Terça-feira , 18 de Novembro DE 2008

Fado vadio

 

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O cigarro amassado e requentado

Atrai as traças agitadas

Pela exígua gota de calor.

Aqueles olhos inexpressivos

Como postigos em fachada de rugas

Acendem-se

Ao ritmo das puxadas da nicotina.

 

Lembra (como em oração)

A embusteira industria

Que após anos da mesma série

O fez ceder ao sinal de cansaço,

Recorda (em penitência)

A meretriz vida

Que depois de anos de fuga humana

O fez tombar em solitário regaço…

 

E a rua deambula

Sob seu pés inchados

Pelos degraus, que todos procuramos,

Sob suas costas, deitadas

Pelos reveses, que todos encontramos.

E a rua deambula

Enquanto, lavado pela chuva

E encharcado pela cerveja,

Inventa um ombro amigo,

Companhia de cantiga carpideira.

 

Procurem-no na poeira de cobertores

Em muitos papeis

E bem embrulhado

Em cartões.

Procurem-no nos recantos

Escuros, frios, fugidios,

Apartado da cor,

Da alma, do amor.

Encontrem-no a chorar estrelas,

E a tocar odes de silêncio

Em violinos feitos de lixo.

Encontrem-no a afastar nuvens

Macias e brancas

Com mãos trémulas e sujas

Em busca do seu nome no céu…

 

E, quando com ele fado cruzares,

Dá-lhe um sorriso,

Talvez mesmo uma palavra,

Um aceno,

Sem medir, sem juízo

Como tu, ele é humano pleno

Como tu, ele precisa de um alento

Como tu ele espera por um vento

De fortuna

… que todos nós buscamos

Mas que nem todos nós topamos…

 

Aos sem-abrigo, de lar ou de coração.

 

Andarilhus

XVIII : XI : MMVIII

 

publicado por ANDARILHUS às 17:52
Quarta-feira , 12 de Novembro DE 2008

Farei de ti um concorrente do Sol

 

Quando olho para a rede
E vejo onde descanso o corpo
Noite dentro... rua fora
Apenas
Dou por mim dentro do que me rodeia
Apenas
Me encontro no que fora de mim existe.
Adapto-me, reconstruo, mas
O branco é pálido e o negro…
O negro é do mais breu e opaco.

Estou preso nos limites esgotados
Da caixa do meu mundo
Tão cinzenta e amarga
Como a tarde invernosa permanente.
E o corpo que se agiganta e a caixa que se acanha!!!!
Vou recortando o tampo
Com pequenas incisões
De tímidas alegrias.
O brilho perfura a lúgubre vida
Em formas de lua e estrela
Indiciando a liberdade da luz.
Desce uma mão em busca da minha,
Não para me puxar;
Antes para fazer companhia,
Antes para me trazer a purificação…

… E entraste.
Entrou contigo o odor do prado
E a brisa que percorre a montanha.
Abraçaste-me.
E, em ti, abraçou-me a luz das estrelas
E da Lua, que tanto ansiava.
Apertou-me o calor do estio
Incinerando o frio.

“Farei de ti um concorrente do sol”, escutei.
E eu logo imaginei
O Céu a ficar da cor dos teus olhos,
Logo teci a dócil intriga – por ti –
Para regresso dos anjos, duendes e sereias!
Castelos e reinos perfeitos
Antevi-os às centenas.
Pressagiei novos pigmentos para o júbilo
Com o branco transparente e o negro imaculado.

Anunciei festividades sem tempo,
Prescindindo de início ou de fim, na cadência
De trovões mansos, em dó bemol,
Ecoando como foguetes, em folhos,
Na tua apresentação nas ameias,
Limpas, torneadas, sensuais,
Bordadas como as mais belas mantas
De fio de seda, de colorida asa de borboleta.

Eu quero navegar-te
Eu quero voar-te
Eu quero percorrer-te
Descalço
Por todos topónimos do sentimento
Por todas as pontes que tanges
Nas encruzilhadas das cordas
Da harpa do firmamento.

Esta maldita casca de forças opressivas
Que se quebra!
Esta maldita caixa de fungos bolorentos
Que se rasga!

Tu entras, eu saio, de mão dada contigo.
Preciso de uns óculos de sol!

Andarilhus
XII : XI : MMVIII
 

 

 

publicado por ANDARILHUS às 21:52
Sábado , 08 de Novembro DE 2008

Um bom ponto de partida...

 

http://img.olhares.com/data/big/210/2100474.jpg

 

Vamos fazer de conta
Que eu até te encanto
Que tu até me inspiras
Vamos estimar o ideal
Que o mundo até nos convence
Que a vida até nos sorri

Façamos de conta…

Vamos imaginar
Que somos felizes e realizados
Que somos alegres e optimistas
Vamos tomar por certo
Que bebemos tragos doces
Que descansamos em veludos

Façamos
de conta…

Vamos acreditar que a tinta
Fora esparramada para escrever
Na imaculada flor de papel,
Sem traço ríspido ou grosso,
A pura e inefável realidade.
Vamos confiar que não há finta
Ou acrobacia que venha tolher
A carícia de dedal ou anel
Ou rasgar a carne com tamanho fosso
Que desengane a nossa temeridade.

Vamos, vagarosos, medir
Os acordares e os dormires
As partilhas e os segredos
O que dar e o que pedir
Os chegares e os partires
Os paraísos e os degredos…

Façamos de conta…

Que eu te amo
E que tu me amas

…é um bom ponto de partida…

Andarilhus
VIII : XI : MMVIII

publicado por ANDARILHUS às 21:23
Segunda-feira , 03 de Novembro DE 2008

Das certezas (tomo V)

http://fatamorgana.romanesca.com/sleapingbeauty.jpg

 

 

O Amor…

 

..."É uma força que sem grande esforço nos dobra a vontade e nos deixa sem opções"....

 

Andarilhus

III : XI : MMVIII

 

publicado por ANDARILHUS às 08:55

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