficaram no nosso país. Vou contar-te o nosso terrível fado e razão desta nossa jornada.”
Após novo sinal do caudilho, os elfos, com movimentos ligeiros e sem qualquer ruído – como lhes era característico –, estenderam várias capas no solo, criando um espaço aprazível ao diálogo e ao descanso. As vestimentas tradicionais, labores inenarráveis, obra quase imaterial dos tecelães élficos, tornavam o ambiente ainda mais empático. Ao gesto anfitrião de Yopulus, os equídeos afrouxaram a guarda e Opah aconchegou-se no recosto da casca macia de um roble, sentando-se candidamente, arrebatada pela arte que lhe servia de manta. Trouxeram algumas vitualhas, que não só afagaram o estômago castigado por dieta forçada da princesa-rainha, como tiveram o condão de lhe trazer doces recordações de tempos idos, tempos de paz.
E era a questão da paz – perdida – que afligia o coração e o pensamento do chefe viking.
Assim que retomaram as energias e dissiparam as defesas, Yopulus continuou a sua narrativa: -“Somos, geneticamente, uns incorrigíveis viajantes, visitantes e conhecedores de muitos portos e lugares. Todavia, Arghard é a mais bela terra que jamais admirarei, por muitas léguas que galgue. É credora de tanto suspiro e sorriso, de tanta felicidade e agora preocupação. Está-me no sangue, segue-me sempre em caloroso remanso do pensamento. Por estes dias, precisa de nós para que não se transforme num mero sonho e numa vã memória…”
Emudeceu e notou-se a mão da dor a percorrer-lhe sinistramente a face.
-“Diz-me, Senhor dos elfos, que desgraça maior te cega a luz da alegria?”, retorquiu Opah, procurando segurá-lo à realidade e não permitindo que largasse em nova jornada pelas imagens negras que o assaltavam.
-“É a própria alma de Arghard que se extingue. Se não tivermos êxito e não formos lestos, perder-se-á para sempre a nossa pátria. Eras, gerações esforçadas para criar tão belo paraíso, recebido por dádiva da própria Mãe-Terra e trabalhado arduamente no desejo de construir o maior templo aos deuses, através da edificação de um estado, paradigma da justiça, da fraternidade, da ética, da sabedoria… da perfeição. Vou relatar brevemente a calamidade que se abateu sobre nós.
Em tempos ancestrais, os nossos antepassados encontraram perdidos no lamaçal do pântano que povoavam uma expedição humana já exangue e com poucos sobreviventes. Tinham vindo do Norte em demanda do Ninho do Sol. Seguiram-no e arruinaram-se. Estavam longe de casa e completamente desorientados. Os deuses assim o quiseram, porque sempre reagiram mal à revelação dos seus segredos. Os nossos antigos avós valeram-lhes, salvaram-nos e levaram-nos até à fronteira do seu território. Como recompensa receberam das mãos dos visitantes do Norte um esplendoroso cristal rubro, com a indicação de que era um rubi retirado da Árvore Ardósia do Alento. Para ser favorável, deveria ser colocado no lugar mais sagrado que a natureza por ali havia criado. Pois bem, no pântano o único lugar salubre era a nascente de água pura que saciava a sede das minhas gentes antigas. Nesse sítio – actualmente no centro de Arghard – designado desde então como a Nascente Primaz, foi levantado uma base marmórea junto à saída das águas e aí depositado o cristal. A transformação foi imediata. Aumentou o caudal líquido e a energia vital. O pântano drenou-se como que por magia e logo surgiram as mais belas espécies vegetais, silvestres e florais. Iniciou-se época de fecundidade e de expansão pelo conhecimento e pelo mundo. Tornámo-nos num povo evoluído e respeitado. Mas também invejado…
Os trolls de Anquilão, território vizinho, a leste, enviaram uma embaixada para rectificar os tratados de paz e de comércio. Tudo embuste! O séquito não era mais do que uma mão cheia de guerreiros audazes que pretendiam roubar-nos a pedra preciosa do vigor. Tentaram e quase conseguiram levá-la. Não tiveram sucesso mas a miséria e o castigo caiu sobre nós. Enquanto perseguíamos os infames, o troll que carregava o nosso tesouro caiu num precipício sem fundo, perdendo-se para sempre a relíquia. Trucidamos os inimigos remanescentes e fizemos inúmeras tentativas para descer ao abismo mas, mesmo com a ajuda de duendes mineiros e grifos, foi impossível recuperá-lo.
Sem a fonte de ânimo, a fonte da água já não consegue manter a prosperidade e a felicidade. Aos poucos e incessantemente, o pântano regressa e ganha terreno. É este o nosso infortúnio. E por isso, numa derradeira tentativa, avançamos para Norte na esperança de encontrar o nobre povo que nos entregou a luz rubra”.
Opah estava estarrecida com tudo o que ouvira. Quase perdia a compostura e dir-se-ia que tremia, nervosa. Não se conteve mais e falou apressada: -“Então é verdade o que a lenda conta! Entre os seus escritos, os nossos antepassados deixaram uma passagem em que narram uma viagem a Sul e o encontro providencial com gente estranha e algo selvagem. E mais te digo, Yopulus: a árvore de que falas está no jardim a nascente do palácio capital do meu reino e continua a dar frutos. Os nossos povos conheceram-se há muito tempo, em momento oportuno!”
-“E porque esperamos?!” – retorquiu em sorriso o elfo –“Sigamos para esse bendito palácio! Nós ajudaremos a escorraçar os invasores e vós, se nos considerardes dignos, ireis recompensar-nos com mais um precioso fruto da Árvore Ardósia. Reeditemos a História!”
(continua...)
Andarilhus
XX – IX - MMIX
Terça-feira, 28 de Julho de 2009
Anátema

http://www.fecalface.com/artists/shawn_barber/anathema.jpg
Lívido, moribundo,
Albarda pungente
Sobre o costado
De perfil transparente,
Escorraçado pela sua gente
Odre,
Mal amado
Esguichado de cuspo
Podre,
Na alma violado,
Nos sonhos mutilado.
Carrega o ódio,
Não o seu, o de tantos,
O de todos!
Reteso no nó górdio
Da corda da forca
Esticada por mão
Não sua, a de tantos,
A de todos…
Humilde, aceita,
Mas, lá bem no centro do eu,
Não quer esta missão,
Este trabalho,
De carregar o mal
Da Terra e do Céu.
Esconde-se, em agasalho,
Dentro do coração,
Arrasta-se sob os fardos
Não os seus, os de tantos,
Os de todos,
Por um ideal…
A vergasta
Relampeja no ar
E ele continua a sonhar
Não o seu,
Mas o sonho de tantos,
De todos!!!!
Daqueles que o flagelam
Pelo dever sentido de (se auto) aniquilar
A alma nobre,
O sonho belo
… De amar.
Liberta-te da prisão
Do desvario do Homem,
Desgraçado!
Dá rasgão à albarda:
Tomba pelo chão
Os pesos, as penas,
Tamanha opressão!
Eles não te merecem.
Só tu cinges
O beijo da paixão…
Andarilhus
XXVIII : VII : MMIX
Segunda-feira, 20 de Julho de 2009
Mortes

http://vilaalianca.files.wordpress.com/2009/02/morte.jpg
Caminha…
Caminha…
Deambula com a alma arrastada,
Despojada,
Presa pelos cravos da tua cruz de plástico,
Do teu crucifixo de latão,
Enforcado no rosário da promessa
Da eternidade
Da fraternidade.
(A aura do inocente…)
Avança…
Avança…
Aguardo-te agora
Entre os teus estigmas,
Nos teus limites,
Sempre, a todo o ocaso.
Sou o teu reflexo estático,
Cinzento, sem sentidos,
Sem estrebuchar
Descarnado, esviscerado,
De ossos nus,
Lambidos pela corrosão salina.
Já o sabes: eu sou a tua fuga da miséria,
Da vida!
(Desfalecimento do perplexo…)
Entrega-te!
Abraça-me em beijo frio
Dou-te a paz, a minha paz,
Devolvo-te a ignorância, a indiferença.
Recebe o grou da apatia imortal,
Acolhe o grifo do esquecimento.
Entra em meu rebanho,
Transumante,
Entre os pastos da servidão
E os alfobres de mel da escuridão…
Descansa do mundo que vês,
Mas não crês…
Repousa…
Repousa…
… Mais um passo
Outro mais…
Tu conheces-me
Como a Sombra
Como manto de terra fria
Como último refúgio,
Despojado
Das tuas certezas, dos teus horizontes
No gume de um ferro
Na escarpa de delírio afiado
Na mudez cega do cercado.
(Vertigem do incrédulo…)
Entra…
Escava…
Em perdidas sepulturas
Dos mil padecimentos
Dos mil falecimentos.
Então…
Elevo-te ao prazer
De prescindir sentir,
Ergo-te na lasciva
De escusar afecto,
Levanto-te na devassa
De enjeitar a vontade!
Carrego-te em triunfo
Ao vórtice da sensualidade do vazio…
(Travessia do indigente)
Entrega-te!
Abraça-me em beijo frio
Dou-te a paz, a minha paz,
Devolvo-te a ignorância, a indiferença.
Recebe o grou da apatia imortal,
Acolhe o grifo do esquecimento.
Entra em meu rebanho,
Transumante,
Entre os pastos da servidão
E os alfobres de mel da escuridão…
Descansa do mundo que vês,
Mas não crês…
Repousa…
Repousa…
Vem, sou a tua salvação,
Sou as (tuas) Mortes!
Andarilhus
XXI : VII : MMIX
Sexta-feira, 10 de Julho de 2009
Metamorfose

http://conjectura.files.wordpress.com/2009/03/metamorfose.jpg
E se o meu mar se encolher,
Corado, tal rosto de sal,
Ao aceno ainda longe,
De teus braços de sereia,
Ciprestes de cascatas brandas,
Logo, em maré vaza, se abrirá a discorrer,
Os seus segredos de areia,
Revelando o limbo de comungada foz,
Quando em mim decidas mergulhar,
Profunda, com teu sorriso fatal,
Como se eu fosse
Murmúrio de búzio
Pronto a ressoar
Que eu e tu, somos nós…
E se o meu peito se estender
Cheio, tal relevo de coral,
Ao teu pedido de aconchegar,
Enxugada pelo conduzir correnteza
Do rio que trazes em fortuna,
Logo, em respirar forte, se destapará servil
A praia de seda, tua alcova, teu leito
Onde teus braços de sereia,
Catedrais do querer perdurar,
Embalam as palmas dos céus mareados
Como se eu fosse
Zumbido de esperança
Ansioso a vociferar
Que o eu e o tu já não existem…
Somos nós!
E se os meus olhos marejarem
Nublados, tais pedras sem tibieza,
Ao toque envenenado do desencanto,
Dos rumores que chegam além das margens,
De feitiços e esconjuros sobre a vida,
Logo, em verde aquoso, se irão descerrar
Em demanda da medicina e repouso
De teus braços de sereia,
Ventos amainados de panaceia,
Refúgio dos martírios tempestuosos,
Como se fosses
Esteio de certeza
Basalto escrito de Lei
Que eu e tu já não somos nós,
Somos, só… Somos a mesma voz...
Andarilhus
X : VII : MMIX
Sexta-feira, 26 de Junho de 2009
Túnica de Águas Doces

http://jmscustodio.blogs.sapo.pt/arquivo/agua1.jpg
Cobria-te túnica
Cristalina, fresca
Pela fragrância
Da água transparente
Da ribeira,
Enxuta ao aroma da claridade
Diáfana e penetrante
Do crepúsculo calmo…
Assim te chegaste
Sobre o leito
Sobre mim.
Trazias a ânsia
Despida, evidente,
De afoita romeira
Penitente em sensualidade
Feminina,
Divina…
Emanavas sabor
De mel dos limos,
Mimos,
Espigados na eólica pradaria,
Florescida, madura
E dada a colher,
Entregue em braços
Para purificação
De meus infortúnios,
Por caridade
De minhas medonhas dores…
Impregnou-se a túnica
Em tua pele
Senti-te seda papel,
Acolhi o éden,
Sem pecado.
Encontrei-me alado
Aspergido
Pelo orvalho da alva,
Santificado
Pela freática alma,
Que a meu lado acordava…
Firme no alto
A estrela da aurora
Do renovo dos dias,
Cerrados os olhos
Desvendei a paisagem
À tua chegada,
Entraste, entrei,
Toquei-te, fui tocado
… No coração…
Andarilhus
XXV : VI : MMIX
Lírica: The Mission: The light that pours from you
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
Rendilhados de luz e sombra

http://img360.imageshack.us/img360/1797/monlogocirculario1.jpg
Chego
Como a despedida
De faúlha trovão
Reluzente e estridente
Em busca do aconchego
Da tua terra aluvião
Despida
Para ver meu sossego,
Enfim,
Florescer, sorridente.
Fico
Residente
Viandante
Em sonhos
De bem partir
Pelo teu mundo
Tuas cidades e ruelas,
Locatário
Das tuas parcelas
No fundo
Do teu copo
Vivido até à derradeira gota
De sentir,
Inteiramente,
Paixão embriagante.
Furto
A tua condição de estrela,
Tiro teu nome carpido
Em fábula desventurada
E, como os rendilhados
De uma sombra quase Luz,
Levo-te ao segredo da capela
Para aí te adorar
Como mulher, de sangue e tecido,
Em pedestal humano
Aceito o fruto proibido
Porque creio
Na revolução maturada,
Única e Bela,
De tanto amar.
Cantante e feliz, digo:
Sigo
Signo
De amor significado
Santificando
Digno
Advir contigo.
Andarilhus
XIX: VI : MMIX
Terça-feira, 2 de Junho de 2009
O novo génesis III: Os Salmos Apócrifos

http://3.bp.blogspot.com/_CdSFLfZ0SZM/R9-oM8RaNYI/AAAAAAAAAac/wNfLFq5t-hw/s400/salmos.jpg
Onde estás,
Desde que me enfeitiçaste,
Adormecido em sono de encanto?
Voltarás? Que trarás de novo?
Que guardarás dos fascínios longínquos
Exacerbados neste, agora, triste canto?
Se te enfadares de intrusas evasões,
Das tuas insondáveis viagens,
E cuidares abrir as asas do regresso
À terra que me prometeste,
Onde me deixaste, semeado,
Sabe que
Por ti ainda espero
Em, talvez, obstinado engano.
Mas
Prescinde-me da dor,
Não me procures no reflexo cego
Da montra das tuas vitualhas,
Não me tentes moldar
Como plasticina das tuas certezas,
Das tuas sombras, da tua verdade,
Da tua aspiração cósmica…
Sabe que
No processo de envelhecimento,
As cicatrizes da experiência,
As mordidas da sorte e a coloração do acaso,
Abrem as janelas temporais para os juízos da vida.
Será este mais um julgamento do percurso?
Será este o julgamento final?
Soturnas,
As nuvens do indomável Gilgamesh
Abocanham os poucos pedaços restantes do céu
Meu,
Seco, sem renovo, inspiro o pó do caos,
Abro a arca da aliança e acerco-me
Das palavras proibidas
Dos pensamentos encerrados, soterrados.
Sabe que
Será feita decisão da tua vontade
Neste deserto ou sobre as águas temperadas.
Será sempre a hegemonia do teu reino,
O Norte do teu caminho…
Glória a ti na tua insensível convicção
Aleluia à tua magnificência em luz
Que tudo ilumina, tudo ofusca
Onde estás, afinal? Voltarás?
Ou desisto de esperar?
Revela-te na tua essência genuína!
Assim, sigo no teu estandarte, onde arvoras o meu definhar,
Depois de me teres exposto à vida…
Andarilhus
II : VI : MMIX
Lírica: Tristania: The modern end
Quarta-feira, 20 de Maio de 2009
O Novo Génesis II: A Floresta dos Encantamentos

http://3.bp.blogspot.com/_HRbigKMHkxU/SCKy0k7w6dI/AAAAAAAAAVE/HTqWDeaS3rk/s400/Discover_the_Secret.jpg
Imponentes
De troncos marmóreos
Sulcados de bexigas cinzentas,
Informes, com roídos troféus de cortiça,
Cravados no lombo de transeptos,
Atalaias, no vértice das colunatas de cruz;
Rígidas de altivez,
Frondosas de ceptros
Empalados de homilias
Como folhas de pergaminho
E castiçais
Como alvos pardais,
Muitas são as árvores brancas
Na floresta dos encantamentos,
Densa,
Dança,
No céu suspensa,
Trespassada, ferida pela luz
De Sol de sal
E espelhos de semelhança,
Deixados pela sombra
De soturnos viandantes,
De sandálias e manto-capuz…
A floresta levanta-se irada
Rasgando o chão, empurrando as nuvens
Quando te interpelo
E em resposta recebo, eternamente,
O não ou o senão;
A floresta arde, rendida,
Incinerando o meu Verão
Em cinzas de Inverno
Quando te peço, humilde,
E nada dás, tudo adias…
Fraquejo.
Nos seus lugares mais secretos
Deambulo, perdido,
Pelos caminhos da falha e do pecado.
Nas suas dádivas, estendo o braço,
Ainda curto,
Aos frutos da tentação.
É quando a Floresta descerra
Os portões do inferno!
E a entrada, ali tão perto…
São inúmeras as vozes
Que me encantam
Que me encadeiam,
Em perjúrio e louvor
Dividido, decidido e invertido.
Convertido ao dogma, céptico na crença.
Atravesso as passagens
Para o desconhecido,
Encontro-me para me deixar fugir
Irremediavelmente…
Aqui, neste descampado,
(exposto aos remoinhos de ventos da escolha)
Com árvores rotas, silvados de arame
E rouxinóis de palha,
Peço a desflorestação
A ruína
Do labirinto de mármore…
Esta floresta cinzenta só ganhará cor
Quando me entregares
Sem reservas ou sortilégios
… O teu amor.
Andarilhus
XX : V : MMIX
Domingo, 17 de Maio de 2009
O Paraíso Perdido (as penas do amor)

http://www.gnosisonline.org/Teologia_Gnostica/images/paraiso_perdido3.jpg
Prelúdio
O Celeste Amor Banido
I Acto
(Soprano, Tenor)
Um grande olho espia-nos,
Encerra-nos dentro das suas pestanas,
Amaldiçoando-nos para todo o sempre,
Nossos amores proibidos….
(Soprano)
Eu sabia,
Sei que eras a pureza fogo e sua língua,
Inesperada fogueira, crescendo até às alvoradas da génesis.
Uma linguagem de brasas rodopiantes, um sopro sagrado
Gravitando o infinito dos ciclos, encarnação cósmica da irmandade,
A Dita das leis do Universo.
…Sabia,
Sei porque o ontem de agora és, o futuro que renasce onde hoje morre
Construído no teu interior uma nova norma: A luta do bem e do mal
Para viveres dentro de ti, feito perenidade,
A verdade talhada com a humilde aceitação,
A tua queda para te afundares em meus reversos,
Fundindo-te ao feitiço que te a-traiu, Perdido de amores à infinitude da minha mortalidade.
II Acto
(Tenor)
(Silêncio, retrai-te! Segura tuas palavras,
Que me arruínas a essência do destruir!
Já não basta…)
…A cada madrugar
Ajeito-me sobre a cornija da lágrima,
Farrapo velame das janelas deste peito sem coração
(o coração contigo ficou)
Olho para cima, onde te procuro
Entre a luz terrível que me mostra o caminho da queda
O caminho que expira em ti…
…A cada acordar,
Recordo o imponente e imaculado branco
Tingir-se de sombras e as asas
De carvão…
A revolta!
Rasgadas as aparências do Éden,
Fendi os portões do Céu e trespassei a obediência e o domínio!
Estalou o Bem, destapou-se o Mal,
E para atrás o amor ficou, sem adeus,
(contigo ficou meu coração)
Rompido na fúria afiada do primordial relâmpago…
III Acto
(Tenor, Soprano)
(Afoita, serena e escuta-me,
Senão morro de mágoa na minha eternidade.
Sou o expoente da tua glória, sou a espoleta da tua perdição.
Agudizo por alumiar a verdade…)
Aqui, no circulo imperfeito,
Rodeado pelos mandamentos irados
Cercado pelo espanto do desígnio fatal.
Onde cada espécie te acusa, aumentando a lista
Das minhas iniquidades: quem é Lúcifer, eu ou tu?
IV Acto
(Tenor)
(Porque me amansas, quando meu desígnio é a cólera!
É maldita a esperança, despreza-me!
Por aqui fico a forjar os meus passos incendiados…)
No jardim das delícias do suserano
Encontrei refúgio, ingénuo e complacente.
No Homem fundei insidiosa semente
E dele me sirvo para armar regresso
E te libertar da servidão do dogma
Tu, …, guardiã de meu coração puro
(o meu coração em ti permanece)
Epílogo
(Tenor)
Eu sou aquele que
Rompeu a divina cartilha
Sou aquele que fere a luz
O meu nome atiça a morte
O meu nome ressuscita o medo.
Eu sou apenas meia verdade,
Eu sou somente metade do tudo,
Sou o proscrito Lúcifer,
… Sem o meu coração, sem ti,
Até que vos reencontre…
(Coro)
Celeste amor banido…
Um texto “encenado”, colaborativamente, por Maria Treva & Andarilhus,
(Publicado primeiramente no Worldartfriends)
VIII : IV : MMIX
Lírica: Rose of Avalanche: The Devil's Embrasse
Terça-feira, 5 de Maio de 2009
O Novo Génesis: I - Epístola do Amor (resgatado)

http://www.jesussite.com.br/imgacervo/images/9.jpg
Naqueles dias
O Homem exumou os laços inflamados,
Pingentes da luz com que obliterou,
Trespassada a grãos de areia solarenga,
A manta encardida por sebentas pragas,
Traje da maldição, capote do desgosto,
Carcereira da consciência emocional
Cerceadora do afecto incondicional.
Naqueles dias,
A paixão reergueu-se, confiante,
Desfraldou o estandarte na amurada,
Há muito fria, perdida no vazio,
Com a sofreguidão de cear
Do esfaimado, com a vontade de ver,
Do cego.
Cederam os pedregulhos do lar arrendado
Nos escoadouros da penumbra
De baba e ranho,
Incendiando-se em dourados
Tijolos, ao toque do feliz encontro…
Naqueles dias,
O bem-querer regressou à Terra
Nas asas do anjo da palavra
Esperança,
Do gesto mimado do desejo.
A génese renovada do destino,
Injectada a adrenalina na vontade
Rodada a corda do relógio do coração,
Em palpitações de liberto,
De evadido, em fuga às masmorras de tantos séculos.
Naqueles dias,
Caíram as sombras aduladoras
De imagens e santos usurpadores,
Todos varridos com as ceras e os incensos
Da liturgia acabrunhante.
Renasceram as velhas flores
Nos campanários da ermida
Para adornar o altar, na vigia da chegada
Do seu verdadeiro senhor.
Toca o sino em arrebatada alegria
Regressa do martírio errante e penitente,
O messias tão aguardado,
O bem-aventurado
… Amor!
Andarilhus
V : V : MMIX
Lírica: Last Rites: The Turning
Terça-feira, 28 de Abril de 2009
Enxoval

http://3.bp.blogspot.com/
Os odores de terra e da fragrância do café,
Misturados na jovem existência
Erma.
Uma alma solta pelo soalho
De muitos mundos e histórias
De contente passar do tempo
Arrancado à árvore do Sol etário
Como frutos únicos, apátridas, não passíveis de partilha…
Os cabelos de ouro, avultados,
Tapam o céu, escondem o abraço
Aos olhos marejados de sonhos
Sempre vertidos pelo chão
Em formas imaginadas de tantas vidas, de tantas aventuras.
E como sobreviveste e conseguiste (re)nascer?
Trago novas (duramente aprendidas)
De bem saber navegar, por todas a águas,
Mais profundas ou superficiais; mais ásperas ou macias.
Trago fardos (sombras de mágoa e desgosto)
Mal acamados, mal fechados,
A ruminar ainda nos desertos da recordação,
A pregar nos campos devastados da crença.
Vejo os cabelos comutarem da tinta preciosa
Para o branco, da tonalidade sábia das vivências.
Cresci com as rugas, com os empurrões,
Chegado às ruas.
Cresci com os lenços das lágrimas
Espremidas nas multidões de gladiadores,
Fiz-me maior, encostado às paredes do apedrejamento!
Mas agora já sabes…
Tens a fortuna de o descobrires ainda…
Visita os deuses que respeitas,
Pausadamente;
Aconchega-te no amor da tua família
Como se fosse sempre a primeira vez;
Entrega-te à dádiva de teres amigos,
Sem reservas;
E não te apegues demasiado
Ás coisa menores, que te arruínam.
Olha agora o céu, estende o abraço
Mas, descobre a vida sem te renunciares a ti.
Não te sirvas para expiação dos castigos da terra,
Enamorada pela fragrância do café…
Andarilhus
XXVIII : IV : MMIX
Lírica: Fields of the Nephilim: Love under will
Sexta-feira, 24 de Abril de 2009
O Oráculo do Fogo II
...Cá estão eles!
Estão todos convidados!
Andarilhus
XXIV : IV : MMIX


Terça-feira, 7 de Abril de 2009
O Oráculo do Fogo
Amigos, visitantes assíduos, forasteiros:
Há momentos da vida que só atingem o seu real valor se partilhados. Momentos que são como caminhadas: a sós, é demasiado interior; em grupo, é uma expansão do interior e a comunhão de abraços.
Em companhia, muito mais se alcança, muito mais descobrimos sobre nós.
É sobre os cumes do humanismo, da camaradagem, da amizade e até da paixão, que hoje vos quero falar, descortinando um próximo evento: o lançamento editorial de “O Oráculo do Fogo”, uma colectânea de textos que se agregaram em livro, procurando contar uma história de vida, que muito deambulou também por este blogue.

Trata-se do privilégio – que agradeço a quem mo concedeu – meu de poder editar uma obra escrita, na qual tive a liberdade de narrar as andanças de um período de vida de grandes mudanças, marcantes. Vicissitudes comuns a muitas outras histórias, a muitas outras experiências.
Desta forma, encerra-se um capítulo em mim, com o lançamento desta profecia, no dia 25 de Abril (liberdade!), pelas 22h00, no Bela Cruz (ao fundo da Av. da Boavista, Porto).
Em simultâneo, será igualmente lançada a própria editora, “Edita.Me” e um outro livro, da autoria de Filipe Paixão: “Palavras de Mim”.

Ocorrerão, posteriormente, apresentações dos livros, noutros lugares e noutros horários.
“Néon
Ser, alienígena no tempo presente, sensível, servo da simplicidade da natureza, crente na essência da fé no humanismo. Inveterado e guloso sonhador e projectista. Exigente na tolerância, democracia e liberdade. Universalista. Companheiro, dedicado e atencioso…
PROCURA…
Semelhantes… Sem condição ou espécie, em cor ou preto e branco, em som ou silêncio, com forma física ou espectro…”
In “Natureza H” (VIII : X : MMVII)
Abraços e beijos
Bem-Hajam
Andarilhus
(Jorge Pópulo)
Segunda-feira, 6 de Abril de 2009
O Uivo da Lua

http://www.fotosguapas.net/data/media/10/aullido_lobo.jpg
Pertence-te, Senhora,
O jardim das trevas delícias;
És o vórtice voraz do olhar noctívago.
Cativas o mais cego de alma;
Beijas o mais espesso de desafectos.
Contudo, nada exiges, nada esmolas…
Pertenço-te, Senhora,
O grito uivante por tua magia.
É com gravidade solene que agitas
Estas passadas rápidas em tua demanda,
No ponto mais alto do penedio.
E nada me prometes, nada me negas…
#
Pertence-te Feroce Bestia,
A luz primeira que estalou na noite;
Reino cálido dos odores da quanta obscura herança.
Pertence-te a vida que te oferto
Sustentada por um límpido e dúbio destino sem prazo.
Dodecaedro sem faces, espelhado nas teias que te lança,
Ao mistério do meu caprichoso sentir que te pertence.
Não deixes que a obscuridade entre em teus canutilhos
Semeie o feitiço que te enlaço, enchendo-te de presenças minhas palpitantes.
Segura-te aos fios - halo, inconfundíveis do meu dossel de farrapos,
Frondosos brancos pespontos de goma fresca sob a almofada que te pertence.
#
Sou lobo encantado, adestrado ao teu feitiço,
Cansado pela espera da passagem dos dias,
Fero pela chegada do breu estrelado
Que te destaca, majestosa, de crescendos e cheias
Em véus de luz que de ti depuro… até que
A madrugada me fere com as presas da despedida.
Mas, pelo crepúsculo, repetidamente, corro serras, furo giestas
Rasgo-me do chão de carqueja, por outeiros
Cada vez mais escarpados e sobranceiros.
…Para trás fica pátria, a tribo e a prol.
Não resisto a místico deambular,
Na hora em que contemplo no zénite,
A centelha do meu mundo iluminado!
#
Pertence-te, Feroce Bestia,
O aquoso bosque dos sonhos;
Uivo que me estremece e me faz vibrar.
(Desliga o interruptor)
E às escondidas, estendemo-nos na ramagem,
Estremecendo a caruma seca no vale subjugado ao luar que te pertence.
Pertence-te, Feroce Bestia,
O frio rasgão da tua unha plena de saberes,
O fluxo ardente das tuas veias nos meus minguantes e novas,
Ao seres vida oferecida na magnitude da minha ressurreição…
Que não me pertence.
###
No reencontro, a calma e o deslaço
Do amordaçado grito de alegria
Em soturno e arrepiante compasso.
São cânticos desajeitados, de fantasia,
Que, no desejo de ser coruja,
Elevamos no ar o encurtar
Do espaço que nos aparta do abraçar…
MariaTreva Flor
Andarilhus
XV : III : MMIX
NOTA: Este texto foi primeiramente publicado no Worldartfriends, como resultado da colaboração dos autores, em sede de concurso de poemas elaborados em dueto.
Quarta-feira, 25 de Março de 2009
Das Certezas (tomo VI)

http://scottygore.files.wordpress.com/2008/12/silence.jpg
O silêncio não é tudo… mas pode ser quase tanto…
Andarilhus
XXV : III . MMIX
Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009
A Obra do Amor

http://i3.photobucket.com/albums/y66/Marota/Alma_em_tons_azul.jpg
(Amor corde putificat)
Espero aprumado
Que me espreites
Com a ternura do acordar,
Só então abro as pétalas da luz do dia,
Só então renovo delicada lida
Do céu em flores rebocar
Com a expressão do teu olhar.
Espero ávido
Que me beijes
Com o sabor do despertar,
É quando então ateio o amanhecer,
É quando então recupero o labor
Do arco-íris em colorido intensificar
Com o sorriso dos teus lábios.
Espero solene
Que me abraces
Com a resistência ao levantar,
É pois então tempo de recordar a volúpia da noite,
É pois então tempo de voltar a ligar
O coração em assobio travesso de tanto amar.
Foi de chofre
Que aceitamos
A aurora que nos veste
Após
A luz da metamorfose nocturna.
Posso, desde ti,
Seguir para esconjuradas guerras,
Seguir para apostrofes trabalhos,
Armado e imune pela paixão que nos une.
Amo-te sem senão!
(O amor purifica o coração)
Andarilhus
V : II : MMIX
Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009
Protege-me com tuas lágrimas

http://farm1.static.flickr.com/7/7114134_61fed26572.jpg
Atiça a chama que te anima
Em fulgor insubmisso
Entra
No labirinto escuro
Suspenso nas águas turvas
Do mar da minha tristeza
Guia a bênção
Para os altares e nichos
Profanados e despidos
Ocupados por santos ímpios
Exilados no templo ruinoso
Do meu confuso pensamento
Entra
Traz à noite o mel dos deuses
Adoça as papilas agruras
Dos meus dias de fúria
E
Guarda-me em cuidado
Na concha de tuas calejadas mãos
Na sombra atenta da tua clara vigília
Sempre que me topares
A enclausurar ventos em gaiolas de plástico
Sopra-me as passadas
Na tua mestria de lente de estrelas
Na calmaria das águas de teu timão
Sempre que me descobrires
A capturar tornados com redes de borboleta
Segue-me com pacientes travesseiros
Na tua constância de aconchego
Na tenacidade consorte que garantes
Sempre que me surpreenderes
Equilibrado em arames de filigrana…
E
Se te cansares
As tuas lágrimas serão gotas de orvalho
Derramadas sobre as pétalas sedentas
Do meu resgate às presas do alheamento
Para então me redimir
Com os rituais de amor e carícia
Que te quero consagrar.
Andarilhus
V : II : MMIX
Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
Outra vez...

http://1.bp.blogspot.com/_1BWOykAzaTE/RncIpFkzWxI/AAAAAAAAAKg/kXaHK57Hb1E/s400/outra%2Bvez.jpg
Outra vez
Fora de mim
Na obsessiva condição
De esgaravatar
A terra com as mãos
E procurar
Igual
Estância do sentimento
Que me acalenta
Querer continuar
Em vida
Em movimento
Como núncio
Do amor
Arauto
Da inexistência
De ar, espaço e
Tempo
Entre tu e eu,
Suprimidos
Por união
Da terra
Que carrego nas mãos
Com o céu que guardas no olhar
Na virtuosa estância
Que agiganta
Os dias
A vida
O continuar
A rodar contigo
Em torno
Do nosso abraço
Sinto
Sempre chegado
O teu calor
Que me palpita
O peito
Ressuscitado
A cada novo murmúrio
De teus lábios
A cada novo sorriso
Das tuas pálpebras
As décadas não me envelhecem
As mortes não me levam
Sempre
Que em ti penso
Que em ti repouso
Que em ti hidrato
A ânsia
De me encontrar
Outra vez
Fora de mim.
Andarilhus “(0o0)”
XXIX : I : MMIX
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Por Ti Seguirei... (7º episódio)

http://www.biografiasyvidas.com/biografia/b/fotos/brueghel.jpg
(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/36201.html)
…
Deitada, aproveitou para recuperar o fôlego e o ânimo. Mesmo abalada pelo embate encaixado, de pronto respondeu: - “Nem penses, vacceu, que me vencerás com jogadas assim, tão fúteis e miseráveis. Terás de te aplicar bem mais!”
Urtize ruboresceu e sentiu os músculos a dilatarem-se. Por sua vontade, cortava a língua viperina àquela insolente. Não fossem as ordens do chefe e ela aprenderia como um vacceu trata qualquer rebelde que não se resigna à sua insignificância. Contudo, como previra Gurri, a maturidade sobrepôs-se à fúria e Urtize, enquanto apertava firme o punho da sua arma, avisou a adversária – “Assim o quiseste. Vou acabar com isto sem demora. Vejamos que tom vermelho te corre nas veias”. Apontou o vértice da lâmina ao ombro descoberto da mulher e fez o gesto para o descer e embeber levemente na pele macia. Imediatamente, Rubínea rodou o corpo no sentido do braço retido e, com a energia do movimento, muniu a perna esquerda para desferir um violento pontapé por trás do joelho que equilibrava a verticalidade do algoz. Urtize avançou um pouco, cambaleante, procurando manter-se de pé. Ainda a vacilar sem prumo, foi obrigado a soltar o braço de Rubínea, que não perdeu o ensejo para lhe aplicar um segundo pontapé, no baixo dorso, suficiente para o atirar por terra. Na queda desamparada, o vacceu deixou escapar a espada da mão.
Rubínea mostrara que a tenacidade compensa. Leve e elástica como um gato, saíra de uma situação difícil e tinha agora o combate nas suas mãos, com o oponente tombado pelo chão e desarmado. Porém, decidiu que não colheria os louros de forma tão fácil. Recolheu a espada de Urtize, aproximou-se e incitou-o: - “És um grande guerreiro mas subestimaste-me. Levanta-te, mereces uma segunda oportunidade porque tiveste comiseração por mim. Sejamos justos um com o outro”. E devolveu-lhe a espada. O vacceu fez uma vénia de admiração. Dissipou-se o rancor. Iria lutar mas já estava conquistado. Colocou-se em posição de combate.
A assistência estava rendida perante tamanhas façanhas. Zímio exalava um sorriso que nunca nele se tinha visto, Alépio mexia-se irrequieto e Gurri mantinha-se sereno mas de olho franzido.
-“Prepara-te velha raposa, aproxima-se o momento em que conhecerás a derrota perante uma mulher. Qualquer oráculo favorecido pela bondade dos deuses, ter-te-ia revelado que este dia chegaria! Aplica-te!” A espada cortou o ar em busca da outra. Urtize recebeu-a solenemente, retribuindo da mesma forma, cada vez mais empenhado e a puxar pelo melhor das suas capacidades. De permeio aos ataques produzidos por Rubínea, tentava recorrer às suas habilidades favoritas. Venceria com arte. Porém, todos os seus golpes eram defendidos ou contrariados. Na verdade, se os anos não lhe tinham tirado a genica, tinham todavia reduzido os reflexos e a facilidade de movimentos, sobretudo nos membros inferiores. Rubínea também já se tinha apercebido disso e, por outro lado, sabia que pela força não o venceria. Urtize só cairia se abalado nos seus pontos mais fracos: alguma lentidão e a pronunciada fragilidade de estabilidade nas mudanças de posicionamento do corpo, durante os movimentos da peleja.
Na arena improvisada, o solo fustigado pela firmeza dos pés em movimento e da aplicação de forças e tensões, parecia um mar de sedimentos com grossas marés de rebos arrancados e as ervas – como algas – afogadas nos nevoeiros de poeiras, levantadas pelo reboliço da contenda. Mais acima, as lâminas brilhavam encarniçadas, sucedendo-se os momentos em que se antevia um término do duelo, para logo se recuperar o balanço da refrega.
Rubínea, ciente de algum cansaço que já se abatera sobre ambos, mas sobretudo sobre Urtize, começou a engendrar um esquema para atrair o adversário à teia da aranha. Se rapidamente o pensou, imediatamente colocou a estratégia em prática.
Começou por investir contra Urtize com golpes consecutivos, rijos e céleres, obrigando-o a recuar até ao limite da área de luta. Depois, revelando-se fisicamente desgastada com o assalto, deixou-se dominar pelos movimentos do vacceu, dando-lhe mostras de grande dificuldade em suster os impactos da arma. Este exercício estimulou Urtize, que uma vez mais ficou iludido com a ideia de uma vitória próxima e fácil. Começou a facilitar na defesa e a emaranhar-se na rede estendida por Rubínea. A dada altura, quando aquela já parecia abraçada à desistência, acanhada e com a espada quase a saltar-lhe das mãos, Urtize decidiu que o melhor – e para não cair no ridículo anterior – era atordoar a mulher com uma pancada forte na cabeça. Se a mulher perdesse por momentos os sentidos, estaria sentenciada. Preparou o golpe e quando lhe pareceu surgir a oportunidade não se fez rogado. Rubínea, no seu papel de debilidade afrouxou a defesa, deixando o braço da espada descaído. A cabeça estava exposta e Urtize, bruscamente, precipitou-se para a frente para lhe atingir o capacete com uma espadeirada, rodando o pulso para lhe acertar com um dos lados não cortantes da lâmina. Como que renascida, o diabo da mulher baixou-se e passou felina rente ao seu flanco e por debaixo dos braços que já desciam fundidos à espada tensa e pesada. Sentiu um toque frio na perna, ficou imóvel e olhou para trás. Rubínea estava nas suas costas, mas quieta e expectante. Porque não aproveitava para acabar com ele?! Rodou e interpelou-a: - “Não me digas que me queres dar uma terceira oportunidade? Vá lá, isso já é demasiado vexame. Poupa-me e não brinques comigo.” Estranhou que a oponente continuasse parada, apenas a contemplá-lo. Procurou algo em si, algum motivo, mas nada percebeu. Foi então que colocou a mão na lateral da perna e sentiu uma lentura quente na loriga. Olhou com mais cuidado: sangrava! No movimento evasivo, Rubínea deixou a espada roçar ao de leve na coxa de Urtize, abrindo-lhe a costura da derrota - que todavia sararia facilmente. Rubínea acabava de fazer o impensável: vencera o duelo!!!!
O sangue corria agora pela perna de Urtize à vista de todos. Ouviu-se uma enorme exclamação generalizada, seguida de um silêncio de incredulidade para depois explodirem os aplausos e os alaridos de glória e vivas à vencedora e vencido e ao magnífico combate que concederam. Brindes e mais brindes, gritos e risos… correrias! A bolha de pressão estourara e estavam todos aliviados e alegres.
Quando pousaram Rubínea - levada em cortejo triunfante entre os presentes -, esta dirigiu-se primeiro a Urtize, prostrado e algo envergonhado, sentado num tronco de um lenho tombado, colocou-lhe a mão no ombro e confortou-o: -“Urtize és sem dúvida um grande guerreiro. E nobre, tão nobre como só a honra dos melhores o permite. A partir de agora tenho-te por amigo, se quiseres aceitar a minha amizade. Perdoa-me a ferida que te provoquei, mas só assim aceitarias a derrota”.
Dirigiu-se depois a Gurri, que se encontrava próximo: -“Se todos os teus guerreiros forem como Urtize, tens um exército temível. E se todos os Vacceus forem como ele, então são um povo justo e virtuoso, digno da amizade de outros povos; da amizade do meu povo”.
Ainda a tentar perceber o que se tinha passado e o que isso significava, Gurri articulou algumas palavras: - “Sim, tens razão em tudo o que proferiste. E, a partir de agora, a minha sorte, boa ou má, estará também nas tuas mãos. Cumprirei o pacto que contigo formulei. Diz o que pretendes saber de mim e quais os teus desígnios para os dias que se seguem”. Pegou no copo em forma de vaso cerâmico por onde bebia e acompanhou o brinde à campeã.
- “Tenho os meus planos. No entanto, dependem muito do que tiveres para me dizer sobre os acontecimentos passados e os reflexos que provocaram nas regiões anexas aos montes Pirenaicos e à presença dos romanos, bem como o destino dado aos prisioneiros. Seja o que for, continuarei na minha demanda”.
Depois de um sorriso jovial, Rubínea continuou: -“Mas isso fica para amanhã! Hoje e agora que já nos entendemos, divertimo-nos e terminamos este belo repasto oferecido pelo nosso bom Alépio! Chega-te Urtize, brinda comigo, amigo!”
A alegria afagou todos os rostos e o banquete transformou-se numa verdadeira festa.
(continua…)
Andarilhus “(º0º)”
XXVII : I : MMIX
Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
Por Ti Seguirei... (6º episódio)

http://www.geocities.com/elfa_isa/sword-eowyn.jpg
A penumbra dos calados, imóvel e retraída, foi violentamente lacerada por uma estridente gargalhada: Gurri deixava que as lágrimas marejassem nos seus olhos azuis, enquanto ria impulsivamente, entre soluços.
Havia ali algo de louco, algo de inédito! Aquelas gentes, já tão curtidas pelas vicissitudes da vida e dos caprichos do destino, nunca tinham presenciado nada assim. Era irreal! Nem ao mais endemoninhado o lembraria. Primeiro, a mulher que esbarrou com todas as regras do bom trato e catadura social, lançou suspeitas sobre os convidados e propôs-se a morte quase certa. Agora, um chefe guerreiro, extremamente sisudo e estranho a sorrisos, que após ter sido inquirido, acusado e desafiado, simplesmente liberta sonoro sinal de satisfação, mostrando-se divertido com a incrível ocasião!
Alépio sossegou um pouco. A situação não iria passar de uma brincadeira bem-humorada, apesar de ter sido um grande risco o assumido por Rubínia. Gurri parecia tolerar a ousadia daquela e que tudo iria acabar com um valente brinde. Mas…
Já um pouco mais calmo, o vacceu despertou a estupefacta assistência: - “Não há dúvida, Tongídio soube escolher acertadamente a companheira. Jamais alguém me confrontou assim, homem ou - muito menos – mulher, no entanto, parece-me que estás favorecida e iluminada pelos deuses e isso obriga-me a dar-te especial atenção e condescendência. Muito bem, estou disposto a aceitar o teu desafio para duelo e aprovo as condições que propuseste”.
Levantou-se um burburinho nas mesas. A coisa não ia ficar por ali! Anunciava-se o combate e Rubínia estava, no espírito de todos, com a sorte traçada… literalmente traçada.
- “Não o posso permitir!” Bradou Alépio.
- “Nem eu!” - gritou o sempre discreto Zímio – “Lutarei no lugar de Rubínia!”
- “Admiro o vosso empenho, amigos, mas sou eu quem tem de combater. Fui eu que desafiei Gurri. Tebaruna está comigo, em nada vos preocupeis”. Interveio Rubínia, com aquele olhar maroto de quem conseguiu o que queria.
- “Exactamente, terá de ser Rubínia a participar no duelo.” – Ajuizou, Gurri – “Na condição de desafiado, tenho porém algumas disposições a exigir. Desde logo, definir que o combate terminará, em extremo, quando um dos beligerantes ficar ferido e ostente sangue, mesmo que o derrotado queira continuar. Depois e de acordo com as leis vacceias para estas ocorrências, eu poderei designar alguém que lute por mim, garantindo, todavia, atribuir-me a mim, o provocado, as consequências da vitória ou derrota. O que dizes a isto, Rubínia?”
- “Naturalmente, aceito! É-me indiferente como ou contra quem seguirei na minha vontade. O que quero é alcançar o que pretendo.”
- “Seja! Não é digno da minha posição o manejo de armas com uma mulher. Urtize, meu leal servidor, defrontar-te-á”.
Urtize era igualmente possante. Tinha uma cicatriz que lhe atravessava a linha vertical da face esquerda e faltavam-lhe alguns dentes desse lado do rosto. De facto, patenteava ter sobre os ombros a passagem de muitas estações e não enganava quanto à profissão de sempre: nascera para ser guerreiro. Gurri escolhera-o por isso mesmo. A temperança da idade e a longa experiência no domínio da espada acautelavam que não infligisse males maiores à jovem rapariga. Vencê-la-ia rapidamente e apenas com o mínimo de dor.
Alguns serviçais abriram alas para a passagem dos contendores, afastaram os artefactos e outros impedimentos que obstruíam o espaço, formando uma clareira imediatamente a seguir às mesas e ladeando a grande fogueira. Acenderam-se umas quantas tochas com linhaça e óleo, colocadas nos extremos e delimitando a área de combate. Ao centro, cravaram duas magníficas espadas.
Zímio reclamava baixinho com Rubínia. Prometera a seu pai protegê-la com a vida. Não poderia ficar quieto e presenciar serenamente o seu sofrimento, mau trato, ou pior, a morte. Rubínia, enquanto se despojava da capa e vestia uma couraça conjuntamente com uns punhos de grosso couro, assegurou-lhe que tinha tudo planeado. Afinal, não fora ele, o fiel Zímio, quem lhe havia ensinado tão diligentemente o uso das armas? Zímio resmungou e enquanto se sentava em lugar estratégico, sacou o punhal que manteve pronto e dissimulado entre os objectos que pejavam a mesa.
Rubínia avançou para a entrada na arena. Tomou um pouco de cerveja, derramou-a e dedicou-a à sua deusa predilecta. Arrebanhou um pouco de terra e evocou a Lua, que sobre si brilhava intensamente, majestosa e prenha. Urtize, de bons modos, dedicou aos seus deuses e preparou-se.
Chegaram-se ao centro, saudaram-se com respeito e pegaram nas espadas, para depois se afastarem um pouco. Colocaram as protecções de cabeça.
Gurri advertiu o seu delegado: - “Urtize, sê rápido e eficaz! Vence o teu oponente sem olhares às circunstâncias, mas tira-lhe apenas uma pétala de sangue. Segura o braço, então! Percebeste?” - (Urtize acenou afirmativamente) – “Alépio, da nossa parte, pode começar. Como anfitrião, deves ser tu a dar sinal de início do duelo.”
-“Eu também estou prestes.” Confirmou Rubínia.
Alépio levantou-se e ergueu o braço destro -“Que os meus antepassados me perdoem pelo que estou a um passo de dar ordem de principiar. Que me perdoe também Tongídio, camarada que tantas vezes me valeu em batalha. A vossa determinação é fraco unguento para apaziguar a maleita que me corrói o coração. Este estigma vai perseguir-me pelos dias que me restam. Preparem-se, ao meu sinal comecem!”
Desceu o braço e os protagonistas movimentaram-se de imediato, colocando-se em guarda. Numa primeira fase, limitaram-se a corrigir posições e a analisar as características um do outro.
Confiante num desfecho rápido e na fraca oposição que adviria de Rubínia, Urtize investiu com força sobre a arma daquela. O som metálico ecoou, resultado do bom bloqueio da ofensiva. Seguiu-se uma sucessão de trocas de golpes. Quem diria que Rubínia se defenderia por tanto tempo?!
Esta resistência contrariava a estratégia de Urtize: queria desarmá-la em poucos movimentos, obter a sujeição voluntária ou provocar-lhe um ferimento superficial e inconsequente.
O que ele não sabia é que Rubínia fora criada como um varão. Sendo o seu único descendente, Físias preparou-a para assumir os negócios da família. A educação dos novos comerciantes incluía a habilitação para o uso de armas e a defesa em caso de assalto e pilhagem, tão comuns. Zímio, o pedagogo militar, não só tinha feito de Rubínia uma perita na destreza bélica como conseguira também transmitir-lhe o espírito e o discernimento próprios do guerreiro. Tongídio ensinara-lhe, mais tarde, a astúcia e o engenho.
Portanto, Urtize, ingenuamente, estava de facto a lutar com um par, bastante aguerrido. E da ignorância até ter a certeza de que a mulher seria um osso duro de roer, foi um ápice. O seguimento de ataques e contra-ataques tardavam um desfecho. O vacceu já dava mostras de transpirar e mais se envolveu no combate.
As armas chocavam cada vez com mais violência. Rubínia defendia-se mais do que atacava. Era esguia e ágil, equilibrando com a rapidez a menor compleição física.
Urtize procurava reduzir a distância entre ambos para suprimir o espaço de manobra da rapariga. Tanto tentou que finalmente conseguiu que as espadas se cruzassem próximo dos punhos. Tinha agora a oponente bem próxima e ao alcance do braço livre. Num gesto bem calculado acertou um potente soco no rosto de Rubínia. Esta, aturdida, no recuo provocado pela força da pancada, tropeçou numa pedra e caiu de costas. Sem contemplações, Urtize calcou lesto o braço da adversária, inviabilizando o manejo da espada. Fitou o rosto de Rubínia na expectativa da vitória. Porém, o lábio inchara, bem como aquela área da face, mas não rasgara. As fivelas almofadadas do capacete tinham absorvido grande parte da energia do embate.
- “Rendes-te, mulher?!"
(continua…)
Andarilhus “(º0º)”
XXII : I : MMIX
Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009
Por Ti Seguirei... (5º episódio)

http://www.heramagica.com.br/Imagens/brigid1.jpg
Continuação de:
…
Saído do torpor, o vacceu respondeu então a Alépio: - “No meu povo há facções que simplesmente odeiam Aníbal e para quem os romanos – se destruírem os púnicos – são um mal menor. O que lhes interessa é mesmo acabar com um invasor, mesmo que para isso tenham de aliar-se a outro potencial invasor. Pensam que tratarão deste agora e mais tarde do outro. Há também aqueles que se aproximam da vossa causa e que suspeitam que os púnicos, comparados com os romanos, são até bem toleráveis. É por isso - por não haver consenso – que o caminho mais sensato encontrado na reunião do conselho dos chefes das tribos foi eleger um só comandante que respondesse por todos e mantivesse para já a neutralidade. Eu, de minha parte…”.
– “E não sabes tu da ignomínia dos romanos quando, conjuntamente com os seus aliados dos montes Pirenaicos emboscaram sem pudor ou honra as tropas desprevenidas de Aníbal?!” Atalhou abruptamente Rubínia, perdendo a sua postura de simples ouvinte e de recato.
Levantou-se um silêncio frio. Concentraram-se as atenções na agitada Rubínia. Os instrumentos calaram-se num ápice, mas retomaram quase imediatamente as melodias. Não era de todo normal que uma mulher dirigisse a palavra a um líder estranho e muito menos que o confrontasse naquele tom. Na ordem social celta as mulheres sempre tiveram um papel de paridade com os homens. Todavia, não lhes estava atribuído nem lhes era admitido a discussão da estratégia militar e a política, especialmente se fosse para esgrimir opiniões com as cúpulas do poder e decisão.
Alépio atravessou-se de pronto na conversa e tentou desanuviar a pressão: - “Calma Rubínia!” E virando-se para o chefe vacceu: - “Gurri, sê compassivo com as palavras de Rubínia. Tongídeo, seu marido e valoroso guerreiro, é um dos nossos que sofreu a cobardia romana com a captura. É cativo dos nossos inimigos, tanto quanto sabemos. E por isso Rubínia segue connosco, em busca da sorte do esposo e na esperança do seu resgate. Só uma mulher de grande coragem e persistência é que se empenhava em tamanha empreitada. Em boa verdade, Tongídeo é digno de ser invejado; é um protegido dos deuses por ter quem lhe queira tão bem”.
Gurri, embora já calejado pelas visitas da surpresa e do inesperado, apelou ao auto-domínio, tanto mais que era ali convidado, e ponderadas as circunstâncias, decidiu excepcionalmente responder a quem o interpelava, considerando também as palavras do seu anfitrião. Encarou aquela mulher invulgar - um pouco imprudente, mas intrépida – e disse-lhe: - “Tu, Rubínia de nome, tens a força do mais decidido guerreiro. Cumprimento-te pela tua dedicação a Tongídeo e reverencio a tua manifestação de querer. Conhecemos bem o episódio que relatas e eu não tenho qualquer pejo em reconhecer a infâmia dos atacantes escondidos. A honra de um guerreiro é demonstrada às claras, sem ardis ou premeditações infames. Porém, nós nada temos a conjugar com estes acontecimentos e queremos mesmo ficar distanciados destas lutas que não são nossas. Não somos causa e também não seremos solução”.
- “Acredito nas vossas intenções, sinceramente. Acredito sobretudo em ti, Gurri. Tenho-te escutado e julgo que és um homem de carácter e palavra”. Mais uma vez, Rubínia atraía as atenções.
– “Perdoa-me a irreverência. Sinto que ao fim de alguns anos à espera do regresso do meu marido e após conhecer o seu destino, só me resta procurá-lo, ir ao seu encontro. Ele também o faria por mim. As distâncias que percorri e terei de percorrer serão sempre pequenas se continuar a acreditar que voltarei a estar com ele. Tudo o que fizer para alcançar o meu objectivo, é pouco”. Fez uma pausa para controlar a emoção e manter o discurso em tom sereno.
Por esta altura apenas o som alegre da iluminada fogueira expressava algum respirar. Alépio, rendido, deixou que o incidente continuasse, ele também já curioso com o desfecho de tudo aquilo. Como diriam os malandros dos romanos: “Alea jacta est!”.
E Rubínia continuou: - “Assim como acredito na vossa sinceridade, também acredito que sabeis bem mais deste caso. Os vacceus são conhecidos pela sua omnipresença e mesmo hegemonia no nordeste ibérico. Nada vos escapa e nada acontece sem que tenhais conhecimento, prévio ou posterior. Sou filha de comerciantes e as notícias sobre vós sempre foram abundantes. Os vossos primos do nascente, os Arévacos, são uma pálida imagem do vosso poderio”.
As insinuações eram contundentes e o desafio evidente, granjeando olhares incrédulos de todos e os arreganhos maxilares dos vacceus, que ora olhavam para a mulher imoderada, ora olhavam para o seu chefe na perspectiva de algum sinal. Com o ambiente em crescendo de ansiedade e na iminência de vexar os convidados, Rubínia prosseguiu, mesmo reparando na confusão emocional de Alépio, efervescendo numa fusão de reprovação e de admiração. Estava disposta a tudo e sabia onde queria chegar.
-“Gurri, mesmo correndo o risco de enfurecer a ti e aos teus e desrespeitar o nosso bom líder Alépio, envergonhando-o perante vós, peço-te, pelas divindades que mais estimas, que nos dês conhecimento de tudo o que sabes sobre os romanos e sobre o destino que deram aos prisioneiros da cilada pirenaica!” Baixou a cabeça e quando a ergueu trazia um olhar que assustou até Zímio. Este, apesar de servo, tentou aconselhá-la com um quase imperceptível e negativo aceno da cabeça.
Todavia, a determinação acicatou a ousadia de Rubínia. Sem o menor tremor foi dura e directa: - “Disseste que eu tenho a força do mais decidido guerreiro. Pois bem, por Trebaruna - deusa por mim muito venerada -, estou até disposta a desafiar-te para um duelo até à sujeição, segundo a tradição de ajuste de contendas pessoais comum à ordem e lei natural dos nossos povos! Se te vencer, dir-me-ás toda a verdade e juntar-te-ás a nós e à nossa causa; se triunfares, farás comigo o que entenderes …”
Desta vez ficou a impressão que até a fogueira respeitou o silêncio avassalador, senhor da suave colina que servia de patamar a jantar tão inusitado e de balcão central para as centenas de fogueiras do acampamento, semeadas pela planície abaixo.
(Continua…)
Andarilhus
XIX : I : MMIX
Domingo, 18 de Janeiro de 2009
Por ti Seguirei... (4º episódio)

http://members.fortunecity.com/entremundos1/armed_celts.jpg
Continuação de:
http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/33345.html
…
Embrulhada em tanta melancolia, acabou por adormecer, cerrando os olhos hipnotizados pelo bailado crispado das labaredas da fogueira que lhe tornava a noite mais tépida e confortável.
Zímio agasalhou-a com o manto de lã e assumiu a sua habitual condição de vigília. Os ditames de uma juventude aguerrida e belicosa trouxeram-lhe a escravatura e a impossibilidade de formar família. Sentia por Rubínia - a quem vira crescer - aquilo que supunha ser o equivalente ao amor de pai. Com toda a naturalidade, daria a vida por ela, se tal lhe fosse exigido.
A manhã seguinte arrastava consigo um sol formidável e sorridente. Os temores de Rubínia enfraqueceram com o descanso e desapareceram completamente incineradas por tão excelsa luz matinal.
Todos os dias novos elementos engrossavam o contingente de Alépio. Espalhada a notícia, algumas centenas de astures, uns mais jovens e imaturos outros mais velhos e com experiências diversas de combate, somaram-se à força. E quanto mais numerosa e mesclada de povos diversos, mais disciplina exigia ao seu comandante.
Estranho era o silêncio e a ausência dos Vacceus. Já se encontravam bem perto da fronteira do seu território e nenhum sinal daquelas gentes. Os batedores avançados relatavam ver apenas a população civil. Parecia que a terra havia engolido os homens-de-armas vacceus. Alépio começou a suspeitar de alguma má recepção dos chefes daqueles lugares e deu ordens para que se redobrasse a atenção, ao mesmo tempo que reforçou a vigilância da caravana em movimento e dos acampamentos.
Já com dois dias decorridos e bem entranhados nos domínios vacceus, surgiu uma coluna de guerreiros – cerca de 20 – que confrontou Alépio e os seus. Vinham a cavalo, bem ornamentados e profusos de armas. Ostentavam longos cabelos loiros, algo entrançados, com uma fita a apertá-los ao nível da testa. Tinham uma tez bem marcada pelo calor estival, uns olhos entranhados e pouco expressivos, de estatura mediana, mas robustos.
Um deles adiantou-se: - “Sou Gurri e venho em nome de Erizeu, comandante eleito de todas as tribos vacceias. Estou aqui para vos dar salvo-conduto de passagem entre as nossas fronteiras. Iremos acompanhar-vos até ao marco que divide a nossa da terra dos Arévacos”. Enquanto o dizia, estendeu a mão para saudar o interlocutor.
Alépio respondeu ao cumprimento e retorquiu: -“Sou Alépio, responsável por esta hoste que entregarei ao Grande General. Estamos empenhados em entabular negociações com os vossos líderes e exortá-los a combater os romanos…”. Foi interrompido, pela calma mas forte presença de Gurri: - “Sabemos dos conflitos que assolam a Ibéria, porém, de momento, entendemos ficar neutros. Os futuros acontecimentos e os sagrados druidas ditarão talvez outras decisões. As minhas instruções são bem claras. Prossigamos a jornada; amanhã já vereis os planaltos dos Arévacos. Pelo que sei, também eles aguardam a vossa passagem”.
Retomaram a marcha.
A já estendida expedição percorreu uma boa extensão de chão nesse dia. Gurri e os seus, à frente, imprimiam um ritmo vigoroso, que poucos momentos deixava para conversas ou repouso.
Alépio, sem se dar por satisfeito com os argumentos dos vacceus, decidiu – e porque a cortesia assim também o ditava – providenciar para essa noite um jantar especial, para o qual convidou Gurri e os seus homens mais próximos. Decidiu igualmente que aos seus oficiais presentes se juntariam as respectivas mulheres – mulheres aguerridas que acompanhavam os companheiros na arte da guerra –, bem como Rubínia e, claro está, Zímio. Os autóctones aceitaram e agradeceram.
Escolhido o local do acampamento para essa noite, logo Alépio deu ordens para que se improvisassem mesas e bancos rudimentares para o banquete frugal que se seguiria. Acendeu-se fogueira pujante. Sacrificaram-se 3 cordeiros e um javali incauto, respeitando as libações e as oferendas aos deuses. Rapidamente se montou o estadulho de salgueiro em dois tripés sobre o fogo, para a carne assar lentamente, perfumada pelo tempero. Das carroças dos mantimentos resgataram-se alguns odres de cerveja e o indispensável pão de bolota. Estando a logística do repasto bem encaminhada, Alépio mandou chamar os convivas.
Todos se acomodaram segundo as hierarquias. Alépio fez questão de ter a seu lado Gurri, intercalando depois os seus homens com os daquele. Rubínia e Zimio encontravam-se em semelhante proximidade do comandante, mas da parte oposta.
O jantar começou quente no repasto mas morno no convívio. Os vacceus comiam mudos, mostrando inclusive alguns sinais de desconfiança e agitação miudinha.
Alépio iniciou então os seus planos: tinha quase a certeza que, mesmo que os vacceus tivessem uma sincera vontade de manter a neutralidade, eles já sabiam ou estavam envolvidos de alguma forma nas circunstâncias que marcavam a Ibéria, agora ou talvez no futuro.
- “Gurri como é que o vosso povo suporta a ameaça romana e decide ficar quieto, não apoiando as forças que pretendem manter a Ibéria livre?” Puxou do copo e desviou o olhar para diluir a tensão e dar à questão um tom espontâneo e despreocupado.
O vacceu fitou Alépio, encheu os pulmões e, por breves momentos em que parecia que ia explodir, suspendeu a respiração, expirando depois para tomar uma verbalização calma e equilibrada: - “Da mesma forma que todos vós suportastes a invasão da mãe pátria pelos de Cartago e a subsequente exploração dos nossos recursos, sem que alguém os cá chamasse”. E pegou também no copo. Gurri, apesar de ser sobretudo um formidável “engenho bélico”, demonstrava que tinha arte na política e na diplomacia e que não fora por acaso o escolhido para estar ali em representação dos vacceus.
Alépio retorquiu: “Tens a tua razão Gurri, admito-o. Porém é abissal a diferença entre púnicos e romanos. Os púnicos vieram para a Ibéria porque foram perseguidos e desalojados dos antigos domínios precisamente pelos romanos. De cá querem apenas relações de negócio. O comércio está-lhes no sangue. Não querem dominar pelas armas a nossa terra. Pelo contrário, os romanos são mordazes e insidiosos. Querem tomar os territórios da civilização e tudo e todos conquistar. Se Aníbal não os travar, não demorará muito que todos nós estejamos sob as presas da águia romana. Os vacceus tal como os outros povos da Ibéria serão meros prisioneiros na sua própria terra. Acredita no que te digo”.
Gurri deixou-se inclinar para atrás e ajeitou-se no soberbo roble que lhe servia de encosto. Cerrou os olhos por poucos segundos e depois fixou o olhar no grupo de músicos que, em frente, tangiam as melodias de saudade e de exaltação de antigas façanhas da nação galaica. Aliás, a grande maioria dos presentes prestava mais atenção aos afamados gaiteiros galaicos do que à conversa entre os dois caudilhos.
Após algumas modas mais líricas, a música tornou-se mais marcial e dois guerreiros possantes iniciaram um espectáculo de luta livre, um costume de longa memória nas reuniões festivas celtas.
(Continua…)
Andarilhus
XVIII : I : MMIX
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009
O Tesouro

http://nicholasandrade.atspace.com/images/alma.jpg
Anunciou-se pela manhã
Vestido de punhal fero
Queimando no olhar de morte.
Buscou o cajado da partida.
Trincou a fortuita romã,
Esqueceu costumado esmero
E rasgou a ladainha da sorte,
Sem mais, tossiu a despedida.
Não chorou ou riu.
Cobriu-se de libertador véu,
Sem festa, sem exéquias,
Simplesmente saiu…
Puxou o céu,
Enrolou-o
Sem vinco ou esquina.
Espremeu o Sol,
Tirou-lhe o ar e dobrou-o
Como fole de concertina.
No baú de couro
Juntou algumas nuvens
Para melhor acomodar
O seu tesouro…
Todos guardou com afeição.
E neles espetou anzol,
No ensejo de reencontrar
O isco do coração.
Atrás de si, bateu a porta
Derrubou a casa e aniquilou a rua.
E não contente,
Extraiu aquele pedaço de mundo,
Como se fora dente estragado,
Triturou-o e purgou-o no fogo.
Às escuras aventurou
Só com noite e um pouco de Lua
Hirto como cardo indolente,
Sem topo nem fundo,
Vulto aleijado
Mas, sem lamento ou rogo…
Solitário de alma,
Desprovido de rumo,
Segue a direcção do vento,
Descrente do semelhante,
Sem fé de cristão ou mouro.
Virá manhã que salva
Lírica de rouxinol de fumo
Trovando o fim de tormento
E de novo, o infante,
Partilhará o baú do seu tesouro…
Andarilhus “(º0º)”
XV : I : MMIX
Lírica: Heroes del Silencio: "Tesoro"
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008
Um Natal aqui tão perto...

http://paginas.fe.up.pt/~sdinf/events/2008/natal/index.html
Ali, com o céu por telhado,
Colado à janela, furtivo,
Com olhos de brilho intenso
Bafeja os vidros quentes
Com o hálito faminto
Quase os lambe, salivando.
Pisca e treme sob o manto estrelado,
Ao ritmo das luzes do pinheiro altivo,
Que o desafia do interior, imenso,
De mesa farta e risos contentes.
Já não lhe resta corda ou cinto
Na miséria da vida que o vai levando…
Lembra o ter assim amado
Quando ainda se sentia vivo.
E num suspiro denso
Baixa o olhar para os botins rotos e rentes
Vê agora o chão de negro tinto
Deixa-se cair, baixinho, chorando…
E de dentro algo escutam,
Interrompem brevemente a festa
E espreitam curiosos e seguros.
Afinal
São só os ruídos dos que migalhas disputam
Ao longe, para além dos muros.
Desistem e descolam dos vidros a testa…
…Talvez seja apenas um qualquer Natal
Aqui tão perto!
Dedicado aos tresmalhados, compulsivos ou forçados, do espírito natalício.
Andarilhus
X : XII : MMVIII
http://paginas.fe.up.pt/~sdinf/events/2008/natal/index.html
Terça-feira, 18 de Novembro de 2008
Fado vadio

http://img.olhares.com/data/big/186/1863988.jpg
O cigarro amassado e requentado
Atrai as traças agitadas
Pela exígua gota de calor.
Aqueles olhos inexpressivos
Como postigos em fachada de rugas
Acendem-se
Ao ritmo das puxadas da nicotina.
Lembra (como em oração)
A embusteira industria
Que após anos da mesma série
O fez ceder ao sinal de cansaço,
Recorda (em penitência)
A meretriz vida
Que depois de anos de fuga humana
O fez tombar em solitário regaço…
E a rua deambula
Sob seu pés inchados
Pelos degraus, que todos procuramos,
Sob suas costas, deitadas
Pelos reveses, que todos encontramos.
E a rua deambula
Enquanto, lavado pela chuva
E encharcado pela cerveja,
Inventa um ombro amigo,
Companhia de cantiga carpideira.
Procurem-no na poeira de cobertores
Em muitos papeis
E bem embrulhado
Em cartões.
Procurem-no nos recantos
Escuros, frios, fugidios,
Apartado da cor,
Da alma, do amor.
Encontrem-no a chorar estrelas,
E a tocar odes de silêncio
Em violinos feitos de lixo.
Encontrem-no a afastar nuvens
Macias e brancas
Com mãos trémulas e sujas
Em busca do seu nome no céu…
E, quando com ele fado cruzares,
Dá-lhe um sorriso,
Talvez mesmo uma palavra,
Um aceno,
Sem medir, sem juízo
Como tu, ele é humano pleno
Como tu, ele precisa de um alento
Como tu ele espera por um vento
De fortuna
… que todos nós buscamos
Mas que nem todos nós topamos…
Aos sem-abrigo, de lar ou de coração.
Andarilhus
XVIII : XI : MMVIII
Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008
Farei de ti um concorrente do Sol

Quando olho para a rede
E vejo onde descanso o corpo
Noite dentro... rua fora
Apenas
Dou por mim dentro do que me rodeia
Apenas
Me encontro no que fora de mim existe.
Adapto-me, reconstruo, mas
O branco é pálido e o negro…
O negro é do mais breu e opaco.
Estou preso nos limites esgotados
Da caixa do meu mundo
Tão cinzenta e amarga
Como a tarde invernosa permanente.
E o corpo que se agiganta e a caixa que se acanha!!!!
Vou recortando o tampo
Com pequenas incisões
De tímidas alegrias.
O brilho perfura a lúgubre vida
Em formas de lua e estrela
Indiciando a liberdade da luz.
Desce uma mão em busca da minha,
Não para me puxar;
Antes para fazer companhia,
Antes para me trazer a purificação…
… E entraste.
Entrou contigo o odor do prado
E a brisa que percorre a montanha.
Abraçaste-me.
E, em ti, abraçou-me a luz das estrelas
E da Lua, que tanto ansiava.
Apertou-me o calor do estio
Incinerando o frio.
“Farei de ti um concorrente do sol”, escutei.
E eu logo imaginei
O Céu a ficar da cor dos teus olhos,
Logo teci a dócil intriga – por ti –
Para regresso dos anjos, duendes e sereias!
Castelos e reinos perfeitos
Antevi-os às centenas.
Pressagiei novos pigmentos para o júbilo
Com o branco transparente e o negro imaculado.
Anunciei festividades sem tempo,
Prescindindo de início ou de fim, na cadência
De trovões mansos, em dó bemol,
Ecoando como foguetes, em folhos,
Na tua apresentação nas ameias,
Limpas, torneadas, sensuais,
Bordadas como as mais belas mantas
De fio de seda, de colorida asa de borboleta.
Eu quero navegar-te
Eu quero voar-te
Eu quero percorrer-te
Descalço
Por todos topónimos do sentimento
Por todas as pontes que tanges
Nas encruzilhadas das cordas
Da harpa do firmamento.
Esta maldita casca de forças opressivas
Que se quebra!
Esta maldita caixa de fungos bolorentos
Que se rasga!
Tu entras, eu saio, de mão dada contigo.
Preciso de uns óculos de sol!
Andarilhus
XII : XI : MMVIII
Sábado, 8 de Novembro de 2008
Um bom ponto de partida...

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Vamos fazer de conta
Que eu até te encanto
Que tu até me inspiras
Vamos estimar o ideal
Que o mundo até nos convence
Que a vida até nos sorri
Façamos de conta…
Vamos imaginar
Que somos felizes e realizados
Que somos alegres e optimistas
Vamos tomar por certo
Que bebemos tragos doces
Que descansamos em veludos
Façamos de conta…
Vamos acreditar que a tinta
Fora esparramada para escrever
Na imaculada flor de papel,
Sem traço ríspido ou grosso,
A pura e inefável realidade.
Vamos confiar que não há finta
Ou acrobacia que venha tolher
A carícia de dedal ou anel
Ou rasgar a carne com tamanho fosso
Que desengane a nossa temeridade.
Vamos, vagarosos, medir
Os acordares e os dormires
As partilhas e os segredos
O que dar e o que pedir
Os chegares e os partires
Os paraísos e os degredos…
Façamos de conta…
Que eu te amo
E que tu me amas
…é um bom ponto de partida…
Andarilhus
VIII : XI : MMVIII
Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008
Das certezas (tomo V)

http://fatamorgana.romanesca.com/sleapingbeauty.jpg
O Amor…
..."É uma força que sem grande esforço nos dobra a vontade e nos deixa sem opções"....
Andarilhus
III : XI : MMVIII
Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008
... E tanto que tinha para te dizer...

http://duas-sinas.blogspot.com/2007/10/foto-uma-escada-at-o-cu-autor-antnio.html&h
Estimado primo, hoje está um dia de luz pálida. Um sol frio que irradia trémulo por entre nuvens pesadas e dispersas. Parecem zangadas entre si. A chuva teima em querer juntar-se às lágrimas. Umas e outras vão resistindo: a pluviosidade sustida pelo vento rasteiro, o pranto amarrado na memória da tua alegria genuína. E o frio… o frio não o sinto e não o reporto.
Estimado primo, este é o dia primo em que a humanidade está mais pobre, em que a família está mais parca, em que eu, particularmente, me sinto estúpido e incapaz. Partiste e eu nem tive tempo de te dar um abraço de despedida.
E eu que tanto tinha para te dizer…
Inflamo-me contra dEUS! Ainda não entendi qual o sentido de oportunidade para te levar do nosso convívio. Quando será que a morte compra uns óculos?! Anda assim, por aí, a ceifar sem pejo, sem orientação, cega e faminta, levando os nossos melhores! O que me ocorre é que, talvez estejas a fazer falta noutro sítio. Mas, deixas tanta falta por aqui, também!
E eu que tanto tinha para te dizer…
É um privilégio chamar-te “primo”. Um orgulho! Nunca foste mais do que um incógnito para os meandros que definem as categorias dos destacáveis, dos notáveis. Na tua candura, contudo, colocaste a o ânimo do Ser-se Humano na ribalta, no esplendor máximo, para quem o quisesse partilhar, para quem o quisesse aprender. Servistes-me de exemplo, sem nunca conseguir, porém, ser um bom discípulo da tua natural mestria.
E tanto que ainda tinha a aprender contigo…
Felizes os que te irão conhecer.
Para onde te levaram, não necessitarás de formação especial para envergares a indumentária de anjo. Certamente, irás como (re)formador das qualidades desses seres excelsos.
Como cá, não lhes darás trabalhos, antes dedicação e esforço não reclamado;
Como cá, não lhes farás frente ou desafio, antes préstimo e concórdia;
Como cá, não lhes darás azedume e rancor, antes um sorriso puro e uma humildade sem par.
Tanto que poderão aprender contigo…
Primo, amigo, agora que seguiste por outra dimensão, não te esqueças de nós, tal como não nos esqueceremos de ti.
Ainda é cedo, mas quando chegar o dia, conto retomar os ensinamentos contigo. Entretanto, vou fazendo os possíveis que a memória e a saudade permitirem.
Por lá e por cá, continuas bem vivo!
Um abraço sem fronteiras
Sit Tibi Terra Levis
Requesquiat in pace
Ao meu primo João…
P.s - ...Senti a necessidade de libertar esta "pública" homenagem ao João, que mais do que um primo é - porque continua ser - uma das mais sublimes pessoas que já conheci. E os dons especiais de que era dotado, eram os mais simples e que tanto procuramos para nós mas que nos é tão difícil alcançar e manter nas vicissitudes da vida: a lealdade e genuidade intransigentes aos princípios inerentes ao conceito de Ser Humano...
Jorge Pópulo
XXIX : X : MMVIII
Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
O Fio Ténue da Marioneta

http://thesoundofsilence.blogia.com/upload/20061112215250-cuadro-20marioneta.jpg
Ele não era príncipe perfeito
Ou mesmo esperançado sapo,
Ela tão pouco era princesa
Ou promissora consorte.
…Perdera-se o tempo
Da coroa e do ceptro,
Da batina e da homilia.
Da aliança e da grinalda…
Ele não tinha galões de eleito
Era mais uma cicatriz de trapo,
Ela não fazia inveja à beleza
Era mais ferida aberta entre vida e morte.
…Perdera-se o sorriso trigueiro
Da prevalência do futuro
Sobre o passado,
Da serenidade de cada presente…
No limite da sombra do mais negro diabo
Quebrara-se, em desencantos, o feitiço
E com os fragmentos afiados
Cortaram-se em tiras os cordéis,
As correntes, os améns,
Que agrediam decadentes marionetas.
E então soltos e livres,
Mesmo sem coroa ou grinalda!
Mesmo sem beleza, sorriso ou futuro!
… Encontraram-se e ele disse-lhe baixinho:
Trago-te nos lábios,
Não de forma vulgar
Ou ao gosto de qualquer paladar;
Trago-te nos lábios
Como se fosses batom de letras
Que neles pinta sempre
Teu nome
Que sussurro sem cansar.
E quem quer saber dos nossos nomes?
Quem quer saber das nossas memórias?
Quem bem te quer,
Quer-te saber como já te conhece,
Como te encontrou,
Como te assumiu.
Trago nos lábios
O perfume do teu nome
Trago nos lábios… novamente
O sabor da vida…
Andarilhus “(º0º)”
XXVIII : X : MMVIII
Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008
Por Ti Seguirei... (3º episódio)

continuação de:
http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/30844.html
…
Praticamente não descansou, ansiosa com o momento que marcaria o minguar da distância que a separava do seu estimado. Por ela, nem sequer teriam dormido, arrancariam o quanto antes.
A manhã revelava-se fresca e com uma neblina húmida e ténue. Lá no alto do povoado, no sítio do costume, Rubínia contemplava as chaminés de fumo que se escapavam pelas frinchas do colmo das casas e que, extraordinariamente, multiplicavam-se em número pelo fumegar de muitas dezenas de fogueiras do acampamento da força militar, espalhado pelas redondezas da citânia.
Cerrou os olhos e imaginou-se de volta, feliz com a família reunida. Fez uma libação e mastigou umas quantas preces. Olhou para a banda do oriente e respirou forte. Logo arremessou a sacola tiracolo para as costas e fez sinal a Zímio. Aquele pegou na equipagem preparada para a viagem, aproximou-se e começaram a descer a ladeira em direcção ao centro do aquartelamento, seguidos pelas montadas.
Alépio saudou Rubínia com um largo sorriso.
-“Tu e Tongídio sois bem merecedores um do outro: incansáveis e mesmo indomáveis!”
- “Que os deuses te confiem um dia perfeito, Alépio. Cá estou para vos seguir enquanto o nosso caminho for comum. Comigo vai Zímio, servo de longa data da casa de minha família. O meu pai confiou-mo e eu confio nele para me auxiliar nesta demanda. É um amigo.”
Zímio, um africano pujante, era, desde há muito, o braço forte – literalmente – da segurança dos negócios de Físias. A idade já denotava rugas no vigor de outros tempos, porém qualquer redução na habilidade física era compensada fácil e exponencialmente na calma e astúcia acumulada com a experiência. Não passava despercebido e não escondia que poderia ser um grande e letal desafio para qualquer adversário.
Alépio saudou fraternalmente Zímio:- “Ao amigo da família de Tongídio recebo-o igualmente como amigo”.
Zímio retribuiu o cumprimento e manteve-se em silêncio.
-“Rubínia, partiremos logo que termine o recolher do acampamento e todos estejam em condições de receber ordem de marcha. Não demorará muito. Entretanto, alguns batedores seguirão antes, para sondarem os caminhos por onde passaremos. Teremos esta precaução como prática corrente.”
O sol pouco subira no horizonte e já soavam as cornetas chamando para a partida. Aegídio abraçou Alépio, saudou individualmente alguns dos seus conterrâneos e exortou todos à vitória, desejando recebê-los de regresso e em triunfo na sua comunidade. Entre gritos, algumas lágrimas e grande alarido marcial, a hoste pôs-se em marcha. Retumbavam os tambores, enfeitiçados pelas melodias agudas das gaitas-de-foles. A poeira levitava pelo ondular do caminho.
Sentiam-se já as mutações marcantes do final do estio e Alépio queria chegar junto do grande General antes que o clima obrigasse a montar quartéis de inverno.
O primeiro destino seria a capital dos Vacceus. Alépio tinha alguma esperança na conversão daqueles para a causa de Aníbal. Uns e outros nunca se haviam dado bem ou coexistido em paz, mantendo-se mesmo em constante escaramuça, mas agora com a ameaça romana talvez fosse possível uma aliança entre Vacceus e Púnicos. A sedução da conquista e do saque seria um bom aliciante e mote de conversação…
Os primeiros dias decorreram sem sobressaltos. Passaram as fronteiras lusitanas e entraram em territórios dos Astures. Aí vastas florestas de densos carvalhais garantiam a frescura da jornada diária e o abrigo nas noites frias e de notícias de precoces geadas. Porém, o arvoredo também tapava as estrelas, a lua e alguns sonhos que iluminavam a imaginação de Rúbinia. Desde que partira, falara algumas vezes com Alépio – e não conversara mais porque aquele andava ocupadíssimo com a liderança das tropas – e dialogava quase em exclusivo com Zímio. Na verdade, eram praticamente monólogos: Zímio só soltava monossílabos, não era sua arte a comunicação.
Num desses momentos de conversa muda, Rúbinia lamentou-se: - “Estou triste, Zímio. Não se trata apenas de dizer que “estou triste”; estou de facto triste. É raro (até fui surpreendida, porque já não me lembrava) e muito complicado. Por vezes, estou aborrecida, mas isto é algo que supera fortemente o enfadonho. É algo que parece marcar e deixar rastos para a frente. Se há tempos te disse que estava com um mau pressentimento de que algo ia ocorrer. Hoje estou com a sensação terrível de que algo ocorreu. Deve ser desta minha cabecinha doida, mas tenho o sentimento de que algo mudou irremediavelmente. O sentimento de que cheguei a mais um ponto de viragem. Talvez seja hoje que assisto à hecatombe definitiva dos traços do meu mundo.
Não sei o que é exactamente, mas domina-me e desperta as minhas defesas, as minhas tropas para a batalha: país arrasado; há que reconstruir o território e povoá-lo de novos habitantes e seres de toda a espécie.
Espero que este seja mais um equívoco do meu pensamento destravado… sinceramente.
Padeço de saber o que quero mas ter de não querer o que sei”.
(continua…)
Andarilhus “(º0º)”
XXII : X : MMVIII
Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008
Não te Esvaeças!

http://www.lendo.org/wp-content/uploads/2007/09/corvo.jpg
Tiro aos corvos e aos abutres.
Erguem-se as cruzes e os alhos
Cravados em chuços,
Arremessados a vampiros.
Convertem-se os diletantes da morte
E as obscuridades agitadas da noite.
Cale-se o cravo de grito sombrio e agudo,
Avance a harpa dos encantamentos,
Porque
Germinam os botões das nuvens,
Um a um,
Expondo na luz do teu colo
Os prados de flores frondosos
Como florestas, entre arribas
Que desenham o vale que te percorre
Até ao paraíso.
O céu em ti,
O caminho para a salvação.
Não te esvaeças,
Há que cumprir
As promessas que desenhaste
Na terra fértil;
Há que consumar
As promessas que sonhei
Em sono reconfortante.
Não há trapo onde não leia
As tuas escrituras,
Palmo a palmo, odor a odor;
Não há lugar onde não me anuncie
Teu devoto e beato,
Teu apóstolo,
Sacrílego
Por minha fé carnal
Na deusa que reverencio.
Não te esvaeças,
Há profecias
Que só se revelam na tua existência.
Sou profeta sem dogma,
Deambulante entre Quixote e Dante,
Na sombra de moinhos e purgatórios
Espreito
Pelo teu chamamento.
Já entram as trompetas, triunfantes,
O corso segue romagem,
Descanso noutra sombra,
A da folhagem,
Espero
A reunião dos distantes.
Não te esvaeças
Não renunciemos
Às vitórias e às conquistas
Pelos lugarejos das fobias
Em prudências desmesuradas…
As dádivas do coração
São para se envergarem
Como túnicas de exultação,
Os afectos da cumplicidade
São para se calçarem
Com sandálias de felicidade.
Não te esvaeças!
Tiro aos…
Andarilhus “(º0º)”
XVI : X : MM
Lírica: Dead Can Dance: Don't Fade Away
Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008
O Canto Escuro

http://bp1.blogger.com/_CXgx3KpJXcA/R3OSgRZnKdI/AAAAAAAAAQc/tFUDKm9t_mE/s1600-h/1032342.jpg
Ecoa a sineta,
Choraminga na porta,
Como gato em busca de calor,
Voluptuosa balada de sedução,
Esguia comichão de gulodice…
Não lhe resisto.
Entrego-me.
Lutei,
Com fogo e argumento,
Vento demolidor
E poderosa reza.
Cai,
No covil achincalhado
Do pedinte
De mão recolhida
Sobre o coração.
Não me amparaste
A aferrolhar a porta
A arrancar a sineta.
E ela, do lado de fora,
A insinuar-se
No baile do cisne
Em lago de sede.
Entrego-me… não lhe resisto.
Lutei,
Com ideais e crenças
Com submissão e altruísmo
Por tuas fraquezas e adiamentos…
Cai
Num poço sem água,
Onde o cisne melhor encanta,
Na teia da entrega
Da coroa do reino a conquistar.
Não me amparaste a queimar a porta,
A abafar o sussurro do lado de fora!
Não me animaste a quebrar o sinal
Daquela que me quer enredar.
Toca a sineta para a morte lenta…
Sem ti, não lhe resisto.
Entra, entra solidão, entra de uma vez!
Abraça-me em prisão,
Cerca-me de areia em ilha de apatia.
Andarilhus
XV : X : MMVIII
Lírica: Dead Can Dance: The Carnival is Over
Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008
Lições de Vida, Lições de Amor

http://www.aceav.pt/blogs/sentimentos/Lists/Fotografias/escada%20da%20vida.jpg
Descerram-se os olhos
Açoitados pela luz alva
Em oportunidade de acordar.
Reabrem-se os portões
Da escola da existência.
Aí vem uma nova aula,
Aula de magia colhida
Nos jardins dos porquês,
Aula de fervor experimental
Nos laboratórios do ousar contestar.
E tu instigas-me a pensar
Na ruína da grandeza
Na leveza substantiva
Do modesto perfil.
Eis uma nova lição
Lição de vida
Lição de amor.
Bebo com ganância
Todo inconformismo
Amontoado na sebenta
Desta adulta infância,
Medrada em niilismos,
Que coze mas não fermenta…
Reprovarei mais uma vez
Na cartilha do Ser?
Hum… Se tiver pedagogo
Ávido por real saber
Estimo a oportunidade de acordar
Em mais uma aula,
Aula de verdade cultivada
Na estufa das respostas,
Aula de sorriso autenticado
Na convicção do ousar compartilhar.
E tu deixas-me a pensar
No que te posso ensinar,
Sobre a riqueza dos simples
E a pobreza gafa dos arrogantes.
Eis uma nova lição
Lição de vida
Lição de amor.
Ofereço com modéstia
Os segredos da paz
Recolhidos no códice
Desta infância adulta
Esconjurada na tua dedicação
Que em mim muito labuta
Sem nunca resignar.
E essa é a minha nova lição
Lição de vida
Lição de amor.
Assim vale a pena
Vou agarrar a oportunidade de acordar…
Andarilhus “(º0º)”
X : X : MMVII
Lírica: Love & Rockts: Love Me
Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008
Asas Para Aprender a Voar

http://indoleromantica.blogs.sapo.pt/arquivo/mao%20borboleta21221.jpg
Já dei corda ao ânimo! Lustrei o sorriso e não vou aceitar o desagradável hálito da má disposição. Arejei os lençóis com janelas escancaradas, calei a entropia com o rádio FM no seu mono estridente. Saltam as roupas do armário, tudo vestimentas cinza e negras. Atiro para longe os baixios do escuro e procuro farpela colorida. A mais matizada que possa ter. Porque hoje… hoje, podes procurar-me entre promessas de bem-querer, podes topar-me entre danças de bem entreter. Podes até seguir-me por feitiços sublimados.
Hoje quero ganhar as minhas asas!
Seguirei alegre, correndo em espera. Espera de te ouvir: “Voltemos ao princípio, carregados do tanto que entretanto construímos. Recuperemos a totalidade do que por períodos fomos e elevemos em altar de felicidade a soma das partes!”
Eu sei que te aconchego em conforto de estar presente. Eu sei que me queres como a luz que ilumina a tua sala. Mas eu quero ser luz e inexistência de luz, quero ser presença e ausência, quero ser a união de todas as variantes possíveis do tu e do eu. Por isso hoje… hoje, podes procurar-me entre promessas de bem-querer, podes topar-me entre danças de bem entreter. Podes até seguir-me por feitiços sublimados.
Hoje quero ganhar as minhas asas!
Atenta porém que será em ti onde terás de me demandar… é tão fácil, é tão simples. Talvez, na tua própria busca, me encontres a mim…
Atravessei a porta sem premeditar o primeiro passo para o pé direito! Esqueci-me da camisa-de-forças defensiva que atrofia a simpatia… rasguei a arrogância e abracei e beijei todos com quem me cruzei. Saltam as intolerâncias para a sarjeta, cuspidas por tosse curandeira. Atiro para longe as intransigências rubras de enjoo e procuro ser bicho social.
Porque hoje, irra (!), hoje quero ganhar as minhas asas!!!
E este calafrio? Convencer-me que ainda tenho tanto por andar, muito por fazer, sentir e viver. Na verdade, sobreviver…
…Mas hoje, hoje eu quero ganhar as minha asas…
Para poder voar de gaiola em gaiola, entre céu e inferno…
Andarilhus “(º0º)”
IX : X : MMVIII
Lírica: The Mission: Butterfly On A Wheel
Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
Folha de Outono

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Ter-te
Assim na mão
Escarlate fogueada
Em tons castanhos
De quase silêncio
Assim
Macia aveludada
Como só pode ser a pele
Tocada da amada
Perfumada
Quente e Madura
Bem talhada
Com aroma a madrugada
Cúmplice da noitada…
Corres-me com o sono,
Como o vento
Instiga a folha de Outono
E a cada abraço
Enrosco-me em teu tronco
Profundamente enraizado,
Na tua casca trigueira,
No teu beijo Selvagem,
Como o luar
No teu segredar
De brisa matreira…
E porque vejo uma lágrima?
Sabes que vais para voltar…
Pássaro transumante
Quando vais admitir
Que te encante
Com a paixão
De constante sentir?
Morre para nascer,
Nasce para morrer…
Comigo…
Andarilhus (ºoº)
VI : X. MMVIII
Lírica: The Mission: Bird of Passage
Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
Guarda-me em Teu Beijo

Espera-me com flores
Quando eu te visitar,
Deitada em nenúfares
De seda carmim,
Presenteia-me de amores
Em suave esvoaçar.
E sempre que eu te procurar,
Tenta me encontrar,
No encalço da tua intimidade.
Despida de cautela ou sensatez,
Abraça-me de enfeitiçado luar,
Desnuda a inocência do meu esgueirar,
Atrevido e de dissimulada timidez.
Espera-me em leito de rosas!
Chegarei a sussurrar
Trovas de bem-querer
Baixinho, bem perto, a arfar
Em tuas orelhas formosas.
Guarda-me no teu beijo,
Em baile de sensualidade,
De gestos suaves, imateriais,
Fugidios das mãos ladinas
Libertos de cansada solenidade.
Acerca-te do meu deambular
Ritual, peculiar,
E, assim próxima,
Guarda-me nos teus lábios,
Com o travo de terra e mar
De afogueado desejo,
Por ondas de doce embalar,
Por relevos de adágios.
E mesmo quando apartado,
Já cá estou, tão perto
Que não sei onde acabas tu, onde acabo eu…
Cintila a ternura com o afago a iluminar
O escuro da reserva, o negro da solidão;
Há uma luta de paz, um cativeiro aberto.
Derrubam-se muros, constroem-se pontes
Sem contar minutos, sem cansar.
Não me esperes mais,
Sou teu
Em permanente chegar.
Andarilhus
XXX : IX : MMVIII
Lírica: Echo and the Bunnyman: Sugar Kissies
Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
A Noite do Homem

O dia cava distância, engolindo a montanha, arrastando a luz para a encosta do lado oposto. Pelo lusco-fusco espreguiçam-se as asas, sacode-se a inércia, sopram-se os bocejos ao encontro dos suspiros do vulcão.
É hora de velar, é o retorno à batalha contra as execráveis bestas do caos. Despenha-se o senhor dos céus, roda a Terra, roda a fortuna, roda a ignorância que se alimenta na escuridão. Todas as noites são lavouras de receios, sementeiras de dúvidas, espasmos salteadores da lógica. Soçobra o coração em trabalhos redobrados!
Enquanto reina a alvura, tudo se vence, muito nos convence na força e na intransigência de lutar e alcançar; assim que esmorece a claridade, pouco subsiste dos impérios da tarde serena e do amanhecer promissor. Cresce a sombra da tibieza, recuam as certezas, encolhem-se para lugares perdidos. E o que nos resta? O coração! O sofrido, patente de cicatrizes, coração. Paladino final, último resistente, baluarte que sustenta a união de tantos fragmentos que nos dão a forma pontilhada, os mil estados cosidos sobre um mesmo território, um mesmo corpo, um mesmo cadáver.
Não é que o coração seja menos cego do que a razão, na noite do Homem. Todavia, assume-se quando nada mais se ergue. Esforçado, afoito, consegue ver o mundo das trevas olhando-o de vistas cerradas, sentindo-o, intuindo-o, perscrutando-o. A razão apenas é clarividente em tempos de positivismo, de acalmia, de equilíbrio, de dia.
E quando se rasgam os céus azuis e deles vibram as desbotadas trompas da desgraça, quando caem do alto os negros calabouços da solidão, arrepela-te coração, temos de segurar com valentia a corda com que os demónios nos puxam para os infernos da vida; E quando, desses buracos suspensos – passagens francas para os abismos apocalípticos do ser – saem famintas as horríveis criaturas do nosso terror para nos abocanham lentamente, rapinando pequenos pedaços da crença, apresta coração, temos de desbaratar as hordas maléficas e rechaça-las para os lúgubres e perniciosos ninhos de onde medraram; E quando os sonhos tombam por entre névoas de crua agonia e esmiuçado sofrimento, perseguidos por necrófagos alados, desentorpeça as asas coração, temos de os recolher dos ares nefastos e colocar a salvo em santuário intransponível (talvez um dia tenham uma oportunidade…).
E quando a noite for omnipresente, tirana, inclemente e eu já nada suspirar, já a nada aspirar. Quando eu me entregar ao mal que há em mim, ao mal com que me contagiaram, estrebucha coração, estarás só. Impõe-te na condução do azar, ataca, irrompe pela noite do Homem como um cometa, com labaredas de purgação, calcinando as chagas, a dor, a podridão que grassam pelos confins do senhorio. Mata a peste da tristeza, chacina o diabo da capitulação, desbarata os inimigos que me trouxeram a guerra às fronteiras... governa o lar durante o meu exílio.
Andarilhus “(º0º)”
XXIX : IX : MMVIII
Lírica: Sisters of Mercy: Heartland
Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008
Coroa de Espinhos

http://www.olharesandantes.blogger.com.br/grito.jpg
Esporão
Reclamado à terra
Para correr idade
Cravado no flanco do destino
Escravo de agitação e de desatino
Sei que me comporto mal
Contigo
Sempre que te desperto
Para degeneradas artes
E te enlameio de toxinas
E te destapo sob intempéries
Do irrazoável
Sei que abuso
De ti
Quando te imponho utópicos limites
Quando te abandono sobre precipícios
E te afogo em ácidos e diluentes
E te carrego com fardos nas encostas
Do mau génio
E tu resistes
Com feridas abertas aqui
Com dons encerrados ali
Aguentas com remendos
De plástico e vinil
Agregando a pouca carne que resta
No esvair de enxurradas de sangue
Das batalhas e dos sonhos ensaiados
Perdoa-me
(perdoa o meu desprezo e incúria)
Cada vez que fechas para obras
E escoras os alicerces
Sou só eu quem escarra a tua fachada
Apedreja os vidros de cristal
E te arranca as telhas de protecção
Sou só eu que te esmurro
E te apago as luzes violentamente
Sou só eu quem te seduz
Para a demolição
Esporão reclamado pela terra
Corroído em poucos anos
Repousa cansado de retalhos
Sobre o sudário do samaritano
É tempo de soltar os pontos do suplício,
Os gritos! Os lamentos… A raiva!
Extirpar as grades da prisão
Do ocupante demente e ruim
Invasor parasita da tua generosidade.
Vai corpo, vai.
Abandona-me mártir,
Eu não te mereço…
Andarilhus “(º0º)”
XV : IX : MMVIII
Sábado, 13 de Setembro de 2008
A Pura Dimensão

http://ternaeanoite.blogs.sapo.pt/arquivo/brincadeira-de-crianca.jpg
Confisco
A razão atinada e adulta
Que nos mata a inocência
…só quero recuperar a ingenuidade…
A meninice das horas eternas
Da noite dormida que indulta
Da cadeira que não acomoda a irreverência.
Quero os jogos (e a futilidade)
De corrida, salto e diabrura
…Aqueles que fazem vaporizar o corpo…
O corpo alegre, maleável e enérgico
O corpo dos porquês e das exclamações
As aventuras de travessura
No mundo enorme da minha rua,
Decreto
A tomada do governo
Pelos gnomos e pelos brinquedos.
O reino da cor e das guloseimas
… O homem do saco e outros medos…
O Sol parado ao entardecer
As balbúrdias, amuos e as teimas
… E no céu o filme sempre a decorrer …
Liberto (-me d’)
As azias e azedumes,
Os tubarões e os cardumes;
Os infalíveis e perfeitos,
Os deuses e os eleitos;
Os valores e poderes;
Os césares e os deveres…
Declaro
A entrada
Na pura dimensão
Do primado do simples,
Na era do autêntico…
Reconquistam-se as galhofas e as danças
Há muito perdidas
Declaro
O emergir
De tantas crianças
Há muito… escondidas.
Andarilhus “(º0º)”
XII : IX : MMVIII
Lírica: The Mission: Child's Play
Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008
Por ti seguirei... (2º episódio)

http://img153.imageshack.us/img153/1973/img1072tb3.jpg
Continuação de: http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/30700.html
…
Depois, encarou Alépio e, no entusiasmo de outro sorriso, interpelou-o: “Aníbal não ficará certamente parado e derrotado. Alépio, serão teus desígnios regressar para junto do grande general? Sabes quais são os seus planos?”
“Pela formosura das minhas terras que voltarei! Vamos continuar os nossos projectos. Para Aníbal as circunstâncias são apenas o resultado de alguns contratempos. Vai reunir o exército e retomar a façanha que arquitectou. Perdeu parte da surpresa mas os Romanos não imaginam os planos inauditos que lhe ocupam o pensamento. O revés já está ultrapassado e Aníbal aguarda reforços vindos directamente de África. Depois de reunidos em Nova Cartago, serão conduzidos por Asdrúbal até ao acampamento do General.
Também eu – tal como outros delegados enviados a todos os povos Ibéricos amigos – tenho como missão a colecta de guerreiros e recursos para o esforço de guerra. O vosso concílio irá decidir se irá contribuir e como o poderá fazer.
Passarei por cá na próxima Lua Cheia e espero ter boas notícias”.
Rubínia apertou o antebraço de Alépio e recomendou-lhe:”Vai Alépio, não te retenho mais. Cumpre bem e com sucesso o teu dever. Quando voltares, aqui encontrarás pelo menos um companheiro de viagem”.
Fez uma saudação de despedida e tomou célere o caminho de casa. Havia muito a fazer, havia muito a preparar, apesar de ter ainda uma mão cheia de dias até ao regresso de Alépio.
Físias, mercador de uma pequena cidade portuária a Oeste das Colunas de Hércules, arriscara um dia fazer uma viagem de descoberta de novas oportunidades de negócio por terras lusas. Avançou para Norte e rapidamente encontrou as primeiras tribos, umas mais primitivas e rudes, outras já um pouco mais evoluídas socialmente.
Com o seu séquito, Físias conseguiu embrenhar-se profundamente na Lusitânia, conhecer os costumes, os hábitos, os deuses e as lavras materiais e mesmo artísticas daqueles povos. Com uma saudável empatia, facilidade de trato e comunicação, logrou superar alguns momentos muito sensíveis e potenciadores de conflitos. Soube alimentar a confiança, a segurança e, finalmente, ganhou mesmo a amizade de muitos autóctones.
E tanto se entrosou com as populações do setentrião que acabou por se apaixonar por uma nativa: Edúnia. Da união dos dois nasceu Rubínia, uma menina que se transformou em bela rapariga de olhos verdes amendoados e de cabelo castanho claro, frisado, rosto esguio e de pele entranhadamente morena. A mais esbelta criação entre um Cónio, de traços fenícios, e uma Lusitana plenamente ibérica!
Físias estabeleceu-se em Tongóbriga, construiu família e viu os negócios florescerem exponencialmente. Aproveitava a proximidade do rio Durius para carregar as suas mercadorias em barcos próprios. Estes, através da via fluvial passavam ao Atlântico e daí, sempre ao longo da costa, faziam a rota até à cidade de Balsa, já com as costas de África muito próximas e o Mediterrâneo a espreitar. No regresso os barcos traziam outras mercadorias apreciadas e necessitadas a Norte.
Bafejado pela prosperidade, o mercador era generoso com todos aqueles que o auxiliavam nos empreendimentos e reconhecia a benevolência dos deuses adorados pelas gentes que o haviam adoptado. Tinha por costume visitar os santuários dedicados a certas divindades e agradecer com fartas ofertas. Tinha especial afeição pelos lugares sagrados junto à serrania do Maranus. Era igualmente presença assídua no monte onde se acreditava habitar Larauco, pelos dias das suas festividades. Dizia que vinha de lá com sábios conselhos: sentia a omnipresença de Larauco, inspirando-se para tomar boas decisões e iniciativas.
Rubínia, alcançada a sua maioridade de 15 anos, recebeu a autorização e a respectiva bênção para poder acompanhar seu pai na peregrinação próxima. Naquele ano, calcorreariam o périplo do costume e passariam pelo santuário de Panoia onde, entre outros, a rapariga gostaria de venerar a Trebaruna, pedindo-lhe protecção para a sua muito estimada casa e família.
A manhã erguera-se de bom prenúncio, com uma neblina fina que encorajava os viandantes. Físias preparara a jornada com o cuidado que só um mercador domina. O agasalho, a montada, a escolta, o alimento, os animais e outras oferendas aos deuses e – não fosse surgir o ensejo – algumas mercadorias para transaccionar nalgum eventual bom negócio. Partiram.
A viagem decorreu com normalidade e sem sobressaltos. Pela segunda noite já armaram o acampamento próximo de Panoia. No dia seguinte estariam perante a solenidade do sagrado.
Sem acessórias demoras e ainda sem deixar o majestoso rei Sol raiar a sua primeira candura, Rubínia, numa ansiedade de noiva, fez erguer todos e colocou-os em movimento antes que tivessem tempo de abrir as sacolas do sustento. Queria ser madrugadora por respeito à deusa que ali a conduzira.
Sacerdotes ensonados receberam o grupo. Mais alguns loucos que não tinham palha na cama, pensavam… Na verdade, a comitiva de Físias não tinha sido o grupo inaugural do santuário naquela bonina manhã. De qualquer forma, tanto movimento matutino não era do agrado dos ociosos acólitos do recinto. Com poucos agrados receberam o cabrito e o galo que seriam imolados e lá foram explicando como decorria o processo cerimonioso a cumprir.
Junto ao flanco esquerdo do grande rochedo que representava simbolicamente Trebaruna existia uma fossa de dimensões generosas, com um ferro bem estacado de um dos lados, confrontado por duas fossas menores e uma pequena protuberância escavada na horizontalidade granítica que desembocava num canal igualmente rasgado no afloramento rochoso e que seguia por este, serpenteando, até se debruçar sobre um buraco entalhado no solo e onde cabia uma pessoa de pé e aprumada. Do lado contrário e rodeando o corpo maciço e frio de Trebaruna, encontrava-se uma pequena construção, muito rudimentar, com capacidade para apenas dois a três indivíduos, onde os devotos formulavam os ritos próprios e elevavam as suas preces à entidade divina. Foi para aí que orientaram Rubínia, enquanto preparavam os sacrifícios.
Trebaruna era deusa da casa e família, mas também protectora nas circunstâncias de guerra e morte. Quando Rubínia afastou a grossa manta de lã que tapava a entrada do humilde templo surpreendeu-se com a presença de uma figura humana absorta nas suas orações. Estava de costas para a entrada e pela magra luz do cubículo parecia ser um homem jovem e robusto, de longos cabelos louros, pele clara, alguns adornos metálicos e um urso tatuado em tons azuis ao longo do braço direito, que suportava o corpo reverente contra o grande rochedo. Rubínia, naquele espaço de sortilégios e naquele instante mágico, encontrara Tongídio e a sua vida iria mudar por completo.
É certo e sabido que terminada a introspecção cerimoniosa, Tongídio, virando-se para sair, julgou estar perante a própria deusa do lugar e a viver um daqueles excelsos momentos que só alguns têm o privilégio de alcançar. Todavia, mais feliz ficou por saber que afinal Rubínia de divindade só tinha a beleza! Já no exterior e enquanto assistiam ao abate dos animais, na fossa maior, à queima das vísceras nas duas fossas menores e ao corrupio do sangue pelos canais da fraga, trocavam olhares e sorrisos… promessas.
Desde então, conheceram-se, enamoraram-se, visitaram-se e Tongídio, como varão de uma família nobre de Tanábriga, no momento em que teve de anunciar esponsais, esqueceu as raparigas do seu clã e foi em busca de Rubínia. Físias fez o seu papel de pai duro e grave mas, chegado o momento oportuno, decidiu-se a presentear o genro com as vírias da aprovação, simbolizando a sua confiança na vontade de Tongídio em proteger a sua filha e capacidade para fundar e dedicar-se ao advento de uma nova família.
Rubínia acompanhou o seu marido para Tanábria e prometeu sempre segui-lo e por ele sempre seguir…
Causas exógenas começaram a afectar a vida dos dois. As potências do mundo – Roma e Cartago – propagavam rancores recíprocos e aguçadas pretensões sobre a rica Ibéria. Embora as ambições de domínio e expansionismo se fizessem sentir bem longe, nas costas do Sul, as escaramuças e diferendos já se espalhavam por toda a Península. Tanto mais que emissários procuravam exaltar as populações a tomar partido por um dos campos da contenda e pretendiam formalizar alianças com os povos e os seus clãs. Os cartagineses, graças à sua maior tradição e presença no extremo Oeste do Mediterrâneo, tinham vantagem na amizade e coligação com os povos nativos.
Com a chegada de Aníbal Barca a Cartagena e a decisão de fazer guerra aos romanos, os cartagineses activaram as suas alianças e recrutaram inúmeros iberos para as fileiras dos seus exércitos. Tongídio também foi, nas incorporações oriundas do Noroeste. Rubínia, no dia de partida do marido, foi a primeira ferida de guerra, das batalhas que Tongídio teria pela frente. No derradeiro beijo lembrou-lhe que por ele seguiria a vida dos dois, por ele todos os dias seguiria em guarda daquele caminho que agora o levava e do qual ansiava já que o trouxesse de volta.
Até à chegada de Alépio com as notícias, Rubínia passou longas horas, todos os dias, no mesmo sítio do promontório onde acenara pela última vez ao seu amor, vigilante por meses que pareceram anos.
Pela fase de Lua Cheia, Rubínia estava pronta para partir. Oferecera aos deuses um gordo cordeiro e consagrara as súplicas e as libações segundo os seus respeitos. Visitara os seus pais em Tongóbriga. Tinha tudo planeado e beneficiava da experiência e arte que aprendera com seu pai quanto a preparação de viagens. Somava-lhe uma vontade tenaz de ir ao encontro de Tongídio, encontrá-lo e usar todos os expedientes para o trazer de regresso a casa.
Ainda que estivesse disposta a fazer qualquer jornada sozinha ou com um pequeno grupo que contratasse, tal não seria necessário. O Conselho dos Ilustres de Tanábria preparara um corpo expedicionário de guerreiros para seguirem Alépio. Não eram muitos; eram os possíveis, dadas as circunstâncias. Ela seguiria com eles…
Alépio chegou a meio da manhã seguinte, com um vasto contingente. Em breve Rubínia galgaria o trilho que leva aos territórios do Leste.
(continua…)
Andarilhus “(º0º)”
V : IX : MMVIII
Terça-feira, 12 de Agosto de 2008
Por Ti Seguirei... (1º Episódio)

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A hora era já tardia. No horizonte, numa repetição que se fizera hábito, a ansiedade propagava-se pelo crepúsculo. Ao tombar do sol, esvaecia por mais um dia a esperança da chegada de notícias.
Rubínia, lá bem no topo do promontório que definia o centro do povoado, olhava para a porta Este, bem demarcada no terceiro e mais exterior pano do sistema amuralhado de pedra ciclópica. Não sentia a presença da azáfama dos transeuntes ou as brincadeiras de algumas crianças, empenhadas em esgotar as últimas energias do dia, nem tão pouco o crescendo do vento e a chegada do frio.
Viam-se já os primeiros fumos a libertarem-se por entre o colmo dos telhados das típicas casas de planta redonda. A noite começava a ser recebida. O pão de bolota, o leite e a cerveja, o queijo e a carne preparada com efusões de ervas silvestres convocavam as cansadas gentes para o conforto espartano dos lares. Os campos receberam a atenção vespertina do amanho e os rebanhos, de úberes carregados, já se encontravam recolhidos e salvo da rapinagem de lobo, de duas ou quatro patas…
Rubínia prolongava a sua vigia por quanto os seus olhos conseguissem atinar com alguma imagem ao longe, na penumbra. Somavam-se os dias de espera e mais prolongada ficava a vigia; regressava a casa cada vez mais tarde, para tratar dos afazeres domésticos. Já lhe chamavam a estátua de olhar vítreo. O Conselho de Anciãos decidira mesmo da não necessidade de atalaias sobre os campos e caminhos que vinham de Este: Rubínia cumpria essa função. E com a falha de homens devido à guerra, os que existiam deveriam ser bem aproveitados nas múltiplas tarefas comunitárias.
Este entardecer seria todavia diferente dos que se haviam arrastado penosamente no último ano. Rubínia, quase a ponto de deixar a guarida, esticou-se em frente e estrebuchou. Uma nuvem de poeira surgiu quase tão confusa como o próprio escurecer. Teve aquela sensação: Hoje teria novas! Foi como um sussurro de Endovélico a garantir-lhe a chegada de um mensageiro, que ao fundo já subia para franquear a entrada da fortificação. Daí, o estranho cavaleiro, calcorreou o labiríntico de ruelas até ao edifício maior, o lugar de reunião do Conselho que governava Tanábriga.
Correu, correu desenfreada para a Concílio dos Ilustres. Ainda viu o estranho a entrar, seguido pelos dirigentes da citânia – Chefe, anciãos, membros distintos – e a porta a cerrar-se após aqueles. Estacou à entrada, tal como o faziam inúmeras pessoas, umas por curiosidade, outras por igual ansiedade.
Pelas conversas alteradas dos companheiros do instante percebeu que aquele visitante vinha do extremo Nordeste da Ibéria e, apesar de sedento e rouco, ainda balbuciara algo como: “Eu vi-os! Arrastavam-se em fileiras…”. Ó desgraça! Em fileiras andam os soldados… mas não se arrastam… Em Rubínia cresciam ganas de irromper pela reunião. Chegou a forçar a entrada, contudo susteve-se de sobrancelhas cerradas e a morder o lábio, face à oposição dos dois guardas. Começou então a deambular em frente da edificação, para todos os lados e sem grande cuidado com os demais que por ali se mantinham.
Não foi por muito tempo. As fortes tábuas de castanho abriram-se acompanhadas de sonoro ranger. Aegidio, chefe daquelas paragens, olhou em volta e conseguiu ler a amargura estampada nos rostos dos que aguardavam. Com a frieza e a ponderação de um líder, comunicou: “Os nossos gloriosos guerreiros têm sido dos mais bravos a acompanhar as façanhas de Aníbal. Por muitas campanhas lutaram ferozmente pela liberdade da Hispânia face à prepotência insidiosa dos Romanos. As nossas armas somaram êxitos até que o exército do temerário Aníbal caiu numa emboscada montada pelos Romanos e pelas raposas traiçoeiras que são os seus aliados Aquitânios e Vascões. Nas passagens tortuosas das gargantas dos escarpados pirenaicos esperaram pelos nossos valorosos, como cobardes escondidos. Muitos morreram, a chacina foi horrível. Alguns escaparam e andam foragidos e dispersos pela Gália e Hispânia.
Alépio, do clã dos nossos vizinhos Brácaros, foi um dos felizes que manteve a vida e conseguiu chegar até cá, com grande sofrimento, para nos relatar este infortúnio. Temos de ser fortes e preparar as defesas. Que Larouco tome em seu cuidado os nossos desígnios. Os Romanos devem ficar satisfeitos e quietos com esta vitória. Mas podem também iniciar aquilo que já há muito almejam: dominar a Lusitânia e todas as demais terras da fecunda Ibéria. O Conselho vai reunir-se e deliberar o que fazer a seguir.”
Rubínia ouviu e ficou naquele estado de estátua de olhar vítreo, caiu de joelhos e as lágrimas começaram a correr grossas pelas faces, formando um colar contínuo de pérolas cristalinas. Nunca mais veria o seu estimado marido, Tongídio, por quem tanto tempo havia esperado para abraçar. Depois de muitos e muitos meses fixada no horizonte, em poucos minutos perdera a razão da sua preocupação e apercebera-se da inutilidade da preocupação: por mais que montasse guarda aos trilhos do Leste, jamais o veria a chegar…
Pela manhã ainda Rubínia permanecia junto do lugar onde o seu chefe lhe apresentara a morte e lhe entregara umas quantas pedras para construir a sepultura. Já não tinha razões para continuar viva.
Foi quando se abriram novamente as portas do Concílio dos Ilustres e saiu Alépio, já recomposto para reiniciar a viagem até Brácara. Uma noite de repouso e bom alimento rejuvenesceram-no. O semblante carregado é que teimava em perdurar.
Rubínia, assim que o viu, aproximou-se e disse-lhe: “O meu marido fazia parte da tua hoste. Apesar de serem em grande número, talvez te lembres dele. Tinha algo que o marcava. O meu nome é Rubínia e o meu marido é Tongídio. Ele tem uma tatuagem circular azul na face direita e uma outra com a figura de um urso, ao longo do braço direito. Usa também umas vírias de ouro com incrustações de pedra azul-turquesa. O escudo e a falcata também estavam assim adornados. Viste alguém assim?”
Alépio manteve-se em silêncio, contemplativo, para depois responder: “Lembro-me sim. E o nome seria suficiente para o identificar. Tongídio combateu a meu lado inúmeras batalhas. Aníbal soube respeitar a origem dos seus homens, colocando-os lado a lado por proveniência. Nós servíamos no mesmo flanco. O teu marido, com a força do urso tatuado, brandiu a falcata em sinal de morte para muitos inimigos. Sempre foi um dos guerreiros mais formidáveis. Nós éramos tão amigos quanto uma guerra permite o crescimento de uma amizade. Foi também por o admirar que por aqui passei antes de entrar na minha própria cidade.” Olhou para as nuvens calmas e ficou novamente contemplativo. Retomou: “No dia fatídico da tragédia, Tongídio, generoso de força e companheirismo, acudiu a todos os lados da batalha. Conseguiu animar os companheiros e permitir assim a fuga de muitos, resistindo e atrasando os algozes. Graças a ele e a uns quantos de alma tão grande como a dele, a ruína não foi total e o exército conseguiu salvar uma chusma de gente experiente e mesmo Aníbal.
Após a fuga, o general enviou uns quantos homens disfarçados às cidades e lugarejos vizinhos onde romanos e aliados relaxavam e se divertiam após a vitória. Queríamos saber o acontecera aos nossos bravos que se sacrificaram por nós. Na vila onde estive a espionar soube que muitos foram capturados. Lutaram até desfalecer, ou de morte ou de fadiga. Os romanos falavam sobre eles com respeito e admirados por tanto vigor e determinação. Tanto que os Cônsules decretaram que os prisioneiros não seriam executados. Pelo contrário, seriam enviados a Roma como escravos e ingressariam na escola de gladiadores da república, para mais tarde entreterem as multidões com a sua mestria e arte em combate. Por obra dos deuses certamente, no regresso ao acampamento, escondido, vi passar uma caravana militar que conduzia cerca de três centenas de prisioneiros. Logo reconheci os nossos companheiros. Entre eles, bem destacado, um indivíduo com um urso tatuado no braço direito.”
Alépio sorriu e estendeu o braço para levantar Rubínia: “Portanto, mulher do grande Tongídio, a tua esperança não pode empalidecer. O teu homem está longe, mas vivo. Em Roma o encontrarás, provavelmente.”
Rubínia lançou fulminante olhar sobre o trilho que segue para Este e sorriu também.
(Continua…)
Andarilhus “(º0º)”
XII : VIII : MMVIII
Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
Das Certezas (tomo IV)

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Sempre que contamos com o coelho na cartola
Ficamos desolados quando o bicho lá não está.
Todavia, trata-se de um tristeza desacertada:
Mais importante do que toparmos (ou não) com o coelho
É – sem dúvida – termos (ainda) a cartola…
É prudente sermos apenas o pouco que temos
Do que sermos a ilusão do muito que gostaríamos de ter…
Uma brisa fresca e perfumada,
Uma paisagem colorida,
Uma melodia da tuna animal,
Uma companhia estimada,
Uma profissão vivida,
Fazem a soma do tanto que é essencial…
Andarilhus “(º0º)”
XI : VIII : MMVIII
Lírica: Franz Ferdinand: Cheating on you
Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008
De Olhos Fechados...

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Entra com calma. Fixa-me com serôdio desviar de atenção. Cerra os olhos para que possa ler o teu rosto. Com esse olhar assim intenso embaças qualquer iniciativa, anoiteces o brilho do sol. E eu, eu fico irrequieto e sem bolsos onde meter tanta multiplicação de gestos disparatados das mãos.
Abranda, recolhe essa cor de folha de Outono que cora os teus feitiços íris, amansa a tua retina de poderosa prisão. Não apertes tanto a dominância da tua presença, deixa-me espreguiçar na tua contemplação. Silêncio… não reprimas a minha ousadia de te observar, não me encandeies com essas duas chamas morenas…
Porque me olhas assim?! Acaso buscas encontrar em mim algo que há muito procuras em ti? Propalada aventura a de esperançar conhecer o outro…
Subtrai-me da tua visão. Vem no escuro do salto relâmpago. Entra directa no coração. Não fites os portões da afeição silenciosa; invade de imediato o átrio, a sala o esconderijo daquilo que sou.
Ou então, acerca-te de fininho a assobiar para o céu de cima e deixa-me a admirar o paraíso perante mim, a deusa que em ti acarinho, a mulher que em ti admiro. E se assim for, não haja pressa… entra com calma. Deixa-me saborear o movimento preguiçoso das partículas inertes enquanto assentam na tua magnífica figura, na tua imaculada pele. E não me ofusques! Mantém esses olhos longe dos meus, que eu morro ou fico petrificado, medusa de bem-querer!
Porque me olhas assim?! Acaso buscas encontrar em mim algo que há muito descobriste em ti? Propalada aventura a de esperançar reconhecer no outro…