Segunda-feira , 27 de Agosto DE 2007

Feitiços Cruéis

http://raparigadaslaranjas.blogs.sapo.pt/arquivo/Dor.jpg

 

 

“Despertar

 

Nunca foi tão breve uma vã rendição.

Nunca a palavra se encontrou tão solitária

E jamais o silêncio se ergueu tão dominante,

Arrebatando, afogando tamanha paixão

Nas lágrimas quentes da alma perdulária,

Indefesa, jazendo nesse fatal instante...

 

A esperança galopara ávida e veloz

A encosta de acesso ao abismo.

A queda imprevista estava, no entanto, anunciada,

Forjada que fora pela vontade feroz,

Que por inquieta e adversa ao comodismo

Aliou-se à precipitação até à entrega desesperada.

 

Sangraram os lábios que declararam

O desejo do coração, em brechas ferido,

Perdeu-se o pensamento na apertada confusão

Existencial, que quatro paredes delimitaram.

O destino, sabedor, de maldoso já havia sorrido

E deus, há muito alheado, não enviou a sua bênção!

 

Anseios suscitados pelo sonho puro,

De um mundo perfeito em tons de branco e dourado.

Peito aberto como uma folha de poema,

Cuja mensagem encontrou a resistência de um muro

De indiferença, friamente erguido e consagrado

Á negação de um sentimento que tinha o amor por lema...

 

MCMXCIV

J. Pópulo”

 

Andarilhus “(ºvº)”

XXVII : VIII : MMVII

música: R.E.M.: Orange Crush
publicado por ANDARILHUS às 08:10
Quarta-feira , 08 de Agosto DE 2007

As Mil Idades

http://buzznet-15.vo.llnwd.net/assets/users7/ranc/urbanlife/A_crescer--large-msg-1113674716-2.jpg

 

Gritei!... – suponho – quando nasci…

Agarrado ao esmero de minha mãe, absorvi a luz e as sombras. Tacteei as formas, os volumes e os tamanhos; Agucei os sentidos dos odores e dos paladares. Assisti ao paulatino mingar do mundo e ao crescendo do seu alcance, garantido pela vivacidade da galopante consciência.

 

Gritei!... – quase o posso garantir – quando ganhei vontade e interesse.

Montado no cavalinho de pau, corri os jogos de destreza e de experiência. Toquei a realidade pelas mãos do imaterial; Poli os saberes da cor e da dimensão; Enxerguei as coisas com mais profundidade, subsidiado pela gula da curiosidade.

 

Gritei!... – recordo – quando começou a minha iniciação.

De sacola às costas, fui lançado pelo mundo das letras e dos números. Acolhi os subtis encantos da comunicação; Rasguei as cortinas dos mitos e dos medos; Olhei o mundo com mais régua e compasso, estacado pela exigência da racionalidade.

 

Gritei!... – lembro-me – quando entrei nos portões da herdade da paixão.

Indumentado da fantasia de capa e espada, desbaratei as terras enigmáticas do romantismo e do amor. Abracei o dorso sonhador do ideal; sofri com prazer a saudade; Observei o mundo com o sentimento e a sensualidade de um beijo, ancorado no porto emocional do coração.

 

Gritei!... – evoco-o a cada instante – quando carreguei a minha encomenda no cais da responsabilidade.

Aceitei a farda e a alfaia entre sorrisos: estava admitido. Admitido ao serviço, admitido à normalidade social. Drenei os oceanos de cristal das loucuras e aventuras dos tempos de alforria; criei um aterro mental sanitário, para os despojos da liça. Encurtei as vistas do mundo, revestido das insígnias, das regras e do contrato das vicissitudes da profissão.

 

Gritei! Gritei!... – embargado de alegria e de cuidado – quando sublimei a minha existência na sua multiplicação em nova vida.

Apetrechei-me de roca e de berço, nas mãos trémulas. Despistei as rotinas, abalei com os destinos traçados; ergui novamente a bandeira da esperança e da crença, há muito guardada no baú do esquecimento. Saltei à Via Láctea para apreciar as vistas de um mundo renovado, abençoado pelas marés cristalinas do oceano mágico do afecto.

 

Grito ainda, por tanta maravilha, por tanto esconjuro, por tanta incompreensão, por tanta falha, por algum sucesso, por algumas derrocadas de desilusão…

Gritarei até ao fim, em timbre de soprano ou no silêncio do íntimo, porque o mundo, essa certeza de surpresas, é como uma fábula: é omnipresente, multifacetado, multicolorido e habitado por múltiplas estirpes de Homens e outros seres, algo fantásticos, algo reais, mais ou menos cruéis, mais ou menos samaritanos…

 

E chegado o términus dos olhares, gritarei à mesma… para que me abram a porta do céu, do inferno ou apenas da cova!

…vão-se as idades, fica o repouso compulsivo…

 

Andarilhus “(ºvº)”

VIII : VIII : MMVII

música: Joy Division: Decades
publicado por ANDARILHUS às 00:44
Quinta-feira , 02 de Agosto DE 2007

Fantasia em Sol Maior

http://imperfeicoes.blogs.sapo.pt/arquivo/Miklos_A_Flor_dos_Sonhos_nv3.JPG

 

Aconcheguei-me nas pernas da macieira azul. Nos ramos, giravam ao vento inúmeras maçãs de cristal… ganhavam cor ao sol. Ao sol das pestanas longas, de braços abertos e com a manápula fechada sobre a cauda de um grande sombreiro de sorriso remendado, para se cobrir dos raios da escuridão.

 

Deitado a seus pés, meditava. O cérebro aberto e arejado pelos comboios eólicos das ventanias narradoras acolhia, em eco, os salmos da tradição. O pujante atlas litúrgico do dom divino do Homem entranhava-se na carne e exalava melodias em timbres bucólicos, pela voz muda do pensamento.

 

A nuvem maior, no alto, molda-se à ideia que sacode os tabus.

Esquecer os farrapos dos passados, nos estendais de secagem até à sua total desidratação; Não te exigir a esfera da perfeição e aceitar que tenhas cantos e arestas, mais ou menos afiadas; repousar da vigília na atalaia do sempre absolutamente correcto e prevaricar em ternura….

Tamanha é a paz que, como gás inebriante, cala os fantasmas do desatino, rasga as asas das moscas da represália e adormece para sempre os beijos dos castigos enfeitiçados.

 

Sorrir e respirar fundo. 

Vejo a Lua Cheia no toldo que segura os astros. Como é bela! Deve albergar as mais delicadas flores de safira e turquesa… Quando me levantar do macio amparo da macieira, vou pelas escadas de nuvens, colher aluados ramos perfumados de odores cósmicos. Pelo caminho, trago algumas estrelas, velas para a mesa do repasto do nosso encontro, ao fim do dia, ao fim da noite.

Ajuda-me. Ajuda-me a que, quando me levantar desta macieira encantada, me acompanhe a sombra dos seus frutos mágicos, de poções de felicidade e esperança. Apoia-me na decisão de alcançar os mistérios da Senhora dos céus e te traga o enxoval do futuro…

Diz-me que não foi nem tempo nem espaço que nos uniu. Diz-me que foi um destino sem relógio ou latitude que nos fez juntos e tão singulares. Que foi, tão simplesmente, aquilo que sempre deveria ter sido, aquilo que em todo o lugar deveria ter acontecido… Apenas nos atrasamos um pouco no tempo dos anos; apenas nos desencontramos um pouco na geografia da vida…

Diz-me que teria sido assim se, outrora, tivesse eu a tua luz nos meus olhos e, deitado contigo sob a frescura de jovens maçãs de cristal, tomasse o ensejo de esticar o braço ao firmamento e recolher, da madrinha do nosso querer, um ramalhete da mais pura promessa de amor, em lírios de caule turquês e pétalas de safira…

Apascenta os meus ouvidos pelos prados da alegria: fala-lhes que o hoje seria ontem e o amanhã é um espreguiçar do hoje.

 

Vou-me erguer. Tenho uma escada de nuvens a percorrer…

Andarilhus "(ºvº)"

II : VIII : MMVII

música: Love and Rockts: Wellcome Tomorrow
publicado por ANDARILHUS às 17:57

BI

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