Natal

 

Aquele que… nasceu Homem e fizeram-no dEUS. No entanto, o importante, Homem ou dEUS, é a mensagem universal que deixou de herança. Uma herança farta e razoável para todos, mas que poucos estão abertos a recebê-la…

 

…. Se se junta um menino deitado em palhas de manjedoura com um pinheiro verde onde se recosta um vetusto sem idade e de longas e sábias barbas brancas, é porque algo de Novo aconteceu algures no Tempo do Homem.

A anunciação do renovo da natureza, o Inverno que vai experimentar as forças e resistência dos corpos e das almas que os animam… Reinicia-se, reinventa-se o ciclo… dias de balanço, dias de esperança e optimismo… para a maioria.

O NATAL!

Esgotam-se os desencontros, retomam-se os abraços, na glória maior da amizade, do amor, da partilha dos fraternos.

Degustem os paladares, mas saboreiem também os nobres sentimentos, exaltados e exacerbados em curtos dias, para durarem até à próxima revelação, até ao próximo Natal…

 

Aquele que...

 

No berço da nua terra erudida

Desponta a anónima flor do Homem.

No horizonte acende-se um original sol acolhedor,

Assinala a madrugada da redenção do amor!

 

A fúria do parto irrompe em torrente de aguas mansas,

Para célere afogamento do leito de cascalho dos corações secos.

Da humilde manjedoura rebentam as raízes da imponente árvore frondosa,

Abrigo e refúgio de todas os espíritos cansados e famintos.

 

Alguém chega para dar o sinal de partida

Da epopeia pela mais bela rota do universo sagrado da alma.

Alguém declara guerra para justificar a paz

Entre consciências adormecidas no torpor do egoísmo.

 

Um singular carpinteiro talha com a precisão de mestre

A rija matéria da intolerância humana:

Desbasta a madeira bruta, paciente e graciosamente,

Até que do sofrimento faz emergir a obra desejada.

 

O pescador caminha sobre as águas, como em exemplar pedestal,

Orientando passos tresmalhados ao encontro das sandálias da virtude.

O pescador lança redes de seda sobre cardume humano,

Inspirando, na sabedoria de suas malhas, a rendida multidão.

 

Da boca do filósofo transbordam palavras como marés de chuva,

Acolhidas sofregamente pelos pensamentos mais sedentos.

Um orador brilhante irradia as cores da partilha,

Colírios para os olhos fatigados pelo remorso da cobiça...

 

O arauto do futuro fulmina o presente com exemplos do passado.

Exorta à renovação e anuncia a revolução do amor!

O profeta dos tempos filtra doces visões de esperança,

Cativa e espevita os sentidos da assembleia dos incrédulos.

 

Um novo político abala o sistema com ideologias humanistas:

Revolta-se contra as desigualdades mundanas e revela a democracia espiritual.

O partido inovador ameaça as instituições corruptas;

Escuda-se com a verdade, investe com a tenacidade da paixão!

 

O peregrino enfrenta o pântano das inconveniências apoiado no bastão da fé,

Pelos trilhos do destino irriga com suor as raras flores do deserto.

O eremita tentado em dúvida confronta a sombra

Ansioso por revelações que o conduzam ao destino traçado.

 

A boa-vontade atravessa os portões da cidade eterna.

Serpenteia conformado nos meandros do marginal oásis de oliveiras.

Um condenado abdica da liberdade do corpo,

Empenhando-se, com convicção, pelo retorno de um beijo.

 

O mártir, humilhado, arrasta-se para o vértice do juízo

Carregando humildade e sofrendo a dor alheia.

O carpinteiro morre enfim, feliz, no madeiro a que dera forma,

Como o castor, preso na sua obra, sufoca após trasbordante cheia...

 

MCMXC

J. Pópulo

 

UM MUITO FELIZ NATAL PARA TODOS VÓS E RESPECTIVOS FAMILIARES.

Andarilhus “(º0º)”

 

 

publicado por ANDARILHUS às 08:50