Quarta-feira , 30 de Novembro DE 2011

O (desen)canto da sereia

http://maurilioferreiralima.com.br/wp-content/uploads/2011/11/ulisses-300x245.jpg

 

Procurou o lugar do início,

Procurou-o como um fim,

O fim, o adeus…

O mar nada lhe disse;

Continuava no mesmo vai e vem

Ondulado,

Tal qual as marés dela sobre si,

Num trabalho cuidado

Em o manter incerto,

Nem longe nem perto,

Apenas a orbitar, apenas a jeito.

 

Fora ali

Que o pescara

Com redes de amante tentadora,

Acorrentando-o a âncora de paixão

Em águas de lírica de ilusão,

De pouca dura,

Apenas o suficiente…

Até que,

Após fugaz Primavera,

Se desvendou a natureza

Daquela criatura:

Sem ser para partilhar,

A sensual mulher,

Afundou com a máscara,

Emergindo ao luar,

Escamada barbatana

De sereia disfuncional …

 

Quando vê o vento de revés

Cinge o velame feminino

E ainda canta

Do alto da ilha dos amores.

Mas ele, desidratado a coral,

Escuda os ouvidos, amarra os pés,

Aos mastros de frágil embarcação.

Resiste aos avanços do anzol,

Já não navega no viço de flores de sal

Onde ela fisga os perdidos

Que bolinam nos charcos da solidão.

 

Agora que perdeu sentir,

Passou no lugar do início,

Procurou-o por fim…

Sem advir.

Passou por ela

Mas não a encontrou.

O mar já não o fazia suspirar…

 

Andarilhus

XXX : XI : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 07:58
Quinta-feira , 03 de Novembro DE 2011

Os Abandonados

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O céu arde!

Caem os anjos celestes

Como gotas de sangue

Da rachadela calcinada

No abismo do rebentamento

Do Sol,

Dos senhores de toda a criação.

Já é tarde

Derivam, exangues,

Com a verdade bem ferrada

Sem lamento

Da sua prol ungida,

Saídos do covil

Para abocanhar

Os nacos dos defuntos

Progenitores.

O céu enegrece em brasas

Sem cimo ou pedestal

Caem estrelas em constelação,

Esfolam-se os santos

Subtraem-lhes as relíquias

Arrancam-lhes os halos

Entronizam-nos

Nos altares da decadência.

E mesmo no rombo dos mundos

Alguém se esquece,

Ninguém se lembra

Dos anjos mundanos,

A plebe enlameada

Sem coroa, sem púlpito,

Pagã, agnóstica

Sem alinho, sem cartilha

Arrastada no definho

Sem abrigo, abandonada

Sob os tições, os cacos de linho

Tombados, fumegantes

Da ordem, da fé,

Dos altos da corrupta virtude…

O céu arruína-se na multidão,

Queimam-se os vivos

E os sobrevivos,

Na dor do caos,

Da derrota, da perda

Os ímpios, os marginalizados

Estão mais próximos,

Mais iguais

Mas sempre

Abandonados

Mais…

Abandonados.

 

Andarilhus

III : XI : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:03
Quarta-feira , 12 de Outubro DE 2011

Por Ti Seguirei... (Epílogo)

http://flawegmann.files.wordpress.com/2010/07/celta1.jpg?w=396&h=628

 

A hora era já derradeira na claridade. No horizonte, numa repetição a que recuperara o hábito, a vigília introspectiva propagava-se pelo acolhimento do crepúsculo. O tombar do Sol amadurecia por mais um dia a reflexão sobre o passado recente, o momento presente e a perspectiva do advir.

Rubínia, lá bem no topo do promontório que definia o centro do povoado, olhava, como tanto gostava, para a entrada Este, bem demarcada no terceiro e mais exterior anel do sistema amuralhado de pedra ciclópica. Todos os dias, dentro do possível, ali galgava, fintando as fragas cascudas e algumas giestas que irrompiam intempestivas por entre o solo e a pedra. Movia-a o encontro e a carícia da brisa, como voz, como toque de outras dimensões; desejava expor-se aos sinais, à inspiração dos deuses, que lhe oferecessem a ponderação de equilíbrio necessária para alcançar algumas respostas, algumas certezas, sobre a sua condição, a sua vida.

 

Quando já se viam os primeiros fumos a libertarem-se por entre o colmo dos telhados das típicas casas de planta redonda e a noite começava a sugar a luz natural, teve ainda tempo de recordar o instante em que colocou Tongídio, desajeitado, de joelhos sob a ombreira do templo maior de Panoia.

A inusitada circunstância ocorrera quando, alguns dias depois de regressarem a Tanábriga, impondo-se o agradecimento das dádivas, conselhos e protecção recebidos de Trebaruna e de outras divindades, decidiram visitar o Santuário de Panoia e realizar as suas preces e ofertas.

Foi o momento que considerou oportuno. Assim que entraram no recinto sagrado e foram, primeiramente - como manda o ordenamento ritual -, prestar os seus respeitos ao concílio dos deuses, no Templo Central, logo à entrada, sob o olhar granítico e fulminante do atento Reva Marana, estacou, deteve o avanço de Tongídio, segurando-lhe as mãos e disse-lhe, então: “Meu querido, acertaste quando contrariaste o teu desejo de fazer parte da delegação que partiu para Roma. Sabe que é agora que eu preciso mais de ti. E não sou só eu. Há mais alguém que, apesar de eu o suspeitar há já algum tempo, só se revelou logo que arribamos ao nosso povoado. Tenho agora a certeza que fomos abençoados com o dom da concepção; vamos ser pais…

Não contava com reacção negativa de Tongídio, porém sabia que um rebento seria, de todo o modo, um factor que tolheria a constante ânsia de aventura, a liberdade de movimento do enérgico marido. As lágrimas precipitaram-se, ainda em dúvida se estaria a dar uma boa ou inoportuna notícia ao companheiro.

Tongídio desceu um degrau, carregado nas feições, mas com os olhos esbugalhados. Nada disse, prostrou-se de joelhos, afagou e beijou repetidamente a fecunda barriga, abraçou-a pela cintura e ali ficaram em feliz contentamento, até que tiveram de dar passagem a outros acólitos. As lágrimas de Rubínia engrossaram, agora de alegria e certeza.

Visitaram Trebaruna, no mesmo lúgubre espaço entre altas fragas e tapado com a manta desbotada de sempre, onde se haviam conhecido. Dedicaram à divindade. A mulher relembrou particularmente a intervenção da deidade quando muito padecia em Pallenda.

Esse episódio puxava por tantos outros, como imagens que saltavam à consciência e até arrepiavam o corpo, de vivências e sobrevivências tenazmente vencidas para cumprir aquilo que a havia impelido numa demanda, que a princípio, pensava então, seria breve e circunscrita, mas que acabou por a levar a deambular por boa parte da Ibéria e a impelir a própria Ibéria para os desafios do seu futuro. Recuperara Tongídio e ajudara a libertar a sua amada terra do jugo e da exploração do soberbo inimigo.

 

Sim, podia afirmar que viviam agora tempos em que tudo estava na ordem de acontecimento e de lugar. Em breve a delegação estaria de regresso, certamente com excelentes notícias e tinha assim mais do que garantida a presença do marido a seu lado, concentrado na família e nos negócios.

Recordava-se, também, como há dias, quando entravam finalmente em casa, após tão longa ausência, tudo parecia igual mas, também, absolutamente diferente. Crescera com as experiências somadas. Sentia-se de volta ao reduto, ao casulo da crisálida, embora sentisse que já havia ganho as asas de borboleta e o ferrão da abelha, que lhe permitiram superar as distâncias da dificuldade e a agressividade das adversidades.

 

No alto do promontório de Tanábriga, Rubínia olhava para a porta Leste e esperava… desta vez, não só por Tongídio, mas também pelas sempre acalentadas lembranças da sua aventura e o consequente restabelecimento do quotidiano.

Se fosse menina, chamaria “Bolota” à criança que trazia no ventre, em honra da sua amiga, ou “Tongidínio”, se fosse varão, para seguir a tradição do seu clã.

Ainda não o sabia, porém, chegado o momento, nasceria Tongidínio, entre estações, no permeio do maduro renovo e do precoce estio, o qual, por sua vez, entre os seus filhos, conceberia uma menina de nome “Rubea”. Esta neta de Rubínia, atingida a idade de matrimónio, desposaria um tal de “Cumínio”, natural de terras mais a Sul, com quem formaria a família progenitora do mais ilustre Lusitano que a Ibéria conheceria. Dar-lhe-iam o nome de “Viriato”.

 

Após um curto repouso e já entediado com a vida demasiadamente confortável de casa, Tongídio partira com o sogro, por um curto período, guiando uma caravana mercante para os povos do Norte. Fruto dos novos conhecimentos, inauguravam uma nova rota comercial com destino aos domínios Vacceus. Levavam uma grande variedade de artigos para escambo pelos metais nobres, armas e gado equídeo, de tão boa qualidade, como só Gurri e os seus conterrâneos sabiam produzir.

Para o Lusitano tratava-se, sobretudo, de mais uma oportunidade para viajar e visitar os amigos. Porém, quando lá chegou, os nativos deram-lhe conta da ausência de Gurri e dos seus guerreiros mais próximos. Abalara para território Arevaco. Primeiro a Numântia, cumprindo a promessa dada a Irineu e depois a Pallende, para visitar familiares e também Bolota.

Tongídio deu atenção ao trato comercial. Deslocou-se a várias povoações, onde foi sempre bem recebido e logo reconhecido pelas tatuagens azuis, que o associavam às narrativas, já difusas e célebres, das recentes façanhas.

Quando de volta, Gurri encontrou Tongídio já a preparar a viagem de retorno a Tanábriga. Pediu-lhe apenas um dia de espera, para acertar alguns assuntos domésticos e militares, para depois partir com a caravana para Ocidente, e matar saudades de Rubínia e outros. Estavam muito satisfeitos pelo reencontro, mas também algo apreensivos com as notícias confusas sobre a delegação ibera, recolhidas entre os Arevacos.

 

A penumbra abafava os sons e os brilhos do dia, com a paciência pausada de tudo adormecer em embalo suave, decidido. Sentia-se o frio montado num vento irreverente que fizera correr a brisa tépida para longe. Rubínia cerrava o manto de lã, erguendo-se da fraga que lhe servira de assento para volver ao convívio com familiares e vizinhos. A mãe ficara com ela, enquanto Físias se ausentava com o genro. Já teria o fogo aceso e o pote de ferro a aquecer, prestos para preparação da refeição nocturna e agasalho.

No alto do promontório de Tanábriga, Rubínia olhava para a porta Leste e despedia-se do seu fado, das suas viagens, dos seus sonhos, com um “Até amanhã…”, sussurrado. Deu o primeiro passo descendente, porém sentiu uma enorme ânsia de lançar um derradeiro olhar para a porta do destino. Focou o olhar: uma correria de cavaleiros, ainda tão distante que não se lograva qualquer som - apenas se avistava -, apontava à entrada na cidadela. Quem seriam? Teve um esgar de pronuncio, de sensação de inesperadas notícias que voltariam a revolver a sua vida… Seria?!

Apesar do anoitecer, com a aproximação, reconheceu facilmente o marido, e os restantes… Sim! Aquelas figuras compactas, com cabeleiras longas muito claras, quase albinas sob as tonalidades do ocaso, só poderiam ser Vacceus, e o de diante parecia mesmo Gurri. Sim, também confirmava a presença daquele. O que se estaria a passar? Para quê a pressa?! Desceu o mais rapidamente possível. Como Alépio outrora, eles dirigiam-se para a Casa do Conselho.

 

Aegídio já conversava com os elementos recém-chegados, formados em semicírculo.

Rubínia! Rubínia! Que bom ver-te.” Disse Gurri, com a voz elevada.

Sim, minha amiga, que felicidade poder agora cingir, sem que haja grilhões ou condições de disputa que nos apartem.” Secundou Bolota, surpreendendo a amiga com a sua presença. Correram a abraçar-se em grande alegria e festejo.

 

Rubínia juntou-se ao grupo, de sorriso aberto, cumprimentou os visitantes e encostou-se a Tongídio.

Que Trebaruna continue a dar-me estes excelsos momentos. Já nos começamos a reunir e em breve, outros teremos em comunhão, quando deixarem Roma e regressarem à Pátria. Alépio – esse, então – deve estar a remoer argumentos para concluir rapidamente o tratado com os do Lácio, para tomar o caminho para a Ibéria!

Era exctamente sobre a delegação que falávamos a Aegídio e as estranhas e, por vezes, contraditórias novas que chegam de Sagunto. Afirmam que viram os nossos representantes entrar no baluarte romano e, no dia seguinte, a embarcarem nos seus navios, com destino a Roma. Tudo decorreu de forma tranquila e aparentemente normal. Contudo, disseram também os observadores que, quanto a Iberos, só se terão feito ao mar menos de uma centena e que as portas de Sagunto estão permanentemente encerradas, o que não acontecia antes. Poucos são autorizados a entrar e a sair do sítio.

E Tongídio continuou: “Numântia, seguindo a opinião de Gurri, enviou uma coluna de batedores perscrutar as imediações de Sagunto, para reunir informações. Se necessário, contactarão directamente os Romanos, na fortificação. Resta-nos agora aguardar e votar para que tudo tenha corrido bem e dentro do previsto.

Acredito que sim! Logo, logo, chegarão novidades sobre Alépio, Talauto e os restantes, se não forem eles mesmos a portarem-nas.” Atalhou a optimista Rubínia, para mudar de assunto, segura que estava no êxito da missão: “Agora quero saber como pude ser afortunada com a presença de Bolota, aqui, na minha terra!? Despeçam-se de Aegídio, por ora, e vamos para casa. Deveis estar famintos e há muita conversa para pôr em dia! Já repararam na minha barriguinha?! Tenho um milagre a crescer dentro de mim!” Abriu a manta e expôs a ainda pequena, mas notável, gravidez.

 

Com algum alvoroço, percorreram as ruelas até ao conjunto de casa circulares, confinadas por um muro de meia-altura, pertences de Tongídio e Rubínia.

Alguns frangos, peças de caça, frutos e vegetais silvestres e ainda as castanhas novas passaram de mão em mão, pelos comensais, sentados sobre mantas, no chão. Os rostos risonhos reflectiam as chamas da fogueira central, por entre gargalhadas e figurações a retratar gestos e acontecimentos, palavras e todas as memórias das vivências comuns.

O repasto perdurou, enquanto a Lua empertigada buscava o zénite no firmamento. Os cães ladravam aos pequenos sons impertinentes que rasgavam o sacro silêncio da noite. Dentro da morada alegre, ninguém os escutava, concentrados nas histórias, velhas e novas, felizes pelo amor que reunira Gurri e Bolota, felizes pelo amor que brotara a semente da criança que Rubínia carregava no ventre; felizes pelo reencontro, pela paz, pela união.

 

O sono, empurrado pelo cansaço, tomou amparo entre os convivas, quando já estes faziam planos para o futuro, perspectivando a influência daquela irmandade em proveito da maior consistência e aliança entre os povos Ibéricos.

Como vaticinadores e sem o imaginarem, a determinação das forças positivas que geraram e mantinham tão espontâneos e firmes laços de afecto e amizade, seriam colocados novamente à prova, perante a retoma de insidiosas investidas dos invasores da Ibéria.

Agora descansavam, entre sonhos de confiança num advir próspero e sossegado. Porém, pela manhã, assomaria um grupo de guerreiros Arevacos a Tanábriga. Seriam mensageiros de uma realidade preocupante e que obrigaria a colocar a tenacidade e a resistência ibéricas em alerta e movimento.

 

Os batedores que se haviam aproximado de Sagunto recolheram rumores e confirmaram-nos quando encontraram um grupo de Vetões e Calaicos, esfarrapados, com feridos e moribundos, que revelaram a perfídia dos Romanos.

Souberam então que, Fábio, homem honrado, pretendia cumprir o pacto firmado com Alépio. Porém, no acampamento que precedeu a chegada a Sagunto, foi traído pelos seus subordinados de maior patente. Assassinaram-no enquanto dormia, aniquilando de seguida os partidários íntegros do Tribuno e subornando os restantes. Tomaram o poder e, na sequência, ficaram com o caminho livre para abater a guarda do campo dos Iberos, chacinando os que não conseguiram subjugar e capturando todos os outros. Depois, sedaram-nos para os fazer entrar na cidadela e, daí, alguns nas embarcações, para seguirem para a servidão a Roma.

O contingente de representantes sofreu forte castigo, desmanchando-se entre mortos, prisioneiros nos calabouços da fortaleza do inimigo e primeiro conjunto de escravos despachado por mar.

 

Rubínia, quando conhecedora da traição e dos incidentes conjugados, sobressaltou a ainda ensonada Tanábriga, expelindo um profundo fôlego de respiração quente, entre a neblina fria matinal, enquanto vibrava um profundo grito indómito e de raiva:

 

Ibéria nada temas! Por Ti Seguirei!!!!!!.....................”

 

 

 

FIM

 

Andarilhus

XII : X : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:24
Sexta-feira , 07 de Outubro DE 2011

Por Ti Seguirei... (67º episódio)

http://caminhocelta.blogspot.com/2009/11/lendas-celtas.html

 

Rubínia abraçou carinhosamente Zímio, irrompendo em pranto contido e soluçado, enquanto embalava o corpo sem ânimo. Tongídio juntou-se-lhe no abraço e todos se aproximaram, sentindo enorme pesar. Ali ficaram por algum tempo.

Talauto buscou uma manta, onde colocaram o falecido, já aliviado do varapau lascado que o fulminara irremediavelmente. Levaram-no para Ribasdânia, carregado em ombros.

Fábio ordenara também a recolha das duas partes do corpo de Quintus. Inumaram-no aos pés de um grande carvalho. Se fora razão de sofrimento e morte para muitos homens, agora seria sustento de um magnífico espécime vegetal ibérico, longe da sua pátria.

 

Alépio acordou com o Tribuno que o exército romano deveria agrupar todo no vale, iniciar o levantamento do acampamento e preparar a logística para partir, com todos os efectivos, inclusive os enfermos e feridos. O prazo para a saída ficava marcado para daí a três dias.

A comitiva de Iberos também estaria pronta para os acompanhar, dentro do acordado no princípio de tréguas.

 

Pelo entardecer, o corpo de Zímio estava limpo, recuperado, purificado e solenemente adereçado para o rito fúnebre. Construíram-lhe um palanque e, sobre este, um entrelaçar de múltiplas camadas de ramos, mais alto do que o habitual. Rubínia pedira uma pira funerária digna de um chefe.

A grinalda de flores viçosas, colocada na fronte, transmitia a cor de vida que faltava ao defunto. Colocaram as armas a seu lado, as vírias e o torque cerimonial, alguma comida, cerveja e um amuleto muito antigo, talhado numa estranha madeira muito escura, único elo remanescente que, desde sempre, ligara Zímio à sua família natural, de quem o fadário o tinha apartado desde que mal principiara a andar.

Entre as ramas espalharam ervas e pequenos galhos secos. Regaram tudo com gordura animal derretida. A incineração deveria ser total para que aquele que partia chegasse ao outro lado com todas as suas capacidades e posses.

Ao sinal da companheira, Tongdio atirou a tocha acesa para meio da estrutura. O lume alastrou-se faminto pelo sebo, ouvindo-se quase de imediato os estalidos da massa vegetal. A labareda galgou pela pira, alcançando o cadáver e consumindo tudo com grande fulgor e rapidez.

 

No interior e pelas cercanias de Ribasdânia, ensaiaram-se alguns festejos pelo término da guerra, porém compostos por manifestações de alegria muito contidas e de fraca expansão. O conflito fora longo e destruíra um sem número de recursos e vidas. Os que prevaleciam conheciam alguns ou pelo menos alguém dos que haviam perecido, com diferentes graus de parentesco ou amizade.

Chegara agora o momento de reconstruir, povoados, populações, famílias. Regressar aos lares e reocupar as casas.

Sobretudo o território vetão estava absolutamente desorganizado e muito marcado pelas chagas da guerra. Iria demorar a reunir os habitantes tresmalhados por serras e leiras ocultas em longínquos e isolados lugares, a arrancar com a reconstrução e a retoma das actividades normais do quotidiano.

 

Passaram-se os dias aprazados na recuperação dos feridos e preparativos de debandada das comitivas dos diferentes povos. Trocaram-se abraços de amizade e promessas de reencontro e de alianças duradouras.

Cada tribo indicou um conjunto de guerreiros, entre líderes e escolta, para o contingente ibero que acompanharia o destroçar dos Romanos. Elegeram um triunvirato, composto por Alépio, Irineu e Talauto para conduzirem a delegação. Ao todo eram cerca de 350 homens.

Tongídio também pretendia acompanhar os amigos, mas logo entendeu que era altura de abraçar outros dos seus deveres; alguns dos quais descurara, por força das circunstâncias ou mesmo por algum exagero de intrepidez e aventura, que admitia, tão-somente no seu íntimo. O olhar de Rubínia mostrava-lhe que não a poderia abandonar, desta vez. Decisão ponderada, como o futuro próximo lho justificaria, por motivos diversos.

 

Primeiro abalaram os povos do Sul - Cónios, Túrdulos, Batestanos, Turdetanos e os arqueiros Cartagineses -, em conjunto. Os restantes guerreiros ibéricos concentraram-se ao longo do início do caminho que os levaria de regresso, para saudar em despedida, sempre em desgarrada de gaita-de-foles e outros instrumentos, entre a gritaria alvoroçada. Passariam por Lijós e daí para Sudoeste, em busca da costa Atlântica, a qual contornariam até encontrarem o Grande Mar Interior, junto ao estreito que aproximava a Península à Mauritânia.

Seguiram-se os do Norte e da Meseta da Ibéria. Também agrupados e desaparecidas as velhas rivalidades, Astures, Cantábricos, Vascões, Vacceus e Arévacos, marcharam lado a lado, alegres e festivos com as despedidas dedicadas dos aliados.

Mais intensa foi a despedida de Gurri com amigos de sangue, granjeados na epopeia em que o destino o envolvera. Abraçou calorosamente Alépio, Talauto e Tongídio para, depois, ir ao encontro de Rubínia e segurar-lhe as mãos: “Amiga, irmã… o Gaulês tinha razão: és uma deusa. Ou pelo menos, és uma enviada dos deuses! Dou-te todos os louvores previstos só para as divindades, pela Ibéria, pelo meu povo e por mim, também. Deste-me uma missão, um fim, que enobreceram e valorizaram os meus dias. Sou agora um melhor indivíduo, um melhor líder… um melhor amigo. A minha amizade é eterna para contigo e os teus; e a minha vida também será tua, sempre que o necessitares. Deste o exemplo e agora sou eu – e muitos outros – que por ti, pelas tuas causas, seguirão sempre! Espero rever-vos em breve. Visitar-vos-ei!

Finalmente, garantiu a Irineu que acompanharia e auxiliaria os caudilhos arevacos enquanto ele estivesse ausente. Visitaria também Bolota. Sem vazar as lágrimas que bordejavam as pálpebras, retendo-as no seu orgulho de guerreiro, montou e acelerou o trote para alcançar os seus, que já se adiantavam.

 

Assim que Fábio enviou emissário, declarando-se pronto a partir, Alépio deu ordens para se juntarem aos do Lácio. Tomariam a direção de Sagunto e, após essa escala, passariam a Roma, para os acordos e o tratado de paz.

No raiar do Sol matinal do dia seguinte, todos estavam apostos para a jornada. A separação era dura e difícil após o acumular de tantos momentos inesquecíveis, partilhados pela irmandade de amigos, que o destino resolvera congregar.

O Brácaro, mais emotivo que os demais, não escondia a tristeza do afastamento, e sempre ia dizendo que partia para tratar do futuro da Ibéria, mas logo regressaria para bem perto daqueles que agora tinha por família.

Talauto, em longo abraço a Tongídio, pedia-lhe para visitar seu idoso pai, Talamo, em Obila e o ajudasse em alguma coisa que fosse necessária. Entretanto, Pardo e Mauri ficariam responsáveis pela segurança e reconstrução. O Lusitano comprometeu-se.

Rubínia agradeceu a ambos o apoio e a força com que se haviam empenhado na sua demanda. Desejou-lhes sucesso nas negociações e a máxima cautela com os estrangeiros. Não eram de confiar. Por fim e para amenizar um pouco a tensão que se sentia no ar, gracejou, dizendo que os aguardaria com Tongídio e Gurri, junto às saudosas termas de Obila. Devia o acerto de conversas a Talauto.

Partiram, à cabeça do grande contingente ibérico e romano. O pequeno grupo sobrante de Titos e Belos integrava-se também na coluna, uma vez que se dirigiam para uma zona contígua do Sudeste ibérico.

 

Os restantes ficaram mais um punhado de dias por Ribasdânia, auxiliando na limpeza e recuperação do lugar, assim como de Ortas. O Pendão foi abandonado ao avanço da natureza e não sofreu novos trabalhos de fortificação.

De todos os clãs do exército ibérico, destacou-se um número significativo de guerreiros, alguns deles já acompanhados das famílias, outros que, através dos que regressavam, enviavam mensagens para que a eles se reunissem, decididos a ficar e povoar aquelas paragens.

Em breve surgiriam pequenos assentamentos populacionais, de um ou mais casebres, que originariam, com o tempo, povoados de quintas e de aldeias.

 

Terminados os trabalhos e emanados para o além todos os cadáveres, por expedito fumo de piras gigantescas, comuns, chegou o momento de desmanche do ajuntamento das três principais tribos celtas. Vetões rumariam a Nascente e Lusitanos e Calaicos tomariam as sendas para Ocidente. Sacrificaram em agradecimento ao grande baluarte. Ribasdânia ficava-lhes no pensamento e mantinha-se nos seus corações.

Tongídio liderou a força conjunta de Lusitanos e Calaicos até ao termo de Tanábriga. Aí, as diferentes tribos e clãs saudaram-se fraternalmente e dirigiram-se para os territórios e cidadelas das suas gentes. Para muitos, era o regresso depois de um longo período de ausência.

A aproximação dos contingentes de homens (e mulheres) de armas aos povoados causava o alarido e a curiosidade de ver quem chegava e de quem faltava. A surpresa inicial com a massa compacta de gente que se acercava ao longe dava, paulatinamente, lugar ao choro de alegria pelo reconhecimento e ao conforto do abraço, do beijo e, na mesma medida, motivo ao choro da amargura e ao grito da desilusão com a falta daquele ou daquela que com tanto fervor, eram aguardados. Os povoados enchiam-se novamente de população, notícias e novidades, trazendo a alegria, mas também a dor e o luto aos familiares dos parecidos na guerra.

 

Assim ocorreu também na entrada de Tongídio, Rubínia e conterrâneos na cividade lusitana. Aegidio aguardava-os junto às portas principais, ladeado pelos anciãos e ilustres e acompanhado por grande multidão sôfrega por ver os seus regressados de perto e tocar-lhes.

 

Andarilhus

VII : X : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 22:27
Terça-feira , 27 de Setembro DE 2011

Por Ti Seguirei... (66º episódio)

 

http://fotos.sapo.pt/9caoJSgsuqBS9mBVgaW4/340x255

 

O processo de inscrição do pacto ainda demorou um pouco. Durante a espera, os romanos iam bebendo umas taças de vinho enquanto, em frente, os iberos puxavam pelas cabaças e odres de cerveja. Quintus era o único que continuava resmungão. Por tanta insistência, já ninguém lhe prestava atenção, nem mesmo os guardas que o vigiavam.

Terminados os dois registos, iguais, Fábio entregou um a Alépio, para que o conferisse. Com o pergaminho na mão, o Brácaro olhou para a mancha textual, em latim, e depois para o Tribuno. Sorriu e virou a cabeça para o lado, mostrando que falava para trás, para o seu grupo.

Rubínia fazes falta aqui. Adianta-te e vem explicar estes rabiscos por palavras que se entendam. Vem juntar as letras.

A mulher respondeu de pronto ao solicitado, avançando. Zímio é que não facilitava e acompanhou-a. Tongídio, aproximou-se um pouco mas não se juntou aos, agora, quatro.

Rubínia leu pausadamente de uma só vez, embora com alguma dificuldade. Após alguns momentos, referiu: “Podes confiar na palavra do Tribuno: aqui está escrito tudo aquilo que foi parlamentado entre vós.

Espanto-me a cada descoberta que faço sobre a Ibéria. Tendes mulheres que dominam o latim! E há energúmenos que vos têm por meio-selvagens. É por estas razões que também Quintus nos levou à fasquia rasa em que estamos…

Temos, de facto, mulheres e homens admiráveis, e muitos! Mas, romano, esta é uma mulher ainda mais notável. Ela é única! Esta é Rubínia, a mulher que fez mexer a Ibéria, moveu a apatia e as disputas que existiam entre os seus povos, unindo-os contra ti e os teus. E porquê?! Tão simplesmente porque ama de tal forma o marido – Tongídio – que colocou o mundo às avessas para o poder salvar, cativo que estava dos vossos calabouços, junto a Sekia. Como vês, esta mulher é o verdadeiro espírito da Ibéria e é a verdadeira líder de todos estes guerreiros. Sem ela, nada disto teria acontecido!

Do lado dos iberos ouviram-se vivas e elogios a louvar Rubínia, em alto e vibrante som, que se propagou até ao acantonamento geral.

A mulher, apesar da experiência, ruborizava e humedecia o olhar, já pensando que a sua árdua demanda chegava ao fim e com sucesso. Entregou o fólio ao comandante, virou-se e preparava-se para retomar o seu lugar, atrás, ainda sob as ruidosas manifestações de respeito, agradecimento e alegria.

Quintus, esquecido na sua insignificância crescente, quando ouviu a descrição de Alépio, começou a estrebuchar, pleno de raiva e tremelicante pelos nervos. Era então aquela a culpada da derrota, a culpada da miséria da Legião e do fim da sua carreira magistral?! Já não conseguiria ascender a cargos mais elevados que tanto ambicionava. Maldita!

Era tamanha a azia que não se conteve. Fora um soldado experiente e exemplar e mantinha ainda a boa condição física. Por isso, foi com facilidade que atirou por terra o guarda, sacando-lhe o gládio e o dardo. Empurrou mais duas sentinelas e chegou-se à frente, em campo aberto. Focou a mulher como alvo e apontou o dardo. Gritou e logo de seguida desferiu a arma: “Vais morrer maldita mulher; não ficarás com os louros por muito tempo. Em ti vingo parte dos males que me fizeram!

Rubínia e Zímio caminhavam a par, de costas para a altercação. Viraram-se com o escutar dos tinires do movimento agressivo e berros de Quintus, mesmo a tempo de presenciarem o arremesso do dardo. Zímio pleno de energia, em reacção atirou-se para a frente da sua Senhora, empurrando-a, em simultâneo, para o lado. Sabia o que fazia. Encaixou com violência o embate da ponta metálica da arma, sentindo-a entranhar-se entre o externo e as costelas, enquanto soltava um baque de expiração. A lança trespassara-o bem próximo do coração, provocando uma forte hemorragia e determinando um breve trecho para o restante da sua condição de vida. Tombou de lado, espumando sangue, enquanto chamava por Rubínia, em tom quase inaudível.

Zimio!!!! Meu querido Zímio!!!!

A mulher era a imagem do terror. As feições estavam irreconhecíveis, pálidas e transtornadas. Lançou-se imediatamente sobre o ferido, puxando-o para si. Já lhe corriam as lágrimas em abundância. Acercaram-se outros, carregados da mesma dor e tristeza, sobretudo Tongídio, que se sentou na poeira eriçada e amparou Zímio sobre as suas pernas e encostado ao peito.

Quintus, não muito afastado, deixava correr um misto de satisfação e frustração. Atingira um dos execráveis, mas não era o que mais desejava aniquilar. Contudo, ainda dispunha do gládio… Porque não?! Antes que os legionários lhe deitassem mão, desatou a correr sobre os Iberos, gritando e elevando a arma.

Rúbinia ergueu-se. Faiscava do olhar, dir-se-ia. Movia-se pausadamente como figura transcendente de deidade. A deusa da morte, o semblante do ódio, o encorpado desejo de provocar flagelo, dor aguda, a alguém. Queria trucidar aquele ser maléfico que se aproximava.

Amparem Zímio, rápido. Vou arrancar a cabeça àquele animal!” Solicitou Tongídio, enquanto passava o moribundo para os braços de Talauto.

Não Tongídio, espera. Deixa que o destino cumpra a sua trajetória. Isto deve estar premeditado algures nas estrelas. Será a tua mulher a cumprir com os oráculos, a concretizar o sussurro dos deuses…” Susteve-o Alépio.

Rubínia já retirava a espada da bainha. Avançou alguns passos, em linha de choque com o romano. Encontraram-se bruscamente. O gládio carregou mas conteve-se na lâmina contrária, adestrada por pulso firme.

A mulher, na aura absoluta de guerreira, concentrou-se em tudo o que aprendera, muito do qual com o amigo que falecia e, com alguns movimentos de assombro, tão viperinos como quase invisíveis pela velocidade de movimento, fez saltar a arma de Quintus, fez-lhe um ligeiro rasgão na gorja, talhou-lhe os músculos das coxas e fê-lo, assim, ajoelhar.

O Cônsul encarava o seu carrasco, de mórfica silhueta feminina, permanecendo mudo e cabisbaixo. Olhou para os seus e não viu reacção. O grande arrogante, preso na teia do medo, começou então a suplicar e a pedir que o poupassem. Humilhou-se a clamar por Fábio e os restantes oficiais, instigando-os no seu socorro.

Alguns legionários, mais sensíveis ao seu patrício, propuseram-se a valer-lhe, porém o Tribuno interpôs-se: “Mantenham as vossas posições, todos! Hoje, custe o que custar, vamos alcançar tréguas!

Cão sarnento que não soubeste respeitar os teus, nem dar o devido valor ao inimigo. Não propagarás mais o mal e o fel que te alimentam. Olha bem para o Sol, para a tua última vista desta existência…” Falou-lhe baixo, Rubínia

Não me mates! Pagarão um bom resgate pela minha pessoa! Terás tudo o…” E mais não disse, porque a cabeça soltara-se do corpo e rebolara um pouco, com o golpe circular, decidido, da guerreira. O corpo manteve-se inclinado por breves instantes, para tombar depois para a frente, ensopando a massa argilosa daquela terra fértil.

 

O grupo avançado ibérico colocou-se em alerta, expectante por uma eventual carga de retaliação, vinda da outra parte. Contudo, Fábio teve autoridade para segurar os ímpetos.

Rubínia… Rubíniaaa…” Escutou-se enfim, no macabro silêncio que se propagara no lugar. Era Zímio, num derradeiro e sofrido chamamento.

A mulher regressou à sua natureza mundana e correu para o amigo. Tomou-o nos braços, enquanto Tongídio o ajeitava numa posição mais confortável, como se isso fosse possível.

Meu bom Zímio, que arriscaste a tua vida pela minha… A lança procurava o meu corpo e não o teu. Vamos tratar de retirar a arma e fechar-te a ferida…

Já é tarde. Os meus dias terminam aqui, em alguns momentos. As forças esvaem-se, sinto-o… Já vejo a passagem nas alturas, por onde atravessarei, com destino ao além. Escuta-me, enquanto posso dizer-te o que nunca te disse.

Fiquei cativo ainda em criança. Fui escravo em algumas casas, onde me tratavam como mais um animal, explorado até às últimas forças nos mais duros dos trabalhos. Porém, os deuses apiedaram-se de mim e trouxeram-me para domínio dos teus pais. O teu nobre pai, Físias, resgatou-me de uma mina, pagando uma pequena fortuna, porque, na sua grande alma, não suportou ver um jovem de tenra idade a esgaravatar minério. Pagou ao capataz, levou-me, alimentou-me e deixou-me descansar os males sofridos, por uma longa temporada. Tratou-me como um filho, na verdade.

Mais tarde, pouco depois do teu nascimento, confiou-me a tua guarda e parte da tua educação. Acompanhei-te sempre de perto, com os mesmos cuidado e o carinho que tivera do meu Senhor. Vi-te crescer, ensinei-te o que houvera aprendido, emendei-te as falhas e desacertos próprios da juventude e… no meu silêncio, pelo respeito da minha condição de servo, criei em mim, aquilo que julgo que será a afeição… o amor… de pai… por ti.

Nunca tive família, na sua forma comum; tive sim a família que me adoptou e uma “filha”, que me entregaram e a quem muito amo, de nome… Rubínia.

Por isso, se era minha obrigação servir-te de escudo ao perigo do dardo, era também minha paixão dar a minha vida pela tua, sempre que necessário, desde que te vi pela primeira vez, brilhante e rosada no pano de linho que te envolvia no berço… filha! Desculpa Senhora tratar-te assim, com tanta imprudência para um servo; perdoa o abuso deste moribundo…

As lágrimas correram, juntando-se aos fios de sangue que continuavam inexoráveis na sua propagação.

Rúbinia lacrimejava igualmente, deixando, no entanto, transparecer um sorriso doce, de acalmia, até de felicidade. Beijou a testa a Zímio e acariciou-lhe o negro cabelo, denso e curto: “Sim, tenho a graça de ser protegida e bem querida por dois prodígios do cuidado paternal. Vejo agora, que é isto que me distingue e me dá tamanha força interior. Dois tutores, dois amparos, dois exemplos, dois pedagogos… que fortuna, a minha! Estimo-te muito, meu velho amigo Zímio… meu PAI.

As palavras saíram com efeito de seda, como bálsamos para as dores de Zímio. Deixou de sofrer, desapareceu a ferida no seu pensamento. Apaziguou na luta contra a morte. Colocou a mão trémula no rosto de Rubínia, fez o maior sorriso de toda a sua existência e, com o alento que lhe restava, proferiu: “Continuarei a velar por ti; estarei contigo em todos os teus momentos, sobretudo os mais difíceis. Lembra-te de mim, minha querida Rubínia…

Cerrou os olhos com candura e soltou o último folgo, profundo e de partida… Expirava.

 

Andarilhus

XXVII : IX : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:23
Quinta-feira , 22 de Setembro DE 2011

Por Ti Seguirei... (65º episódio)

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Ainda antes do raiar da esfera matinal, já Fábio dava ordens a alguns serviçais para carregarem uma mesa de campanha até ao meio termo dos dois assentamentos. Assustados e fugidios como ratos, entre a neblina matinal, os serventes de baixa condição cumpriam as ordens, sempre atentos a qualquer manifestação que viesse dos bárbaros. Elevaram igualmente um conjunto de estacas, nas quais engataram as anilhas de um longo tolde, disposto sobre a tábula parlamentar. Carregaram uns odres de vinho e algumas taças e fugiram céleres, logo que terminada a tarefa.

Com semelhantes feições angustiadas e amedrontados, avançaram então dois escribas, fazendo-se acompanhar por umas quantas peças de pergaminho, uns boiões de tinta e penas de ganso. Na sacola, por prevenção, levavam também tabuinhas de cera e estiletes. Dois soldados acompanhavam-nos.

Finalmente, Fábio dirigiu-se para o lugar do encontro, sendo seguido por 15 oficiais, das mais altas patentes – incluindo o Cônsul - e escolta de 50 legionários.

A comitiva romana estava pronta para conferenciar.

 

Do lado oposto, os iberos vigiavam toda a movimentação e apresto do adversário, verificaram o aproximar dos oficiais e aguardaram um pouco. Viram então o acenar do sinal de vontade de parlamentar. Alépio, para além dos seus companheiros habituais, mandou formar um corpo de uma centena de guerreiros. Saíram em ordem de marcha lenta.

Quando chegados a cerca de 30 passos dos oponentes, o Brácaro deu instruções para que o grosso da guarda aí ficasse, de alerta. Continuou apenas com duas dezenas de guerreiros.

 

Saúdo-te ibero. Que este dia fique na memória da concórdia. Trazemos o desejo de paz e a vontade de pôr fim a esta disputa.

A Ibéria foi apanhada no meio do extenso conflito que divide Roma e Cartago. Aníbal fez desta Península uma base de recrutamento e fornecedora de recursos militares para as suas campanhas contra a minha pátria. Foi necessário reagirmos e avançarmos sobre o vosso território. Assim, sem ser nossa vontade e muito menos vossa, acabamos por nos provocar mutuamente e erguemos guerra entre nós.

Porém, julgo que poderemos conviver pacificamente. Certamente que o Povo Romano e o Senado terão a maior vontade por vos ter por “amicus”. Aliados e amigos!

Que a alvorada te sorria também em sabedoria, Tribuno. Estamos aqui com um propósito algo parecido: acabar com o morticínio e relembrar que há muito a viver e muito a zelar pela vida.

Tu estarás convencido da nobreza das razões que vos trouxe para cá. Acreditas realmente que os teus pares e quem os enviou tinham em convicção a defesa dos valores de Roma e pretendiam apenas atalhar as operações do ancestral inimigo cartaginês.

No entanto, eu digo-te que foi a cobiça e a ambição expansionista de um povo, exacerbada pela gula singular de alguns dos seus mais ilustres que arrastou estes milhares dos teus compatriotas, a maioria agora vitima do excesso de avidez e conquista que azeda o sangue dos seus líderes…

Hehehe, não vais conseguir ludibriar este bárbaro, Fábio! Esforçaste-te tanto por sair daqui com a tua miserável vida, tornando-te num grandessíssimo cobarde e conspurcando a dignidade dos gloriosos soldados da Legião. E agora está perante a tua rendição. Serás talvez executado ou escravizado, hehehehe!” Intrometeu-se Quintus no diálogo.

“…Não sejas ridículo… Cônsul! Nós, com alma celta e ibera, honramos a vida e respeitamos todos os seres; não somos aves necrófagas que perseguem senda sobre a humildade ou distração de outros povos. Desprezamos a vossa conduta e os meios que utilizais para subjugar e explorar tudo aquilo em que tocais! Estamos neste encontro para decidir se e em que condições nos comprometemos em pacto de não agressão, ou se reavivamos a guerra até ao último homem. Não queremos prisioneiros!

Quanto a ti, Tribuno, digo-te também que não me parece que algum destes chefes dos diferentes povos ibéricos pretenda ser amigo do Povo Romano. Sim, tendes gente digna e que merece consideração, mas a vossa maioria é predadora e calculista, fazendo apenas jogos de máscaras com os eventuais aliados.”

És duro com os meus. A má experiência aqui vivida tolda-te a análise. Eu, Tribuno de Roma, garanto-te com a minha palavra que o Povo Romano é, na sua maioria, de boa índole, atenta ao progresso e ao bem-estar de todos os povos. Porém, concordo contigo: nem sempre os nossos governantes dão o melhor exemplo ou têm em consideração os princípios que estão na génese da minha nação.

Estamos aqui para alcançar um pacto. É notório que não o pretendeis nas fórmulas tradicionais, dentro da equidade entre ambas as partes. Tendes a superioridade e ditareis leis. Diz-me então quais são os vossos termos.

É agora que este patranhista vai vender todos os seus companheiros e, quem sabe, até alguns bairros de Roma, para que estes bárbaros vão lá passar umas temporadas de vida romana, hahahaha!!!! Não fora a nossa humilhação, e este seria o melhor momento da minha magistratura de Cônsul!

Alépio fitou Fábio e apontou o dedo a Quintus:

Mas será que ninguém entre vós consegue amordaçar a baba dessa triste figura?!

Voltando ao que interessa… Concluíste bem Tribuno. Como atestam as circunstâncias, nós imporemos as nossas regras para um acordo. Mas, como verás, nada terás a recear: não aplicaremos os mesmos métodos que usais, sempre que vencem os que se vos opõem.

Se quiseres sair daqui, salvando a vida dos legionários que te restam, deves comprometer-te em que nunca mais invades a Ibéria e defenderás, arreganhadamente, esta causa no Senado Romano. Dirás que não queremos ser vossos aliados, mas também que não toleraremos mais operações romanas na nossa terra e, se tal acontecer, retaliaremos diretamente no vosso coração: Roma!

No regresso ao Lácio, deves desmantelar todos os campos romanos na Ibéria, libertar as populações que ainda mantendes aprisionadas e passar os Montes Pirenaicos, não deixando nada para trás. Se aceitares estas condições e as firmares em letra, poderás partir com os teus.

À distância, nós faremos o acompanhamento da vossa retirada, certificando-nos da execução destas exigências, até que passeis para o lado da Gália. O que me dizes?

 

Fábio cerrou as sobrancelhas, que pareciam ranger face ao peso da responsabilidade que lhe assolava o pensamento. Quedou-se calado e hirto durante algum tempo. Tanto que o próprio cavalo, instintivamente, começou a mexer pernas e pescoço, com a sensação de ter um moribundo no dorso, até que rodou e estimulou o movimento do Tribuno. Este desmontou e dirigiu-se a passo até à posição de Alépio.

Alépio assumiu comportamento idêntico. Encararam-se de perto.

Ibero, o que me propões é algo que não sei se poderei cumprir. Tomar tamanhas decisões transcende ainda mais as minhas competências, do que as transgressões das mesmas que já levei a cabo.

Escuta o que te tenho a responder. Fecharei os campos militares avançados. Todavia, não poderei simplesmente encerrar os postos romanos mais a Leste, sobretudo aqueles constituídos por muita população civil originária do Lácio e a prosperar em múltiplas actividades, na função de colónias comerciais e vilas agrícolas.

Sim, libertaremos os prisioneiros e abandonarei a Ibéria com o grosso do contingente das legiões.

Mas tudo isto só será possível - e para podermos assim também evitar mais derramamento de sangue, futuramente - se preparares uma comitiva, constituída pela vossa multiplicidade tribal e me acompanhares a Roma… sim a Roma, e apresentares a vossa determinação perante o Senado e aí negociares os termos finais do acordo. E, entretanto – para que desloque a força militar –, tens de garantir a segurança dos meus compatriotas que ficarem por cá, nas referidas colónias. Bem como acertares compromisso em que não vos aliareis a Aníbal nas guerras que vamos dirimindo.”

Desta vez, foi Alépio que ficou mudo e pensativo. Para evitar assumir tais compromissos só por si, recuou até aos camaradas e conferenciou. Ali estavam os chefes de cada um dos povos da aliança ibérica e, em breves momentos, alcançaram uma deliberação tácita.

Novamente junto a Fábio, o Brácaro firmou a voz e adiantou: “Muito bem. Os líderes das diversas tribos estão dispostos a enviar um séquito a Roma. A sua ida e regresso em paz e concórdia devem ser assegurados. Por cá, nenhum elemento integrado e obediente às orientações emanadas em cada um destes povos erguerá armas contra os romanos ou tomará parte das iniciativas cartaginesas, até que regressem os seus representantes. Não poderemos garantir o mesmo quanto a guerreiros tresmalhados, que agem individualmente.

Se concordares, podes colocar tudo isto por escrito e farei a minha marca de aprovação, em nome dos iberos.”

Excelente! Escribas comecem o vosso trabalho; irei relatar em voz alta os artigos deste acordo, para que todos o possam ouvir e depois comprovar no documento.” Disse Fábio, de forma clara e notoriamente aliviado.

 

Andarilhus

XXII : IX : MMXII

publicado por ANDARILHUS às 21:29
Sexta-feira , 16 de Setembro DE 2011

Por Ti Seguirei... (64º episódio)

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Novamente reunido o exército romano atrás das barricadas, as perspectivas agravavam-se após a iniciativa fracassada. Tinham causado muitas baixas entre os bárbaros, mas o número de legionários caídos era igualmente elevado, restando um corpo militar cada vez mais reduzido. Dada a deslocação durante a batalha, o vale mostrava-se pejado de corpos e de gente que gritava por auxílio. O rasto da violência oferecia-se bem evidente.

À semelhança do dia anterior, mesmo em vantagem, Alépio não ordenava um ataque final ao abrigo do inimigo. Instruía o reagrupamento dos guerreiros, ficando a aguardar algo que os outros não entendiam, mas que era claro na atitude do caudilho.

Tongídio resmungava, enquanto ia limpando as crostas de sangue seco que acumulava, em fios, pelo corpo: “Acabemos com isto Alépio! E depois vamos todos ao ribeiro lavar-nos e purificarmo-nos… já que as saudosas termas de Obila estão tão longe. E há o festim a realizar! Então, o que esperas?!

Calma, Grande Urso Azul. Atenta. Talvez já esteja terminado. Daqui a pouco o saberemos. E, de qualquer maneiro, hoje será o último dia da sobranceria do invasor sobre as nossas terras!

 

Fábio dispôs as defesas, para logo a seguir, fazendo-se acompanhar de meia centena dos seus homens de confiança, ainda com os “troféus”, as sujidades e os odores próprios da guerra, se acercar da tenda central do comando. No terreiro em frente, aguardava Quintus e todos os restantes oficiais. A guarnição na área não era muita: estavam ocupados com as defesas externas.

O Tribuno dirigiu-se ao Cônsul. Estacou tão próximo dele, que sentiam mutuamente os hálitos. Entreolharam-se duramente.

Cônsul Quintus Scipius é intolerável o teu comando. Por tua vontade, definham-se os homens e definha-se o prestígio da Pátria. Serves mal a Roma e ao seu povo. Colocas a Legião em vergonha! Retrata-te, desiste da tua desmesurada altivez e entrega a chefia a Velino Albino, o General mais velho aqui presente…

Fábio olhou para os aprumados oficiais e não conseguiu decifrar o que iam conjecturando no interior dos seus inexpressivos e pálidos rostos. Assemelhavam-se mais a moribundos do que a gente com sangue nas veias. Por um breve momento desejou assistir à manifestação de alguém, pelo menos de alguém, nem que fosse apenas um. Mas nada… O Cônsul sorria, cínico, já a traçar mentalmente o destino do incómodo e impertinente Tribuno.

Então, Fábio arriscou tudo. Sem dar tempo a mais uma irascível reacção de Quintus, falou bem alto, enquanto puxava o gládio, ainda ensanguentado, da bainha: “A mim soldados! Prendam o Cônsul e todos aqueles que o defenderem! Eu tomo em mãos o destino desta malfadada campanha e serei o único responsável por esta acção de substituição de comando.

Os legionários não responderam prontamente à ordem. Ficaram apreensivos e titubeantes. Contudo, irromperam rapidamente em socorro do seu chefe quando alguns dos oficiais atacaram o Tribuno. Após alguns golpes breves, dois Generais estavam degolados, os restantes desarmados e dominados. O sorriso sórdido desapareceu da face bexigosa do Cônsul, que espumava tanto da boca, enervado, que quase não conseguia construir frase entendível: “Vais ser crucificado por isto, cão! Escumalha da ralé mais baixa da plebe… Não entrarás em Roma… O Senado quando souber da traição vai enviar a justiça sobre ti e os teus lacaios!

Quintus, não te preocupes, saberei assumir todo o ónus desta decisão. Entretanto, vou parlamentar com o Iberos e tentar encontrar uma solução que nos tire daqui sem que percamos mais vidas Como oficiais, estareis todos presentes nas conversações e sereis ouvidos, se marcarem a vossa presença pela compostura e sobriedade.

Fábio Fulvius reuniu o exército que restava em assembleia magna, falou-lhes dos acontecimentos e entregou-lhes a deliberação final. Apesar de algumas vozes contrárias, a grande maioria compreendeu pacificamente e apoiou a atitude do Tribuno, saudando-o como o novo líder. Perceberam que não seria apenas o chefe mas também o salvador daquela expedição fracassada, trágica para tantos amigos, familiares e, sobretudo, para os desígnios de Roma.

 

Quando sentiu os ânimos mais sossegados, o novo comandante romano alçou uma bandeira sobre um dos estandartes da Legião, como sinal de tréguas e, escoltado por uma dezena de cavaleiros, saiu do arraial, avançando até meio do campo que mediava as duas forças. Ergueu alto o arauto.

Ainda bem… Já está, tal como eu previra. Os romanos entenderam-se entre si e, pelos vistos, ganhou a facção mais sensata. Pelos deuses, é bom que tenham sido assim inspirados. Já basta de mortos…” Comentou Alépio para os seus amigos.

Vamos lá ver se tal se confirma e o que é que eles pretendem. Tragam os cavalos. Gurri, Tongídeo, Talauto… enfim, vá, todos vós que aí estais vêm comigo.

Foram ao encontro dos emissários do inimigo, com passo pausado e atento. Estacaram a uma distância relativa, que permitia a comunicação, mas não um eventual contacto físico imediato.

 

Sou Fábio Fulvius, Tribuno nas Legiões de Roma. Neste momento, dirijo este exército. Entendemos que esta guerra se mostra inútil e decidimos oferecer-vos tréguas, terminando com este conflito.

Estais dispostos a ouvir-nos e entabular negociações?

Eu sou Alépio, de origem calaica e líder destes Iberos. Digo-te que é curiosa a forma como colocas a questão. Todavia, será interessante escutar os termos em que pretendeis favorecer-nos com semelhante “oferta”. Pessoalmente, estou mesmo curioso naquilo que tendes para dar e que nós não possamos simplesmente tomar. Mas, diz-nos quais são as vossas condições…

A colaboração e o entendimento quanto à supressão de mortes inúteis é, só por si, motivo de generosidade e dádiva. Porém, compreendo-te Alépio na tua ironia e reconheço a situação difícil em que estamos atolados… Se concordares com a realização de uma jornada parlamentar, proponho que nos encontremos mais tarde. Trarei os escrivães para assentar em registo os termos do acordo de tréguas e virei acompanhado de todos os oficiais, inclusivamente do deposto Cônsul Quintus Scipius, os quais servirão de testemunhas, mais tarde, perante o Senado de Roma.

De qualquer maneira, apelo desde já à vossa piedade para obter condições que permitam recolher os meus compatriotas tombados, quer os mortos, quer os moribundos. Nós permitiremos que façais o mesmo, sem qualquer oposição ou retaliação.

Romano, recolhe os teus companheiros que jazem pelo solo. Cuida das suas feridas ou da sua partida ritual para o além. Da nossa parte faremos o mesmo. Os guerreiros Iberos destacados para esses trabalhos não tocarão em vivo ou morto romano com que cruzem. Contamos com uma atitude idêntica dos vossos legionários. Será um bom teste à boa vontade de ambos. Depois, recolhe-te ao teu campo e passa a noite. No próximo amanhecer encontramo-nos novamente aqui para buscar a paz.”

Assim seja; cumpram-se as tuas sábias palavras, Brácaro. Despeço-me.”

As representações saudaram-se minimamente e regressaram para as suas posições.

 

Pouco tempo passado, de ambos os lados saíam grupos apetrechados de padiolas rudimentares e carros puxados por cavalos. Iniciaram a lida de recuperar enfermos e prestar os primeiros socorros, de recolher os corpos chacinados e as armas e outros apetrechos deixados pela enxurrada da morte. O vai e vem constante das brigadas de resgate elucidava bem da carnificina ali provocada.

Por afinidades e parentescos, a incineração dos corpos espalhou-se por largo território. Sucederam-se as cerimónias rituais, colectivas ou individuais, com oferendas e dedicatórias aos deuses, a quem entregavam os camaradas. As centenas de fogueiras realçaram-se com o cair da noite.

Por fim, caia mais um dia da guerra. Porém, as circunstâncias apresentavam-se mais optimistas. Os defuntos estavam santificados e devidamente encomendados para fazerem a passagem para a dimensão seguinte, e os vivos sentiam que, para já, não seguiriam viagem com esses companheiros.

A calma na tempestade e o repouso beneficiavam a reflexão e o regresso de muita da racionalidade perdida no tumulto emocional das batalhas. A alvorada seguinte talvez trouxesse notícias de um futuro diferente daquele que, nos últimos tempos, teimava em criar raízes no solo da Ibéria…

(continua)

 

Andarilhus

XVI : IX : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 08:06
Quarta-feira , 14 de Setembro DE 2011

Por Ti Seguirei... (63º episódio)

 

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Assentava a poeira e amainava o vento da fúria que movia em espiral de morte o Homem contra si próprio. O dia esvaia-se precocemente, como se cansado de tanta faina na horrenda colheita de vidas, tomadas pela ceifa da cisma, do capricho do poder, do frio virtuosismo do orgulho.

O tempo passara depressa, esgotara-se para muitos e não deixava fastio ou qualquer sensação de contagem ou medida para os ainda empertigados no desfecho da escaramuça.

Alépio mandou recuar os guerreiros para distância de segurança e criou trincheiras básicas, de improviso, ainda com a luz remanescente daquele Sol testemunha que se espreguiçava, também moribundo, no horizonte. Acampavam para precaver a chegada da noite; aguardavam por desenvolvimentos entre os de Roma ou então pela manhã, para retomarem as hostilidades. A ironia do destino determinara que os cercados cambiassem para condição de ofensiva, atinados em exaurir o inimigo, no aperto de correia de metal asfixiante. Dali, os do Lácio ou saiam para o retorno à pátria sob a bandeira da rendição ou se exilavam de vez algures pelos territórios do Elizium.

 

No reduto romano, as fogueiras mantinham-se atiçadas ao rubro, com todo o fulgor, forçando a iluminação de toda a área, como brecha resistente à noite, de resguardo a qualquer iniciativa ibera. Com o crepitar da lenha verde, ouvia-se também grande algazarra provinda do centro do acantonamento. As disputas verbais cresciam e multiplicavam-se pelo éter estrelado. Estava evidente o litígio e a marcação de posições entre os pares.

Fábio ousava confrontar o Estado-Maior, opondo-se à continuação da guerra, a qual concebia como decidida e apenas razão de morte inútil para muitos dos seus camaradas. Quintus Scipius, com alguma tolerância com o Tribuno, permitia a discussão mas não abandonava a sua determinação cega e decisão em esmagar os bárbaros. A complacência com o desafio do jovem oficial apenas se devia ao estatuto granjeado por Fábio, o único vencedor perante os iberos, até então. Os restantes generais e outras altas patentes permaneciam quietos e mudos, pois sabiam que não beneficiavam da mesma sorte do Tribuno.

Amanhã, contra-atacaremos os selvagens, e não se fala mais neste assunto!!!! Fábio, prepara os teus aposentos e repousa bastante, porque amanhã liderarás a sortida! A minha paciência esgotou-se; cumpram as ordens!!!” Impôs-se o Cônsul com tal ira que quase não resgatava voz suficiente para as últimas palavras, irrompendo em tosse seca. “Vinho, vinho!!!

Já afastado e convencido dos fundamentos que defendia o, até antão, mais fiel e fiável subalterno do comandante máximo conferenciou com outros oficiais, procurando demovê-los de seguirem as instruções emanadas pelo Cônsul. Exortava-os a tentarem uma saída honrada das adversas circunstâncias. Fábio defendia a sua posição com as perdas sucessivas que fizeram ruir todo o poder inicial, encontrando-se agora o exército romano em inferioridade, a todos os níveis da logística e da estratégia. Quintus assim o provocara, Quintus assim o quisera, Quintus assim o continuava a insistir!... Em suma, Quintus deveria ser destituído do comando. Sim, destituído! Não se tratava de uma blasfémia à sagrada honra da Legião, ou uma traição ao povo romano ou mesmo um acto cobarde; era apenas uma conclusão de senso e de razão. Na verdade, uma saída táctica: evitar males maiores, entregar o campo de batalha ao inimigo e retirar dignamente com os homens sobrantes. O Senado determinaria depois se retomariam ou não a conquista da Ibéria.

Os pares escutaram mas não se comprometeram. Para eles, atentar contra o superior hierárquico era um acto condenável e punível. O pudor militar não lhes facilitava tal ousadia. Deixaram Fábio isolado, contudo sem o denunciar. Talvez tivessem uma réstia de esperança que ele, de uma forma ou de outra, acabasse por resolver a situação.

A alvorada agonizava a angústia de Fábio. Não dormira, dividido entre cumprir as ordens, enobrecendo em absoluto o código militar, cuja regra sempre subscrevera implacavelmente, e a oposição à decisão do seu superior, por saber que não era mais do que a ostentação da extrema arrogância e vaidade déspota de um louco, que levaria a um verdadeiro suicídio colectivo. Pela primeira vez, sentiu-se só e impotente.

Quando arribou à tenda de comando, chegava também Quintus Scipius, adornado pelo seu séquito de bajuladores.

Então?! Já tens as ordens Fábio: madruga sobre o inimigo! É hoje que eles vão sentir a gládio a entranhar-se na ousadia. Forma e avança sobre os bárbaros. Nós secundamos-te, com tropas de auxílio.

O Tribuno nem ensaiou réplica. Sem dizer palavra, tomou outra direção e foi dando instruções aos seus oficiais subalternos. Ordenou a reunião dos legionários, a sua disposição em formação de combate, preparados para a aproximação lenta e de recontro à força ibérica.

Do outro lado da contenda, Alépio também já organizava os guerreiros. Colocou os robustos montanheses ao centro, ladeados, em alternância, por colunas de combatentes provenientes do Sul, mais altos e ágeis. Nas laterais dispunha a sua maior vantagem: duas alas de cavalaria, chefiadas, uma por Talauto e outra por Gurri. À retaguarda, colocara os arqueiros.

As longas fileiras da frente dos dois exércitos desafiavam as medidas do vale e alteravam completamente a paisagem e a vida silvestre.

Enquanto Fábio dispunha de um contingente da grandeza de uma Legião - cerca de 5.000 legionários - restando na retaguarda mais uns 2.000, que asseguravam a protecção do Cônsul e dos oficiais menos destemidos ou dados ao combate directo, os Iberos apresentavam uma força esmagadora de um pouco mais de 10.000 efectivos, mantendo 2.000 cavaleiros, entre eles.

O Tribuno já ia derrotado quando deu sinal de progressão. Desta vez haviam encontrado não umas hordas de gentes selvagens, facilmente superáveis por lutarem, normalmente, como animais isolados, mas antes uma verdadeira organização, superiormente chefiada, que superara a visão e a estratégia do comando das forças da pátria latina.

Os trezentos passos que distavam de um bloco ao outro minguavam paulatinamente, apenas por iniciativa dos do Lácio. Alépio exigia contensão aos seus e, fora alguns casos de gente cuja fúria toldava os sentidos para as ordens ou a cautela, logrou manter os Iberos tão juntos como as pedras da firme Ribasdânia.

Uma chusma de flechas recebia as “Coortes” romanas, obrigando os soldados a suster os escudos sobre as cabeças, até se aproximarem o suficiente para confrontarem o inimigo.

O choque foi simultâneo a toda a linha. Entre os romanos, punha-se em prática as tradicionais manobras de ataque em formação, defendendo com o escudo e desviando a arma do oponente directo, para arremessar de imediato o gládio pelas nesgas desprotegidas do mesmo. Em semelhante função estavam incumbidos os possantes mancebos das terras altas da Ibéria, que sustinham a frente do embate, enquanto companheiros mais esguios aproveitavam para, com rapidez, atingirem os legionários envolvidos com outros adversários.

Apesar da diferença proporcional das forças beligerantes, Fábio conseguia manter as suas linhas concentradas e resistentes na batalha. Acudia aos locais que demonstravam fragilidades momentâneas e movimentava as tropas mais recuadas de acordo com as necessidades e a evolução do combate.

A maioria dos homens de que dispunha eram veteranos, muito experimentados e disciplinados nas manobras. Porém, a ala esquerda era composta também com alguma tropa mais jovem e com os aliados remanescentes: gauleses errantes, alguns arevacos, titos e belos e outros mercenários por conta própria. A falta de prática de uns e a pouca convicção de outros provocavam um défice de empenho e solidez desse ramo. Começou a verificar-se que enquanto o centro e a direita da Legião avançava, pouco, mas avançava, a esquerda parecia estagnar e até recuar.

A situação não passou despercebida ao olhar de lince de Alépio. Enviou a cavalaria mais próxima forçar ainda mais a pressão. Em pouco tempo, o flanco esquerdo romano vacilava ainda mais. Procurando a ruptura total, o chefe Brácaro deu indicações a Gurri para levar os seus esquadrões de cavalaria da ala oposta em reforço dos de Talauto.

O Tribuno via o desmoronar do exército a partir daquele vértice, mas não ficou expectante. Ele próprio assumiu a liderança de uma carga de apoio, com o sobrante da sua cavalaria. A magreza dos efectivos montados – apenas duas parcas centenas – pouco ajudou, obrigando Fábio a outras decisões. Sempre em movimento, fez a sinalética necessária para balancear o mar de gente, de modo a concentrar e colocar as tropas das linhas recuadas em escora ao flanco enfraquecido, desequilibrando o volume harmónico do bloco formado pelo exército romano.

Alépio respondeu ao exercício táctico, convocando a cavalaria – aproveitando a grande vantagem da mobilidade – e remetendo-a contra o flanco contrário do inimigo, agora mais leve e despovoado de homens de apoio, na retaguarda. A pressão crítica cambiou irremediavelmente de ala, deixando o Tribuno numa grande contrariedade e indecisão.

A batalha arrastava-se pela manhã, exigindo uma grande quantidade de vidas, de ambos os lados. O Sol nascia num derradeiro dia para muitos e previa-se uma tarde e um prolongar de tempos muito sofridos para outros.

Com a luz do dia quase no seu pleno, em virtude das vicissitudes, a massa compacta de fileiras de legionários já não se estendia num plano paralelamente aprumado. Começara a ceder nos flancos e formava já um semicírculo, apontando tendências para se fechar em circunferência e permitir o cerco do inimigo.

Fábio consciente do massacre maior que dai adviria, gritou com os homens do núcleo, obrigando-os a recuar e a estabelecer uma espécie de coluna cónica que os ligaria ao arraial onde aguardava Quintus. Pretendia libertar-se do abraço funesto dos iberos e retirar para as defesas, salvando o máximo possível das suas tropas.

Exigindo um acréscimo de garra aos legionários, inspirando-os e transmitindo-lhes confiança, deteve os intentos dos iberos e aproximou-se do último reduto. Sendo apoiado também pelas forças que aguardavam no acampamento, quando chegados ao alcance da sua intervenção.

 

Andarilhus

XIV : IX : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 22:25
Terça-feira , 13 de Setembro DE 2011

Por Ti Seguirei (cenários da acção)

 

A ficção da história de Rubínia assenta numa base de inspiração geográfica e toponímica... real: as belas paisagens de Valpaços. A minha muito querida aldeia de Paradela, velada pelo Alto do Pentão; As Hortas, confluência e encruzilhada de muitos destinos das terras e das gentes transmontanas; Argeriz e o seu monumento megalítico altaneiro, da tradição do Santuário de Panoias (Vila Real). O castro de Ribas - para nós, Ribasdânia - testemunho da ancestralidade da vida comunitária e social por estas paragens... Tudo isto [todas estas preciosidades] suportado pelo dorso duro, mas muito formoso, da Serra da Padrela...

Não se fiquem pelas imagens; vão lá conhecer e verão como não tenho a mais pequena capacidade para lhes descrever estas paisagens com a devida justiça...

 

 

 

 

O "Alto do Pentão", visto de um extremo de Paradela: Paradela / Valpaços

 

 

 

"Santuário de Argerez" - Argeriz / Valpaços

 

 

  

 

Vista do "Santuário de Argerez" para o Vale Carril / Valpaços - Argeriz / Valpaços

 

 

 

Vista do "Santuário de Argerez" para "Ortas" - Argeriz / Valpaços

 

 

 

Vista de "Ribasdânia" para o "Santuário de Argerez" - Ribas / Valpaços

 

 

"Ribasdânia" - Ribas / Valpaços

 

 

"Ribasdânia" - Ribas / Valpaços

 

 

 

"Ribasdânia" - Ribas / Valpaços

 

 

 

Vertente de "Ribasdânia" para o "Vale" - Ribas / Valpaços

 

Andarilhus

XIII : IX : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 19:20
Sábado , 10 de Setembro DE 2011

Por Ti Seguirei... (62º episódio)

http://www.enciclopedia.com.pt/images/articles/iberiansvsromans.JPG

 

Após o breve convívio retomou-se a obrigação, irou-se novamente a investida, em corrida desembestada e ritmada por gritos selváticos e estrondosos. Os deuses favoreceram a união da pátria e todos juntos, instigados pela temeridade de Rubínia, Tongídio, Gurri e Irineu, enfrentavam de pronto aqueles cerca de três mil romanos das coortes de suporte. Pela primeira vez, o número de Iberos era superior às forças romanas mais próximas. Os legionários colocaram-se instintivamente em posição de defesa em formação de “Tartaruga”.

Ainda mal desperto e solicitado pelos elementos do seu estado-maior, Quintus mandou avançar as quatro coortes que colocara de reserva para terminar o “trabalho”, ao mesmo tempo que exigia, em altos brados, que a totalidade de efectivos assumisse formatura e permanecesse em ordem para combate.

Os Iberos carregaram sobre os legionários da vanguarda, forçando-os a desmontar a disposição agrupada, exigindo-lhes o combate individual corpo-a-corpo. As tropas de apoio aproximavam-se em passada rápida e ordenada, mas ainda demorariam a vencer alguma distância que os separava da frente da batalha.

Com esta desagregação do corpo central do exército romano, a parcela que ficava na rectaguarda e protegia o alto-comando latino, limitava-se a pouco mais de meia Legião. Tantos quantos os que passaram a ser o alvo, abrindo nova frente de batalha, da carga inesperada da cavalaria de Talauto, engrossada pelos peões de Montes Negros.

Talauto e os seus, que haviam ficado discretos e acoitados nos montes próximos, no seguimento do ataque em desbarataram a cavalaria romana sob o testemunho de inúmeros castanheiros, apareceu de rompante (confirmara prontidão através do segundo sinal de fumo detectado de Ribasdânia e que decidira Alépio e iniciar o ataque final) e entrou fundo nas fileira inimigas, procurando abater ou capturar o Cônsul rapidamente. Porém, as tropas que formavam o núcleo central romano eram as mais experientes e aguerridas, com elementos que só cederiam posição por morte.

Embora apanhado desprevenido, Quintus Scipius escapava à primeira ronda de assalto da cavalaria ibera. Desprovidos da organização habitual os legionários esforçavam-se por conter a investida dos cavaleiros vetões e dos guerreiros do Sul da Ibéria: Cónios, Batestanos, Túrdulos e Turdetanos.

Perante as novas circunstâncias, seguindo as ordens emitidas por trombeta, duas das coortes que avançavam em auxílio das que enfrentavam a numerosa força que havia agregado os guerreiros de Tongídio e dos Arevacos e outros aliados, inverteram a marcha, em defesa do seu comando central.

Os Romanos estavam completamente desalinhados e desorientados, perante os acontecimentos, não conseguindo manter as razões principais do seu poder: a união e a organização. Alépio conhecia bem os romanos e era um mestre em contrariá-los e a transformar as suas forças em implacáveis fraquezas.

Durante o tempo – que pareceu uma eternidade, sem o ser – em que os dois extremos do contingente militar itálico permaneceram em inferioridade numérica e algo tresmalhados, enquanto as coortes centrais se movimentavam para um lado e para o outro para os acudir, os Iberos aproveitaram para infligir um grosso quinhão de perdas em homens no inimigo. Em vão, os centuriões procuravam manter os legionários alinhados, mas a pressão esmagadora dos oponentes desmobilizava-os de vontade de agrupar ou até de combater. Cada qual tratava de salvar a própria vida, procurando sobreviver à avalanche de golpes. Surgiram as deserções e mesmo as rendições de pequenas bolsas de soldados que eram isoladas.

 

Do alto, Fábia contemplava o cenário e estremecia. Se Quintus não promovesse uma reviravolta lesta nas circunstâncias, estava tudo perdido; a Águia Romana tombaria de joelhos.

Incitou os seus homens contra os portentosos muros de Ribasdânia e enviou a parca cavalaria que tinha ao seu serviço, em volta, por Ortas, em socorro dos camaradas assolados pelas hordas de bárbaros, no vale.

Tombemos este bastião! Os vossos companheiros sucumbem como pardais no vale; é nossa obrigação acudi-los!

Os legionários bem tentavam entrar no reduto que Alépio defendia afincadamente, com a, relativamente, pequena guarnição que comandava. Muitos dos guerreiro de arremesso, que se expunham para atirar as setas ou as pedras, haviam já caído, feridos pelos arqueiros romanos. Os que subsistiam concentravam-se em não deixar passar o inimigo para os lados do trilho que conduzia ao vale. Os do lácio, aqui e ali, já iam conseguindo alçar escadas contra as paredes da fortaleza, mas o ânimo dos de dentro votava ao fracasso todos os assaltos.

Alépio segurava Fábio com correia bem afivelada, mantendo-o atraído a um propósito e sem o deixar ir longe.

 

No vale, os acontecimentos desenrolaram-se rapidamente. O encosto das coortes de apoio aos blocos em liça definiu decididamente dois polos de batalha.

Então, do lado de Tongídio, a profusa mortandade entre os opositores iniciais, as fugas e capitulações, acabaram por deixar a recém-chegada força auxiliar de duas coortes em muito má situação. Os bárbaros eram avassaladoramente mais e com a confiança transbordante pela convicção da causa em pugna, que lhes elevava a autoestima.

Do lado oposto, ocorria o inverso no equilíbrio de contingentes, mas Talauto, com a superioridade da cavalaria e sem oposição congénere, com investidas e recuos constantes, mantinha o inimigo em trabalho aturado, concentrado, e preocupado em consigo mesmo.

Já em adiantada tarde, junto ao sopé da montanha, com o braço da tatuagem do urso a brandir a falcata do extermínio, dando o exemplo aos seus conterrâneos, precipitando-os nefastamente sobre as linhas inimigas, os Iberos esgotaram a resistência dos oponentes, provocando a debandada geral dos invasores e a captura dos estandartes e das Águias de ouro de duas legiões. O desbarate dos legionários levou muitos a perderem-se pelas matas vizinhas – seriam capturados mais tarde, se não morressem dos ferimentos ou dos ataques de feras – e outros, ainda em número significativo, a reunirem-se à parte do exército que lutava no outro extremo.

Com a queda daquela ala dos do Lácio, de ambos os cantos do campo romano, agora, campo de batalha, os combates cessaram.

 

Quintus deveria ter evitado a separação das forças e, pelo menos tentado, reuni-las novamente, pensava Fábio.

Acabou! Já há um vencedor. Resta-nos sair desta terra maldita com dignidade. Espero que o Cônsul tenha a clarividência suficiente para enxergar o fim e não permita a continuação deste trucidar dos soldados de Roma. As circunstâncias exigem um pedido de tréguas. O nosso comandante supremo é o verdadeiro véu de morte para os seus subordinados…” Desabafou o Tribuno, para quem o quis ouvir.

Ainda dispondo de um avolumado corpo militar, Fábio deu ordens para recolherem os feridos ao arraial de Ortas e recuou com o seu séquito militar. Aí, deixou a guarnição que considerou suficiente para garantir a segurança dos seus homens mais fragilizados e partiu para o vale com dois milhares dos seus legionários.

 

Alépio entendeu a manobra do dirigente inimigo. Saudou-o ao longe, com certa admiração. Se aquele fosse o Cônsul, a vitória sobre o poderio romano não seria tão simples ou talvez, mesmo, possível.

Deixou o comando de Ribasdânia a um dos seus oficiais, com ordens bem precisas, e desceu ao vale com uma escolta alargada e de reforço. Quando reencontrou os amigos, abraçou-os com afeição. Apesar das pequenas mazelas e do cansaço, tão próprios da liça, todos estavam de saúde e alegres.

Os Romanos entrincheiravam-se à pressa nas antigas posições dos Arevacos, aproveitando pequenas estruturas aí montadas e os muitos materiais e artefactos semeados pelo solo.

Com o equivalente de efectivos a uma Legião, tendo pela frente mais do que o dobro de adversários, Quintus estabeleceu o posto de comando num pequeno outeiro e distribuiu os legionários em redor do mesmo.

 

Bem, vamos a isto, antes que os “romanitos” ergam defesas mais sólidas. Reparem que nem se preocuparam com os seus moribundos espalhados por estas pastagens de morte; temos de ser nós a dar-lhes o golpe de misericórdia! Vamos, cavaleiros celtas, ao ataque!

A cavalaria ibera arrancou novamente, para castigar ainda mais os cansados e desmoralizados inimigos. Talauto, sempre afoito, manteve a pressão sobre as franjas das defesas latinas, investindo sempre sobre os pontos mais fracos, evitando riscos maiores.

Os arqueiros cartagineses, bem afastados e sem o receio de represálias, enviavam chuvas sucessivas de flechas para as trincheiras do inimigo, infligindo grande mossa entre os legionários, os quais numa constância entre o alerta nos perigos do horizonte e o elevar na vertical os escudos, para se protegerem, não tinham sequer um momento de menor ou mais rudimentar sossego.

Os guerreiros apeados confluíram ao epicentro do combate, cercando quase completamente o exército Romano. Após um derradeiro assalto da cavalaria, para fragilizar as linhas da frente do adversário e abrir pequenas brechas, a multidão de iberos correu em massa e abruptamente para as arruinadas defesas latinas. O choque foi tremendo, devastando profundamente as orlas do aglomerado que protegia Quintus e os seus superiores.

Os iberos mais bravos ou enfurecidos quase chegaram ao centro do comando, levando todos os obstáculos à frente do gume da espada ou do machado. Porém, pagavam caro a ousadia, uma vez que se movimentavam como ilhas no grande mar latino, despegados da sua força principal. A maior parte dos mais audazes foi aniquilada, depois de levar o alvoroço quase até aos pés do Cônsul. A Legião derradeira tremia, mas aguentava-se, mediocremente.

Num último esforço, os verdadeiros líderes dos legionários – os Centuriões – concentraram-se na coesão possível, cerraram fileiras e conseguiram rechaçar o massivo ataque.

Os iberos recuaram para reagrupar e ganhar novo fôlego. Uma nova investida daquela envergadura e o inimigo ficaria arrasado. Os corpos que pejavam o chão e o enlameavam com o sangue tinto eram tantos que quase formavam uma paliçada de defesa. Os efectivos de Quintus sucumbiam em bandos e diminuíam significativamente, mas o arrogante magistrado não poupava vidas com a sua ambição e teimosia. Morreriam ainda muitos até que ele, por fim, se desse por vencido. Ou jamais o faria e morreria também.

Talauto nos seus esquadrões equestres e Tongídio com os seus guerreiros peões tomaram posição para a carga decisiva. Desta vez não recuariam até que houvesse um vencido e um vencedor.

 

O Lusitano já chegava à boca o corno de boi forrado a fino couro e ricamente ornamentado, para entoar a incursão, quando sentiu a mão de Alépio a interromper-lhe o movimento: “Espera, meu amigo. Eis que chega Fábio. Talvez esta terrível obrigação de aniquilar outros seres humanos termine por aqui. Aguardemos um pouco.

E depois virando-se para os guerreiros que ocupavam o flanco por onde se aproximava o Tribuno, gritou, para se fazer ouvir: “Deixem passar os romanos que aí vêm e não dificultem a que se juntem aos que ali estão acantonados. Talvez estes não sejam nossos inimigos…

Os homens da Ibéria riram-se a pensar que o Grande Chefe ironizava e procurava, na verdade, juntar mais adversários para a matança. Afastaram-se, abrindo um amplo corredor, por onde passaram Fábio e o regimento que o acompanhava. O silêncio e os olhares de soslaio imperavam…

 

Andarilhus

X : IX : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 10:02
Quarta-feira , 07 de Setembro DE 2011

Por Ti Seguirei... (61º episódio)

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Na casa do Conselho, em parte ardida e com cheiro de farrusco da lareira, Alépio divulgava o segredo que poucos conheciam e pedia que o fizessem saber aos guerreiros apenas no limiar do grande acontecimento. A surpresa seria, pela última vez - esperava -, a arma maior contra o poderio militar Romano. O golpe preparado deveria terminar com as ambições do invasor e dar-lhe sabedoria para nunca mais atentar contra a Ibéria.

Ainda um pouco desconfiados sobre a veracidade do relatado e pouco crédulos nas expectativas da boa vontade de outros, os dirigentes iberos entreolharam-se em silêncio, amarfanharam as peles e outras vestes com que cobriam parcialmente o corpo e ficaram murchos, com algum nervosismo latente. O comandante brácaro contava com outro tipo de manifestação, mas compreendeu que acabara de lhes transmitir algo difícil de digerir ou mesmo de conceber. Era como dizer-lhes que o Mundo ficaria às avessas…

Exortou-os com todo o fulgor: “Algum de vós tem razão para desconfiar de mim? De duvidar de minhas palavras? Por ventura, pensais que crio um logro e vos preparo uma armadilha? Ou mesmo que serei tão ingénuo que caí facilmente na conversa falsa de outros?

Fez uma pausa, para depois reforçar: “É agora ou nunca: tempo de investir tudo e arriscar, mesmo um pouco às “escuras”! O nó foi criado, temos de o desmanchar, principalmente com esta ponta solta que nos foi proporcionada. Vamos puxar o fio, nem que se parta!! Alguém quer desistir? Não recriminarei ninguém que se queira afastar…

Eu vou contigo, Alépio. Nem que sejamos só os dois a descer a montanha contra o incerto, contra o perigo!

Seremos três, então!” Rubínia secundou Tongídio.

Todos iremos! Embora seja uma pequena loucura, e temos tanto de certeza quanto a sucesso como a fracasso. Quem nos vai receber poderá ser o amigo ou a morte, mas todos iremos, não é assim, bravos iberos?!” Exultou Sonim.

Finalmente, ouviram-se os gritos de guerra que se aguardavam. A sorte estava traçada e com ela, o destino daquelas terras e lugares.

 

Com a decisão tomada, esfusiantes em alarido, com música cadenciada a ritmar o movimento, uma vez mais, os Iberos saiam de portas e, em grossa coluna, desciam até meio do carreiro que levava ao vale. Aí chegados e para que saíssem mais umas centenas largas de guerreiros, começaram a espalhar-se um pouco pelas zonas menos íngremes da encosta. Cerca de 5000 celtas mostravam-se ostensivamente a Quintus Scipius. Um pouco mais de 3000 mantinham-se na guarnição de Ribasdânia para fazer frente às tropas de Fábio e evitar que conseguissem passar para a descida do Padrelas e colocassem, assim, a força conduzida por Tongídio entre o martelo e a bigorna.

 

O Cônsul, perante o desafio e a investida iminente dos bárbaros, avisado pelas investidas anteriores daqueles, deu instruções para o posicionamento dos aliados na vanguarda. Arevacos, Titos e Belos adiantaram-se e foram colocar-se em fileiras junto ao fundo da rodeira. Um pouco mais atrás, mas algo afastados, Quintus aproximou três coortes pesadas, com cerca de 900 legionários, cada. No total, dispunha de uma primeira força de choque equivalente à maré de Iberos que se preparava para rolar montanha abaixo.

Na sua previsão, o comandante romano, alcançaria a vitória após o desgaste de guerreiros do primeiro embate, mandando avançar, no decorrer da peleja, mais quatro coortes que acabariam o serviço e aniquilariam aquela praga de selvagens.

 

Fábio também não perdeu tempo. Ao avistar as manobras do adversário, apercebendo-se que um grande número de efectivos marchara para fora de Ribasdânia, mandou apressar todos e lançou as primeiras forças contra as muralhas, enquanto orientou parte dos homens numa tentativa de contornarem a fortaleza e atacarem a coluna de Iberos que descia a vertente.

Como as passagens laterais entre os píncaros superiores da montanha e a cidadela, ou entre esta e o declive vertiginoso, eram muito estreitas e sempre ao alcance dos de dentro, os esforços de a contornar saíram infrutíferos e causaram pesadas baixas. Alépio instigava fundibulários e arqueiros a constantes e ininterruptos lançamentos, o que redundava num grande massacre de todos os que procurassem a nesga do sucesso para os intentos de avanço. Mesma sorte se atravessava na frente daqueles que procuravam acercar-se dos muros, para os galgar.

Com o crescendo de abatidos, os Romanos decidiram então, primeiro, construir pequenos refúgios em madeira, oblíquos, que os apoiassem e protegessem dos projecteis junto da fortaleza.

 

Do cimo do baluarte e após divisar os traços de fumo que se volatizavam para os lados de Montes Negros, Alépio deu instruções para que se propagasse o som do sinal de ataque a Tongídio. Estava tudo pronto; todas as peças da estratégia tomavam a disposição prevista.

O lusitano seguiu as ordens e iniciou a descida final com os seus guerreiros. Primeiro a passo lento, acelerando depois, progressivamente, ganhando uma velocidade alucinada, direitos à barreira de lanças dos iberos traidores que os esperavam.

Abaixo, os Arevacos ajeitavam as armas em riste e enrijeciam os braços nas correias dos escudos. As coortes romanas de apoio também ficaram de sobreaviso. Muito atrás – havia recuado para o fundo do reduto latino – Quintus colocava-se com o restante exército a salvo de artimanhas manhosas dos bárbaros.

Quando já os Celtas vertiginosos erguiam as armas para as desferir nas primeiras linhas adversárias, Tongídio entoou a corneta e estacou a corrida e com ele, já na borda do vale, ao longo de uma fiada paralela aos que aguardavam o embate, todos os seus comandados. As duas massas oponentes estavam a dois passos uma da outra. Os guerreiros que se confrontavam olharam-se por alguns instantes… Sentia-se um burburinho nervoso no ar. Estaria o trato bem acordado, tal como planeado? Sim, Gurri e Irineu cumpriram plenamente a missão!

Os beligerantes baixaram as armas, afastaram escudos e correram a abraçar-se fraternalmente. A Ibéria estava plenamente unida a partir desse momento!

O Cônsul ao longe não queria acreditar. Aliás, julgava-se com alucinações provocadas pela distância. Os rancorosos inimigos pulavam, gritavam em confraternização, como se fossem amigos de longo tempo. E eram.

 

Quando, anteriormente, no curso da investida inicial da cavalaria de Talauto sobre o campo romano, os Iberos se acercaram do assentamento arevaco, permitindo que uma dezena de cavaleiros saltassem das montadas e se perdessem pela multidão caótica, preparava-se uma das estratégias cruciais da guerra.

Entre essa dezena de guerreiros estavam Gurri, Urtize e mais dois Vacceus, acompanhados de Irineu, líder dos rebeldes Arevacos e alguns compatriotas. Não foi difícil alcançarem os seus propósitos. O comportamento dos Romanos para com os seus aliados abriram feridas enormes e haviam minado não só a confiança como a simpatia. O azedume e a repudia aos comportamentos déspota e humilhante do invasor grassavam entre a maioria dos Arevacos. Por isso, com alguns golpes de punhal aplicados nos caudilhos que, por interesse egoísta, insistiam na amizade e aliança com os do Lácio, Irineu conseguiu converter facilmente todo o seu povo e, ali, o exército, contra o invasor estrangeiro. Titos e Belos acompanharam os vizinhos na mudança táctica e afectiva.

O sinal de fumo avistado de Ribasdânia era a confirmação aguardada ansiosamente por Alépio, porém poderia ser também uma armadilha, caso a congeminação não tivesse sortido êxito.

 

Andarilhus

VII : IX : MMXI

 

publicado por ANDARILHUS às 21:26
Segunda-feira , 05 de Setembro DE 2011

Por Ti Seguirei... (60º episódio)

http://2.bp.blogspot.com/_wHURmdXcPVk/TLx05o1FzuI/AAAAAAAAA9I/InGg7Yq-ggs/s1600/Boadicea-rallying.jpg

 

Quando entregaram o balanço das casualidades a Quintus, este, contrariamente à sua habitual exasperação, ficou mudo e tapou o rosto com as mãos. Com um gesto perceptível dispensou os serviçais e os ajudantes de campo e ficou só. A campanha complicava-se e ficava com uma aparência muito nefasta. Agora, não seria suficiente alcançar a vitória; tinha de provocar grande flagelo e marcar bem a derrota e a humilhação do opositor. A glória e a justificação de tão pesados insucessos e mortes dos seus apenas encontrariam encobrimento se a sorte do inimigo fosse bem pior.

Contava com Fábio para continuar a inverter os maus resultados por si alcançados. E seria mais cauteloso em novas manobras. Para evitar novos fracassos com os subterfúgios dos iberos, da próxima vez enviaria primeiro as forças dos aliados.

 

Acantonado em Ortas, Fábio Fúlvios ultimou os preparativos para avançar sobre Ribasdânia, ainda durante a madrugada seguinte. Previa fazer um ataque relâmpago, similar ao realizado na conquista do local onde se encontrava agora.

As tropas do Tribuno, em coluna exígua para poderem avançar pelos corredores estreitos da montanha, alcançaram o Santuário de Argerez ainda antes da aurora, colhendo de sobressalto algumas bolsas de iberos que se espalhavam pelo território. Um contingente assente no santuário ainda deu alguma resistência. Porém, com a visibilidade da envergadura exército inimigo, aportada pela luz matinal, acabaram por retirar-se, entregando o lugar aos Romanos.

Com a recolha dos grupos de guerreiros que promoviam o esforço de guerra pelo exterior, Ribasdânia ficou a transbordar de gente. As muralhas estavam totalmente ocupadas e o interior do recinto mantinha uns quantos milhares à espera de oportunidade para espreitar a aproximação do inimigo. A cada passo, alguém chocava com um correligionário.

Nestas condições de aperto em exíguo espaço, não só a quantidade de braços armados ficava longe de uma plena rentabilização, como poderia mesmo resultar em más consequências. Alépio sabia-o, mas aguardava algo. Ao contrário do que seria expectável não dava o sinal de ataque final, o que estranhava as gentes, tanto mais que infligira já duros golpes em Quintus. Afinal, o que faltava para se decidir? Poucos o sabiam…

 

Fábio Fulvius, logo que se abeirou do baluarte principal do inimigo percebeu bem as circunstâncias. Resolveu imprimir mais pressão sobre os bárbaros, abalando-lhes o esconderijo de refúgio e a moral.

O estio amadurecera bem as ervas de junça e panasco. Estavam secas como palha e, tal como as podia apreciar nos limites externos da cidadela, o Tribuno imaginou que também existissem no interior daquela, quanto mais não fosse, junto a muros e a ladear os caminhos de pé-posto. Por isso, mandou avançar as armas de arremesso à distância, colocar mechas incendiárias nas pontas dos dardos e montar projécteis com o mesmo efeito para as catapultas. O ataque iniciou-se de imediato.

Em breve o interior da área defendida fumegava, em consequência de um fogo rasteiro mas importunante que lavrava e alastrava um pouco por todo lado e acabava por abocanhar as madeiras de casas e outras estruturas. Os ocupantes do sítio quase não encontravam espaço para escapar ao calor e à queimadura. Atrapalhavam-se nos movimentos e com tamanha confusão que quase não conseguiam actuar contra o flagelo.

De cima dos muros, dividiam-se os olhares e a preocupação, quer para o lado de fora, quer para o lado de dentro. O descontrolo tomava posse dos ocupantes de Ribasdânia, com a fumaça irrespirável e as chamas intensas que chicoteavam as roupas e a pele. E se embora as pedras não ardessem, abafavam todavia ainda mais o calor, funcionando como as paredes de uma gigantesca forja.

Tongídio leva o grupo de cavaleiros que permanecem por cá, antes que derretam, incinerados, os cavalos, e destrói aquelas malditas máquinas, que nos estão a arruinar os planos! Ainda não recebemos o sinal que aguardamos; por muito que custe, temos de nos manter dentro de muros!” Ordenou o comandante dos Iberos.

Tongídio não se fez rogado e, a encabeçar uma força com centenas dos seus Lusitanos, reforçados por Calaicos e Vetões, rapidamente saiu da fortaleza para levar a cabo uma surtida feroz contra os romanos.

Foi com facilidade que entraram nas linhas inimigas e se chegaram às balistas e catapultas. Enquanto uns formavam uma barreira e enfrentavam os legionários, outros desciam dos cavalos e com machados rompiam as cordas, tendões, peças e apetrechos dos engenhos. Após uma curta refrega com baixas consecutivas de ambos os lados, concluíram o pretendido, pondo as máquinas inactivas, para muito tempo.

Confiante no sucesso da acção, o caudilho lusitano fez soar a ordem de retirada. Mas, a aparente fraca reacção dos adversários fora premeditada e a situação, progressivamente, complicara-se bastante. Os Romanos haviam reagido ao ataque como um pego de água onde entrara a pedra impelida por alguém: deixaram os Iberos mergulhar no seu caudal. Agora tinham-nos absolutamente cercados, como uma bolsa dentro de um alforge.

Das alturas de Ribasdânia, Alépio compreendeu a cilada, mas não teve como avisar os camaradas. Rubínia também viu os seus receios a concretizarem-se. Numa imensa clareira Tongídio e os resistentes defendiam-se duma grande alcateia de lobos do Lácio. Eram já muitos os corpos tombados na orla daquela circunferência. Aquela parcela da cavalaria ibérica cadenciava a morte profusamente pelo inimigo mas também se ia esvaindo de gente.

Mulheres dos guerreiros que acolá morrem; camaradas daqueles amigos e irmãos! Quem comigo vem resgatar os nossos valorosos!!!!” Gritou Rubínia para a multidão que assistia à hecatombe e já quase se esquecera dos incêndios que os afligiam.

A resposta uníssona fez-se ouvir até ao campo de batalha.

Depois, Rubínia encarou Alépio e este, convencido por aquele olhar terrível que aguardava por uma resposta, acenou afirmativamente com a cabeça e deu ordens: “Sigam com Rubínia todos aqueles que ela escolher!

O grupo de resgaste foi fácil de encontrar. Quase na totalidade formado por mulheres-guerreiro, saiu da fortaleza pela porta contrária ao cenário da batalha e apareceu de rompante sobre o inimigo por ambos os lados.

Atacaram a franja mais frágil e mais próxima dos legionários. Lograram romper um corredor até ao centro onde exasperavam os camaradas. Junto a Tongídio a acumulação de adversários abatidos atingia proporções míticas e ele continuava a brandir a falcata sobre os que o enfrentavam directamente ou em ajuda dos companheiros mais próximos, tolhendo os intentos e a vida dos atacantes, a cada golpe.

A chegada dos reforços guiados por Rubínia trouxe algum equilíbrio e permitiu o retraimento dos Romanos, com a surpresa. Porém, logo estes recuperaram o espírito e voltaram à carga massivamente. A pressão aumentava, empurrando os Iberos em recuo continuado até aos muros de Ribasdânia.

Rubínia e Tongídio, agora juntos, organizaram espontaneamente uma frente longa de oposição, evitando assim novo cerco fatal, enquanto retrocediam para posição de refúgio, sem virar as costas ao inimigo.

Alépio mandou retirar todos os guerreiros desse lado da muralha, permanecendo apenas todos aqueles armados de fundas ou de arcos. Assim que as duas facções beligerantes se aproximaram o suficiente, deu ordem para que atingissem os assaltantes. Desta forma, os sobreviventes da expedição ao exterior viram finalmente uma oportunidade para se acolherem à protecção dos muros da fortificação.

Os dardos e as bolas de fogo haviam parado, mas as tropas de Alépio tinham sofrido grande revés com a investida, perdendo efectivos preciosos e trazendo alguma descrença aos resistentes. Apesar do desastre, a reacção de Rubínia minimizara as perdas e mantivera o alento face à contrariedade.

 

Perante o impasse criado, Fábio interrompeu o combate por alguns momentos, dando atenção sobretudo à recolha e amparo dos soldados feridos, enquanto debatia com os seus assistentes de campo o rumo da batalha. A reconstrução dos aparelhos de guerra destruídos era impossível em tempo útil. Restava-lhe progredir de forma tradicional sobre a fortaleza: arqueiros, protecções aos homens do assalto, escadas e subida aos muros, forçar o arrombamento de portas.

 

No interior de Ribasdânia, dominado o fogo e após algum descanso do confronto, os ânimos melhoravam e já se ouviam algumas graçolas sobre os Romanos e os seus aliados Arévacos.

Apesar de se fazer sentir ainda alguma neblina fumegante no local, uma forte coluna de fumo precipitou-se no horizonte, em baixo no vale e na área mais recuada do arraial inimigo. Informaram o comandante que, então, verificava o estado físico dos seus amigos, confirmando mais um conjunto de lanhos e pequenas perfurações no tronco e braços de Tongídio, o qual se ria enquanto a mulher lhe cosia algumas costuras.

Finalmente! Agora sim, vamos dar a sova final nestes invasores e mandá-los para casa humilhados e esfarrapados ou para o além! Reunião de chefes, imediatamente, e os guerreiros que se aprumem para o dia glorioso de hoje!

 

Andarilhus

V : IX : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:18
Terça-feira , 09 de Agosto DE 2011

Por Ti Seguirei... (59º episódio)

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Sem saberem da tragédia que se abatera sobre os seus camaradas, os esquadrões romanos mantinham a distância curta para a fugitiva cavalaria ibérica. Talauto e os seus, melhores conhecedores do território, conseguiam assegurar um espaço de permeio necessário e constante para não serem alcançados, mas sempre atentos para que o inimigo também não perdesse a peugada ou o interesse na perseguição.

As planuras da meseta que se abria nas cercanias de Montes Negros tremiam à passagem dos milhares de equídeos, denunciando a pressa e a crispação. O solo, duramente castigado, revolvia-se, desfazendo-se o equilíbrio natural, ao ponto dos lugares ficarem irreconhecíveis.

No decurso da correria, a vegetação bravia começou a dar lugar a outra realidade, marcada por um novo e progressivo mundo, onde se testemunhava a presença humana, na sua fecunda manifestação de criação. Particularmente naquele quinhão da península, extensos campos de castanheiros desenhavam a paisagem e acusavam uma das principais actividades de produção dos autóctones.

Por essa época do ciclo da vida, os castanheiros estavam já bem desenvolvidos, frondosos e com os ouriços a ultimar crescimento, tornando os soutos muito cerrados. Os perseguidos aproveitavam para atravessar os campos, desaparecendo e aparecendo à vista dos soldados latinos.

Surgiu então uma clareira entre dois pequenos outeiros afastados. Com o inimigo bem visível, os legionários atiçaram ainda mais as montadas para reduzir o intervalo que separava as duas forças… acelerando irremediavelmente para a emboscada.

Os topos das duas colinas coroaram-se de guerreiros, principalmente pelos famosos arqueiros cartagineses enviados por Aníbal. Uma descarga de flechas abateu-se sobre os cavaleiros romanos, completamente a descoberto e numa situação inferior, oferecendo-se como alvos fáceis. Tombaram bastantes à primeira bateria de projécteis.

Caídos, homens e animais acabavam por morrer sob o andamento alucinado da restante coluna militar. Os oficiais, assim que perceberam a cilada, em desespero, incitaram ao máximo os cavalos, dirigindo-se para a protecção de mais um dos muitos soutos da região. Aí, julgando-se a salvo, abrandaram e entranharam-se no lato bosque de castanheiros, determinados em reunir a hoste e decidir a continuação da operação; a cavalaria ibérica sumira-se e a alternativa, conjugada com o regresso ao centro do exército, poderia passar por uma incursão punitiva sobre os bandos de bárbaros que, atrás, acabavam de os atacar, deixando-os com sérias baixas.

Face ao terreno, organizaram-se na formatura possível e iniciaram a manobra de retorno. Acelerariam em investida para os cimos dos outeiros assim que saíssem para campo aberto. De fronte para o inimigo, não seriam miras tão fáceis para os arqueiros.

Os intentos saíram novamente gorados. Os peninsulares voltavam a perturbar os projectos dos romanos, reaparecendo na orla do souto com a sua cavalaria e patenteando ordem para combate, pela disposição das unidades numa extensa frente alinhada.

Predispostos para a batalha e mesmo ansiosos, estavam também os do Lácio. Da mesma forma que o adversário, cerraram fileiras alongadas.

Provavelmente, aqueles cães vão dar meia volta e fugir quando os tivermos quase ao alcance. Devem querer levar-nos para mais uma armadilha. Veremos a reacção que terão; desta vez não cairemos no logro. Avançar, em marcha de passo… para já!” Avalizou o tribuno, chefe em comandante, primeiro em tom baixo, para os mais próximos e depois em vozeirão alto, para se fazer ouvir entre os soldados.

Estendidos pelo campo de castanheiros, contornando-os, o exército romano progredia e ganhava confiança com análogo avanço da força oposta. Desta vez haveria confronto! De ambas as bandas, a passada estugava-se paulatinamente, até ser necessário um controlo mais autoritário para conter os rasgos individuais e manter a organização.

Já a galope, e praticamente em choque, Talauto fez soar a corneta, provocando uma divisão da hoste ibérica em duas metades, as quais se desviaram para o respectivo lado, imprimindo maior velocidade, para caíram em cima dos extremos da formação inimiga. A manobra provocou a desagregação das fileiras romanas, forçadas a acudir os camaradas atacados e a perseguir os celtas.

Com a desordem fomentada, a batalha decorria dispersa pelo souto, através de confrontos entre inúmeros grupos e muitas lutas isoladas. Apesar de significativa diferença de efectivos, penalizante para os nativos, estes conseguiam suster o primeiro embate dos adversários e persistir no combate. E não o faziam por acaso.

Absorvidos na peleja, a superioridade latina e consequente vislumbre de vitória destrambelhou-se e desapareceu quando, das ramagens dos castanheiros - como ouriços maduros e afiados -, começaram a saltar centenas de guerreiros ibéricos sobre os legionários.

Deslocados da guarnição de Montes Negros e ocultos no arvoredo, segundo os planos esquadrinhados na ardósia de Alépio, a comitiva de turdetanos, cónios e túrdulos rapidamente inverteu o equilíbrio de números e a tendência da batalha, que acabou por se tornar nefasta para as tropas de Quintus. Incrementando-se o poder dos opositores, que lhes pulavam para as garupas dos cavalos, lhes trespassavam couraças, tendões e artérias com punhais ou os tombavam das montadas, os do Lácio não suportaram ou conseguiam contrapor a múltiplos e diferentes golpes.

Tal como a maioria dos efectivos da cavalaria romana, da força conjunta de 5 legiões, Graccus Negro não lograria cumprir a promessa de apresentar a cunhada Metella ao seu camarada Pôncio Mirtilio… Menos de meio milhar de cavaleiros teve sucesso na fuga e regressou à base do exército, no vale, já com a tarde adiantada.

Com o ocaso, obscureciam também as perspectivas dos romanos. Quintus Scipius não perdia a ambição ou a certeza na vitória. Tal era inconcebível para a sua mente e personalidade. Todavia, já assumia também que para fazer dobrar a espinha aos bárbaros e conquistar a Ibéria iria custar muito caro em vidas de patrícios e em favores e justiça do Senado. Não previra resistência tão acérrima; aqueles rudes montanheses deveriam saber que estavam vencidos logo à partida: porque lutavam?!

No souto, e após limpeza dos moribundos (acudir aos camaradas e finar os inimigos) e recolha de despojos, um núcleo reduzido de guerreiros recolheu a Montes Negros, enquanto os restantes acompanharam o grupo montado do chefe vetão, formando assim um pequeno exército, de infantaria e cavalaria. Acamparam na floresta para passar o período nocturno.

 

A dada passagem dos socalcos que acumulavam o desnível até Ortas, Fábio Fúlvios assistira, à distância e amargurado, ao desafio inimigo e à subsequente grande desgraça que se abatera sobre as coortes de assalto enviadas pelo Cônsul, chegando a escutar os gritos sofridos dos que ficavam esmagados pela fúria destravada dos troncos. Parou então, indeciso de retornar ao vale ou prosseguir para a sua missão. Pelas suas contas, com Quintus, sem considerar os aliados, estariam agora o equivalente a duas Legiões, compostas praticamente somente de infantaria, com o grosso da cavalaria ausente (ainda não tinha conhecimento da derrota que também flagelara esse corpo do exército), o que poderia ser pouco se os iberos atacassem.

Aguardou e como não presenciou movimentos de Ribasdânia, fez-se ao caminho para Ortas. Ao seu dispor, tinha agora cerca de 6500 legionários, prontos para atacar o grande baluarte do inimigo. Acantonou para passar a noite. A campanha recomeçava com o alvorecer seguinte.

 

(continua)

 

Andarilhus

IX : XVIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:43
Sábado , 06 de Agosto DE 2011

Por Ti Seguirei... (58º episódio)

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Na manhã seguinte, em Ortas, os romanos recolhiam os mortos e faziam as exéquias possíveis. Tratavam de acomodar melhor os feridos e reorganizavam o interior da fortificação.

Fábio Fúlvios desceu ao vale, acompanhado de uma pequena escolta. Faria o relatório ao seu superior e pediria tropas auxiliares para continuar a campanha pelo dorso do Padrelas e a incursão sobre Ribasdânia, pelo flanco.

Quando chegou ao campo principal das suas forças, ouviu os relatos das ocorrências e, sendo um homem de princípios e de ética militar, sentiu-se enojado com os factos. Porém, era também disciplinado, tendo uma fé inabalável nas instituições e nas regras: respeitava e obedecia formal e absolutamente às hierarquias.

Quintus escutou com sofreguidão todos os pormenores que Fábio trazia acerca da escaramuça de Ortas. Revia-se na vitória e estava satisfeitíssimo com o subalterno. Quando a batalha terminasse, prometia distingui-lo magnificamente.

De tal modo, que foi com toda a naturalidade que destituiu o general de uma das Legiões – ganhando mais um inimigo tenaz – e a entregou a Tribuno triunfador.

Antes de regressares Fábio, quero que presencies como arrelio até à exaustão os malditos bárbaros. Vou sacrificar mais uns quantos bons escravos, só para os ver aos gritos lá em cima. Senta-te nesse lectus e goza a paisagem.

Tragam vinho e adiantem lá para a frente mais uma trintena de prisioneiros. Faremos como ontem!

Uma dúzia de cavaleiros dirigiu-se à retaguarda, próximo do assentamento dos arevacos, onde estavam agrilhoados algumas centenas de cativos, sobretudo vetões.

A diligência ficaria, no entanto, interrompida, com as mudanças que surgiram logo a seguir. Os iberos – vetões, lusitanos e calaicos -, a cavalo, saíram de muros e concentraram-se ao longo do caminho que levava ao vale. Cerca de dois milhares de cavaleiros, liderados por Talauto, apinhavam-se até quase metade da extensão da via. Mostravam intenções desafiantes.

Finalmente, eles saem! A postos! As “coortes” de impacto à frente, bem próximas da saída do trilho, seguidas das “coortes” mais ligeiras e manobráveis. Nas laterais e recuada, a cavalaria, o grosso aqui à esquerda e apenas 2 centúrias à direita. Vamos receber o primeiro confronto sem responder e, depois de os deixar emaranhar bem nas nossas unidades, abafamo-los com o cerco! Vamos, chegou o momento; que cada um cumpra a sua parte.” Gritava, excitado, o Cônsul para os oficiais.

E tu, Fábio, mexe-te célere lá para cima. Precisamos que pressiones os bárbaros, de outro ângulo. Entre dois fogos, acabamos com eles!

O Tribuno juntou-se à Legião que já havia iniciado a manobra de deslocação, seguindo a vereda ascensional, primeiro um pouco a Norte, para depois virar a marcha para Ortas.

Na verdade, os romanos reagiam precisamente como Alépio previra. Os iberos tinham uma lição completa, bem estudada, para aplicar ao inimigo.

O timbre das gaitas-de-foles ganhou o éter, cerimonioso e retumbante, de tonalidades agudas. Os guerreiros iniciaram cânticos de guerra e desataram a bater com as armas nas caetras. Os das muralhas acompanhavam. Talauto ergueu o braço e todos se calaram, ficando quedos, enquanto os cavalos, excitados pelo frenesim, relinchavam, erguiam-se nas patas e até se ferravam entre eles.

“Celtas, recordam-se da infâmia de ontem?! Não poupem nenhummmm!!!!!!!!!!!!!!”

Saltaram pedras no arranque dos milhares de cascos, ergueu-se densa poeira, por onde pouco se via, mas ouviam-se os gritos selváticos daquela gente que formava a onda de morte que descia a montanha numa rapidez alucinante.

Ao fundo do carreiro, a consciência de superioridade em efectivos não era suficiente para acalmar o intenso nervosismo dos legionários que preenchiam as primeiras linhas, as mesmas que susteriam o embate brutal daquela força destravada e fatal que se aproximava. Como mandava a experiência e a táctica, manobraram para as conhecidas disposições em “tartaruga”, por “manípulo”, protegendo-se atrás e sob os escudos, dando as pontas das lanças e pilluns ao adversário. Com os escudos bem fincados no solo e a eles encostados, amparavam-se também uns aos outros, em cadeia, para receber o impacto devastador que se agoirava. Os centuriões gritavam as ordens, obrigando à coesão e mantendo os homens concentrados e na sua função do conjunto, atentos a possíveis deserções.

Muito recuada, a cavalaria romana aguardava, algo relaxada. Só entraria em combate quando fosse o momento de rodear o inimigo.

A nuvem de pó ganhava cada vez mais velocidade e os gritos intensidade. Parecia a chegada de um furacão raivoso, ritmado pelo tremor do chão provocado pela corrida desembestada.

Quando já conseguiam mirar nos olhos, os legionários cerraram as formações, encolheram-se e esperaram pela violência e o caos do choque. O odor da tensão incitava os cavalos para o risco, sem contemplações instintivas de defesa, deixando-se conduzir directos às pontas afiadas das lâminas que reluziam no extremo das defesas romanas.

Deu-se então o golpe de mestre concebido por Alépio: como uma enxurrada repentina a passar entre as rochas mais altas dos ribeiros, a horda atacante dos iberos, em vez de se abater sobre a infantaria entrincheirada atrás dos escudos, passou-lhes ao lado, entre os corredores que separavam os “manípulos” das “coortes” da vanguarda, dirigiu-se como um vento, deliberado e ausente a distracções, na direcção da cavalaria contrária, cujos soldados foram apanhados desprevenidos e sem estar plenamente prontos para batalha.

Nos primeiros momentos do embate inesperado, os romanos tombaram em grande quantidade. Dir-se-ia que o primeiro golpe de cada celta da dianteira havia encontrado uma vítima. Após a surpresa inicial, os do Lácio contiveram melhor as investidas da passagem contínua da coluna ibérica, equilibrando os combates.

Para maior perplexidade dos estrangeiros, Talauto não deu meia volta para investir novamente sobre a cavalaria inimiga. Pelo contrário, seguiu em frente, levando a incursão para a retaguarda do exército romano, invadindo as zonas de logística e onde estava estabelecido o cárcere, já bem perto do acampamento dos arevacos.

A manobra deixou Quintus completamente desprovido de reacção, sem saber bem como contrapor ao adversário. Algo lento, acabou por concluiu que a razão de tão insólita acção apontava para a tentativa de libertação dos prisioneiros. Assanhou-se em despertar para a realidade, ordenando o contra-ataque da sua cavalaria.

Porém, outros motivos de preocupação apareciam, do alto da serrania. As portas de Ribasdânia expeliam mais uns milhares de guerreiros, a maioria apeados, desta vez. Pelo carreiro abaixo, chefiados por Tongídio, corriam em grande gritaria e arreganho.

A infantaria avançada romana que, face às ocorrências, saíra da formatura em “tartaruga” e estava mesmo algo desleixada a olhar para trás e a seguir a passagem indomável da cavalaria ibérica, sobressaltou-se com a nova avalancha mas, bem disciplinada, rapidamente se colocou em fileiras de contenção, às ordens dos centuriões.

O Cônsul, que tanto desejara a saída dos bárbaros, estava agora desvairado e quase rouco de tanto vociferar.

Entretanto, na outra ponta do campo, Talauto atacava os guardas que mantinham subjugados os seus compatriotas. Alguns dos cavaleiros aproveitaram para arremeter furiosamente sobre os traidores ibéricos, entrando ligeiramente no reduto dos titos. Foi nesse momento que se concretizou um dos eventos – premeditados - que marcariam o desfecho da guerra. Enquanto trucidavam os desorientados titos, semeando a confusão, com incêndios e destruição, cerca de uma dezena de guerreiros saltou dos cavalos, misturou-se e “desapareceu” na multidão tumultuada.

Já a enfrentar o contra-golpe da cavalaria inimiga, o caudilho vetão passou à fase seguinte do plano. Manteve o combate aceso durante algum tempo, depois, pegou na corneta e largou o sinal: logo que possível, os guerreiros libertaram-se do oponente directo e juntaram-se à fuga colectiva. Contudo, não tomaram como destino Ribasdânia; seguiram para Sudoeste, ao encontro dos termos de Montes Negros…

Sondado para que desse as ordens, Quintus Scipius, mais atento à nova investida dos bárbaros, deu indicações para que as unidades equestres perseguissem os cavaleiros ibéricos. Estavam em ligeira superioridade numérica, e poderiam assim, pelo menos, controlar aquela horda de selváticos e mantê-la afastada do teatro principal de operações. No entanto, esqueceu-se que ficava reduzido, mesmo que momentaneamente, a duas centúrias de cavalaria, as quais apartadas da força principal, se tinham conservado apenas em alerta e não haviam participado nos combates. Pouco importava porque o cuidado do Cônsul era agora a segunda vaga de ataque do inimigo.

Tongídio, à cabeça da torrente exaltada, levava em mãos um cajado com um capacete romano no topo. A menos de uma centena de passos do vale, estacou e ergueu o bastão, assinalando paragem. Os homens que liderava saíram do trilho e espalharam-se pelo monte, por toda a vertente Este de Ribasdânia. Uma vez mais, os legionários ficavam sem oponentes para combater. O desagrado provocado pela ansiedade, fundada na permanente perspectiva de combate e consequente adiamento, manifestava-se numa enervação galopante. A amargura começou a dar azo a alguma exaltação latente e exteriorizada, instigando-se mutuamente contra a humilhação e gozo protagonizados pelos bárbaros montanheses.

As chefias intermédias sentiram o controlo e a disciplina em perigo, a esvaírem-se. Comunicaram-no aos oficiais superiores.

Sintonizado com o espírito de raiva dos seus inferiores, Quintus ordenou o ataque a toda a extensão da força rebelde: “Subam o monte e deitem-nos cá abaixo!”

A princípio, ordenadas e coesas, as coortes dispuseram-se lado a lado para abarcar toda a encosta, na qual iniciaram a subida, a passo cadenciado pelos tambores de combate. Contudo, o bater dos tambores atrasou-se paulatinamente, face ao acelerar da passada anormal dos irados legionários. Em pouco tempo a organização e tradição do exército romano, construídos ao longo de séculos, indiciavam ruptura, transformando soldados profissionais numa multidão de rufias, sem ordem ou regra.

Apesar do esforço dos centuriões, dos decuriões e dos “optios”, 6.000 homens desvairados desmanchavam as formações, aqui e ali, até que desataram em correria, desalinhadamente, direitos aos odiados adversários.

Tongídio deixou-os arribar até meia centena de passos. Estando então já em adiantada ascensão a força que assaltava, o lusitano indicou a retirada.

Entusiasmaram-se os latinos, esquecendo o esforço da subida, para acelerarem e dispersarem ainda com mais furor. Queriam apanhá-los antes que transpusessem e fechassem as portas de Ribasdânia.

Sem o saberem, galgavam a montanha ao encontro de uma morte trágica…

Com os seus guerreiros a salvo, bem encostados aos muros da fortaleza, Alépio agitou o pano imaculado de linho e cumpriram-se de imediato as suas instruções. Homens escondidos ao longo da colina cortaram as amarras que retinham os pesados troncos de pinheiro, os mesmos que, aquando dos preparativos da batalha, haviam sido abatidos e acumulados na horizontal, paralelos ao declive, bem tapados pelos arbustos.

Com a encosta desbastada, plena de obliquidade, as centenas de madeiros, de perfil circular quase perfeito, ganharam rapidamente grande celeridade, precipitando-se a rebolar freneticamente, ao encontro dos romanos. A colisão deu-se quase instantaneamente: sem tempo ou espaço para evitarem a passagem dos duros troncos, a maioria dos legionários foi apanhada pelo deslizamento daqueles lenhos e de tudo o que entretanto arrastavam.

Uma grande quantidade dos atacantes pereceu no local, outros ficaram amputados e esmigalhados, agonizando numa morte lenta, escutando-se desesperados pedidos por um golpe de misericórdia. A hecatombe foi de tal proporção que alguns dos enormes troncos acabaram por ficar imobilizados antes de atingir o vale, travados pelas dezenas de cadáveres que amontoavam sob si. A vertente mostrava um aparato macabro: mortos, centenas de manchas de sangue, pedaços de corpos, pedaços de carne, roupa, armas e armaduras espalhavam-se copiosamente.

Cegos pela soberba e orgulhosos, os romanos perdiam, no tempo de tomar dois golos de vinho, 2.000 efectivos de uma só assentada e quase outros tantos nos dias seguintes, mercê das sequelas e ferimentos provocados.

(continua)

 

Andarilhus

VI : VIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 16:43
Quinta-feira , 04 de Agosto DE 2011

Por Ti Seguirei... (57º episódio)

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A bateria de descargas dos engenhos bélicos de Fábio Fúlvios era tão intensa que chegou a um ponto em que se esgotaram os dardos. Então, para improvisar e manter a pressão sobre o inimigo, deitaram mão a ramos e troncos de pequenas árvores, com as dimensões adequadas, afiaram-nos num dos extremos e queimaram-nos ligeiramente em fogueira branda. Produziram assim chuços, para utilizarem como objectos de arremesso.

Entre os iberos procuravam-se todos os meios para protecção do ataque aéreo inimigo. Uns cavavam buracos nas barrondas de saibro, outros erguiam pequenos muretes de pedra e, a maioria, mantinha-se sempre a coberto da muralha. Os mais audazes, que se deslocavam em campo aberto, expunham-se a ficar violentamente varados pelas estacas voadoras de madeira ou com os ossos amassados pelo choque de pedradas de grande volume. A constância destas casualidades era grande e muitos caíram por semelhantes ferimentos.

A situação mantinha-se num impasse. O Tribuno alterou então um pouco a táctica. Após estudar meticulosamente a fortaleza, deu indicação para que as catapultas concentrassem a acção num segmento da muralha que se mostrava mais frágil (zona onde existira uma porta; agora emparedada por rochas mais miúdas), sobretudo com um aparelho que demorara mais tempo a montar: uma catapulta de maiores proporções. O objectivo era abrir brecha com a colisão de grandes seixos contra o aparelhamento ciclópico. Das posições que haviam alcançado, o efeito das máquinas balísticas era poderoso, apesar da imponência dos muros que atingiam. Os da península não haviam contado com a possibilidade dos romanos arribarem tão próximo com tamanho poder de devastação.

Desprevenidos, os defensores que se abrigavam junto ao local apontado para abrir rombo foram apanhados pela ruína das pedras em grande quantidade. A largura da barricada lítica atrasava uma queda definitiva da secção mas não impedia a sua crescente fragilidade e decadência.

Fábio sabia que não poderia deixar chegar a Lua sem que aproveitasse a ruptura já provocado nas defesas. O inimigo, na escuridão da noite, certamente que reconstruiria o pano fendido. Sem descanso, continuaram a fustigar a posição alvejada, alargando progressivamente o buraco, que crescia de cima para baixo.

Os de dentro nada podiam fazer, sob pena de sofrem perdas maiores. Comunicaram à distância com Ribasdânia, acusando o risco da iminente entrada dos romanos em Ortas e pedindo reforços.

Com a tarde já bem adiantada e os dois terços superiores daquela faixa da muralha derribados, as armas calaram-se. Fez-se um silêncio assustador. A cadência ritmada dos estrondos das pedras desaparecera e deixava um ambiente de mistério, de interrogação aos iberos. “O que se passará? Será que os cães desistiram? Ou ficaram sem projécteis?” Começaram a erguer-se dos esconderijos, a alçar os pescoços e a espreitar para fora.

E o que viram arrepiou-os: os legionários alinhados numa coluna de fileiras sucessivas de 6 elementos, que se perdiam de vista para os lados dos Pentões, mantinham-se quietos, mas em formatura de ataque. Ao lado das primeiras linhas, um conjunto de homens – talvez uma centúria completa, segurava uma longa e pesada plataforma de madeira. Atrás destes, mais cinco coortes permaneciam em formação tradicional.

No interior do reduto, alguém teve enfim a visão do que ia acontecer e gritou bem alto: - “Às armas que eles vão tentar passar pela falha na muralha! Acudamos todos ao local; concentremos lá as nossas forças!

E de facto, após ordem do comandante, os corneteiros da Legião deram o sinal sonoro esperado. Rapidamente os que carregavam a plataforma de madeira movimentaram-se em passo leve, colocando-a como uma rampa que levava topo da secção diminuída da muralha. O manejo oposto das fundas e lanças causou forte redução dos efectivos que garantiam a acção de sapador.

Ainda mal colocada em posição e já os legionários galgavam a rampa, iniciando novo assalto. Umas após outras, as fiadas de latinos abeiravam-se dos adversários, encarando-os de perto. Reiniciaram-se os combates corpo a corpo e ressoaram novamente os tinires das armas. Das laterais, os iberos faziam chover pedras e dardos sobre os inimigos que se encontravam na boca da invasão. Uma grande multidão de indivíduos apertava-se naquele estreito ponto, acumulando-se os abatidos, cujos corpos eram desgraçadamente profanados por espezinhamento, perdendo mesmo as formas humanas, despedaçados e inchados.

Apesar de alguns momentos em que os romanos conseguiam avançar para o interior da fortificação - para serem, com maior ou menor dificuldade, rechaçados -, os iberos mantinham as posições iniciais ainda em sua posse.

Porém, o tribuno tinha ainda outro dado para jogar: as coortes que se mantinham em formatura. Pleno de astúcia e excelente estratega, Fábio Fúlvius conservava uma reserva de tropas, para fazer avançar subitamente quando o inimigo estivesse distraído e completamente envolvido noutras prioridades.

Assim que o combate se tornou mais encarniçado, as unidades que aguardavam investiram sobre as muralhas, numa zona afastada da contenda que concentrava o grosso das forças, procurando transpô-las com recurso a escadas. A resistência dos iberos foi muito débil, mercê da falta de efectivos.

Sem grandes sobressaltos, a quase totalidade das 5 coortes entrou em Ortas, convergindo na direcção dos camaradas que forçavam a entrada no local inicial do ataque, flanqueando, deste modo, o inimigo. Pressionados de dois lados, após momentos intensos de combate, os iberos não tiveram outra alternativa que não fosse retrair-se e buscar protecção junto dos muros de Sul, evitando a manobra de cerco que os romanos procuravam levar a cabo.

O crepúsculo anunciava-se a passos largos. O cenário estava igualmente turvo para as hostes locais. Perdida uma parte significativa dos guerreiros, os iberos eram agora um magote bastante reduzido de homens, encurralados contra os muros, angustiados nas suas perspectivas, e que se viam confrontados com uma massa de legionários, sedentos por concretizar a vitória, altamente motivados e pouco interessados em fazer prisioneiros.

Virar as costas aos oponentes e ensaiar a fuga pela saída próxima não era solução: a perseguição acabaria com o que restava dos cantábricos, vascões e astures. Os portões estavam abertos mas, apesar da tensão e ansiedade, não houve tolo que para ela corresse. Os celtas montanheses estavam determinados a morrer e a vender caro cada singular sopro de vida. Mantiveram-se aprumados e coesos. E foi o que os salvou, ou pelo menos, foi o que salvou a maioria deles.

Reunidos e reorganizados no interior do baluarte, os romanos preparavam-se para a estocada final. Soou novamente o toque de trompa. Retomaram o movimento, com passada lenta, avançando com os escudos ostensivamente à frente e os pilluns e gládios prontos para a função.

As circunstâncias revelavam que a noite iria cair definitivamente para muitos. Ouviam-se promessas e preces aos deuses, entre alguns gritos de desespero, vozes de despedida a presentes e ausentes. Inusitadamente, o conformismo à certeza de um desfecho previsto caiu e revigorou-se o moral celta, com o aparecimento de reforços - um grupo alargado de várias centenas de cavaleiros, liderados por Gurri - que arremeteram sobre a formatura inimiga, pretendendo desbaratá-los.

Logo aos primeiros confrontos do contra-ataque, verificou-se que, com aqueles parcos efectivos e quase com o Sol sobre o leito do horizonte, já não conseguiriam inverter a situação e fazer capitular os do Lácio. Gurri determinou a retirada, ficando a cavalaria a aguentar a pressão do combate, até que os peões se pusessem a salvo. Esta fuga apoiada permitiu que muitos guerreiros fossem poupados, para continuar a luta, noutro dia, noutra fase da guerra.

Os romanos estavam vencedores, mas praticamente reduzidos a dois milhares de soldados. Pago desta forma o esforço de conquista, restava agora ao Tribuno entrincheirar-se no sítio fortificado e pedir mais legionários, para posterior avanço sobre Ribasdânia.

No pólo central da ameaça romana, Quintus Scipius, tentara novas manobras que provocassem o contra-ataque ibérico. Porém, nada surtia o efeito pretendido. Antes pelo contrário, todas as iniciativas tinham redundado apenas na morte de mais umas centenas de legionários. Passara o dia a enviar tropas para a chacina.

Em mais um acto de crueldade desnecessária, que chocava os próprios compatriotas, ordenou a presença de meia centena de cativos (os mesmos que haviam sido capturados em Freixieiro, entre outros, e cujo envio para Sagunto fora, entretanto, adiado), colocou-os bem junto ao sopé do morro que suportava Ribasdânia. De seguida, posicionou um soldado nas costas de cada um dos prisioneiros. Com o aparato pronto, gritou bem alto, para as silenciosas multidões – acima e no vale - que assistiam à cena e não estavam a compreender o motivo da mesma: -“Como os covardes não saem do refúgio onde se acoitam, vou mostrar-lhes que o sangue, que tanto escondem e receiam perder, será pago por outros que não têm sequer a capacidade de lutar. Estes aqui serão os primeiros, mas, ao ritmo da ampulheta, serão massacrados novos grupos destes reles cativos, até ao último, enquanto, não saírem daí de cima e se renderem! Legionários ao meu sinal, cumpram a execução!

Talauto, Pardo, Mauri e outros vetões, que até reconheciam alguns dos que Quintus marcava de morte, bem como todos os que, incrédulos, fitavam atónitos, na perspectiva do que iria acontecer. Alépio reagiu imediatamente, mandando preparar a cavalaria para um ataque. Porém, o Cônsul, fanático, não perdeu tempo: -“Agoooraaa!!!”

Naquele instante, os que observavam sentiram no íntimo, de algum modo, as lâminas dos gládios com que os soldados trespassavam as vítimas, vazando-os acima da zona da cintura. Escolhidos indiscriminadamente, como exigira Quintus, anciãos, jovens, mulheres e crianças tombavam em dor e golfadas de vida, perante os olhos húmidos dos iberos, alguns deles familiares ou vizinhos…

Nas muralhas, agonizavam de raiva, arrancavam porções de cabelo e auto-infligiam-se de golpes, tamanha era a fúria contra o carniceiro. Tongídio encarou Alépio: -”Dá as ordens certas Alépio! Há que vingar os nossos conterrâneos e acabar com estas feras imorais. Não podemos deixar que execute impunemente mais mártires. Temos de os enfrentar! Dá as ordens certas ou perdes o controlo sobre os teus guerreiros…

-“Sim, para destruir este discípulo do mal, temos de tomar a iniciativa. Reúnam-se na sala do Conselho, vou explicar o que vamos fazer.”

Já era tarde, Quintus deu instruções para prepararem o campo, zelando pela segurança e vigília nocturna.

(continua)

 

Andarilhus

IV : VIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:41
Terça-feira , 02 de Agosto DE 2011

Por Ti Seguirei... (56º episódio)

 

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Sob os Pentões e ocultos na mata que antecedia a encosta rapada, o Tribuno transmitiu os seus planos. Ordenou aos legionários que se privassem de todo o peso excedentário e subissem a ladeira gradualmente, em diagonal, em fila apertada, aos pares, protegidos pela colocação dos escudos ao alto e próximos uns dos outros, a jeito de cobertura.

Desde o início que a acção assumiu um ritmo quase de cortejo fúnebre, penoso, não apenas pelas dificuldades naturais do terreno, como também pela queda de blocos de granito e outras matérias, enviados pelos defensores, que, por vezes, eram de tal peso que rompiam com a formatura de ataque, atirando com uns quantos infelizes montanha abaixo. No entanto, logo os legionários se posicionavam para recompor a longa coluna humana e fechar os pontos fragilizados, continuando a avançar.

Os cerca de dois mil romanos empenhados na ofensiva agonizante criavam uma corrente contínua de elos entre a base e o cimo do monte, até junto à barreira de grandes fragas. Assim colocados no extenso e acanhado socalco repisado e sempre em exposição aos arremessos superiores, faziam correr de mão em mão, os instrumentos de assalto, sobretudo escadas e ganchos cordoados.

Quando já com os apetrechos necessários e prontos nos locais escolhidos para transporem o último obstáculo, soou o sinal de investida directa ao reduto. Desceram os escudos abaixo dos ombros, surgindo então algumas dezenas de escadas que se apressaram a fincar bem no solo e a atirá-las contra as rochas da muralha, enquanto outros, balanceando em círculos, atiravam ganchos de fixação para lá das pedras do topo. Uma dezena de passadas a um nível inferior, em esforço de equilíbrio na vertente, uma centúria de arqueiros disparava ininterruptamente para os limites do refúgio celta, contrariando as tentativas dos defensores para cortarem as cordas dos ganchos ou para balancearem e despenharem as escadas no abismo em frente.

O envio constante de flechas provocava já bastantes estragos entre os iberos que se martirizavam para reprimir a entrada do inimigo. Verificando que não conseguiriam conter por muito tempo os copiosos legionários, accionaram-se os sinais de fumo a pedir auxílio.

A breve trecho, começaram a saltar os primeiros soldados latinos para dentro do recinto, passando a luta para o domínio da espada, do machado e da lança. O pequeno contingente de vascões e cantábricos conseguiram segurar e até afastar os romanos nos primeiros momentos da invasão, contudo a entrada constante de mais inimigos obrigou-os a recuar continuadamente na direcção do local previsto para eventual fuga, perdendo o ensejo de provocar a ruína das grandes pedras que integravam o muro defensivo, sobre as posições do adversário.

Inesperadamente, os romanos mostravam-se tão lestos a conquistar o sítio que, mesmo apeados, dificultavam a evasão dos iberos, não lhes dando margem de manobra para se aproximarem dos cavalos e partir. Só a pronta chegada e carga da cavalaria dos vacceus de Gurri permitiu suster o ímpeto do inimigo e salvar os guerreiros sobrantes da guarnição de Pentões.

Os do Lácio não perderam tempo. Aberta aquela porta, afeiçoaram o terreno para a passagem dos equídeos àquele patamar um pouco mais elevado do Padrelas. Agora, a um nível da montanha similar, Fábio Fúlvius apontava ao baluarte de Ortas, novamente.

 

No cenário central da batalha, Quintus Scipius, seguindo uma das sugestões dos engenheiros militares, mandou construir um aríete montado sobre uma plataforma provida de 4 eixos de rodados, sobre a qual o tronco maciço com ponta de bronze balouçava, pendurado em 2 eixos laterais, fixos à estrutura que também suportava uma espécie de cobertura em vértice de duas águas, que protegia a arma. No conjunto, o aparelho de assalto parecia uma choupana. As 8 rodas significavam mais peso mas facilitavam a sua tracção pelo trilho, o qual corria paralelo e sob do pano de muralhas mais longo de Ribasdânia, fazendo o desnível do outeiro para o planalto que a fortaleza confrontava.

A iniciativa de ataque começou por contar com cavalos a arrastar o pesado arsenal, porém os de cima abateram-nos assim que ficaram ao alcance. Daí em diante, os próprios legionários, uns à frente a puxar através de cordas e outros à retaguarda a empurrar, serviram de força motriz. Apesar de se protegerem com os escudos, as baixas somavam-se a cada passada.

Atrás do aríete posicionavam-se os legionários para a investida, formando uma dilatada coluna, na expectativa de pancada que demolisse as pranchas da entrada da cidadela. Embora à custa de muitos mortos entre os atacantes, amontoados em volta do aríete, a arma foi colocada o suficiente cerca da porta para cumprir a sua função. Quando já recuavam o pesado cepo no eixo para o largar e abalroar tábuas e trancas, do cimo da muralha largaram uma substância líquida e gordurosa a ferver, que embebeu máquina e operadores. Os legionários atingidos pelo fluído gritaram aflitos pela dor das queimaduras, ficando esfacelados e com o corpo em erupção, em farrapos de pele. Rebolavam-se, espolinhavam-se no chão, sôfregos de fresco, de panaceias que minorassem o calor, o incêndio que os consumia. Em desespero, vários atiraram-se para os barrancos da montanha. Mas o golpe não ficaria por ali.

De seguida, os sitiados, com o arremesso de umas quantas tochas, vivas de lume, acenderam o carro de assalto molhado de combustível seboso, ardendo rapidamente o aríete e o plano ofensivo. Sem meios para continuarem o assalto, os romanos retiraram para o vale, sempre fustigados pelos projécteis que pareciam provenientes do céu. Muitos homens ficaram jazentes no caminho da fortificação castreja.

Quintus estava possesso, empurrava e batia nos que se colocavam ao alcance do punho. Acalmou um pouco assim que soube dos progressos de Fábio.

- “Finalmente uma boa notícia; Finalmente um oficial competente! E vós? Não há maneira de arquitectarem um esquema que force aqueles malditos bárbaros a saírem deste calhau gigantesco e os traga à batalha, aqui, em solo plano?! Raios, tenho de ser eu a tratar de tudo…

Dentro de Ribasdânia crescia a facção que daria esse gosto ao Cônsul. Intrépidos, aguardavam o momento em que pudessem correr montanha abaixo, como se fossem mensageiros da morte, sobre os invasores. Só com grande controlo das chefias é que se mantinham ainda na protecção dos muros, embora considerassem isso um comportamento pouco próprio para um guerreiro. Tongídio servia de porta-voz deste grupo.

- “Calma Tongídio e todos vós com ganas de “voar”. Cairemos sobre o inimigo como uma praga de dor, mas ainda não. Ainda não é tempo: os romanos têm de ficar mais maduros, para os colhermos pela rama. Antes de sairmos definitivamente de portas, eles virão cá acima novamente convidar-nos para a festa, e pagarão bem caro por isso!” Recomendava Alépio aos elementos mais instáveis.

O líder ibero estava mais preocupado com as ocorrências a Norte e na defesa de Ortas.

No dia seguinte, o bastião mais ameaçado tinha por vizinhos as tropas de Fábio Fúlvius. Em frente à muralha Norte, os legionários ocupavam cada pequena porção de terreno passível de estribar um ser humano. Pela direita estavam limitados e encostados à parede aprumada do Padrelas, e a Este confrontavam os precipícios para o vale e para as suas antigas posições, na anterior tentativa de tomar Ortas. O espaço era reduzido, mas permitia as manobras de umas centenas de soldados, desde que bem organizados.

Providos de ferramentas e peças, passaram a primeira metade do dia a montar duas dezenas de balistas e algumas catapultas. Pela tardinha, já despediam dardos e pedras sobre os iberos e terminavam a disposição da logística de cerco. A táctica do Tribuno baseava-se no enfraquecimento das forças de oposição, através da pressão psicológica constante, com o envio sistemático – mesmo durante a noite - de objectos mortíferos para o interior da fortificação, procurando desgastá-las ao ponto de lhes provocar o extremo da resistência mental e, daí, o erro… eventualmente a sortida de contra-ataque.

Na manhã seguinte, e ainda com as cordas e tendões quentes da actividade permanente das máquinas de guerra, os legionários iniciaram o assalto às muralhas.

No reduto, os quase 3000 iberos, algo encafuados num local muito exíguo para tanta gente, não tinham abrigos suficientes para todos, que os protegesse dos arremessos latinos. A contagem de mortos e feridos avolumava-se. O cansaço apossara-se dos guerreiros, dado o estado de alerta ininterrupto.

Apesar das circunstâncias, desta vez o número alargado dos defensores deu réplica suficiente à investida romana. À distância, os fundibulários equilibravam um pouco os danos causados pelas catapultas e, já no topo dos muros, as lanças e as falcatas cortavam os degraus nas escadas de ambição dos legionários. O tinir do metal replicava-se numa alargada extensão, misturada por gritos de raiva e ódio, estrebuchares de dor e alguns soluços de despedida. Os corpos de mutilados e mortos tombavam em grande cadência para ambos os lados da muralha, tingindo de sangue as pedras e os companheiros ainda activos, e que se acumulava em poças no correr da barreira que concentrava e separava ainda os oponentes.

Com grande esforço e pesadas perdas, os iberos lograram finalmente conter a poderosa acção do inimigo. Contudo, não granjearam tempo para descansar. Imediatamente ao insucesso da invasão, Fábio deu ordens para se retomarem os ataques com dardos e pedras. Recomeçava assim a ansiedade com a ameaça vinda dos ares para os ocupantes de Ortas. Deram conhecimento da situação a Alépio.

Entre os romanos, a ofensiva resultara numa razia das forças destacadas para a frente da batalha. Mais de mil mortos pesavam na decisão do Tribuno. A legião que assumira já a recebera diminuída pela derrota em Lijós. Com os parecidos agora, ficava com um corpo militar equivalente a menos de meia Legião. Sabia que para pedir reforços, estava obrigado a apresentar resultados que justificassem a passagem de mais efectivos para o seu comando. Era imprescindível arrasar com Ortas o mais rápido possível!

(continua)

 

Andarilhus

II : VIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:23
Sexta-feira , 29 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (55º episódio)

 

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Ortas já estava alerta. Dali conseguia-se avistar ao longe a aproximação e o assentamento das incontáveis tropas do Lácio em frente à vertente de Ribasdânia. Esta não se via, ocultada pelo cabeço mais elevado que ficava de permeio, o mesmo que alojava, no cume, o Santuário de Argerez.

O vale era uma extensa mancha em tons grená e vermelhos, onde cintilavam os materiais metálicos. O solo parecia mexer-se, como se fosse um formigueiro. Confirmava-se que a formidável máquina de guerra romana estava em marcha para a tomada do último reduto de defesa e oposição na Ibéria.

O alto-comando dos resistentes entrou em Ortas apenas para verificar a situação e deixar algumas advertências finais.

O lugar, rijamente encouraçado por muros de grande envergadura, rematava numa parede vertical de uma das escarpas mais inóspitas do Padrelas. Bem defendido na frente, era praticamente intransponível a qualquer assalto directo ou ao impacto de máquinas de guerra, por não poderem chegar-se o suficiente para atingirem e abrirem brechas na muralha.

A fortificação estava ocupada pelo grosso das forças dos cantábricos, vascões e astures. Deles dependia a sustentação do flanco Norte. Alépio empenhou-se em convencer os aliados para a situação crítica do sítio. Deveria ser defendida a todo o custo; só abandonada no limite, se os romanos tivessem êxito em invadi-la. Poderiam contar com os de Pentões, os quais recuariam para a reforçar, assim como seriam apoiados pelos inúmeros grupos de cavaleiros vacceus e vetões, os quais, dirigidos por Gurri, estariam em permanente cobertura do território da cordilheira defensiva, em apoio e vigia a alguma infiltração mais atrevida do inimigo.

Ortas encontrava-se encostada a uma das raras e exíguas passagens entre o planalto - vale - e a média e a alta montanha. Na verdade, tratava-se de um trilho mais calcorreado (e mais apropriado) pelo cabrito-montês do que pelo ser humano. O castro ancorava-se junto a uma curva muito apertada - em cotovelo - do carreiro, que ali, mercê dos degelos resultantes do termo das épocas do frio, se entranhava no chão, ladeada por dois taludes de saibro, a jeito de canal profundamente cavado.

Regressaram a Ribasdânia já as estrelas pintalgavam o firmamento. Após um dia bastante agitado, descansavam o possível enquanto miravam à distância a luz tremida das inúmeras centenas de fogueiras que confortavam os legionários, e deixavam o pensamento escorregar para a ansiedade da previsão dos acontecimentos que preencheriam o dia seguinte, duvidando se ainda gozariam, então, daquele sossego temporário e frágil.

Entretanto, irrompeu um par de mensageiros de Montes Negros pelas azinhagas escuras da fortaleza. Traziam notícia de circunstâncias idênticas. O campo romano era extensíssimo e cobria toda a área do sopé do Padrelas, correspondente à linha completa de protecção altaneira dos iberos. A quantidade e capacidade dos efectivos romanos eram elucidativas da sua determinação. A expansão pela Ibéria assumia-se como primordial para Roma, quer na conquista de mais território e respectivos recursos, quer na política estratégica face a Cartago e ao seu maior mentor, Aníbal.

Pela manhã seguinte, o cenário tinha tanto de avassalador como de confrangedor: os legionários eram como seixos numa margem fluvial e, para além das suas linhas, uma outra multidão - que se distinguia perfeitamente pelas tonalidades – denunciava a presença de arévacos, titos e belos. Para a maior parte dos guerreiros, sobretudo os celtas, que nunca tinham assistido a concentrações humanas daquela grandeza, apenas habituados a algumas dezenas ou eventualmente centenas de pessoas, ao observarem abaixo aquele mar de gente, julgavam que ali se reunia toda a população do Mundo. Aliás, nem sequer imaginavam que havia tanta gente…

Alépio ficou preocupado com o poderio do adversário. Eram tantos que, por muitos que aniquilassem, iam sempre aparecer mais. Realmente, só um golpe da fortuna traria a vitória. Mas, fosse como fosse, os guerreiros da pátria dariam o seu melhor – a vida – para escorraçar os invasores. E os planos, se bem delineados, ajudariam a compensar um pouco as diferenças entre as forças em conflito.

Entre os invasores, cumpria-se a já costumeira actividade de levantar estruturas de protecção. Criavam-se fossos e pequenas paliçadas nas zonas de redoma do acampamento e aprovisionamento, espalhavam-se barreiras e áreas fortificadas em madeira na vanguarda da fronteira com o baluarte ibero e montavam-se as máquinas de guerra possíveis e ajustadas às condições daquela batalha: balistas e catapultas.

Quintus Scipius, sem margem para novos fracassos, vivia numa azáfama que o predispunha ainda mais enfatuado e azedo do que já era usual. Ora fiscalizava os trabalhos em curso, hostilizando os soldados-operários, exigindo um esforço sobre-humano, não se coibindo mesmo de utilizar a vergasta para transmitir o exemplo através do suplício de alguns; ora convocava os oficiais e lhes passava uma reprimenda, obrigando-os, sob ameaças, a uma atitude tenaz, tão arrogante como a sua, a exercer sobre os subalternos.

Quando decidiu reunir o conjunto de generais e patentes superiores das diferentes legiões, já o descontentamento grassava nas hostes latinas. O exército romano era um corpo militar orgulhoso da sua tradição, a qual era entendida, de certo modo, como um legado de profissão. Compunha-se de gente de todas as condições sociais - representativo da pluralidade do povo de Roma -, nomeadamente, muitos patrícios, entre os quais, alguns provenientes de famílias de elevada notoriedade e reputação. Quintus tratava todos por igual, mas quase ao nível da inferioridade normalmente atribuída a escravos… uma humilhação e uma prepotência!

Porém, maior era o rancor que ruminava entre os aliados da península, sempre mantidos à parte das decisões e considerados apenas como uma matilha de cães a serem lançados ao inimigo a tempo conveniente.

O Cônsul começou por, insistindo na mesma nota, instigar à severidade na condução dos legionários, de forma crua, para os manter na linha: - “São uns relaxados, que vivem à custa do soldo de Roma! Têm a atitude de quem está em pleno descanso numa vila nas margens do Tibre. Há que os acordar para a realidade: se fazem parte desta campanha é para irem até ao limite, à morte se forçoso! Até agora só temos andado a passear pela Ibéria; adiante será para criarmos raízes e iniciarmos a construção do mundo romanizado, nestas terras!

Fez uma pausa para recuperar o fôlego que se escapara com a cólera verbalizada.

- “Para estendermos para cá as nossas províncias, primeiro temos de lidar com esses ratos de campo, que têm sido um empecilho e nos têm humilhado como se fossemos nós a presa. Mas, agora estão na toca. Taparemos as saídas do covil e vamos apanhá-los como furões, nem que para isso seja preciso fazer desmoronar a montanha que os acoita!

Ainda de rosto vermelho e inchado pela ira, teve de fazer nova pausa e sorver uns golos de vinho, para prosseguir depois.

-“Ora bem, a situação não é fácil: os bárbaros estão bem entrincheirados. Tal como vejo a situação, confio no seu comportamento irascível – termo que provocou alguns olhares cúmplices e de soslaio entre os oficiais, que viam em Quintus o exponente máximo da irracionalidade –, que os levará certamente a abandonar as posições de defesa para nos atacar aqui. E isso será o ideal. Pelo menos, evitaria as muitas baixas que poderão ocorrer se os formos tirar do ninho. Mas assim será, se eles não reagirem do modo que nos é mais conveniente.

Como é fácil verificar não temos aqui um estado de sítio vulgar. Não há forma de nos aproximarmos com protecção dos redutos fortificados. As vertentes escarpadas não facilitam o avanço de torres ou aríetes de campânula. Como não sabemos se a iniciativa terá de partir do nosso lado, quero que os engenheiros e sapadores comecem desde já a analisar a situação e que proponham soluções que nos permitam atingir os bárbaros sem que fiquemos muito expostos no avanço.

Entretanto, ordeno que as tropas do perecido General Octaviano Auris, agora sob comando deste jovem Tribuno, Fábio Fúlvius, se dirijam para o extremo Norte e aí exerçam pressão sobre as defesas, a ver se obtemos uma oportunidade para flanquear o inimigo. Deixemos por ora a via do Sul em acalmia.

Mantenham-se todos atentos às manobras bruscas dos iberos, sobretudo para uma eventual sortida. O contra-ataque deverá ser imediato e fulgurante!

Os maltrapilhos dos nossos aliados ficarão de reserva; não são de confiança para os colocarmos no âmago da batalha: podem desertar e enfraquecer a estratégia…

Se alguém se quiser pronunciar, que avance; se não houver opiniões, vamos ao trabalho que Roma aguarda notícias!”

Face a tamanha rispidez, e apesar de existirem múltiplas ideias, ninguém opinou, encerrou-se o concílio e cada um partiu para a sua missão.

Sob Ribasdânia mantiveram-se as operações de reforço do acantonamento, sempre com os do Lácio em prontidão para intervir ao menor sinal de movimento dos do alto. Assim que aprontaram as máquinas de arremesso, adiantaram-nas o mais possível e iniciaram as hostilidades contra os muros do reduto ibero. No entanto, a distância anulava a potência necessária para fazer mossa na muralha. Servia apenas para alvoroçar um pouco e provocar os defensores, tentando-os a uma resposta.

Alépio, com esforço, mantinha controlo sobre os eriçados celtas, sobretudo Tongídio, os quais pretendiam devolver aos romanos, em mão e com gratificação de mais uns quantos golpes de falcata, os projecteis que caiam na fortaleza.

Seguindo as instruções do Cônsul, Fábio Fúlvius organizou as suas forças e marchou para as proximidades de Pentões e Ortas, concentrando-se junto a esta última. Indicou o local da base de operações e começou a estudar as circunstâncias e sobretudo as dificuldades para trepar a montanha, com a oposição rapina a coroar a progressão.

Fez uma primeira tentativa, enviando duas centúrias para ganharem posição numa zona lateral a Ortas, num socalco amplo, que se abria a dado trecho da passagem para a montanha, logo após a curva afunilada e cavada, e que poderia ser utilizado como plataforma de ataque ao castro.

As intenções saíram frustradas quando, de cima, o envio de uma avalanche de enormes pedregulhos a rolar direitos ao trilho e os inúmeros rebos e setas lançados apanharam alguns dos atacantes e colocaram os restantes em retirada. O canal de passagem ficou praticamente entulhado, dificultando ainda mais posteriores iniciativas do género.

- “Vamos avançar para o outro bastião [referia-se ao alto de Pentões] – parece ser mais permeável – e, daí, procurar voltar para esta fortificação a cotas de altitude mais favoráveis”.

(continua)

 

Andarilhus

XXIX : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 19:56
Terça-feira , 26 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (54º episódio)

 

A indumentária leve, o caminhar despreocupado e a distracção aos rumores omnipresentes da guerra aportavam um bem-estar, já há muito não sentido. Somava-se-lhes a paz recebida do bucólico cenário envolvente, que se esgueirava pela alma, pelo mundo interior. Os sentidos, como que libertos da acumulação de clausuras abafadas e infectas, despertavam para os - já algo esquecidos - sons das aves, os odores maduros do estio, a diversidade dos tons arrebatantes da flora e das mantas de nuvens no céu que se avistavam dos miradouros verticais consentidos pelas copas das árvores.

Seguiam de mão dada, apoiando-se reciprocamente no avanço pela vertente escorregadia, provocada pelo plano oblíquo constante e dificultado pelo tapete de caruma que cobria longas áreas ou pelos trilhos e barrancos de saibro solto. Aqui e ali pontapeavam pinhas, subiam às fragas cinzentas, enfeitadas por líquenes, em forma de rosáceas brancas e cinza-claro, e por musgo… aquele musgo, farfalhudo como barbas, de diferentes cambiantes de verde.

Divertiam-se com bolotas, oferta dos carvalhos e, num relance de sorte, toparam com uma velha pavieira, atestando-se de saborosos frutos, somados às múltiplas framboesas e amoras que iam colhendo. Saciaram-se de mais frescura em pequenos regatos, superaram o confronto estático de tojos e silvados até que, após ultrapassarem uma barreira cerrada de giestas, encontraram um lugar mais chã, onde prosperava um belo prado, com pequenos desníveis. Ao fundo de um curto outeiro, o curso de um dos canais aquíferos formava uma ligeira queda da água cristalina, a jeito de uma bica, sobre uma singela represa. Ai, Tongídio e Rubínia fizeram uma parada a pedido dela. Numa fresca oferecida por um negrilho, sentaram-se a admirar o lugar abençoado pelos deuses.

Aproveitaram para tratar de alguma higiene pessoal e para enxaguarem as roupas encarquilhadas pelo suor e pela poeira das muitas demandas. Rubínia limpava também o amuleto da “Senhora das Águas”, enquanto se recordava da amiga Bolota e dos momentos penosos passados em Pellenda. A tranquilidade dominava.

As sensações eram tão avassaladores que quase se permitiam iludir, julgando-se repousar no bosque do termo de Tanábriga, numa daquelas saudosas rotinas em que visitavam as matas para aprovisionar lenha e apanhar alimentos silvestres. Recordaram alegremente alguns dos episódios que mais marcavam a memória, como aquele em que enfureceram um ninho de vespas, quando, em busca da fruta doce, sacudiram a ramagem de uma amoreira; escaparam ilesos porque a “Lagoa das Chagas” estava muito próxima e o mergulho salvou-os de dezenas de ferroadas certas.

- “Já não faltará muito para nos podermos banhar novamente na lagoa… Anseio-o e estou determinada a completar o meu destino para regressar aos meus hábitos…

- “… É só darmos a sova final nos visitantes que não foram chamados a estas paragens! Mas, espera Rubínia, façamos silêncio… escuta…

O ouvido treinado de Tongídio pusera-o alerta. O burburinho, inicialmente ténue, crescia rapidamente. Não demorou a perceber-se o som característico do choque de cascos de cavalo sobre pedra e o tilintar de peças metálicas.

- “Rápido, toca a recolher tudo e passar para lá do giestal. Vem aí tropa!

Semi-nus e descalços carregaram os pertences e correram no sentido do alto da montanha. Já depois dos arbustos, vestiram à pressa a roupa ainda bastante húmida e ficaram de atalaia.

O instinto aconselhara-os bem: um esquadrão de mais de 5 decúrias de cavalaria romana irrompeu do matagal. Os viandantes chegaram-se à fonte de água e desmontaram. Eram certamente batedores avançados, em busca dos limites das posições dos iberos e reconhecimento do território.

Tongídio fez sinal à mulher para se afastarem em silêncio. Recuaram uns bons trinta passos quando, após passarem por uma faixa densa de fetos, deram com um bando de perdizes que, alvoraçadas da sua quietude, imediatamente, largaram em esvoaçar furioso e estridente. Raios, lá se iam o silêncio e o ensejo de se afastarem sem perigo, devido àquelas aves de escarcéu! A reacção dos romanos foi contínua. Os cavalos começaram a relinchar e logo se ouviram a galopar. Daí até se sentirem as ramagens a gemer e a estalar com a pressão dos corpos dos predadores a furar foi um instante.

- “Por todos os deuses, corre Rubínia! Escala o monte e coloca-te a salvo. Eu retenho-os o máximo de tempo que puder!

Ela olhou e ainda hesitou, mas não havia outra solução que não fosse ir lá acima pedir ajuda; os dois jamais conseguiriam uma fuga com sucesso. Arrancou como um javali, atravessando a vegetação em linha recta e sem olhar a obstáculos.

O lusitano pegou num galho graúdo de freixo e, ladeado por duas árvores, colocou-se entre o sítio em que aguardava o aparecimento do inimigo e a direcção que a mulher tomara. Não esperou muito. Como a vegetação não permitia outra formatura, os legionários rompiam pelo mato em fila.

O da vanguarda, apanhado de surpresa, tombou do cavalo, inanimado, com o nariz desaparecido no interior da cavidade do rosto. O seguinte ainda puxou do gládio, que logo largou com a forte pancada no ombro e braço armado. A ponta da vara fibrosa apontada à fronte determinou a estocada final para o derrubar e pôr fora de combate.

Os romanos já eram muitos à vista de Tongídio e tentavam contornar a sua posição, para o dominar. Este, agora armado com a espada do adversário abatido, dirimia golpes com os que se aproximavam, provocando-lhes mais baixas. Porém, como o número de inimigos crescia rapidamente e se tornava sobre-humano enfrentar tantos, começou a deslocar-se em busca de refúgio em áreas cada vez mais densas da floresta, mantendo a luta acesa e puxando os legionários para longe da companheira.

Por sua vez, Rubínia progrediu bem na ascensão da encosta. Quando já avistava ao longe o clarão de luz que significava a adjacência da cinta desflorestada e o alto dos Pentões, percebeu também que a perseguiam de perto.

Alguns dos legionários deixaram a caça a Tongídio para se enveredarem na floresta no encalço de outros potenciais inimigos. Encontraram os rastos de outro indivíduo e seguiram-nos. Porém, a marcha não era célere quanto o desejado: as montadas esforçavam-se, contudo o declive e a vegetação tolhia-lhes o ânimo e a resistência. Abeiravam-se lentamente de Rubínia com, cada vez mais, acrescida dificuldade.

Estavam praticamente a alcançá-la quando a mulher arribou ao descampado e puxava das últimas energias, agarrando-se ao mato que subsistia hirto, para fazer as passadas finais até ao cume. Estava quase à distância de um braço quando também os cavalos entregavam as últimas forças, empinando-se nas patas traseiras sem que conseguissem avançar. Enquanto os cinco romanos desmontavam para prosseguirem a pé, Rubínia ganhou alguns passos de vantagem e gritou lá para o alto: -“Gurri! Alépio! Todos! Acudam; ajudem-me! Sou perseguida!

Do cabeço, os iberos acorreram céleres às fragas limítrofes e espreitaram para baixo, na direcção dos apelos. Zímio que reconhecera de imediato a voz de sua senhora foi o primeiro a acudir, pulando como um felino para o exterior e rebolando pela vertente, com a dificuldade de estacar o salto. Levantou-se, puxou Rubínia para cima e enfrentou o inimigo. A fúria pelo receio de perder a sua protegida, arrepiou-lhe o sangue e, da sua colocação superior, com facilidade rompeu o pescoço do primeiro adversário e cravou a ferro o peito do seguinte. Ainda com a arma presa no externo do oponente, avançaram os outros legionários. Estava iminente o disparo de um dardo sobre Zímio, mas uma pedrada violenta, aplicada pela funda bem treinada de um cantábrico, adiou o perigo e estoirou com o crânio do litigante. Entretanto, chegavam os reforços, e os romanos sobreviventes correram para os cavalos, pondo-se em fuga.

Alertados por Rubínia, Talauto e a maioria dos guerreiros mergulharam na floresta em socorro de Tongídio. O lusitano continuava a deambular pelo arvoredo acossado pelos muitos inimigos. Escondia-se, para atacar de surpresa os grupos mais pequenos de romanos - de 2 e 3 homens -, dispersos na busca, e voltar a fugir e acoitar-se.

As circunstâncias mudaram radicalmente com a aparição dos reforços ibéricos. A vantagem romana perdia-se em número e em capacidade de combate naquele ambiente. Vendo os seus soldados a serem abatidos com rapidez e certa facilidade pela impetuosidade dos autóctones, o centurião ordenou o recuo até ao local onde haviam deixado os cavalos e, daí, a retirada para longe daquele nefasto encontro. O importante estava feito: localizaram o extremo Norte dos defensores. Embora lhes tivesse custado mais de duas dezenas de baixas.

Gurri encontrou Tongídio exausto e de tal forma sulcado por múltiplas feridas superficiais que parecia ter tido um mau encontro com um bando de gatos-bravos. Na verdade, o corrupio e a luta tinham-lhe valido as inserções tatuadas dos galhos e ramos da vegetação e também algum pequeno toque de um gládio mais acertado. Refrescou-se e lavou os maus tratos num ribeiro, juntou-se aos amigos e regressaram à fortificação, carregando os despojos de guerra.

Já sob a protecção dos contrafortes do Padrelas, tiveram notícias do aparecimento de romanos noutras posições. Os sinais de fumo de Ortas comunicavam que o inimigo já se tinha mostrado por Montes Negros e no sopé da grande fortaleza, Ribasdânia. Os romanos chegavam por fim e mediam a situação do terreno e do inimigo.

Alépio deu instruções para manterem o estado de alerta máximo, conterem o inimigo em caso de assalto, enquanto fosse possível e, tendo de recuar, sinalizar por fumo ou fogo o abandono do Alto dos Pentões. Em caso de evacuação, deveriam tomar a direcção de Campo-da-Égua, um planalto assim denominado pelos naturais daquelas paragens, por estar associado ao mito de uma égua sagrada, prodigiosa e raramente vista, que estaria na génese das centenas de potros selvagens que pululavam nas alturas e jamais alguém conseguira domar. Nem os lobos ousavam acometer sobre os equídeos que passeavam os deuses sobre os seus dorsos mágicos.

Feitas as despedidas e as recomendações finais, a comitiva de Alépio partiu para Ortas, um baluarte pequeno mas muito robusto. Era fulcral como praça-forte de apoio a Risbasdânia. Se este precioso amparo, a fortaleza-mãe ficaria por sua conta, quanto a possíveis investidas – embora pouco expectáveis pelas dificuldades do relevo - surgidas a Norte.

O futuro da Ibéria estaria em breve definido…

(continua)

 

Andarilhus

XXVI : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:51
Sexta-feira , 22 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (53º episódio)

 

Os druidas abriram o ventre do animal e retiraram as vísceras determinantes para o oráculo. Analisaram-nas, sulcaram-nas com as adagas de silex e, finalmente, pediram um bacio de bronze com brasas, onde colocaram o fígado a fumegar. Leram os sinais do fumo e evocaram uma vez mais os deuses.

Após a conferência dos 3 sacerdotes, um deles revelou os vaticínios: -“Os deuses são nebulosos na sua vontade. Não há dúvida que querem que alguém – e apenas um - se levante e abrace os povos da Ibéria, protegendo-os como um pai, com afeição igual para com todos. Será o nosso chefe e só ele nos poderá garantir a vitória.

Quanto à nomeação de tão especial pessoa, não há uma designação concreta. O único sinal dos deuses é declarar-vos que só reconhecerão o vosso líder supremo após o sangue ser derramado e, então, o próprio sangue acusará aquele que merece a maior das honras. Temos dito, por bondade dos mestres solares.

Logo se iniciaram os murmúrios. Como poderia ser esta a manifestação dos deuses? Porque não indicam um nome, de forma clara?! E aquele mistério do sangue “falar”? Que enredo estranho e complicado.

- “Será que temos de lutar entre nós para os deuses se decidam na escolha?” Perguntava o candidato asture.

- “Talvez só depois de iniciarmos o choque das armas com os romanos e comece a correr sangue é que teremos a revelação.” Comentava outro.

Multiplicavam-se as opiniões, enquanto os elementos do Conselho se agrupavam num círculo sempre em movimento, trocando impressões, em grande confusão. Rubínia mantinha-se apartada, calma, à sombra de um dos poucos carvalhos que existiam no interior do reduto. Até que se ouviu entre os presentes alguém lembrar que fora ela quem tinha provocado aquela busca pela inspiração divina. Porque não ouvir as suas considerações sobre o desfecho do acto…

Os olhares concentraram-se em Rubínia, aguardando que se pronunciasse. Porém, como também ela continuava a meditar sobre o prognóstico, não tendo ainda uma resposta convicta - apesar de sentir que havia um forte propósito nas palavras enigmáticas dos deuses -, foi titubeando alguns dizeres: - “Bem, temos uma adivinha para desensarilhar. Certamente, as divindades não querem ser esclarecedoras; querem antes que nos concentremos nesta demanda que nos junta a todos. Talvez seja um exercício, não para designar um nome proposto por sacras palavras, mas para nos obrigar a encontrar o melhor entre nós. O sangue será a marca… mas como?

- “Deixem Rubínia sossegada! Se não fosse pela vossa teimosia não estávamos aqui a bater com a cabeça no penedo! Arre que são piores que jericos! Até conseguiram aborrecer o sempre alegre Alépio…” Praguejou Tongídeo, contra os que importunavam a sua mulher. Conseguiu afastar a pressão, como pretendia.

-“Esperem! Esperem! Alépio, reparem em Alépio!” Exclamou Rubínia, que focara o brácaro quando escutou o seu nome.

O mentor estratégico sentara-se num pequeno e afeiçoado cabeço rochoso e aí ficara discreto e algo distanciado da algazarra e da questão que o incomodava vincadamente. Ele próprio não pretendia a distinção de líder; apenas desejava que resolvessem a contenda rapidamente para dar continuidade aos planos de guerra. Perdia-se tempo precioso e o inimigo, não tardaria muito, estaria a bater à porta.

Todavia, de facto, algo de transcendente se passava naquele lugar. O banco de granito de Alépio estava ao nível da pedra do sacrifício, sobre o mesmo plano acentuadamente inclinado do relevo, o que mais adensava o mistério do que se podia presenciar: o sangue do cavalo esventrado escorrera pelas cavidades da pedra, por várias linhas que afunilavam num extremo e tombavam para o solo, numa só goteira e após uma cavidade de retenção. Até esse momento o fluído seguia o trajecto natural de procurar os pontos mais baixos das superfícies por onde passava. Só que, a partir daí e contrariando as regras da natureza, o sangue passava a correr ao inverso, deixando de buscar a pendente, para subir ligeiramente a encosta, quer fosse por capricho divino ou por capricho das rugas do solo e do amparo das ervas, confluindo na direcção do brácaro e acumulando-se em torno da rocha, circulando-a por completo como se fosse um laço. Alépio estava literalmente cercado pelo fluído sanguíneo, e nem se dera conta do mesmo.

O pasmo atravessou o grupo e o próprio observado, que saltou imediatamente da fraga. Estava à vista de todos todos; ficava tácita e silenciosamente decidido: aquele era o sinal evidente dos deuses… Pegaram em Alépio, ergueram-no em ombros e aclamaram-no dirigente de todas as armas ibéricas.

Como agradecimento e acatamento da decisão superior, queimaram o animal sacrificado, ao qual juntaram também duas rolas pela concórdia. Mas as cerimónias não ficariam por ali.

-“Por ora chega de festejos, toca a mexer, seus frouxos! Há muito a fazer, vamos ao que interessa!” Gracejou o Grande Chefe, com um sorriso de orelha a orelha.

Com a mesma alegria, foi obedecido num ápice. Cheio de entusiasmo, Alépio passou a distribuir tarefas. Uns ficariam em Ribasdânia a ultimar os trabalhos previstos, outros fariam uma ronda pelas áreas de concentração dos recursos no conjunto defensivo. Para o périplo convocou os amigos mais próximos.

Na manhã seguinte, deslocaram-se para Sul, inspeccionando Montes Negros, Serapiscos e um ponto intermédio, pelo qual se fazia a ligação da malha de protecção, e que não era mais do que um outeiro com um talude de terra a coroar o topo, a que deram o nome de Argemel. Regressaram à fortaleza central pela noitinha.

A necessidade da presença de Alépio em Ribasdânia ocupou-os dois dias, após os quais, foram ao encontro dos camaradas no outro extremo das posições fortificadas. Partiram ainda de madrugada, mas logo pararam, ao sinal do guia, passado um curto trecho de percurso. A manhã anunciava-se para breve.

-“Quero mostrar-vos outra obra que mandei construir a homens de confiança, em segredo, até ao momento. As muralhas e as torres altaneiras são para a guerra, mas achei também preponderante rasgar um pequeno templo, para colher os favores dos deuses e marcar religiosamente estes tempos e estes lugares. Ides ver a adaptação do santuário de Obila à dimensão destas paragens.”

Encontravam-se numa das ilhargas privilegiadas do Padrelas, verdadeiro balcão sobre o grande vale a Este. Aí, à ordem de Alépio, tinham rompido a talhe a penedia, criando duas fossas para sacrifícios e oferendas, e sulcando, paralelamente, um escadario de pequenos degraus laterais para cumprimento das cerimónias. Atribuíram-lhe a designação de “Santuário de Argerez”. A disposição da edificação respeitava os trâmites tradicionais, recebendo, em prumo com o horizonte, os primeiros raios de Sol da aurora. A consagração já havia sido realizada pelos sacerdotes, através dos ritos próprios, a Bandua, deidade dos laços mágicos, de sangue, da honra e da união dos homens. Símbolo do compromisso ibérico.

- “Tal como Talauto nos recebeu e favoreceu em Obila com uma oferta no altar universal, eu gostaria de retribuir e tomar gesto igual em vossa honra, meus amigos, empenhando-me em laços de verdadeira amizade e irmandade convosco e pedindo a Bandua que vos proteja nas façanhas que surgirão com uma das próximas manhãs. Sois de clãs diversos, mas sois minha família. Admiro-vos e acarinho-vos no meu dedicado coração.” Alépio abraçou e beijou a face de cada um dos amigos, retirou um anho muito jovem de um saco de estopa que corria justaposto ao lombo da montada, aplicou um golpe rápido e decidido à vida do animal, retirando-a sem dor. Quando o Sol já irradiava as primeiras ondas de suave ardor, acendeu brasa e ervas aromáticas, votou a vítima imolada ao deus e rezou baixinho as suas preces. Os restantes acompanharam o momento, concentrados e em profundo respeito.

Reservaram o quinhão sagrado e dividiram a restante carne assada. Com cerveja consagraram à mãe terra, através de libação, e tomaram a refeição purificadora e de reafirmação dos vínculos da amizade.

Foram directos a Pentões, passando ao largo de Ortas, cuja visita ficaria para o regresso. O local de defesa mais a Norte era um dos cumes elevados da cordilheira montanhosa. Até os cavalos tinham dificuldade em chegar ao vértice íngreme. A ousadia de vencer o trilho a passo, tirava o folgo ao mais arrojado e determinado. Certamente que os legionários, sob o peso das armas e protecções metálicas, desesperariam se o tentassem tomar. Na longa e penosa subida de acesso, seriam presa fácil para os de cima. Por esse motivo, Pentões dispunha de uma guarnição bastante reduzida, empenhada apenas na vigília e, eventualmente, no atraso da progressão de alguma aventura romana.

De toda a maneira, Alépio incitou ao armazenamento de grande número de pedras, sobretudo, das mais arredondadas, para serem atiradas pelo monte abaixo, se tal fosse preciso. E se a situação se agravasse, então, poderiam tentar deslocar as grandes rochas que serviam de tapamento geológico, natural. No limite, a fuga estava garantida pelo lado contrário, ao longo da crista do Padrelas.

Enquanto procediam a semelhantes trabalhos, Tongídeo e Rubínia resolveram dar um passeio, descendo até uma zona intermédia da encosta, na qual se formava uma área menos inclinada, quase em patamar, e que patenteava uma vegetação muito colorida.

No início da descida, para que os guardas pudessem controlar qualquer aproximação e ataque, a vegetação fora cortada imediatamente abaixo do reduto de Pentões, utilizando-se os troncos para preencher as falhas na barreira de penedos. A área arborizada aparecia novamente intacta a uns 40 passos abaixo.

O casal de celtas saíra o mais possível desprovidos de peso, deixando as armas maiores e portando apenas uma adaga. Deixaram também as couraças, tudo para contornar melhor as dificuldades da morfologia do terreno. Começaram por saltitar pelos caboucos do arranque das árvores, pelas reminiscências de ramagens, cascas e pelas raízes que foram deixadas para trás, até que alcançaram a floresta e nela se embrenharam.

Com a folhagem surgiam a frescura e as cambiantes luminosas provocadas pela multiplicidade de cores e pelos cones espaçados de maior claridade, gerados no jogo de sombras e luz da entrada dos raios solares pelas falhas do escudo vegetal.

(continua)

 

Andarilhus

XXI : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 07:58
Terça-feira , 19 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (52º episódio)

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- “Logramos levantar um exército na Ibéria, entre as várias facções tribais, como jamais alguém conseguira, ou sequer ousara.

Temos uma mescla de povos de origens muito diversas: do Norte, entre Astures, Cantábricos, Vascões e Vacceus, são cerca de 3000 homens; do outro extremo, Turdetanos, Túrdulos, Cónios e Batestanos, trouxeram-nos outros tantos; Vetões, Lusitanos e Calaicos, são uns 10000 guerreiros; Aníbal também quis dar uma ajuda e enviou 1000 dos seus cartagineses. Finalmente, e sempre uma reserva de grande moral e bravura, alguns dos homens fazem-se acompanhar das mulheres, habituadas a combater a seu lado. No conjunto, julgo que somos aproximadamente 17000 combatentes.

Ribasdânia não tem condições de entrincheirar semelhante força. Uma vez que terão de se acantonar pelo exterior, porque não instalá-los em mais alguns pontos estratégicos de forma a criar um sistema defensivo?

Assim o fizemos. Ao longo desta crista do Padrelas distribuímos os guerreiros de Norte para Sul. Colocamos os montanheses no setentrião, num alto chamado de Pentões e outro com nome de Ortas. No outro extremo fixaram-se os povos do Suão, desde Jou, passando depois pelo castro de Montes Negros e um local de retaguarda e reserva, que os orientais enviados por Aníbal nomearam de Serapiscos, em honra do seu deus Serápis. Aqui na fortaleza central fica o dorso da força: vetões, lusitanos e calaicos. Todos os pontos foram fortificados a partir das condições naturais e reforçados com madeira e pedra.

Esperamos assim desconcentrar também as forças inimigas e ganhar uma oportunidade para os atacar devastadoramente a partir deste núcleo central, com algumas surpresas que lhes preparamos.”

- “Bravo Alépio! Somos em número inferior a romanos e aliados, mas temos as nossas vantagens. Desde logo, são eles que têm de tomar a iniciativa e subir estas arribas para nos desafiarem. O nosso abastecimento está garantido de água e alimento, pela riqueza natural e pelo acesso garantido por Oeste. Só por desgaste é que nos baterão!” Enalteceu Talauto, pleno de perspectivas positivas.

- “Ora aí está; muito bem colocado: estamos numa situação que nos favorece grandemente. Temos os sítios altos, temos logística e temos a vantagem de determinar e pautar os momentos fulcrais da batalha.”

Abeirou-se novamente da placa de xisto e riscou umas setas no sentido Este – Oeste, na direcção dos diferentes pontos defensivos marcados no mapa: - “Confio que será esta a manobra do inimigo. Assentarão no grande vale que se vê ao fundo. A princípio, explorando a nossa tradicional “irracionalidade” e impulso compulsivo, tentarão atrair-nos para o cenário do terreno plano e aberto, onde estariam em grande superioridade, não só no número de efectivos, como também na aplicação das suas tácticas costumeiras e eficazes de batalha.

Porém, nós, - custe o que custar! -, ficaremos serenos nos nossos ninhos alcantilados. A não resposta e a demora de actividade levá-los-á a procurarem-nos e, então, jogaremos os nossos dados… É sobre isso que vos vou expor algumas tácticas e saber da vossa aprovação. Será arriscado…

O brácaro inclinou-se um pouco mais sobre a ardósia e fez as gravuras ilustrativas dos planos, descrevendo ao pormenor as acções que concebera.

Face à discrepância das duas forças em conflito, os iberos estavam obrigados a retraírem-se nas suas defesas e a rentabilizar ao máximo as suas posições estratégicas. Alépio e todos os presentes no Conselho sabiam-no e foi com espontaneidade que aceitaram e confiaram nos admiráveis projectos relatados pelo brácaro. Aqui e ali sugeriram pequenos acertos, ficando acertado o plano geral de combate.

- “Se estamos todos de acordo, agora que já está entre nós, peço a Talauto que dê as ordens para as tarefas finais de preparação das linhas defensivas. Há que terminar o desbaste e limpeza da encosta a Este e abrir, assim, um tapete para a subida facilitada do inimigo – hehehehe!!! -, aparar os galhos das árvores e colocá-las deitados e camuflados por vegetação espinhosa em frente à muralha, formando mais uma barreira defensiva… e não só…

- “Um momento Alépio. Tu és o mentor da estratégia. Daí ser minha opinião e, se necessário, decisão, que continues a orientar as operações de logística e comando. Aliás, tenho a propor ao Conselho, e sobretudo a cada um dos líderes dos diferentes povos irmãos, que deleguem a chefia em Alépio. Durante a viagem para cá estive a pensar nesta questão: há que designar um líder que a todos guie e que por todos seja respeitado em absoluto, sendo as suas decisões lei. Haverá certamente muitos entre nós capazes de tão excelsas funções, porém parece-me que aquele que, por muitas razões, está melhor preparado e cuja escolha é mais pacífica e natural é este nobre brácaro! O que vos parece?

Talauto tocara o ponto sensível e mais susceptível. Não só os acontecimentos não haviam permitido esta resolução anteriormente como era expectável o adiamento cúmplice desta decisão. Todavia ela era crucial para a conjuntura e o tempo urgia. Chegara o momento de ungir alguém como comandante geral das forças ibéricas.

Os chefes das tribos confrontavam-se novamente com o dilema que lhes mexia com as entranhas. O sentido de independência e o espírito autêntico individualista e de domínio próprio, e a não sujeição a outros, sobretudo estranhos aos seus clãs, estavam bem marcados e sempre à flor da pele. Abdicar desta liberdade, deste poder, era como uma auto-mutilação, um acto de flagelo, pessoal e colectivo. Por isso, tão grande era a dificuldade de congregar interesses e anuências.

Era certo que tinham admitido integrarem a resistência ao invasor, combatendo ao lado dos outros povos; era certo que tinham aprovado a liderança de Alépio na condução da fuga de Obila e na preparação das defesas de Ribasdânia. Contudo, era agora que se definia vida e morte, glória e fracasso, o destino dos povos. Seria de entregar o comando a um guerreiro que não partilhava o mesmo sangue? E seria Alépio a pessoa indicada? Estariam os Homens com virtude e esclarecimento suficientes para fazerem tamanha eleição?

Como seria de prever, embora com menor contestação, a maioria dos caudilhos reconheceu o valor de Alépio, mas exigiu que fossem os deuses a decidirem se haveria um só chefe e qual ou quais os mais aptos para a responsabilidade.

Talauto ainda tentou demovê-los. Aquele debate poderia minar a união e tanto esforço já realizado. A Talauto juntou-se Sonim pelos lusitanos, jurando fidelidade a Alépio. O grosso do exército, com vetões, lusitanos, calaicos e também os vacceus de Gurri, estava do lado de Alépio, mas as restantes tribos mantinham a pressão para que se praticasse uma auscultação aos deuses.

Começavam a extremar-se as opiniões e a inflamar as palavras, no Conselho. Estava difícil o consenso. Alépio verificava a inutilidade de projectar planos ou implementar trabalhos no terreno quando o principal factor para o sucesso não era possível alcançar. Lentamente, distanciou-se do grupo que disputava, arrastando o carro com a ardósia, desalentado.

Rubínia, cujo estatuto lhe permitia permanecer na sala como mera observadora, assistia à argumentação agitada e ao afastamento de Alépio. Sentiu o sangue a fervilhar e o rosto a ruborescer. Ergueu-se do escabelo, pegou numa larga caneca de barro e saltou mesmo para cima da mesa. Atirou com o objecto, partindo-o estridentemente e gritou: - “Mas vocês estão loucos?! Quem é que precisa de romanos, quando já tem motivos mais que visíveis para arranjar querelas internas?! Espécie de fanáticos pelos próprios cueiros! Calem-se, por Terbaruna! Jamais sonhamos, sequer, em chegarmos aqui e conseguirmos reunir estas condições, que talvez não sejam suficientes para a vitória, mas serão certamente suficientes para mostrar ao inimigo que a Ibéria se consegue unir e nunca se renderá! E agora, por um pormenor, por um pedido de esquecimento momentâneo do egocentrismo e do narcisismo de cada um de vós, não se consegue concretizar o que já obrigou a muitas dificuldades e empenhos? Mas, pergunto mais uma vez: estão loucos?!...

Fez-se um silêncio sepulcral na sala. Uma vez mais aquela mulher intrépida assumia o protagonismo só reconhecível aos homens. Porém, a reputação de Rubínia autorizava-a agora a manifestar-se, sem que alguém ousasse negar-lhe esse privilégio.

- “Ouçam, ouçam senhores que tendes o domínio – e o dever! - sobre milhares de pessoas. É o futuro delas, o futuro da Ibéria que está em causa. Sem um comandante único não conseguiremos enfrentar com sucesso os experientes legionários; não seremos um exército, mas antes um conjunto de farrapilhos a porfiar cada um para o seu interesse. Já que não se entendem, deixem-me fazer uma proposta para sairmos deste impasse. Perante as exigências apresentadas por alguns de vós, tenho a reafirmar o quanto é imprescindível designar uma pessoa para ser o nosso maior, durante esta fase de guerra. Quanto a saber quem seja, vejo como genuína essa preocupação e concordo com a mediação divina na escolha. Assim, sugiro o seguinte: quem se quiser candidatar a chefe supremo que se chegue à frente; escutaremos depois a vontade dos deuses pela voz dos druidas. Parece-vos ser uma opção justa?”

Parecia que ninguém queria quebrar o silêncio. A intervenção de Rubínia acalmou os vozeirões e sossegou quase à letargia os espíritos, agora mais pensativos do que impulsivos. Adibérico, chefe Cónio, primeiro a sair do torpor, deu então um murro na mesa e puxou por plenas goelas: - “Concordo! Assim seja feito.”

Um a um, todos os restantes líderes mostraram-se alinhados com a proposta. E “chegaram-se à frente” quase todos eles, também. Alépio mantinha a confiança de 4 das tribos. Com ele, como candidatos independentes, estavam os demais caudilhos. No conjunto apresentavam-se 8 pretendentes à liderança dos iberos.

Foram chamados os homens-sagrados para execução do ritual. Trouxeram um cavalo de batalha, um garanhão negro, dos mais belos e possantes exemplares da manada.

No exterior, em frente à casa do Conselho, uma laje granítica acamada - e bem fixa - sobre dois penedos pouco altos, servia de mesa cerimonial. O declive do terreno permitia que o animal subisse, por um dos flancos, para o rude altar. Prenderam-no a um poste, estacado dentro de um buraco fundo da pedra, aberto para o efeito.

Os druidas juntaram-se à vítima a imolar. Ouviram-se dizeres antigos, com fórmulas mágicas que só os próprios conheciam. De braços erguidos, os sacerdotes evocavam vários deuses, apelando ao seu olhar e à sua ponderação. Acalmaram-se então e chamaram Runo, um robusto guerreiro, o qual, munido de um pesado martelo de pedra, se colocou em frente ao equídeo. Deram-lhe a ordem que aguardava e, movida a massa rochosa, o cavalo caiu sem estrebuchar. A morte fora imediata, sem tempo para sensação de sofrimento.

(continua)

 

Andarilhus

XIX : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:15

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