Quarta-feira , 27 de Dezembro DE 2006

O Ciclo de Cronos

http://www.chemamadoz.com/gallery/arco.jpg

 

… Um ano mais. Trezentos e muitos dias que passaram num ápice…

 

Será o Tempo que corre mais depressa ou seremos nós que estamos menos inertes no Tempo? Não sei ao certo. Apenas sinto que o Tempo, cada vez mais, tem cada vez menos, horas. Horas de contemplação e horas de aperfeiçoar o nada e nada aperfeiçoar; horas de pachorra, horas de dormitar acordado sobre o vazio que alguma paz – que ainda existia – permitia.

Porque se aceleraram os dias? Porque se perderam as sestas da vida? E nós, sem aquele descanso dilecto e tão espontâneo que nos ensurdecia por momentos para os barulhos dos problemas, como recuperamos da azáfama interminável e cavalgamos sobre o dorso da tensão? Também não sei… Talvez seja do mesmo modo que, no passado do Tempo, descemos das árvores e aguçamos a gulodice dos nossos predadores nas savanas: a Sobrevivência.

Sobrevivemos a mais um ano e preparamos a bagagem para o que aí vem.

Tempo do balanço do Tempo que perfez um ano. E o meu Tempo que tanto mudou em tão pouco do seu incontornável Tempo. Tenho que arranjar relógios mais rápidos para acompanhar este Tempo sem freio ou respeito pelos períodos da vida…

Num ano, num singular ano, desmontei a razão de mais de meia década de vida, recuperei duas décadas de experiências e sentir perdidas naquela e reciclei toda a minha existência.

Adaptando o nobre pensamento da minha segura amiga Esteva, nunca é tempo de nos arrependermos do que fizemos com o Tempo, é sim sempre Tempo de nos arrependermos do que não fizemos a devido Tempo. Pensamento sábio e alicerce de uma filosofia de vida prospectiva…

2006, que vai dando os últimos suspiros, cumpriu o que provavelmente já estava previsto. Para mim, foi Tempo de mudança, Tempo de retoma e de reorganização. Não fiquei pela limpeza dos cacos; avancei para a obra de um mundo novo. A barca fez-se ao mar com ousadia. A bom Tempo o fez, porque já colho frutos disso. Fiz o melhor que soube, temperado de algum empirismo. Teve que ser assim. No balanço já possível fui, para alguns, a destruição mas, para muitos outros, a construção e, para o mais importante, a certeza de um melhor futuro…

2007… a mim pertence. Vou reunir para planear e traçar objectivos. Todavia, certamente que não quererei arrepender-me mais tarde de não ter feito tudo aquilo que pretendia…

 

Para todos vós que encantais com vossos olhos as palavras que aqui vou rabiscando,

Desejo-vos vontade e perseverança para a conquista de todos os círios de sonho com que vos iluminareis no novo ano. Sorte, fortuna e saúde para os concretizardes. Um 2007 pleno de êxitos!

 

XXVII : XII : MMVI

Andarilhus “(ª0ª)”

 

música: Dead Can Dance: A Passage In Time
publicado por ANDARILHUS às 17:35
Terça-feira , 19 de Dezembro DE 2006

Natal

 

Aquele que… nasceu Homem e fizeram-no dEUS. No entanto, o importante, Homem ou dEUS, é a mensagem universal que deixou de herança. Uma herança farta e razoável para todos, mas que poucos estão abertos a recebê-la…

 

…. Se se junta um menino deitado em palhas de manjedoura com um pinheiro verde onde se recosta um vetusto sem idade e de longas e sábias barbas brancas, é porque algo de Novo aconteceu algures no Tempo do Homem.

A anunciação do renovo da natureza, o Inverno que vai experimentar as forças e resistência dos corpos e das almas que os animam… Reinicia-se, reinventa-se o ciclo… dias de balanço, dias de esperança e optimismo… para a maioria.

O NATAL!

Esgotam-se os desencontros, retomam-se os abraços, na glória maior da amizade, do amor, da partilha dos fraternos.

Degustem os paladares, mas saboreiem também os nobres sentimentos, exaltados e exacerbados em curtos dias, para durarem até à próxima revelação, até ao próximo Natal…

 

Aquele que...

 

No berço da nua terra erudida

Desponta a anónima flor do Homem.

No horizonte acende-se um original sol acolhedor,

Assinala a madrugada da redenção do amor!

 

A fúria do parto irrompe em torrente de aguas mansas,

Para célere afogamento do leito de cascalho dos corações secos.

Da humilde manjedoura rebentam as raízes da imponente árvore frondosa,

Abrigo e refúgio de todas os espíritos cansados e famintos.

 

Alguém chega para dar o sinal de partida

Da epopeia pela mais bela rota do universo sagrado da alma.

Alguém declara guerra para justificar a paz

Entre consciências adormecidas no torpor do egoísmo.

 

Um singular carpinteiro talha com a precisão de mestre

A rija matéria da intolerância humana:

Desbasta a madeira bruta, paciente e graciosamente,

Até que do sofrimento faz emergir a obra desejada.

 

O pescador caminha sobre as águas, como em exemplar pedestal,

Orientando passos tresmalhados ao encontro das sandálias da virtude.

O pescador lança redes de seda sobre cardume humano,

Inspirando, na sabedoria de suas malhas, a rendida multidão.

 

Da boca do filósofo transbordam palavras como marés de chuva,

Acolhidas sofregamente pelos pensamentos mais sedentos.

Um orador brilhante irradia as cores da partilha,

Colírios para os olhos fatigados pelo remorso da cobiça...

 

O arauto do futuro fulmina o presente com exemplos do passado.

Exorta à renovação e anuncia a revolução do amor!

O profeta dos tempos filtra doces visões de esperança,

Cativa e espevita os sentidos da assembleia dos incrédulos.

 

Um novo político abala o sistema com ideologias humanistas:

Revolta-se contra as desigualdades mundanas e revela a democracia espiritual.

O partido inovador ameaça as instituições corruptas;

Escuda-se com a verdade, investe com a tenacidade da paixão!

 

O peregrino enfrenta o pântano das inconveniências apoiado no bastão da fé,

Pelos trilhos do destino irriga com suor as raras flores do deserto.

O eremita tentado em dúvida confronta a sombra

Ansioso por revelações que o conduzam ao destino traçado.

 

A boa-vontade atravessa os portões da cidade eterna.

Serpenteia conformado nos meandros do marginal oásis de oliveiras.

Um condenado abdica da liberdade do corpo,

Empenhando-se, com convicção, pelo retorno de um beijo.

 

O mártir, humilhado, arrasta-se para o vértice do juízo

Carregando humildade e sofrendo a dor alheia.

O carpinteiro morre enfim, feliz, no madeiro a que dera forma,

Como o castor, preso na sua obra, sufoca após trasbordante cheia...

 

MCMXC

J. Pópulo

 

UM MUITO FELIZ NATAL PARA TODOS VÓS E RESPECTIVOS FAMILIARES.

Andarilhus “(º0º)”

 

 

publicado por ANDARILHUS às 08:50
Quinta-feira , 14 de Dezembro DE 2006

Carrossel

Milton Dacosta: Carrossel

 

Hoje escrevo sobre a forma como se têm impregnado no tempo as marcas das minhas vivências, o meu sentir directo sobre todas as coisas físicas e imateriais que me envolvem.

Os dias são rotineiros; os dias são uma sucessão de provas que perfazem um círculo que, a cada etapa, é um porto de chegada e um porto de partida. À semelhança das viagens pelo globo terrestre, estamos limitados e confrangidos ao espaço finito da nossa circunscrição. Percorremos a cintura do destino, volta sobre volta. Passamos vezes sem conta pelos mesmos sítios, pelas mesmas experiências, pelos mesmos céus áureos, pelas mesmas valas nefastas…

Olhar para a vida é admirar um carrossel. Um carrossel com as figuras (não alegóricas; mas do mais intenso verdadeiro) dos diferentes sentimentos, das diferentes sensações e soberbamente adornadas com as mais belas ilusões para os sentidos.

Enquanto o carrossel gira, nós, parados em contemplação ou caminhando em seu torno (na direcção contrária) em peregrinação, vamos absorvendo as energias e a “personalidade” da figura da extremidade que nos passa rente naquele instante, naquele momento, naquele período, definidos pelo eixo da sorte.

Eis que passamos triunfantes pelo cavalo da Vitória; Eis que se achega, arrasadora, a carroça da Derrota. Logo nos acercamos do avião sonhador da felicidade; Logo sentimos o abeirar do náufrago navio da desgraça. Ali ao lado o carro pujante da alegria e do amor, à espera de condutor; Ali ao lado o trólei abatido da tristeza e do desdém, em chamamento para alguém o timonar.

Sucedem-se as voltas. Ora com passagens rápidas e ventosas por figuras ininterruptas, quase sem respirar e por estados tão díspares como a euforia e o desfalecimento moral. Ora com passagens lentas e tão moidamente sentidas, que nos avassalam da pele até ao osso, inebriantes e motivo de desejo de que seja um arrastar de situações boas ou de bem. Porque se forem contrárias, o tempo longo só as agrava ainda mais…

E assim segue o curso e o corso do acaso.

E podemos nós saltar deste fado de inconstância repetitiva e afastarmo-nos da atracção enfeitiçada do carrossel? É difícil. A simples tentativa de desviar o olhar é já uma ousadia delicada…

E se nos libertarmos desta rotina, o que será de nós? Saberemos existir de outra forma?

Utopia ou não, eu vou tentar! Desprender-me das forças que me mantêm sugado para o centro do carrossel e estalar as barreiras das dimensões de tempo e espaço. Ensaiar uma nova feição no relacionamento com o universo. Procurar ser mais participativo e menos expectante sobre aquilo que nos é determinado pela roda da fortuna.

Felicidades para todos,

Um Feliz Natal!

Andarilhus

XIV : XII : MMVI

 

publicado por ANDARILHUS às 08:39
Terça-feira , 12 de Dezembro DE 2006

Arrimas de vento...

 

 

Augúrios de ventos favoráveis para as vossas fantasias aladas…

e para ti… o entrelaçar dos meus dedos de vento por entre os teus cabelos negros e a ternura de um beijo rude e simples da nortada dos lábios de um transmontano de janelas abertas…

Acima das nuvens, no Larouco, algures no tempo…

 

 

Ao Vento

Encontrei-te!

Entre os chapéus dos montes

E as fraldas do céu!

Perdido nas desventuras dos trilhos enfadados,

Seguindo o vento, procuro rodear o teu peito

Com meus braços e num aperto,

Liberto o rebento das fontes

De espreguiçado contentamento,

Sobre os ferozes escarpados

Dos impérios do erro e do defeito,

Na estimada demanda do acerto.

 

Chegaste de manso

E por casualidade.

Na troca do olhar arrebatador,

Dialoguei contigo na mudez.

Por dias de estratégia contida,

Negociámos a rendição.

Era já tua a minha vontade,

Entregue ao afecto avassalador

Deixei minha alma em nudez…

 

Sinto-te hesitante

Entre o querer e o receio;

Não sei se por medo ou natureza,

Regras teu sentir ao essencial,

Procurando manter

Linha estreita entre conhecido e amante.

Confuso, entre tudo e nada, vagueio,

Agarrado a cultivada certeza

De te afagar em ideal

De companhia, e tudo fazer

Para guardar meu querer constante.

 

Iludo-me em ser para ti sempre primeiro,

Como és para mim, fiel pensamento.

Porém, sei que nem que me vista de Sol radioso,

E pareça sóbrio e prudente conselheiro,

Ou estrela maior do firmamento,

Me deixarás aquecer-te no dia mais turbulento,

No teu casulo interior misterioso.

 

Muitos dias passam, sem te ver:

Morrem as cores, absorve-se a luz

No manto tingido pela saudade.

Seja este um encontro sagrado,

E renovado na vontade de vencer

A distância que a dor seduz,

Lançando o tempo sem idade,

Na partilha do SER amado!

 

… Quero-te tanto…

 

J. Pópulo

XXX : V : MMVI

Andarilhus "(ªoª)"

 

música: This Mortal Coil: A Single Wish
publicado por ANDARILHUS às 08:23
Terça-feira , 05 de Dezembro DE 2006

Beati Pauperes Spiritu

www.alan-maia.com/sonho.gif

:|:

O que é a realidade? Diz-me…

Nós caímos de Deus? Diz-me que os teus sonhos se podem realizar…

 

Como estás tão só no jardim, neste Domingo de calor familiar.

As pessoas passam como pequenos enxames. Riem, correm, abraçam-se e destilam carinho. Mas tu, na tua caverna íntima, de portas e janelas fechadas, trancas-te em torno dos teus braços escondidos, apertado pelo frio e pela humidade de espaço tão vazio… Afinal, enquanto os outros já regozijam com a Primavera, tu estás no mais lúgubre Inverno, gélido…

As gentes que passam aportam novas tonalidades odoríficas aos agentes etéreos que te envolvem, movimentam a aragem que te embala no rio ondulado da brisa. E tu, estático ao estímulo, repreendes o olfacto, suspende-o de reconhecer seres de carne e osso ou o seu mero espectro.

Alguém te iludiu. Alguém te prometeu a eternidade de um momento. Feriram-te e roubaram-te a confiança e a alegria nas tuas crenças. Quando de uma parte se transpõe o vestíbulo do templo do amor com um fogo maior, decerto que esse coração imenso ilumina muito mais. Todavia, é certo também, que corre o risco de se incendiar mais rapidamente e perecer derretido sobre a cera da paixão.

Neste pequeno deambular de Domingo não vais ao encontro de coisa alguma. O banco de jardim que resguarda o teu corpo, por alguns centímetros, por alguns minutos, de cair no mesmo abismo onde já anda a tua alma perdida, é paragem de repouso na tua fuga. Os outros passeiam pelas azinhagas da comunhão; tu arrastas o que resta de ti pelas penedias da solidão.

Afinal, como foi a tua realidade, como é a tua realidade?

Já soubeste o que é a alegria, já conheceste a partilha e a união entre irmãos, os de sangue e os de sorte. Entregaste, a seu tempo, o que de mais nobre havia em ti. Deste o teu melhor, ofereceste o teu dom de vida. Nada mais tinhas para ceder, estava já tudo penhorado… Na tua simplicidade, acreditaste nos cofres humanos em que depositaste os teus bens mais preciosos. E, assim, despojado da tua vontade e essência… ficaste vazio, com a desilusão e a desonestidade moral daqueles que te atraiçoaram no teu delírio do real. O teu investimento fracassou por má-fé e desdém dos relicários do teu ser. Decompuseram-se e pereceram os teus haveres espirituais. Alheaste-te de os retomar, de os curar.

Procuraste uma existência maior, um mundo pejado de amigos, uma casa pintada de amor. Como não entraste na porta certa do destino, desistes de a procurar, desistes de te procurares.

E, os teus olhos despojados da cor e da forma, apenas miram a escuridão interior, apaladando com gosto o teu próprio definhar e a extinção dos teus sonhos. No nada consegues ser tão complexo na decisão do difícil…

Levantas-te do banco do jardim, transpões os portões da condição humana e partes para nenhures… pleno de inexistência de convicções…

Bem-aventurados os simples e os pobres de espírito, pois esses não interrogam a realidade…

 

VI : XI : MMVI

“(ºoº)” Andarilhus

 

música: Fields Nephilim: "Sumerland (What Dreams May Come)"
publicado por ANDARILHUS às 17:31

BI

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