Requiescat in pace

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Hoje, morres mais um dia… Hoje, sobes na pacatez da repetição à tua pira fúnebre…

 

Os sopros de ânimo que te deram vão-se aos poucos, sugados pelo desalentado cansaço.

És vítima e algoz. Com uma mão colocas a venda e amarras os pulsos, com a outra ergues a carabina decidido… Hoje, morres mais uma era.

 

Vês partir os ingredientes da tua alegria, vês mirrar as flores que perfumaram as estufas do teu pensamento. Abres a mão, que já sangra, e largas as memórias, que os anos engordaram em pesos insuportáveis.

Vês partir as imagens tuas nos espelhos de água dos tempos idos… Os moinhos em ruínas há muito.

 

Exalas, em curtos segundos, os muitos respirares que guardaste e não usaste. Para quê tanta sobriedade? Para quê tanta esperança por melhores dias para dares o teu melhor?

Olha em volta e vê o desmoronar das cores e das formas que te deram dimensão ao querer e à crença. São simples e efémeras imagens como as da televisão. Inadvertidamente e sem contemplações com consequências, desligam o botão, e fica o escuro, a treva, a verdade imutável. Tudo desfalecido e sem existência.

 

Afinal, as rosas, o sol, o céu, o chão, tu, tudo é negro. Apenas, a espaços, pintados de cor de alucinação. Erro de perspectiva; falha por distorção óptica.

Nada e vazio. Vieste da Nadalândia pelos caminhos que se foram abrindo à força da descoberta. Construíste um mundo panorâmico, revestido de fenómenos inauditos para os sentidos, alimentado por desígnios fantásticos para a razão e com uma grande e exótica montanha-russa para o coração. Sombras da tua ideia de perfeição, recortadas por tesouras chinesas nas telas do vazio.

E, periodicamente, como uma praga dos deuses, vem relampejante o dragão do apocalipse. Tanto ergueste e mais vês cair, incinerado, sem clemência e pleno de prepotência. Pedes misericórdia em vão aos senhores da política de terra queimada. Adeus folgo de agora.

 

Hoje, morres mais um dia. Deita-te na pira, cordeiro… Já te trazem a veste sacerdotal e a adaga do sacrifício… Dá-te golpe certeiro!

…para morreres sem delongas e mais rapidamente retomares existência com novos ingredientes, novas flores, novas sombras.

Talvez um dia consigas fixar as sombras para sempre!

 

Sit tibi terra levis...

 

Andarilhus “(ºvº)”

XI : VII : MMVII

música: Nick Cave: Death Is Not The End
publicado por ANDARILHUS às 17:26