Sexta-feira , 23 de Maio DE 2008

E Tu...

http://vamps.blogs.sapo.pt/arquivo/Para%20Sempre,%20Contigo.JPG

 

E Tu…

 

Tu poderias ser

A minha verdade irrefutável,

O momento melhor do sonho

O descanso da vigília cansada.

Tu poderias ser

O prolongamento da minha vida,

A extensão da minha presença

A expansão do meu pensamento.

Tu poderias ser

O meu mundo inalienável,

Puzzle de peças que componho,

A Via láctea envernizada!

Tu poderias ser

A minha escolha de lida,

Sorriso aceso no luto da doença!

A preguiça saborosamente lenta…

 

Tu poderias ter sido

A raiz de todas as minhas verdades

O sonho nunca acordado.

Um acaso sempre servido,

A tempo de todas as idades,

Em manjar a dois, pelo amor temperado…

 

Tu poderás ser

O tanto que já és para mim: O Tu do remanescente…

 

Andarilhus “(º0º)”

XXIII : V : MMVIII

 

 

música: MUSE: Unintended
publicado por ANDARILHUS às 17:15

Compassos

http://i122.photobucket.com/albums/o248/chalan2/001.jpg

 

Tento firmar-me no topo da montanha

De convicto e querido escarpado,

No cume do amor e desejo.

Escorregam-me os pés, aos poucos.

De cada vez que deixas cair expectativa

Lanço a corda do crer e do querer,

Mas o vento leva-me em sombra branca

De neve solta.

 

O beijo torna-se mais morno,

O abraço mais lasso;

O olhar pousa menos arrebatador,

A mão menos envolvida…

O elenco das carícias aparado.

 

Ainda não sei bem o que és…

Talvez o eco das vozes da terra,

Talvez o halo da minha busca de perfeição.

Sei que tudo o que temo está a teus pés

Arreigado na ponta dos meus dedos, sem guerra,

Pelos ditos das revoltas do coração.

 

Vem! Deixa teus pesos, as tuas sepulturas.

Espero-te em todas as marés,

Da penumbra ao alvor.

Remenda as feridas com novas costuras

Arremessa para longe a âncora da dor, do revés

E afaga as penas de Fénix renovador.

 

Vem! Não me deixes em pesos e sepulturas

Sacode-me, resgata-me de teus pés,

Asperge-me de sentir e calor.

Trava os rasgões da alma com fortes ataduras

Puxa-me para o barco que caio em negras marés

E caminha com quem sou, tira-me do teu andor…

 

Vem, vem nos passos que entenderes calçar.

Preferia-te na surpresa que, como maravilhado, te admirei;

Preferia-te na fera que, como presa, te concedi;

Preferia-te na atenção que, como estranho, te dediquei;

Preferia-te a bailar no que, como trovador, me imbui;

Prefiro-te na mulher por quem, como homem, me enamorei…

 

Mas vem, vem nos passos que entenderes calçar.

Eu sigo descalço, sempre, do modo como para ti cheguei ao mundo.

 

Andarilhus “(º0º)”

XXIII : V : MMVIII

música: The Mission: Dancing barefoot
publicado por ANDARILHUS às 08:53
Quarta-feira , 21 de Maio DE 2008

Gelo Rubro: I - Maré de mudança

http://umpoucosobrecor.files.wordpress.com/2007/09/gelo.jpg

  

OPah era Princesa dos países do Extremo Norte. Porém, fora destronada pela rebelião dos Adoradores das Estalactites, provenientes das misteriosas Cavernas da Penumbra e refugiara-se na fronteira. Aí, inalcançável nas grandes estepes geladas, não dominava reino ou território. Vivia com os parcos recursos que pudera arrastar na fuga.

Conseguira escapar graças aos seus 3 cavalos da linhagem da Túmedra. O Linha, o Fio e o Cordel. Os possantes animais corriam como um só novelo, de vento e mel, com uma desenvoltura que deixava marca no olhar a quem houvesse privilégio de os mirar no deleite da velocidade e da formatura estética. Eram do mais puro gelo e partilhavam o espírito e a racionalidade com os humanos.

O Linho era branco opaco e geria bem e com sabedoria a liderança reconhecida pelos demais. O Fio era de um azul-água, verdadeiro golfinho da superfície dos lagos gelados e o Cordel de um verde-líquen que enchia as copas alvas das árvores com promessas de Primavera.

O trono de OPah era a sela de prata e couro com que trajava majestosamente os seus cavalos, à vez. Tratava-se de uma cavaleira impar, sem rival na arte equestre. Eles respeitavam-na na minúcia e alegravam-se na sua pureza animal quando lhes tocava a oportunidade de transportar a sua senhora.

Passavam-se os dias, sem que Opah lograsse juntar as forças suficientes para retomar o que lhe pertencia por direito de herança e tradição. Magoava a sua beleza com o carregar de expressões tristes e preocupadas. Consumia horas em silêncio e olhares vagos e perdidos. Esmorecia em farrapos de manhãs ou tardes, deitava-se em dormitar desiludido mas despertava alegre e confiante pelo grito da alvorada. E retomava, do início, a contagem de forças e a preparação da estratégia, como se fosse o primeiro dia de exílio. Todavia, as horas continuavam a passar e o desalento avançava com o Sol…

Nos fiéis cavalos encontrava alguma paz, algum consolo. Esquecia-se por momentos das agruras deixando-se levar por longos passeios. Num desses passeios, junto do ponto em que o mar beija a terra, viu numa enseada, sita no sopé do monte onde repousava, a chegada de umas embarcações estranhas. Eram barcos longos e esguios, com uma longa vela quadrada ao centro, temíveis cabeças de animais à popa e uma espécie de cauda nas proas.

- “Conheço-os…”, disse o Cordel, prontamente. – “São os Vikings. Vêm de terras ligeiramente mais a Sul. São guerreiros formidáveis, mas muito cruéis. Vamo-nos daqui antes que nos vejam”. E saíram dali com o repente do trovão.

Nos dias seguintes não se afastaram demasiado do acampamento. A rotina continuava.

Opah fazia planos sobre planos e debatia-os com os equídeos, enquanto deambulavam pela floresta próxima. Nessa tarde, estavam mais efusivos do que o normal na discussão, tanto que não se deram contam de estranhas presenças. Quando entraram numa solarenga clareira, fechou-se às suas voltas um forte e metálico biombo de homens. Os Vikings! Eram guerreiros possantes, de longos cabelos e barbas, claros, reluzentes nas suas armaduras.

O Linho tomou posição imediata de defesa, exortando os companheiros na protecção a Opah. Cerraram fileiras e mostraram os cascos e os dentes e sobretudo a sua beleza sem par, na mescla das suas tezes.

Adiantou-se um distinto dos Vikings, de guedelha castanha clara, ao jeito do carvalho polido, que sobressaía naquela pequena multidão de loiros.

- “Nada temam. As nossas intenções são pacíficas. Eu sou Yopulus e estes são os meus conterrâneos. Sou o chefe ungido desta expedição. O que nos trás por cá, tão a Norte, é uma situação de flagelo que cobre a nossa pátria. Mas quem sois vós, estranhas criaturas?”

Linho não facilitou e manteve a formação disciplinada. Ela, menos alarmada e mais relaxada, respondeu de dentro da sua fortaleza de cristal: - “Sou Opah, Princesa das terras que pisais. Fui destronada por uma seita que, como erva daninha, irrompeu do solo e tomou vorazmente toda beleza e alegria do meu reino. Estou exilada nestes lugares gelados, onde eles não conseguem chegar por falta de resistência ao frio extremo. Estes são os meus bravos companheiros. Não são meros cavalos, mas isso até um bárbaro como vós já deve ter reparado”. A Princesa mostrava-se digna da realeza. Mesmo em perigo e desvantagem explícita, impunha-se perante os estranhos.

- “O que nos quereis? Porquê este cerco? Que fazeis aqui?”

Yopulus, olhou em volta e fez sinal. Foi obedecido num ápice. Os guerreiros afastaram-se e procuraram lugar para repousar e recuperar forças. Quedou-se apenas o chefe Viking.

- “Perdoai a nossa rudeza, mas tínhamos de nos certificar que serieis inofensivos e de confiança. Agrada-me a vossa coragem e arrojo. Rivaliza definitivamente com a vossa beleza… Bem, mas falemos do que nos trouxe às vossas costas.

Arghard, os nossos domínios, sempre foi uma terra próspera: fértil nas suas mulheres e culturas, venturosa nas suas demandas comerciais e engenhosa nos mil ofícios. Escolhemos desde há muito a via pacífica e a troca de saberes e produtos com outros povos. Seguimos o curso da guerra apenas quando alguns olhares de cobiça se lançam sobre as nossas casas e posses. Infelizmente, estamos em guerra agora. Todavia, é uma guerra diferente e não convencional. A amargura veio connosco, mas o desespero e a dor ficou no nosso país. Vou contar-vos o nosso terrível fado e razão desta nossa jornada".

 

 

(continua)

 

Andarilhus “(º0º)”

XXI : V : MMVIII

música: Gene Loves Jezebel: Always a flame (Immigrant)
publicado por ANDARILHUS às 17:08
Quinta-feira , 15 de Maio DE 2008

Rosa Bonina

http://amadeo.blog.com/repository/306019/2683354.jpg

 

Colheste-me na flor do Outono…

Em roseiral de espinhos

E horas de paixão.

Esqueceste-te de ti e do sono

Soçobrando em desalinhos

Para me teres em botão.

 

Ficaste confusa, assustada,

Com a minha medida, pequenina,

Frágil!

Com vontade uivada,

Seguraste o peso de pena e sina,

Eu, Quase transparente, nada ágil,

Macio e vivo!

 

Não desfaleceste

Ao sussurro do sedutor abandono.

Esconjuraste estranho e amigo

Em suplício acima do que ouviras ou leste;

Era uma dor sem outro dono.

Mas ele – o nosso amor – estava contigo…

 

Tu és a minha semente

Que me projecta para a luz;

Tu és a minha chuva

De alimento sorridente;

Tu és o meu astro solar

Que me amadurece como uva;

Tu és o meu anjo da guarda

Em guarido abraçar;

Tu és o meu bastão

Em apoio que nunca tarda;

Tu és as minhas sandálias

Que me adoça rude estradão.

 

Tu és a minha mãe…

E eu sou o teu filho,

Rosa bonina!

 

…O amor de um trovisco para uma colina

 

 

XII : V : MMVIII

(Andarilhus)

 

 

publicado por ANDARILHUS às 08:53
Quarta-feira , 14 de Maio DE 2008

Yoanna

http://claudia.weblog.com.pt/arquivo/ballet.jpg

 

O seu grande confidente, o rio, dissera-lhe: “Yoanna não te deixes atrasar mais por desculpas e por desvios de um sem número de acasos. É lá que estás e é lá que te esperam. Algum dia a consciência virá por ti, a tua realidade se imporá…”

Escutou, interiorizou e decidiu-se. Regressou à sala de actos.

À entrada aquele odor de efervescência e de adrenalina suado. Deixou o olhar correr o soalho até bem ao fundo da sala. Envolveu-se e contribuiu para o silêncio inundado de muitas vozes daquele espaço e viu-o. O espelho. O experimentado espelho, sábio da técnica, conselheiro do caminho da perfeição. Pedagogo, pai… Reconheceram-se. Fitou-o, abraçou-o com o íntimo. Partilharam as vozes do silêncio.

E o espelho, feliz em bagos prenhes de carinho, dobrou-se em inusitada vénia, revelando todo um mundo guardado no seu baú opaco.

Projectado na sua pele vítrea fria o calor de muitos momentos, como um álbum de memórias, deixou correr todos os afectos, impressões de anos, tentações e sensações, notas, imagens, realidades… do universo de Yoanna. Esta, algo trémula, trocou de pé no equilíbrio da sua gravidade, trocou de olhar e pintou de sentir os sentidos, invadida, trespassada por todos aqueles casulos de vivências. E tanto que havia ficado para trás, por escolha ou por força doutras forças.

Reagiu e injectada de nervo chutou para canto os sapatos de tacão alto, acariciou nas mãos da imaginação os sapatos de pontas mágicos, transformou o tailler em maillot sob tutu (tão justo que revelava as formas leves e soltas) e ficou pronta para o lago dos cisnes. Dos cisnes ou de qualquer outro dos sonhos alados que lhe florearam de imediato o céu impregnado na cobertura da sala. A música, tamanha música redonda, cheia, omnipresente do passado a passos bailados em desejo para o futuro, sacudia-a, tentava-a como cachorro brincalhão à espera de companhia.

E, descalça e nua, Yoanna tingiu o espelho com bailado de doce fúria e desejo, bailado de visita a todos os seus seres espalhados nos anos, bailado de saudade, bailado de dor e felicidade, bailado de riso e lágrimas, bailado de memórias e memorável…

O espelho, ávido de atenção, registou cada saboroso movimento, como imagens sequenciais de lanterna mágica. Guardou-as no seu dorso opaco. Ficou tão brilhante e límpido, recolhendo-se por segundos, como mármore extasiado.

Dos pés corriam pequenos traços de sangue, do corpo ofegantes vapores transpirados elevavam-se como preces, dos lábios um beijo sorridente desmascarava a alma, agora tranquila, em paz. A pátria reconstruída, a nação reunificada e o império coeso novamente.

Retomou os sapatos de tacão e o tailler, era tempo de regressar a casa. À casa de agora, à casa de sempre. Ao lar que recuperara e à família que retomara.

Despediu-se do espelho, em silêncio, encostou-lhe o coração.

Ia solta, em dança interminável para os salões da vida que a esperavam.

E na sala, o espelho mostra a quem por lá passa e conseguir escutar as vozes no silêncio, a pureza e a bondade do ser humano… Yoanna.

 

Andarilhus “(º0º)”

XIII : V : MMVIII

música: The Mission: And the dance goes on
publicado por ANDARILHUS às 08:53
Domingo , 11 de Maio DE 2008

Das Certezas (tomo II)

 

http://oblogdorapaz.blogs.sapo.pt/arquivo/partida.jpg

 

Quando já tudo se perdeu e

Pouco ou nada vai oxigenando o respirar,

O melhor é mesmo procurar outras atmosferas.

Ficar preso a esperanças vazias

É como continuar a tentar manter aprumado um balão rebentado...

São esses os momentos de saudar a chegada da partida...

 

“It takes a second to say goodbye, say goodbye
It takes a second to say goodbye, say goodbye,
Say bye bye - where are you going to now?”

U2: Seconds

 

Andarilhus “(º0º)”

IX : V : MMVIII

música: U2: Seconds
publicado por ANDARILHUS às 20:33
Sexta-feira , 09 de Maio DE 2008

Morte sem sinal II

http://www.cinemacomrapadura.com.br/blog/wp-content/uploads/2008/02/morte.jpg

 

O caixão estava prestes a ser chumbado.

Olharam todos de soslaio e desviaram o olhar. Era grosseiro, era uma grande tempestade a engolir o Sol.

E agora?

O mais teso de racionalidade levantou-se: - “Aqui ninguém toca, sou eu que levo a nossa querida! Paciência… chega a hora de todos. Lá nos havemos de desembaraçar sem a sua orientação…”

Mas, e agora?

Tantos, órfãos de saber e de sentir. Inúmeros carentes e sós de companhia e carinho.
Acaba por chegar o momento em que é preciso levantar a cabeça, de procurar outros quotidianos, outras artes, outros ícones. Atender a novos estímulos de vida. Arriscar as calçadas da cidade.

Mas, como?

- “Ajudem-me, digam-me: ainda há um mundo lá fora?! Quem o viu ultimamente? Digam-me, há???... O que vai ser de todos nós…”

Alcançado o derradeiro minuto, respirado já sobre a intensidade da dor e da saudade, o funcionário camarário pegou cruelmente no caixão daquele corpo já sem luz e tom, já sem som e palavra. Tão escuro e pesado…


Pegou na televisão avariada e atirou-a para o camião.

Desapareceu no meio de tantos mundos como o nosso…

 

 

Dedicado a todos os “irmãos” que cresceram e crescem em frente à televisão.

Uns mais outros menos, medram na realidade dos outros e vêm pela janela os dias a passar, sem conhecerem, sequer, os rudimentos da vida.

 

Andarilhus
IX : V : MMVIII

 

 

música: Xutos e Pontapés: Chuva Dissolvente
publicado por ANDARILHUS às 08:55

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