Terça-feira , 28 de Novembro DE 2006

Via Gratiae

http://www.ufmt.br/gpea/image/jao-ave.png

 

… O muro… o muro afinal é tão baixo... Ao longe parecia tão intransponível para a minha capacidade de impulsão…

 

Voava o estorninho pela cálida e plácida onda de brisa da avenida dos plátanos. Na rotina do planar sobre os mesmos costumes, os mesmos hábitos, deixava que a chuva caísse tanto no terreiro, como também no seu humor: - “Que dia chato! Que tristeza esta água toda. Não podemos andar à vontade, de pena seca e bico enxuto! E esta vida? Que caldo sem sabor, que parede descolorida… aí, como os dias custam a passar…”.

A passar para quê?!? E porquê?!?

Porque damos e quando damos importância às coisas? Certamente, quando não estamos seguros de as ter sobre nosso domínio ou ao nosso alcance… Não é raro esquecermos o valor do que compõe a nossa consciência de vida, a todos os níveis e em todas as dimensões da nossa existência, quando as colocamos na aligeirada ignorância de as considerarmos garantidas… e eternas!

E quando um vento destabilizador surripia o equilíbrio e a escolha de direcção ao voo do estorninho, a ave acorda da sonolência vegetativa para, decididamente, se agarrar ao futuro dos dias, que se afastam pelo bruxulear das cores do receio e do sabor do incerto. Desaparece o tédio e substitui-o a algazarra das penas desordenadas e o bico queimado pelo arfar ressequido do inesperado e do amargo!

Agora não plana, bate com sofreguidão as asas, que lhe parecem poucas para se suster no ar; Luta até à exaustão para se aguentar, a cada dia, em nova passagem pela avenida. Até já se deu conta dos plátanos! Sempre ali estiveram e nunca os admirara…

O vento coloca o animal à prova! Espicaça a sua vontade, espreme-lhe a força e a coragem. Lufada aqui, lufada ali e mudam-se repetida e repentinamente as trajectórias, os sonhos… a deslocação das aspirações, ascendentes e descendentes, da vida… E cada dia deixa de ser cópia do anterior. A surpresa e a novidade cadenciam as alvoradas conquistadas paulatinamente.

Porém, quando o estorninho, em novo suspiro, pragueja contra o infortúnio e o tumulto que se apossou das suas viagens pelas marés das nuvens, inflamado contra as ventanias do destino, abeira-se, em curto descanso no regaço de uma árvore acolhedora, de uma borboleta padecedora das mesmas intransigências da fortuna. Afinal, outro ser, com recursos bem menores e asas de intervenção muito mais frágeis, suporta como ele as agruras dos desafios e das vicissitudes afectas à existência. Nos delicados leques da borboleta, o estorninho descobre, enfim, a verdade no mistério da vida: Por muito tristes que estejamos com as nossas circunstâncias e as nossas experiências, temos sempre a dádiva de podermos saborear o pouco que temos e de termos ânimo para lutarmos pela melhoria daquelas!

A vida deve ser levada sem desprezo pela sua temporalidade e sem desperdício de qualquer um dos seus momentos. A existência e tudo o que construímos à nossa volta são para ser captados pelo máximo cuidado dos sentidos, pensado pelo coração e acarinhado pela mente.

Revejam-se…

 

MC, por quem és…

 

XXVIII : XI : MMVI

Andarilhus “(ºoº)”

música: Bauhaus: Slice of Life
publicado por ANDARILHUS às 08:33
Sexta-feira , 24 de Novembro DE 2006

Mare Nostrum

www.kultunderground.org/Public/img/Mare%20Nostrum.jpg

 

Um dilúvio de som tacteia a metamorfose dos sentidos…

 

Abranda coração e encolhe-te no casulo que te salva dos medos e das fúrias!

O mar acalma, o mar enxota em espuma os invasores temerários e cruéis. O mar volta paulatinamente ao nosso domínio. Rendem-se os Neptunos alheios!

A calmaria apossa-se do horizonte. Remendam-se as velas das naus que muito amargaram para defender, incansáveis, as praias da pátria do ânimo. A terra está queimada e virgem para os copiosos braços da persistência que sobreviveram.

Tudo arrasado, porém tudo aberto para novo arranque, para a mudança. Assim, não é preciso reconstruir velhos edifícios, já minados pelos vícios dos anos somados; assim a escolha é total e tudo se fará de raiz, embalado pela inovação da experiência recente.

E ao largo o SOL derrete a água: parece que a bebe, trago a trago. Como eu, aqui deitado nesta folha de areia, pareço roubar, espaço a espaço, o branco, cobrindo-o com caracteres negros.

 

Após a reconquista, a expansão! E o mar aqui tão perto…

O Estado da alma renova-se, a Nação eleva-se acima dos limites e do calculismo para, em empenho colectivo, arrancar do chão o espírito e a força para perdurar e ir mais além!

O País do SER retomou da crise e atinge a estabilidade emocional e racional. É tempo de ambição! É tempo de construção!

Carreguemos agora o barco dos planos e façamo-nos ao oceano dos desafios, das descobertas… amor. Já não há amarras no cais que prendam a nossa senda, os nossos destinos. A sorte é nossa, se a demandarmos em providência.

Abrem-se os vales, abrem-se as águas à nossa passagem. Como gigantes de coração, superamos as agruras e os obstáculos que obstruírem a nossa tenacidade. Vamos em frente, puxados pela fé naquilo que nos une, em tudo o que nos abraça.

Vão já as kalendas adiantadas desde que juntamos as palhas do nosso Lar. Mesmo as correntes de ar, a falta de isolamento ao frio e à humidade e até o desconcerto das infra-estruturas, são vividos com a paixão do humilde, porque as partilho contigo… contigo têm um tacto macio e quente; contigo têm o conforto e as funcionalidades do espaço novo a inaugurar… A cidadela está de pé!

E, na nossa fraqueza temporal, fazemos os milagres dos imortais. Do nada e do desconhecimento, demos a génese a um MUNDO NOVO. A partir do caos, construímos um código de bem-estar, de bem-querer e de bem-fazer e, seguindo a opus dos dEUSES, trouxemos a luz à esperança. E somos ainda mais cuidadosos! Não caímos na tentação de sermos entes que impõem as regras e exigem a expiação dos ímpios pelo castigo e pela oferenda. Mais do que um mundo divino, criamos um mundo à escala do ser humano: imperfeito mas consciente dessa imperfeição.

Peço-te tolerância à minha larga falta de perfeição; Tentarei ser perfeito na tolerância à tua falta de divindade. Embora, para mim, tu sejas dEUSA acima de qualquer panteão…

Quero continuar o milagre da conversão da mágoa e solidão nas rosas da felicidade. Que a estes 15 dias se somem 15 anos de expansão pelos campos férteis e de trigo doce do amor… Vem, dá-me a mão… temos muito companheirismo a percorrer…

 

XXIV : XI : MMVI

“(^0^)” Andarilhus

música: And Also The Trees: The House of the Heart
publicado por ANDARILHUS às 08:35
Quarta-feira , 15 de Novembro DE 2006

O meu jardim presépio…

http://phengels.club.fr/conc04-LucieConstanty-24.jpg

 

Em homenagem aos meus “jOSÉ e mARIA”… que se poderiam chamar de Armindo e Carminda… tantos anos a porfiar por mim…

 

…Eu tenho um jardim… onde nasci. É o espaço primeiro que conheci! Dele irrompi do chão, dele vi pela primeira vez o céu.

Vinguei entre braços de toque suave de algodão, medrei embalado pelo toque tépido do amparo de mãos de nuvens; nutri-me pela habilidade de caça do milhafre e da raposa, sobrevivi pela vigília atenta do cuidado de garras do silvado.

Neste espaço de exuberância alegre de verde esperança, desenvolvi minha criança, experimentei minha adolescência, estabeleci o meu adulto. Sempre e sempre sob o farol da orientação e a torre de sentinela daqueles que plantaram o jardim… para me darem a liberdade da escolha, da determinação e da oportunidade.

Muito labutaram as formigas da minha génese, muito construíram as abelhas do meu crescimento: Tudo o que sou é uma amálgama de cuidados, carinho, amor e apoio, aos quais acumulei a aventura e a busca da sorte.

Curioso – ou talvez não -, conquanto hoje caminhe com asas próprias, sem necessidade de auxílios ou mais aulas de voo, continuam, os criadores de meu jardim, ainda determinados em sustentar-me a paz do sono… sem desistências ou fragilidades de vontade. Alcançaram já provecta experiência e sabedoria; Poderiam agora descansar um pouco, fruir a suavidade do jardim e relaxar na guarda deste seu fruto. Todavia, são como os mangustos, determinados e mesmo sadiamente obstinados! Quando darão repouso aos seus trabalhos? Quando reconhecerão que terminaram e cumpriram exemplarmente a sua função?! São os melhores cultivadores da criação que uma semente pode ter!...

 

Mas sei que, pelas veredas destes jardins dos milagres, nem tudo são encantos…

 

Ao longo do tempo, as flores, tratadas com esmero, lançam sorrisos de viço e alegria, refrescadas pelos orvalhos saltitantes das fontes matriciais. Irrompem as águas, faz-se, com condimentos simples, a vida. Do botão ao corpo maduro, tudo se transforma, acompanhado de perto pela nascente fresca. Os renovos espalham-se sem que percam memória da sua génese e, como lágrimas de saudade, os regatos sempre vão ao encontro dos filhos, para os alimentar com a energia e o substrato revigorantes.

…Mas, nem tudo são encantos…

Toda a felicidade construída e partilhada em cumplicidade encontra o momento do seu ocaso, o momento da despedida. Acompanha o crepúsculo dos jardineiros diligentes, convocados que são para outros agros.

Porém, são já as flores impregnadas da arte do cultivo, em próprio jardim, responsáveis por outros novos rebentos.

Eu tenho um jardim e já sou jardineiro. Devo seguir o exemplo… e o importante é não deixar definhar o jardim presépio onde me fiz para sentir e escrever isto… E, pelo desaparecimento de um jardineiro, não deve um jardim transformar-se em floresta desordenada e dissipar-se no matagal do esquecimento e da tristeza definitiva…

As memórias são adubos; as vozes são alfaias imateriais…

 

… também para ti, Brain…

 

XV : XI : MMVI

Andarilhus

“(ª0ª)”

Aura:
música: The Mission: "Garden Of Delights"
publicado por ANDARILHUS às 08:39
Sexta-feira , 10 de Novembro DE 2006

O Sagrado e o Profano

 

 

 http://www.winterscapes.com/dionysus/images/altar.gif

 

Faço os meus votos, ao som das campânulas líricas da devoção e da rendição da vontade singular; Penso fazer reverência em teu encontro e espero augúrios favoráveis. E quem espera…

 

O vento fustiga as copas das árvores. Dobram-se e rangem pelas cepas. Escangalham-se os equilíbrios; força a vénia dos galhos…

Espero por ti junto ao velho santuário da ara granítica, já gasta pelos rituais e sortilégios aí dedicados. O pequeno monumento pagão irradia a luz pálida do entardecer, morno pelo Sol que se apaga e em arrefecimento rápido pela presença acirrada do movimento eólico.

Os deuses do lugar são testemunhas da minha devoção… por ti. Agarro-me à capa para esquecer os abanões do companheiro aéreo, enquanto passam as horas pela minha espera estática. A entidade profana favorece o meu viajar pelas memórias das nossas andanças. Sem perder a hirta posição, atiro-me ao passado, tocando aqui e ali nos momentos mais significativos – tantos! – que contigo partilhei. E, em curtos minutos, configuro dias sem conta… e espero. Espero pela revelação, pelo sinal do sagrado.

Aqui, junto ao cipreste, na orla da clareira, enquanto aguardo, rasgo em dois o meu coração e, como o meu antepassado Martinho, convoco a ideia de te entregar uma das partes para teu agasalho e companhia. Estarei assim sempre contigo. Partirei contigo, sempre que te afastares; ficarei incompleto na tua ausência. Será doce sentir-te a cada reencontro, porque terei o privilégio da tua presença e cumprirei o momento sagrado de juntar as duas porções mais marcantes do meu SER.

Conheço-te em múltiplas dimensões. Sempre te admirei como pessoa, exaltei como companheira e senti-me desejado na tua condição de mulher.

Mas, o tempo passa e corrompe o perfeito, oxida-o! Espero que não tente ou seja persistente na dispersão da tua presença de esposa ou adormeça a tua fogosidade e encanto. Procuro-te sempre. Aproximas-te. A espaços vislumbro-te ao longe, em curtos géisers que irrompem e espreitam acima da tua companhia. Vejo-te quando alcanças os cabeços dos montes, perco-te quando vagueias entre colinas.

Espero-te, do alto da minha atenção; anseio pelo nosso encontro ao entardecer…

Vou fazer uma libação à entidade do lugar e oferecer-lhe a flor da paz, sobre o seu altar… que nos conceda a felicidade e a fortuna…

Neste frio da ventania, aqueço-me com a perspectiva e o horizonte branco… na terna e serena  espera que o pintor dedique a sua arte…

 

X : XI . MMVI

Andarilhus “(º0º)”

 

música: Sisters of Mercy: Saints and Martyrs
publicado por ANDARILHUS às 08:38

BI

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