Segunda-feira , 31 de Julho DE 2006

Cruz de Ferro

 O meu cRISTO precisa de repouso… vou afrouxar os cravos…

 

Sobre o dorso de uma borboleta subi a Via Láctea e desci a Via Dolorosa, num carrossel de sentimentos com “pêlo na venta”! Para arejar o pensamento, dedilhei o rosário até rasgar em sangue a carne dos dedos.

Quando tudo parece uma maresia fresca de águas sonolentas, levanta-se o areal de dúvidas, impelido pelo sopro dos gigantes instigadores.

Então, o peito incha para dimensão ilimitada, tais são os fardos e as bagagens que nele se acumulam, sem destino determinado. Acondicionam-se as malas dos problemas e os males de um lado; os farnéis da alegria e os bens do outro.

Enquanto a viagem se mantém sob as estrelas tudo se sustenta em doce equilíbrio. Todavia, com mais um repentino abalo das correntes cósmicas, precipita-se o rumo da expedição pela rota do calvário. A carga desgoverna-se do seu estado comedido, para se misturar pelo porão do momento. Há males que vêm por bem e problemas que se impõem para relançar a dúvida. E, se a dúvida é o começo, descarto a inexistência de uma solução.

 

Dolorosamente, num curto minuto – diminuído na contagem dos segundos – a via deixa de ter sentido, a confusão inebria os sentidos e, mais, o pensamento. A lógica afoga-se no abstracto, e a reflexão no opaco.

Já não basta a dúvida do instante, todos os pesos se reúnem em solidariedade para afundar a nave do argonauta.

 

E eis que me ofereces uma mão, em amparo das minhas tonturas. Indica-me o caminho para a Cruz de Ferro, onde, alheado da vontade, expiro a dor, a cada passo de aproximação ao marco. Vejo-me em casa: tanto verde giestal, tanto cinzento granítico e tanta contemplação de um céu azul com fofos pingentes brancos. Relembro as fontes onde bebo o amor. Ressuscito os meus altares da fé.

 

Abro os porões e descarrego a carga triste sob uma chuva grossa e salgada. O calor da pluviosidade refresca-me o rosto aquecido pelo SOL persistente. A solução aparece com o soluço da garganta ressequida, que expele as poeiras amontoadas para libertar a voz límpida do pardal engaiolado.

 

Creio que não posso ser mais EU, cheguei ao meu estado mais puro, sem subtilezas ou asas de borboleta para dar alguma beleza ao que mostro. E aqui me reencontro após longos anos de alguns equívocos. Estou leve e disseminado pelo ar que reproduz a áurea da minha silhueta.

Repouso o pensamento cansado pela sobre dosagem do trabalho que lhe foi imputado nos últimos tempos.

Espero assim ficar durante muitos dias, de são conformismo…

 

XXXI VII MMVI

 
Andarilhus
música: Muse: "Butterflies and Hurricanes" (Absolution)
publicado por ANDARILHUS às 08:44
Quinta-feira , 27 de Julho DE 2006

Proscrito

A ara do pulmão no centro do corpo...

Proscrito

Não quero pensar…

Pensar come-me as horas

E o ar.

[Quero respirar]

Rói-me as escoras;

Dá-me mais cansar.

 

Será que quero amar?

Sei que me fiz assim,

Para me entregar

Por horizontes sem fim,

Para poder respirar

E trazer até mim

A fé no acreditar.

 

Acreditar, sempre me sustenta o ser

Em frágil aguentar.

[Sem deixar de respirar]

Quando tudo está a acontecer,

Tanta incerteza por depurar.

 

Será que quero amar?

Não me conheço de outro modo

Senão o risco acariciar,

Da nata até ao lodo…

Para poder respirar

E manter-me num todo.

 

Outrora topei o pensar!

Alimentava as horas

Com tanto que havia a sonhar.

Suprimi o ar

Do respirar…

Num pântano ergui escoras,

Ausente de me preocupar.

 

Será que já amei?

No meu reduto neguei a diferença;

No meu quarto cerrei a janela

Do desencanto.

Porque, então, não me soltei?

Tão tarde desfiz a crença

E dei folga à sentinela,

Para libertar as águas do pranto…

 

O tempo passa.

E é sempre tempo

De agarrar o dia,

Arejar a fumaça

E atiçar os carvões do movimento.

No amor tenho a ousadia

De respirar

A esperança no eterno.

Resta-me muito ar,

Que ainda conservo

Bem guardado no pulmão…

…do meu coração!...

 

J. Pópulo

XXVI : VII : MMVI

música: The Cure: "A Forest"
publicado por ANDARILHUS às 08:42
Terça-feira , 25 de Julho DE 2006

In Mea Limia

Da minha margem sonho em chegar à oposta…

 

1.

Talhar o horizonte com o gume do olhar,

No preciso trecho da melodia que liga o Céu com o Mar…

 

O que é certo? E o que é errado? É material a fronteira entre os opostos?

A soberba dos ares do justo e juiz na sentença dos pares corrompidos pelo erro, pela falha. A tentação de apontar o dedo, enquanto se escondem os nossos próprios telhados de vidro. O que suportar no (pseudo) défice de êxito e de comportamento do outro? Montados no dragão da perfeição, incineramos com facilidade todos quantos não prescrevem as nossas panaceias.

A complacência e o interesse na diferença que nos desencontra… mas também reúne… devem ser conduzidos ao ministério do trato e convívio humano.

 

2.

Superar a falha tectónica do horizonte com a harmonia do olhar,

No preciso epicentro do abraço fraterno que liga o Céu com o Mar…

 

E há um certo, um errado ou fronteira palpável entre os opostos? E há opostos, como extremos unilaterais e intransigentes?

Fazer a ponte entre os pares, ligar as margens da disputa e relançar o diálogo frutuoso… pelo deambulado caminho do franquear desinteressado da passagem para as fontes do entendimento. Assinalar, em retumbante ecoar do poder do sino da concórdia, a instituição do templo da união dos desavindos.

 

É tão fácil dizer, mecanicamente, NÃO! No entanto é muito difícil convencermo-nos em pensar nesse NÃO. Não poderá ser – pelo menos – um TALVEZ??… e depois logo se VÊ… o horizonte sem linha divisória… Tentem dar um pouco mais de atenção à tolerância que eu prometo fazer também um esforço…

“(º0º)” Andarilhus

música: PLACEBO: "Every You and Every Me"
publicado por ANDARILHUS às 08:40
Sexta-feira , 14 de Julho DE 2006

Liberatus Sum

Foto de autoria de Sherpa (2006)

Fluir! deixar o vento atravessar o corpo...

Despertar… despertar do bruxedo da cartilha em que nos amamentam, enquanto crianças e maiores, dos desígnios que devemos abraçar. Nascer, medrar, estudar, trabalhar… CASAR, ter sucessores, morrer, ser bom social… ser mudo de diferença. Como? Decidirem o que faço? Decidirem o que é certo? Decidirem como devo fazer, como proceder?

Mas, não tenho eu razão e consciência? Não tenho eu um indivíduo incorporado neste invólucro que é o meu corpo?

E viver? Viver em respeito pela liberdade dos outros, mas em respeito, TAMBÈM, pela minha liberdade, pela minha auto-determinação. NÃO! Não rendo a minha pátria a ninguém, nem a qualquer interesse pseudo-maior!

Tomem uma aspirina, ou algo mais socialmente recomendável, porque de MIM não têm o ámen para os vossos dEUSES!

Para quê seguir o estereótipo do beato? Para quê proferir a doutrina de modo mecânico e sem convicção?

Revolução! Não dos cravos, mas do tojo. O tojo que pode meter nojo mas pica as peles macias dos acomodados. Acertar o meu relógio, escolher os ingredientes das minhas refeições, fazer a cama onde durmo… não aceito palha, erva ou milho… Até os posso comer, porém, tenho de acreditar que é isso que quero. E não quero. Prefiro o pão seco do desalinhado.

Chega! Já é tempo de dizer basta. O Mundo é de todos mas é também nosso. Vou revesti-lo das indumentárias que eu mais gosto.

Não vou prostra-me à auto comiseração porque não sigo o trilho determinado. Eu enveredo pelo corta-mato.

Afinal, de que tom é a nossa liberdade? Como alguém dizia: No tempo em que sirvo, faço o que tenho de fazer; no meu tempo livre, faço o que gosto.

O tempo é suficiente para fazer o que gostamos?

XIV VII MMVI

ANDARILHUS “(º0º)”

música: Celtas Cortos: Que Voy a Hacer Yo [?]
publicado por ANDARILHUS às 08:37
Quarta-feira , 12 de Julho DE 2006

Atalaia

Na vigília, pergunto-me; no repouso, pondero...

 

Pela visão do Homem passam os sonhos homéricos, os caprichos desmedidos e a realidade crua. A visão permuta do preto e branco para o mar de cores. A sua lucidez sustenta-se na honestidade do olhar.

Do terraço dos meus olhos vejo…. vejo o dia e a noite alternarem-se nos ditos do momento. Vejo a sombra assaltar a luz e absorvê-la como um buraco negro.

Do miradouro da minha consciência contemplo… contemplo o tempo a passar, sem idade. Contemplo o espaço a crescer, sem medida.

Do balcão do meu juízo pondero… pondero o meu corpo a atravessar o tempo e o espaço. Pondero a minha pessoa pelas metamorfoses da luz.

 

Pelo trono do Homem passam muitas fraquezas e virtudes. O trono comuta entre o revestimento de veludo acetinado e o de granito fragoso. A sua textura alimenta-se do escrúpulo do seu ocupante.

Do trono do meu destino alinho… alinho a conduta propícia ao cumprimento dos meus desígnios. Alinho a vontade à reverência do plano.

Do lugar do meu poder governo… governo as minhas forças na aplicação tenaz das energias. Governo os actos na disciplina da decisão.

 

Pela bola de cristal do Homem passam muitas expectativas e desilusões. A bola de cristal reveza da transparência vítrea para o lamaçal turvo. A sua mágica limpidez apura-se nas mãos que a fazem rodar pelo presente.

Da bola de cristal do meu pensamento exorto… exorto os meus fantasmas à fuga e decadência. Exorto o mau génio à prostração e aniquilação.

Da bola de cristal do meu desejo profetizo… profetizo a observância da paz e concórdia. Profetizo as jornadas do amor no pontificado do Homem.

 

Somos tão distintos e pessoalmente mutáveis. A turbulência das águas do quotidiano e os abalos dos chãos das nossas pátrias não obrigam, por vezes, à migração da nossa pessoa? A coerência é possível em todas as circunstâncias?

XII VII MMVI

"(º0º)" ANDARILHUS

música: Fields of Nephilim: The Watchman (The Nephilim)
publicado por ANDARILHUS às 08:34
Terça-feira , 04 de Julho DE 2006

URBi ET ORBI

http://www.latinquasar.com/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=158

Carpe Diem…

O caminho tem sido longo e pejado de crescentes trabalhos.

Terá chegado a hora de repousar o pensamento e deixar o ribeiro correr suave e espontaneamente no seu curso bucólico?

Já tenho LAR, já tenho RELÓGIO. Devo agora assentar arraiais, apreciar e fruir da paz e candura que recebo dos dois SOIS que mantêm os meus dias acesos e brilhantes? A noite já não cai, baniu-se a sua presença... talvez por hoje, ou por longo tempo ou para sempre. Que a LUZ mantenha longe o crepúsculo e alimente uma aurora eterna.

Como consegui dominar o guerreiro? Como são imensas as forças que lhe reduziram a passada galopante até à placidez do repouso!

Está efectivamente finalizado o fossado, ou apenas se limpam as armas, entre dois sonos mais prolongados?

O jovem se fez homem por delongas e atribuladas buscas. Aceitou a diáspora da sua essência, enviando os seus 4 elementos em peregrinação aos 4 cantos do mundo, da VIDA. Lançou em viagem o Fogo e a Terra, primeiro, esperando os ventos propícios para revelar água e ar. Tolheram-se os intentos, mas, no regresso, cada elemento fazia-se acompanhar pelo resplendor da experiência e pelo conhecimento adquiridos.

Reúnem-se novamente os elementos e reconstrói-se o corpo em torno da alma, desperta-se o espírito para as suas funções de zelador daquela.

É agora tempo de saborear os momentos mais frugais da existência. Contemplar as pequenas coisas que tantas vezes passaram despercebidas. Degustar os néctares da água simples, servida no cálice de pedra granítica da fonte da evidência - até agora - marginalizada.

Sentir os pés tocar o solo na extensão total de cada passo, passo após passo, contado e calçado singularmente pelo tacto especial de cada movimento do andar.

Convocar os sentidos para o festim com as cores do Arco-íris, com os sons do vento bruxuleante, com o paladar do pão apurado, com o toque da terra barrenta e o odor da chuva de verão…

A competição distrai-nos, acabamos por deslocar a energia para a persecução de interesses que não são - talvez - os mais recomendáveis, para quem passa um punhado de anos por cá. E tanta coisa importante, relevante, que fica de lado e se vai acumulando para segundas, terceiras, "últimas" prioridades.

Porque somos assim, quando podemos ter o "mundo" que de facto marca com carinho a memória? Teremos, algum dia, coragem para deslocar a atenção para as coisas simples? Tirem um dia de férias de vós mesmos para admirar, com os olhos bem abertos, o outro lado da orbe…

IV VII MMVI

Andarilhus

 “(º0º)”

 

música: Interpol: Turn On The Bright Lights
publicado por ANDARILHUS às 08:29

BI

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