Terça-feira , 28 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (29º episódio)

 

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(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/51891.html)

Os cinco Celtas e os Carpetas pararam para repousar a meio da manhã. Os cavalos estavam também esgotados com a exigência de passo rápido a que foram obrigados. Quando retomaram já a tarde se apresentava e o cansaço não se apagara, sobretudo nas mais jovens. Alguns dos resgatados, logo após montarem novamente, dormitavam, mesmo à cadência de galope.

Rubínia sentiu dó por aquela gente que havia passado agruras indescritíveis e afrouxou a cadência da viagem. Os outros perceberam e alinharam. A vantagem era razoável mas não decisiva para uma absoluta segurança. Tanto mais que Gurri fez sinal aos outros, indicando um ponto no horizonte, que brilhava como se fosse metal.

-“Julgo que estamos a ser seguidos e observados. Só ainda não percebi por quem. Quando passarmos naquela garganta ao fundo do vale, julgo que vamos saber quem são…”

Prosseguiram com algum constrangimento. O certo é que virar para trás seria a pior das decisões. Lentamente e sem parar, no seguimento de algumas palavras de Alépio, foram-se agrupando de modo a colocar os jovens ao centro, rodeados pelos guerreiros. Zímio e Rubínia lideravam a pequena caravana.

Ao entrar no desfiladeiro, onde se iniciava uma longa descida, prepararam as armas e seguiam prontos para um eventual confronto. Vigiavam os cimos das escarpas mas não toparam ninguém. Já fora do vale, voltou a surgir o brilho ao longe, para lá do fundão que unia os dois montes agigantados, o qual se aprestavam para atravessar. Quem quer que fosse, acompanhava-os à distância.

Desceram sem dificuldade àquele buraco desmesurado da terra. A subida que se lhe seguiu acabou com a réstia de energias de animais e de resistência dos Carpetas. Logo que acederam a um ponto alto, apearam-se e deitaram-se pelo chão. Os cavalos resfolegavam, escumados e sob uma grossa camada de pó e transpiração. Aliviaram-nos da carga e deixaram-nos a pastar e a arejar. A tarde ia adiantada mas ainda era cedo para assentamento nocturno. Importava continuarem um pouco mais e procurarem um bom sítio para acamparem.

Ficaram por ali algum tempo. Quando faziam intenção de retomar a jornada e carregavam os equídeos, Diália deu um grito agudo, de pavor: -“Ahhhhh, desgraça! Eles vêm além. Estamos perdidos!!!!

Eram os Velenos que emergiam do desfiladeiro, do outro lado da falha do relevo. Ainda não tinham parado, acossando as presas sem descanso. Como nómadas sabiam e faziam quase tudo sobre o dorso de um cavalo. Respeitavam-nos e conheciam-nos bem, gerindo os ritmos de marcha. Só assim conseguiam que os animais se deslocassem continuadamente, sem necessidade de parar.

Os fugitivos aceleraram a partida e arrancaram à pressa. Algo teria de ocorrer rapidamente ou seriam apanhados pelos predadores. Poderiam esconder-se, mas as hipóteses de sucesso eram muito baixas. Talvez, mais um plano genial de Alépio ou uma intervenção divina os salvasse. De qualquer maneira, agora, havia mesmo que fugir e manter distância.

Subiram mais um pouco e chegaram à entrada de um novo vale, com uma longa planície descoberta. Era o pior dos sítios para uma escapatória. Não tinham vegetação para encobrir a sua passagem e estariam sempre ao alcance da visão dos perseguidores.

Puxaram ao máximo por animais e humanos, numa corrida desenfreado e alucinada sobre o tapete de erva verde. Vencida a primeira metade do vale, vislumbraram ao longe uma linha de árvores esguias e encadeadas que ziguezagueava. Eram certamente choupos ou salgueiros, normalmente coroas de cursos de água.

Alépio viu ali a oportunidade que lhes poderia trazer alguma esperança.

-“Ali ao fundo deve haver um rio ou algo parecido. Temos de o passar a qualquer custo!”

Os Velenos eram cavaleiros formidáveis. Seriam talvez descendentes dos Centauros, seres admiráveis descritos pelos comerciantes e navegantes do Grande Mar Interior que se abria a Sul da Ibéria. Sem as montadas, sentiam-se incompletos e não passavam de guerreiros de valor medíocre. Era nisto que apostava Alépio – pelo menos, enquanto não tivesse outra ideia: apartar guerreiros dos cavalos, com o atravessamento do rio. Uma vez mais, a Senhora das Águas traçaria o destino.

Com os carrascos praticamente sobre os calcanhares, foi pedido aos cavalos tal desempenho que quase não tocavam com as patas no chão. O curso de água definia-se cada vez melhor. Ansiavam por o transpor. E ficaram muito perto de o conseguir. Contudo, um dos generosos animais não aguentou o esforço e caiu para o lado, atirando com um jovem Carpeta à distância.

Não havia sequer tempo para pensar. Os Celtas saltaram dos cavalos e encaminharam os Carpetas para o atravessamento do rio, cuja margem estava a alguns passos, enquanto enfrentariam os inimigos.

Diália conduziu os conterrâneos, superando a corrente forte do curso de água através de rochas que espreitavam à superfície. As margens eram altas o que impedia a passagem das montadas. Entretanto acercavam-se os primeiros Velenos e iniciavam-se as hostilidades.

Os Celtas começaram por usar os cavalos como escudos contra as investidas dos adversários. Escondiam-se das suas armas e investiam de baixo para cima furando as costelas dos atacantes. Tongídio não se protegia. Tomou um cavalo de um inimigo abatido e entrou nas fileiras inimigas como o vento do Inverno, circulando a falcata no ar incessantemente contra os inadvertidos e surpresos Velenos, abrindo verdadeiros corredores entre eles.

A desconcentração assim provocada permitiu aos Celtas galgarem para um afloramento rochoso, de fácil acesso para humanos, mas impossível para equídeos. Tongídio, em mais um vendaval de morte, juntou-se aos companheiros.

Os Velenos quase se mordiam uns outros de furiosos que estavam. Esqueceram-se das vítimas Carpetas e concentram todo o fel sobre aqueles cinco empecilhos que lhes estragavam a vida regalada que tinham. Sem reflectirem, apearam-se e atiraram-se à fraga onde queriam consumar em morte dolorosa o ódio que os movia.

Os Celtas esperavam-nos em círculo para cobrir melhor o espaço defensivo. Rubínia desabafou: -“Meus caros, mais uma provação. Que o nosso sangue mova diligentemente as lâminas que farão correr o sangue deles. Se nos safarmos desta também, temos muito a agradecer aos deuses. Ai, Tongídio, quando nos deixarão regressar a casa e viver uma vida calma e próspera?!” Soprou-lhe um beijo, mesmo antes de ter descarregado a espada sobre um atacante.

(continua…)

 

Andarilhus

XXVIII : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 22:12
Segunda-feira , 27 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (28º episódio)

 

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(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/51462.html)

Alépio sabia também que não poderiam demorar muito por aquelas paragens. Era quase certo que os Arevácos e até mesmo os Romanos se tinham mobilizado em sua perseguição. Para os primeiros era uma questão de honra lavar o vexame de terem escapado de suas mãos e de serem razão de descrédito perante os aliados. Para estes, o grupo de celtas fugitivo era móbil fundamentador para empreenderem uma campanha punitiva contra os povos do Ocidente e agarrarem a possibilidade das Legiões anexarem novos territórios, recursos e riquezas, basilares para o domínio integral da Ibéria.

Por todos os motivos, este percalço do caminho tinha de ser superado rapidamente. Não seria fácil, porém, o plano tinha tanto de ousado como de simples. Prepararam-se e aproximaram-se. Quando a algazarra acalmou entre os salteadores sonolentos, iniciaram a acção.

Rubínia e Zímio levaram consigo Diália, contornando o campo inimigo, colocando-se a Norte, enquanto aguardavam pelos companheiros. Por insistência do próprio, Tongídio juntou-se a Alépio e Gurri, embora ainda debilitado.

O ribeiro apresentava alguns pegos esparsos mas no global tinha um leito bastante regular e a profundidade permitia caminhar a espaços. Os três entraram no ribeiro um pouco abaixo do objectivo e subiram-no sem ruído, camuflados pelas ramificações vegetais. Levavam também uma casca de pinheiro que recuperaram de uma avantajada árvore seca, para usaram quando entendessem alcançar a margem, sem serem notados.

Dirigiram-se para junto da vedação onde estariam os prisioneiros, saindo das águas entre dois salgueiros. Aguardaram um pouco até deixarem de pingar, o que se fazia ouvir no silêncio omnipresente. Forçaram as uniões fibrosas de parte da vedação e entraram. Alépio sossegou os cavalos e Gurri procurou os Carpetas no escuro, enquanto Tongídio permaneceu vigilante.

O Vacceu encontrou o primeiro e depois todos os outros infelizes, encolhidos e receosos de mais vilipêndios. Cortou as cordas da sujeição e a custo, mesmo quase aos empurrões, concentrou-os junto a Alépio.

-“Calma. Estamos aqui por causa de Diália. Viemos resgatar-vos. Cumpram à risca o que vos vamos dizer.” Sussurrou Gurri e continuou: -“Estão aqui todos?”

Um dos rapazes mais velhos respondeu: -“Faltam Purina e Aldibia. Estão com o terrível Gralfa, na sua tenda.”

-“Shiuuu… Vêm aí dois lobos à caça. Escondam-se que eu trato deles.” Avisou Tongídio, assim que viu o par de Velenos a dirigirem-se para onde estavam. Vinham ébrios e palradores.

-“Anda Kirko, vamos arranjar alguém que nos aqueça a noite, hehehhehe! Talvez, uma parelha para cada um, como faz o sebento do Gralfa, meu irmão!”

Ainda riam quando atravessaram a cancela do cercado. Ouviu-se então, fugazmente, dois zumbidos no ar e o silêncio voltou a reinar. Os ladrões de vidas estavam agora eles jazentes pela lama.

-“Hum, hum. Vejo que o acidente não te fez perder o toque, Tongídio.” Sorriu baixinho Alépio, que começou a dar instruções aos que o rodeavam.

-“Esperávamos que estivessem todos aqui. Assim, temos de adaptar um pouco o plano. Nada de especial. Ora bem, cada um agarra-se ao dorso de um cavalo como se fosse a corda da salvação sobre o abismo. Vamos provocar uma dispersão dos animais. Conduzam os vossos para Norte até encontrarem um grande rochedo, à saída deste vale. Gurri irá convosco. Eu e Tongídio vamos visitar o chefe destas bestas.”

Para deambularem no acampamento à vontade, os dois vestiram as longas peles de lobo que os moribundos usavam para reter o frio da noite. O pivete era indescritível e o sacrifício honraria os deuses. Dir-se-ia que aqueles dois fulanos abatidos jamais, alguma vez na vida, teriam conhecido algo tão salutar como umas termas ou algo tão básico como um banho… E agora já era tarde. Também, com estes odores, nem se sentiria o cheiro podre da morte; o que retinham de vivos era pior.

Com a nova indumentária, Tongídio e Alépio abriram as barreiras e incitaram os animais a correr como chispas na noite. Sem rumo, irromperam pelo centro do arraial derrubando tudo à sua passagem e despertando os alcoolizados salteadores que, com o sono e o tempero das substâncias digeridas, não encontravam a lucidez necessária para entender o que se passava ou para repor a ordem mínima.

Os dois Celtas aproveitaram para cumprir o restante da missão. Gralfa estava igualmente entorpecido e, descoordenado, colocava as armas à cinta. Sem dúvida, portentoso. Mais corpulento do que Tongídio. Quando entraram, o Veleno pensou ver o irmão e ainda perguntou o que se passava. Mas, achou algo estranho no tipo de espada e elmo, limpou os olhos e, sem mais, girou o braço e desfechou um bofetão na fronte de Alépio, que caiu aturdido. Tongídio agarrou num cântaro de cerveja em prata e acertou em cheio na cabeça do oponente. Gralfa bamboleou mas aguentou-se. Encaixou uma segunda pancada e, mesmo assim, puxou do punhal. Recebeu então o golpe fatal com um machado de bronze - relíquia que guardava religiosamente do primeiro assalto que liderou - que lhe rachou o crânio a meio, terminando a sua soberania de terror.

Deram com as raparigas em transe, assustadas e agonizantes pelos maus tratos, seguravam trapos sujos que lhes cobriam a nudez informe pelos rudes contusões que tinham sofrido. Do espólio guardado na tenda arranjaram vestes e cobriram-se também com roupas típicas dos Velenos.

No exterior vivia-se o caos, cenário ideal para a fuga do epicentro do tumulto. Enquanto se afastavam, aqui e ali, qualquer desconfiança demonstrada por alguns mais atentos da tribo de saqueadores era eficaz e discretamente toldada pelo gume da falcata de Tongídio.

Na confusão instalada conseguiram reunir-se quase todos no ponto de encontro. A lamentar ficava a morte de dois mancebos e uma rapariga dos Carpetas, feridos mortalmente pelas sentinelas que guardavam o campo a Norte.

Entranharam-se na noite e deixaram o bando de salteadores numa desordem maior do que aquela que já lhes era natural. Estes, pelo amanhecer, encontraram o corpo frio do seu chefe e de mais alguns dos seus. Iriam assolar o território até que descobrissem os tratantes. Juntaram os cavalos dispersos e todos os guerreiros disponíveis partiram na peugada dos fugitivos.

Já não bastavam os Arevácos e os Romanos, agora também os Velenos. A panóplia de inimigos crescia a todo o momento para o grupo Celta.

E por onde andavam os aliados e amigos?

(continua…)

 

Andarilhus

XXVII : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 20:37
Sexta-feira , 24 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (27º episódio)

 

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(continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/51285.html)

A mulher soluçava, tremia e era esquiva a qualquer aproximação. Foi Rubínia quem, com muita calma e tacto, conseguiu chegar-se e abraçá-la. A rapariga apertou-se de tal forma que quase desapareceu na túnica do amparo, como náufraga agarrada a lenho de salvamento. Ficaram assim algum tempo. Algo mais calma, lá se atreveu a dizer que se chamava Diália, era da tribo dos Carpetas e que o seu povoado tinha sido fustigado pelos Velenos, salteadores sem escrúpulos. A chacina fora quase absoluta, restando poucos com vida.

Era comum que estes bandos de assaltantes poupassem os mancebos para enfileirar na hoste e algumas mulheres, para os servirem. Uma escravidão medonha. Com esse mesmo objectivo, Diália e outras jovens escaparam à morte imediata para serem sujeitas aos caprichos e sevícias ignóbeis dos invasores, para além de serem verdadeiras escravas de trabalho, enquanto suportassem a fadiga e as crueldades. A mesma sorte era partilhada por alguns rapazes, os quais, se sobrevivessem ao cativeiro, poderiam ser, eventualmente, – ao contrário das conterrâneas femininas –, integrados no bando e tidos por pares.

Diália indicou que os Velenos estavam em repouso para além da colina, não muito longe, e que se iam divertindo a humilhar e a violentar os prisioneiros. Já tinham degolado uma mulher por esta resistir e agredir um deles. Para além da malvadez, estavam embriagados com tanta cerveja e hidromel pilhados. Alguns lutavam entre si em disputa dos réditos do saque, quer materiais, quer humanos. Ela conseguira fugir quando duas facções de homens discutiam a sua posse e usufruto. Era terrível, tratavam-nos pior do que animais.

Assim que se aperceberam que fugira, lançaram-se em sua perseguição. Aqueles 4 deram-lhe com a pista e estavam prestes a alcançá-la.

-“O que seria de mim se não tivessem aparecido para me salvarem?!...” As lágrimas reapareceram abundantemente.

- “Agora importa encontrar um lugar seguro, longe destes corpos. Se eles estão atrás da colina, temos de contornar a sua posição para seguirmos para Norte. Levamos os cavalos deles, que nos podem ser úteis, e…” Foi interrompido por Rubínia.

- “Alépio! Sabemos da tua preocupação com a segurança de todos. Porém, não podemos deixar esta gente entregue á sua sorte atroz. Temos de fazer qualquer coisa!

Entreolharam-se em silêncio. Aquela cumplicidade guerreira, forjada na amizade e confiança, notava-se como uma áurea que envolvia o grupo.

-“Diz-nos tudo o que sabes, Diália. Onde é que estão exactamente, como estão acampados, quantos são, quem são os seus líderes.” Adiantou-se Gurri.

Diália explicou que o bando contava com cerca de uma centena de elementos, a maior parte guerreiros, mas também com mulheres e crianças. Eram uma comunidade nómada que vivia como parasitas dos povos que ia encontrando pelo caminho. Estavam acampados na margem de um pequeno ribeiro e aí se manteriam até que se acabassem as provisões roubadas. O chefe estava ao centro do assentamento, no abrigo mais destacável. Tratavam-no por Gralfa e era o mais abrutado e feroz. Os restantes ocupavam buracos ou pequenas construções de ramos, ou estavam mesmo ao relento. Para os prisioneiros tinham montado uma vedação alta, próximo ao curso de água e junto aos cavalos e outros animais. Os cerca de 20 jovens estavam amarrados por cordas às estacas mais fortes.

-“Esta noite devem estar todos como cachos. Mesmo que acordem não terão reacção. Eis o que vamos fazer.” A imaginação estratégica, fértil, de Alépio já estava a antever os acontecimentos que se seguiriam…

(continua…)

 

Andarilhus

XXIV : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 17:18
Terça-feira , 21 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (26º episódio...)

 

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(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/51029.html)

-“Ó Taulabro ajuda cá, a carregar este inútil. Pelo próprio pé não vai a lado nenhum e não vale a pena sujar este lugar com o sangue dele. Temos de o levar.”

Os dois grupos seguiram direcções opostas, sob os olhares curiosos de alguns transeuntes, atraídos pelo alvoroço e pela entoação grossa e ríspida. Tongídio foi encaminhado para fora da cidadela por uma porta secundária que dava para uma curva do rio e Rubínia passou pela torre, a qual tinha uma passagem secreta para o exterior da muralha. Ainda viu ao longe Bolota a acenar-lhe um adeus.

Reencontraram-se já próximos de um caminho algo camuflado pela vegetação. Os amigos aguardavam-nos, conjuntamente com Irineu e alguns dos seus.

- “Nas sacolas tendes pão, alguma carne seca e queijo, assim como odres de cerveja. Chegará para algum tempo. Já que quereis alcançar o território Vacceu, o trajecto mais seguro será seguir primeiro para Sudoeste, durante quatro a cinco dias. Só depois deveis virar a Norte, direitos ao vosso destino. Assim evitareis passar próximo de povoados que vos são adversos. E atenção que os Romanos espalharam vigias por todos os sítios, para além que os do meu povo vão ficar irritadíssimos com esta fuga e lançar-se-ão em vossa perseguição! Neste momento é tudo quanto posso fazer por vós. Agora partam e nós também temos de desaparecer: muito em breve darão conta da falta dos prisioneiros e dos guardas que os escoltavam.”

Gurri adiantou-se, saudou Irineu e agradeceu: -“Já muito nos ajudaram. Deram-nos a liberdade e, com isso, a possibilidade de continuarmos o destino que nos juntou. Espero em breve encontrar os Arevácos sob os teus desígnios e poder chamar-lhes de irmãos, a todos.”

Ajudaram o ferido a subir para o cavalo, que Rubínia conduzia pela rédea, bem junto do seu. Despediram-se e partiram.

Apesar de perigoso, aproveitaram a noite para se afastarem dos domínios dos Arevácos. A pequena coluna deslocava-se com lentidão por dificuldade do ferido. Zímio seguia na frente, o Bracaro e o Vacceu nas laterais. Correu bem a fase nocturna e na diurna usufruíram de um trilho muito arborizado que lhes concedia sombra e discrição a olhares alcantilados.

Repousaram apenas um pouco ao amanhecer e ao entardecer, para novamente beneficiarem da escuridão da noite. Apesar do movimento na garupa da montada, Tongídio recuperava normalmente. A ferida cicatrizava a bom ritmo e não havia indícios de infecção. Quando necessário, já caminhava sem grandes dores. Até mesmo aquela fome de lobo esfaimado emergia novamente.

Na imensidão da meseta central da Ibéria, isolados e sem contactarem fosse quem fosse por precaução, o grupo sentia-se um pouco perdido pelas paisagens estranhas. Na verdade, não sabiam que territórios percorriam. Decidiram então que já era tempo de rumar a Norte e arriscar uma visita ao lugar de gentes que primeiro lhes surgisse. Os mantimentos estavam igualmente quase esgotados. Passaram a circular em espaços abertos, atalhando caminho e evitando percursos mais longos. Reduziam distâncias mas também os níveis de segurança.

Seguiam por uma longa pradaria, ainda fresca pelo orvalho matinal e que molhava os pés de cavaleiros e refrescava a metade mais baixa dos animais, e eis que, ao longe, avistaram várias chaminés de fumo, que emolduravam o horizonte. Certamente uma aldeia ou cidadela, imaginaram. Finalmente iam saber onde estavam, falar com nativos e comer algo diferente. Pelo menos as fogueiras das casas estavam acesas…

Confirmava-se a existência de um povoado numa encosta anexa à planície. Pouco comum era não terem ainda avistado alguém, apesar de já terem visto algumas cabeças de gado e mesmo alguns pequenos campos lavrados junto a um riacho. Lá no alto, via-se o recorte de um pequeno castro, com as emanações de fumo.

O caminho que levava à entrada do sítio começava a revelar as razões da situação tão pouco habitual: viram os primeiros corpos e, por sinal, daqueles que trabalhavam os campos por onde tinham passado. As alfaias largadas pelo chão assim o faziam supor.

Puxaram das armas e continuaram a subir para o local que – agora sabiam-no – tinha sido um recente campo de batalha. Passaram a muralha e encontraram um cenário de guerra, com os habitantes mortos, espalhados pelo recinto central, sobretudo. Os agressores deveriam ter chegado de surpresa, sem permitir a preparação de defesas. Aquilo não era obra de um exército regular. O mais certo era terem sido atacados por um dos grandes bandos saqueadores que percorriam a Ibéria de lés a lés, como pragas. Verdadeiras pestes para os infortunados que escolhiam para assaltar. Não se contentavam em tirar o proveito material das suas acções. Pelo contrário, como forma de criarem reputação pelo medo, passavam todos à espada e queimavam tudo.

E assim também tinham feito ali: as casas ardiam e os seus proprietários jaziam por terra. Por bondade, Zímio, Alépio e Gurri utilizaram os fogos atiçados como piras funerárias, colocando os corpos inertes nas chamas. Rubínia e Tongídio procuraram e recolheram algum alimento. A operação foi demorada e só pelo meio da tarde é que abandonaram o nefasto lugar, seguindo a sua jornada.

Pelos rastros perceberam que os salteadores também haviam prosseguido para Norte, o que não era uma boa notícia. Exigia-se um permanentemente alerta.

Algum tempo decorrido, depararam-se com uma mulher que saía a correr de uma colina um pouco à frente, embrenhando-se num pequeno giestal de uma zona mais rochosa da planície. Logo de seguida, pela mesma descida desembestaram 4 cavaleiros, que a perseguiam. Perceberam de imediato quem eram.

O Vacceu e o Bracaro incitaram os cavalos a galope, direitos aos algozes. Zímio seguiu-os. Tongídio também se aprestava para arrancar, mas Rubínia demoveu-o.

Em breve, no meio do matagal, ouvia-se o metal a soar e depois alguns gritos de dor. Caíram 3 dos bandidos. O quarto indivíduo preparava-se para se escapar pelo caminho que tinha feito para ali, porém, Tongídio, prevenido e bem colocado, limitou-se a levantar horizontalmente a falcata, a correria do fugitivo fez o resto: corpo e cabeça tombaram desunidos.

Os três companheiros regressavam acompanhados por uma jovem mulher e mais dois cavalos excedentes.

(continua...)

 

Andarilhus

XXI : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 22:11
Sexta-feira , 17 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (25º episódio)

 

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(continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/50873.html)

A voz não era estranha. Do capuz surgia o rosto de Gurri, iluminado pelo brilho do sorriso de quem tinha encontrado alguém muito caro.

O Vacceu dobrou-se para ficar próxima dos dois amigos e passou a explicar a sua presença ali: - “Caribu recompensa-me por me permitir encontrar-vos. Como sabes, o meu povo tem laços de sangue com os Arevácos. Pessoalmente, tenho alguns familiares neste lugar. Foi fácil entrar e circular à vontade. Já não foi tão simples introduzir cá dentro Alépio. Quanto a Zímio, também está bem. Aguarda escondido no exterior. O Ebrol deu-nos que fazer e esforçou-nos bastante, mas sobrevivemos todos. Vejo que Tongídio é que topou a sorte menor. Isso pode ser um problema. Há que o recompor para podermos escapar antes da chegada dos Romanos.”

Rubínia abandonou o estado hirto e relaxou. Sorriu mas logo ficou enevoada pela tristeza. Fez uma carícia no rosto do marido adormecido e fitou Gurri: -“É bom ver-te Gurri e saber que estais os 3 bem. E mais, saber que viestes em nossa demanda. Pelo menos sou feliz pelas amizades que granjeei. A saúde de Tongídio inspira grandes cuidados e não é ainda garantida a sua recuperação. A manhã deve dar-nos alguns sinais.

Sim, também sei que já não há grande tempo até que passemos para as mãos dos legionários. Começam a esgotar-se as minhas esperanças…”

- “Calma Rubínia, não está tudo perdido. Descobri que afinal os Arevácos não são assim massivamente a favor dos interesses romanos. Na verdade, há muitos que desconfiam desta aliança podre. Espera…” Gurri fez um sinal sonoro e mais duas silhuetas apareceram do negro da penumbra. Um era Alépio, que não escondia a alegria de ver os companheiros. Foi-se encostar ao moribundo, amparando-o e refrescando-lhe a testa. O outro era Irineu, Areváco, contudo rebelde e líder de uma crescente facção contra-poder.

-”Sou Irineu, venho de Numântia e conheço bem os dissimulados Romanos. São perniciosos e calculistas. À volta de Ardósia é o caos com a presença das legiões. Não respeitam nada. Estamos a preparar uma revolta para expulsá-los e, com eles, todos os Arevácos colaboracionistas.

Admiramos a vossa coragem na luta contra os invasores e as histórias que sobre vós circulam são verdadeiramente inspiradoras para nós. Julgo que será mesmo possível unir os povos da Ibéria e correr com estes malditos dos nossos territórios, de uma vez por todas! Ai! Estou a excitar-me e a falar muito alto… hehehhe…”

-“Irineu e os seus podem ajudar-nos na evasão. Há elementos da guarda da cidadela que lhe são fiéis. Não há mais nada a discutir que não seja como o vamos fazer. Quedar-nos aqui é convocar a morte”. Sentenciou Alépio.

-“Mas, Tongídio não está em condições…”

-“Peço-te que não percas a confiança, Rubínia. Veremos como o nosso portentoso “urso azul” estará amanhã. Nós entretanto, vamos planear tudo para que na próxima Lua já possamos estar longe daqui.” Assegurou Gurri.

Despediram-se e Alépio quase que teve de ser arrastado por Gurri. Este deixou a sua cobertura quente para conforto dos companheiros acorrentados.

No dia seguinte, não só o Sol como também as melhoras de Tongídio frutificaram o optimismo da mulher, acordada que foi por um beijo daquele. Era um milagre um tal restabelecimento. De facto, a pujança física e anímica do Celta, conjugados com o carinho e os tratos de Rubínia, operavam inacreditáveis resultados. Patenteava grandes dificuldades de movimentos e ainda esvaía um sangue amarelado da costura, porém recuperara a consciência e até a ansiedade de vida: -“Minha querida mulher, que fazemos neste lugar e assim acorrentados?! Ajuda-me a levantar que quero rachar a cabeça ao incauto que teve coragem de marcar a tua bela pele com estas correntes.

-“Tongídio mantém-te quedo. Sou eu que to ordeno, agora! Estás demasiado fraco até para praguejar. Trebaruna e Endovélico abençoaram-te, felizmente. Não estragues o que está feito. Tenho também muito a te contar. Escuta.”

O caudilho resmungou por uns momentos, para depois ouvir atentamente o que a sua esposa lhe explicava acerca da situação e das perspectivas para uma possível fuga.

-“Esses 3 admiráveis também estão nas redondezas?! Então o inimigo não tem qualquer possibilidade de sucesso, hehehhee! Ui, ui, que me faz mal rir; acho que forcei uma sutura!

Até à noite, repousaram e tomaram os alimentos que Bolota garantiu em fartura. Sem explicar e também para não colocar a amiga em problemas, Rubínia segurou as mãos de Bolota e disse-lhe: - “Espero encontra-me contigo novamente, algures”. O olhar disse o resto. A autóctone acenou afirmativamente a cabeça, em silêncio, e deixou escapar algumas lágrimas. Já o previa e tinha também uma oferta para a Celta de Poente: um amuleto da deusa do rio. Abraçaram-se.

Caía o crepúsculo e 5 soldados Arevácos aproximaram-se dos prisioneiros. Um adiantou-se e deu um puxão ruidoso na corrente de Tongídio: -“Levanta-te cão! Vamos dar um passeio ao Luar. Os da torre Norte vão tratar da tua mulherzita… Tal como está combinado”. E fez um piscar de olhos aos dois.

Rubínia percebeu e sossegou o marido, que se preparava para arrancar as varas do abrigo e atirar-se aos opressores, mesmo ainda muito combalido e quase sem conseguir andar.

(continua…)

 

Andarilhus

XVII : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 21:12
Quinta-feira , 16 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (24º episódio)

 

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(Continuação de: http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/50464.html)

Tongídio nem estava vivo, nem morto; delirava semi-inconsciente. Assim que perfurou a corrente do Ebrol, a intrepidez do salto também levou a que uma língua de rocha mais afiada lhe rasgasse profundamente a lateral, um pouco acima da cintura. A água quase gelada amorteceu a dor do choque e manteve o caudilho desperto para os acidentes de percurso do rio, evitando afogar-se.

Foi encontrado na margem, já junto a Pellenda, cambaleante e desvairado. Gritava: -“Rubínia, Rubínia…”. Ainda deu luta aos guerreiros que o capturaram. Só quando recebeu uma pancada seca na face, provocada com um escudo, é que terminou a sua resistência. Levaram-no amarrado a um toco, pelas mãos e pelos pés, como se fosse um animal caçado.

Prenderam-no ao tronco de castanheiro ancestral que marca o centro do povoado, debaixo de injúrias e agressões da multidão que ali se juntara para apreciar o maligno Celta do Poente. Muitos tocavam na tatuagem azul e escarneciam da sua condição humilhante. Tongídio, alucinado, ouvia-os, como se estivessem muito afastados e na entrada da caverna onde se imaginava. Encontrava-se realmente bastante mal tratado e carecia de cuidados, que ele próprio não conseguia executar.

Bolota, sensível ao pedido de Rubínia, dirigiu-se aos seus líderes e reclamou, fingindo-se muito desagradada: -“Já não era suficiente ter de tratar daquela mulher repugnante e ainda me incumbis de velar pela criatura asquerosa que está lá fora?! Demito-me das minhas obrigações e não aceito as vossas ordens. Com Cardo morto, pouco me importo de morrer ou ser banida! Odeio aqueles Celtas e todos os seus clãs! Para quê curá-los e gastar alimento com eles? Deixai-me cortar o pescoço aos dois, isso sim!!!

Arregalou de tal modo os olhos que os chefes Arevácos a julgaram ensandecer. Não ousaram calá-la, temendo que se perdesse de vez para o mundo dos loucos. E Bolota aproveitou para continuar, cada vez mais grave e alterada: -“Se os quereis guardar para os Romanos, deixai que cheguem os curas da legião para os tratar. Ou então... sim, isso é que é o mais acertado: obriguem a feiticeira a cuidar do outro. Ela já está o suficientemente bem para o fazer. Ela que se preocupe e tenha o trabalho!

O Conselho local reuniu logo ali, informalmente, e um deles respondeu a Bolota: -“Tu, viúva de Cardo, um dos nossos valorosos, liquidado por esses malditos Celtas, tens a razão contigo. Assim seja, a partir de hoje, a prisioneira será obrigada a tratar do enfermo. A ti pedimos-te apenas que lhe faças chegar o essencial para sobreviverem. É importante mantê-los vivos até os entregarmos aos nossos aliados do Lácio. Aliás, já enviamos mensageiros para os pôr ao corrente da situação”.

A mulher saiu a murmurar entre dentes e sem que a ouvissem: -“Se eu pudesse, amarrava-vos a um carvalho e pegava-vos fogo…”. Acelerou o passo na direcção da casa onde permanecia Rubínia.

-“Trago uma boa e uma má notícia. A má diz respeito aos Romanos. Tanto os aquartelados em Ardósia como a Legião que anda em expedição à vossa procura saberão em breve que estais aqui. A boa é que podes, desde já, tratar do teu marido. Anda, vou levar-te até ele e ajudar-te a recuperá-lo da doença e das feridas.

-“Agradeço-te do coração e não te esquecerei jamais, Bolota. Toma, dou-te algo que me é muito importante: a imagem de Trebaruna. A excelsa deusa tem-me ajudado sempre e julgo que sem ela nunca teria chegado tão longe. Recebe-a e que te proteja, tal como tem feito comigo. Tongídio aguarda-nos, vamos…”

Com um pano amplo, cujas pontas amarraram, de um lado, ao poste de castanho e, do outro, a duas varas, fizeram um pequeno abrigo para o enfermo, para o aliviar do forte Sol e da aragem fria da noite. Foi igualmente possível colocar uma manta forte no chão, para servir de leito.

O guerreiro estava mesmo naquele equilíbrio precário entre o ficar e a eterna despedida. Não reconheceu Rubínia nem reagiu ao seu abraço e beijo. A mulher ficou em pranto. Bolota consolou-a e obrigou-a a agir: -“Então? Não vês que no estado em que está dificilmente tem consciência do que o rodeia? Temos é de o tratar o mais célere possível. Trouxe uma pequena mó de pedra: macera essas ervas, que há pouco fui colher ao prado. Vamos preparar uma infusão e um unguento para o ferimento maior. Há que lancetar e expurgar bem a ferida, antes de o coser. Fica aqui nestas tarefas que eu vou buscar uma lâmina de sílex, uma agulha de osso, fio de linho e uns panos limpos.”

Rubínia lembrou episódios similares, difíceis, passados com seu pai, Físias, e retemperou o espírito, concentrando-se no lavor de salvar o seu amado. Tóngídio era duro e robusto. Poderia superar aquele momento de infortúnio.

Quando Bolota regressou com os utensílios, as duas mulheres consumiram a tarde toda a cuidar do prostrado. Aplicaram as ervas e ligaram a zona da costura com um tecido muito fino. Depois dos cuidados com o exterior do corpo, passaram ao amparo e reforço do organismo. Semi-desperto, o guerreiro foi tomando pequenos golos da infusão e depois de um caldo com mais substrato nutricional.

Rubínia foi atendida no pedido que formulou para pernoitar junto ao combalido e assim lhe proporcionar a assistência que fosse necessária. Acorrentaram-na igualmente ao lenho e ali permaneceu. Encostou-se à base rochosa e colocou a cabeça de Tongídio sobre as suas pernas, para que melhor repousasse. Estava cansada e ainda muito dorida dos ferimentos, todavia não conseguia adormecer. Admirou as estrelas e as figuras que com elas desenhava o céu nocturno. Sentiu necessidade de trautear uma música do seu povo, à qual foi adaptando as palavras do seu sentir:

“Este céu de estrelas

Que sobre mim ilumina

Meus tristes olhos,

É o mesmo manto de fogueiras

Que, feliz, contigo tantas vezes vi

Quando, nas colinas belas

Deitados em erva fresca e fina

Trocamos beijos em folhos,

Juras de amor que fugiam

Traquinas,

Pelas ladeiras,

Da nossa terra, onde contigo sempre vivi,

E morrerei…”

As lágrimas começaram a correr pelo seu rosto, contornando as mazelas. Deixou de cantar e conteve os soluços. Respirou fundo e sussurrou: - “Meu querido Tongídio, não me deixes. Temos ainda muito caminho para fazer. Recupera, abandonemos estas paragens e regressemos a nossa casa, onde tantos nos aguardam com a felicidade. Por ti seguirei, como sempre. Porém, a tua luz não se pode extinguir. Seria a minha cegueira, a minha desorientação…”.

Foi nessa altura que uma figura envolta numa grossa capa de lã, da cabeça aos joelhos, se aproximou e a questionou: - “Rubínia, como está o nosso bravo?

(continua…)

 

Andarilhus

XVI : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 20:38
Quarta-feira , 15 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (23º episódio)

 

http://3.bp.blogspot.com/_XXuJxosaMLQ/ScLBmgmQr3I/AAAAAAAAAKw/cWSgmQYlJJA/s400/castrejo+santa+tegra.jpg

 

(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/50380.html)

Urtize engoliu em seco mas tratou de reagir rápido às ordens. Por sua mão rasgaram-se os cordões umbilicais que os ligavam ao outro lado, agora sob posse absoluta dos legionários. A ponte suspensa abateu, mergulhando a extremidade amputada nas águas abaixo. Por enquanto, os Romanos estavam nova e estranhamente longe. Os Celtas entranharam-se na floresta que marcava a paisagem a Oeste e afastaram-se dos olhares feros dos perseguidores.

Os dias de comando de Lucius Severinus capitulavam conjuntamente com a ponte. Seria julgado por insubordinação e abuso de poder. A cavalaria da legião estava uma manta de retalhos e muito “esfarrapada”. Demoraram vários dias a repor esse corpo do exército em condição de combater. Com a chegada da infantaria, montaram o acampamento no planalto e os sapadores começaram a construir uma travessia sobre o Ebrol junto do sítio da ponte ancestral. Deveria ser suficientemente resistente à passagem de uma legião e isso prolongava os trabalhos. As gentes locais acabavam assim por beneficiar com a passagem dos estrangeiros.

Quando Rubínia acordou julgou-se ainda a sonhar. Estava deitada num leito de folhelho, dentro de uma casa – algo que já não experienciava desde que havia deixado o seu povoado. A casa era simples, com piso em terra batida e paredes de pedra, revestidas em adobe irregular. Um madeiro central a verticalizar o telhado de palha e apenas 2 aberturas, uma para postigo e outra a servir de porta, ambos protegidos por painéis de madeira, marcados por muitas frinchas, por onde entrava a luz. O espaço estava dividido em pelo menos duas áreas, por um tabique de finos ramos entrelaçados.

Sentia-se atordoava e enjoada. Queria levantar-se, porém o organismo logo se negou. Estava dorida e exaurida de forças. Tentou perceber o que se passava e rapidamente compreendeu a sua situação, assim que a memória lhe trouxe as imagens do passado recente. Olhou para o seu corpo e todo ele era uma amálgama de manchas negras, de feridas e de múltiplas marcas de impacto. Algumas eram resultado da batalha – pequenos golpes sofridos – mas a maioria fora causada pela jornada dentro do Ebrol. Felizmente e ao que parecia, não tinha fracturado nenhum osso.

Lembrou-se então do instante em que foi levada pelas águas frias do Ebrol. O escudo evitara os males da queda. O pior foi mesmo a descida descontrolada no dorso indomável do rio. Nada pôde fazer para se desviar de rochas e troncos que seguiam na corrente. Manter-se à tona já se revelara um grande sacrifício e uma luta desgastante. A tal ponto que acabou por perder os sentidos. Agora estava naquele lugar, sem saber onde e quem a acolhia. Tentou vezes sem conta sair da enxerga, mas só o pensamento se erguia. Pensou que seria melhor deixar isso para mais tarde e adormeceu novamente.

No despertar seguinte já estava alguém a seu lado. Uma mulher, sisuda. Fazia-se acompanhar de 2 crianças que a ajudavam a carregar um alguidar de barro com água e uma malga com o que parecia ser um caldo.

-“Estou aqui para te ajudar a lavar e prover-te de algum alimento. Todos me tratam por Bolota.

Rubínia pouco mais podia fazer para além de falar, por isso acalmou-se ao ver a estranha e perguntou: -“Onde estou? Como vim aqui parar? Preciso de voltar para junto dos meus.”

-“Estás em Pellenda, a Norte do território de Numântia. Somos das tribos dos Arevácos. Julgo que tu serás a feiticeira desse célebre grupo de espíritos maléficos celtas que anda a correr os nossos domínios e a espalhar a morte.”

Rubínia sentiu-se então duplamente prisioneira. Prisioneira do corpo que era quase um cadáver e prisioneira do inimigo. Focou-se em Tebaruna e pediu indulgência para a qualquer falta que houvesse cometido aos entes divinos. Bolota percebeu a introspecção da convalescente e sentiu alguma piedade. Na verdade, também ela não gostava dos Romanos e considerava desnecessária a aliança que o seu povo havia firmado com aqueles. Sabia que a decisão tinha vindo exclusivamente dos líderes, motivados pela ganância e pela raiva e disputa que sustentavam contra os clãs vizinhos, como os Vetões. Todavia e tinha uma razão poderosa para isso, não aprovava os raides dos Celtas do ocaso setentrião. Fazia mesmo um esforço para os odiar.

-“Não que me preocupe muito, mas assim me ordenaram: é preciso lavar essas feridas, para não se tornarem infectas e postulantes. Primeiro come este caldo, para que adquiras algumas forças e me possas ajudar também.” Tudo se cumpriu e a - designada - “feiticeira” regressou ao sono.

O alarido interrompeu o descanso de Rubínia. Já com outra genica, agarrada às paredes, acercou-se da porta e abriu-a. Deu um passo no exterior da casa e, apesar de ofuscada pela luz, viu à sua frente um largo circular com diversas edificações em seu torno. Ao centro encontrava-se um tronco alto de castanheiro, sobre um afloramento granítico. Do lado oposto à sua posição, uma grande multidão observava e manifestava-se em alvoroço, contra alguém ou algo que ocorria atrás da base do poste de madeira. E foi só o que conseguiu ver. Um empurrão agressivo do soldado que - pelos vistos - a guardava, atirou-a contra o tabique do cárcere. Lá fora continuava o buliço, diminuindo de intensidade paulatinamente. Ficou intrigada e com um certo anseio pelo regresso da Bolota, para lhe perguntar a causa de todo aquele movimento. Não esperou muito: era praticamente tempo da refeição.

-“Bolota – a propósito, o meu nome é Rubínia – o que aconteceu hoje, durante a tarde, ali em frente?

-“Imagino que estejas curiosa. Bem, hoje pescamos um segundo peixe no rio. O primeiro a aparecer, foste tu, ontem. Hoje foi um homem. O Ebrol deve ter feito justiça divina convosco, derrubando a vossa perfídia. Pela tatuagem que este traz, deve ser o mais ruim e terrível. Quantos de vós foram castigados pela deusa das águas? Hã? Diz! Temos de preparar as redes, hahahahaa!

- “Disseste tatuagem?! Como é essa tatuagem? Por favor, suplico-te: conta-me aquilo a que assististe sobre o novo prisioneiro…”

-“Hum, feiticeira Rubínia, está muito interessada em novidades!” Disse Bolota, jocosamente. –“Está bem, vou revelar-te alguns pormenores. O guerreiro tem um urso desenhado no braço, de cor azul. Está tão maltratado como tu e tem uma grande ferida no flanco. Já começa a ter sinais de febre. Não sei se vai escapar das sombras definitivas…

Rubínia empalideceu, apresentando sinais que premeditavam um retrocesso na recuperação do seu estado físico. Trémula, segurou a s mãos da interlocutora e implorou-lhe: -“Deixem-me tratar de Tongídio – o seu nome. Ficarei eternamente grata. Não o posso deixar morrer assim, depois de tantos trabalhos e dedicação!

Bolota libertou as mãos e ficou, por sua vez, curiosa em saber o que motivava aquela mulher: -“Qual é o teu interesse naquele moribundo? Isto é tudo muito suspeito.”

O silêncio cresceu entre as duas e durou enquanto a prisioneira ponderava se deveria desvendar a sua ligação a Tongídio e as causas que acabaram por juntar os destinos das duas mulheres. Porém, dadas as circunstâncias, tinha mesmo de tentar tudo para inverter as previsões.

-“O guerreiro da tatuagem é meu marido e ele é, abreviando, a razão de estarmos aqui. Vou contar-te rapidamente aquela que tem sido a minha, nossa, odisseia…” E Rubínia prosseguiu com a narração dos acontecimentos, desde que havia deixado a sua terra para procurar Tongídio, outrora perdido após ataque infame dos Romanos. Esforçou-se por recordar a sucessão das peripécias mais importantes, pelas quais passaram.

Bolota sorveu todos os relatos com sofreguidão e pasmo. Chegou a pensar se seriam verdade, de tão inusitados e fantásticos. Porém, ao associar à propaganda dos seus chefes, que descreviam negativamente os feitos dos Celtas, percebeu que a verdade pode ser um pau de dois bicos.

Terminada a exposição, o silêncio regressou. Um pouco depois, ouviu-se: -“Rubínia perdoa-me a forma rude como te tratei. Estava convencida que serias o inimigo. Mas, agora sei verdadeiramente quem são os responsáveis pela morte de Cardo, meu marido. Ele morreu perto de Sekia. É certo que pareceu às vossas mãos, porém foram os Romanos e os nossos ilustres tiranos que mandaram para lá os pobres soldados.

Acredito em ti e vou ajudar-te!

Rubínia entendia agora o azedume inicial de Bolota e lamentou as mortes desnecessárias.

Abraçaram-se, em paz.

(continua…)

 

Andarilhus

XV : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 19:41
Terça-feira , 14 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (22º episódio)

 

http://img245.imageshack.us/img245/5637/5pontefh8.jpg

 

(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/50026.html)

Para retardar os invasores reutilizaram o fogo: aproveitaram a lenha seca espalhada pela barricada para incendiar os rebentos verdes dos arbustos e assim provocar labaredas de ruído crepitoso e um fumo muito denso. Foi mesmo a tempo de tolher um pouco o ímpeto dos Romanos.

Cerradas as defesas junto à ponte e enquanto os Celtas iam passando com cautela e à vez sobre a passagem frágil, a custo e às “cegas” os legionários superavam os obstáculos e entravam no recinto inimigo, sem perceber o que se estava a passar. Muitos nem tiverem tempo de ver o que os esperava: uma saraivada de pedras e flechas caiu sobre eles, fazendo tombar uns quantos e aninhando outros atrás de protecções. Os Romanos ficaram de sobreaviso e, seguindo instruções dos que já estavam no topo do outeiro, aproximaram-se com maiores cuidados. Em breve já estavam algumas dezenas para lá da barreira.

Com esta indefinição do inimigo e com constantes disparos sobre aqueles, obrigando-os à imobilização, a maioria dos Celtas conseguiu atravessar o rio. Seguiam já os últimos entre os destacados para a defesa final, começando pelos fundibulários e os arqueiros e depois os guerreiros que se haviam colocado à sua frente. Nesse momento, quando restavam praticamente só os líderes desse lado do rio, os legionários, já em grande número e ainda sem conhecimento da existência de uma ponte, concertaram um ataque em conjunto, investindo sobre o centro de onde haviam sido atingidos pelos projécteis.

No espaço afunilado daquele ponto os agressores não conseguiam avançar em massa. Mesmo assim eram bastantes para os poucos adversários que tinham à sua frente. Os gládios já mostravam o frio do metal bem alto, mas uma nova chuva de flechas e rebos, vinda do lado de Urtize deteve parte dos atacantes. Os que sobreviveram precipitaram-se como lobos sobre Gurri, Alépio, Tongídio, Zímio e Rubínia. Cada um enfrentou de imediato 2 ou mais inimigos.

Tongídio e Zímio, principalmente, procuravam desenvencilhar-se dos opositores directos para irem em auxílio de Rubínia que, apesar de excelente no manejo de armas, estava assolada por uma dupla de legionários corpulentos. Tudo se passou muito rapidamente, mesmo com a chegada de mais Romanos, entre os que conseguiam passar pela razia que os homens de Urtize iam provocando nos invasores, à distância.

Apesar de tentarem sair em apoio a Rubínia, retalhando impiedosamente carne e metal nos adversários, os companheiros deparavam-se sempre com mais algum que os retinha. A mulher, embora fisicamente mais fraca do que os legionários, fazia da destreza e da mobilidade a força que lhe faltava. Sempre ágil, feria os beligerantes rapidamente, colocando-os temporária ou permanentemente fora de combate.

A pressão do assalto empurrava cada vez mais os Celtas para os limites da margem. E foi por motivo dessa circunstância que se chegou a um desfecho da batalha.

A certa altura da liça, Rubínia atravessou de tal forma a espada através da couraça e corpo de um opositor que não a conseguiu retirar do moribundo. No seguimento do movimento e já concentrada sobre outro inimigo, sacou do punhal, cravando-o na garganta do infeliz, logo acima da lorica segmentata, e puxando-o simultaneamente para si através da orla superior do escudo, para intensificar o golpe.

Com a dor e o sangue a jorrar em golfadas, o legionário soltou o escudo que suportava a força e o peso de equilíbrio da guerreira. Rubínia recuou bruscamente por razão da libertação da força que estava a imprimir ao escudo, deu um passo cambaleante para trás e, consciente de que estava no extremo do solo firme, rodou e só teve tempo de colocar à sua frente a arma de defesa do inimigo, no instinto de ter alguma protecção no impacto que resultaria do mergulho involuntário que descrevia agora no vazio, direita às águas frias e tempestuosas do Ebrol.

Os companheiros deram um uivo abafado, olharam fugazmente para o rio e viram Rubínia a ser levada atabalhoadamente pela corrente, sem lograrem enxergar se estaria viva. Dir-se-ia que se manifestava então o deus da guerra! Possessos pelo ocorrido, os Celtas trucidaram os adversários, como se fossem máquinas terríveis de morte e tortura. Os gritos dos legionários pelas lacerações e mutilações infligidas deram que pensar aos que chegavam e suspenderam os combates.

Tongídio, com o rosto carregado por uma expressão alienada, recolheu a falcata ao cinturão e sem uma palavra atirou-se ao Ebrol, no encalço da sua mulher. Zímio, quase tão absorto como aquele, lançou-se igualmente ao rio. Alépio olhou para Gurri e disse-lhe: -“És agora o novo comandante destes bravos. Iremos ao teu encontro, se os deuses o permitirem.” Colocou-lhe a mão no ombro em sinal de despedida, mas o caudilho Vacceu segurou-lhe o pulso e dirigiu a palavra para a outra margem: -“Urtize encaminha-os para Rórica. Encontramo-nos lá!” Puxou Alépio e saltaram ambos para o destino do Ebrol. Uns atrás dos outros, desapareceram no curso do selvagem Ebrol.

 

Andarilhus

XIV : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 20:39
Segunda-feira , 13 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (21º episódio)

 

http://4.bp.blogspot.com/_lrnheGDims4/StkWaNL4sjI/AAAAAAAAChA/vIrkez0JajI/s1600-h/Falcata.jpg

 

(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/49839.html)

As fileiras estavam agora reforçadas com mais alguns guerreiros munidos das armas tomadas em despojo aos legionários caídos. A frente da defesa era secundada por pequenos grupos dispersos pelo espaço que mediava até às linhas recuadas, a quem fora conferida a missão de acudir aos pontos mais tensos da peleja e aniquilar os inimigos que conseguissem penetrar no reduto. Nestes grupos, Alépio concentrara os mais aptos na arte da guerra, incluindo Rubínia. Eram fundamentais para manter a consistência da resistência.

Os primeiros Romanos da ofensiva seguinte foram recebidos à pedrada, o que os obrigou a encolher-se por trás dos escudos ou mesmo em algum abrigo provisório. O avanço para a barreira celta foi lento e penoso, e à custa de mais algumas perdas. Já encostados à cerca, multiplicaram-se as trocas de golpes encarniçados entre os opositores, quer através das frinchas descobertas daquela, quer sobre o fraguedo ou os troncos da barricada. Dada a superioridade de efectivos, aqui e ali os atacantes conseguiam infiltrar alguns elementos no recinto adversário, todavia sem sucesso subsequente, na medida em que eram prontamente dominados pelos grupos Celtas de apoio.

Tongídio, tanto acorria à paliçada como se atirava aos Romanos que conseguiam passar. A sua falcata embebia-se sedenta nos inimigos que se lhe colocavam ao alcance. Por onde passava aliviava a pressão da investida. Contudo, e apesar de já se contarem mais vítimas da refrega entre os de Roma, a perda de cada guerreiro celta era mais penalizadora. A ambição desmedida do chefe Romano era humilhante e trágica para os seus soldados, mas imprimia igualmente importantes baixas ao adversário.

Tamanha era a desordem entre os Romanos que acabaram por recuar novamente para reagrupar. Lucius Severinus, ciente do enfraquecimento das defesas Celtas, decidiu apostar tudo e enviar as tropas que tinha de reserva, quando já se viam a assomar ao planalto os primeiros elementos dos correligionários da infantaria.

No topo do morro corrigiram posições e substituíram os mortos nas linhas da frente, dentro do possível. A fadiga já grassava em corpos curtidos pelo Sol, mas descolorados da sua normal tez pela concentração de poeira, suor e sangue. A defesa estava muito minguada de gentes e de energia física para suportar mais um assalto copioso de inimigos. Só o ânimo e a perseverança os mantinha irredutíveis.

Estando as circunstâncias a turvarem-se cada vez mais para os exaustos sitiados, prestes a sofrer aquele que poderia ser o golpe fatal, os mais recuados dos Celtas ouviram um silvo que chegava do outro lado do rio.

-“Fiuuu, fiuuu, ó filhos de um onagro, atentem para esta banda. Aqui! Aqui! Ide chamar Gurri, o meu Senhor, ou Alépio!” Era Urtize, que após cumprir a ordem do seu chefe, junto dos Arevácos, regressou a território vacceu, reuniu algumas dezenas de guerreiros, decidido a trazer reforços. Soube entretanto das ocorrências e da fama granjeada pelo grupo de Alépio e Rubínia – já circulava por toda a Ibéria, a Nascente -, e percebeu que os seus amigos teriam de atravessar o Ebrol algures. Por isso, seguiu a margem ocidental do rio na mesma direcção que os de Alépio faziam, mas na parte oriental. Encontrou-os… e tremendamente enrascados!

Na outra margem, o pasmo foi geral mas, passada a surpresa, de imediato cumpriram o pedido de Urtize. Com a batalha suspensa por alguns momentos, acorreram Alépio, Gurri, Rubínia e Zímio ao pequeno abismo do outeiro.

Gurri sorriu mas manteve a sua constante postura séria: -“Urtize, muito bem. Julgo que terás cumprido as minhas ordens e que depois tentaste regressar para cumprires o teu trabalho. Demoraste! Mas não te vou castigar, estou contente por te ver. Quem e quantos tens contigo?” – gritou, para se fazer ouvir sobre o zumbido forte da corrente.

- “Eu também estou satisfeito por estar de volta. A situação é que me parece um pouco complicada. Ali mais abaixo, conseguimos ver os Romanos. A infantaria já está em grande número no planalto. Estão a formar. São tantos que não se conseguem contar. Comigo estão uns 40 dos nossos, quase todos munidos de arcos e flechas. Poderemos ajudar deste lado, à distância e, entretanto, temos aqui uma possível solução, que temos vindo a preparar nos momentos de paragem. Uma ponte de corda, como as que usamos para ligar as montanhas da nossa pátria.

Gurri deu um suspiro de alívio, virou-se para Alépio e deu-lhe um abraço: -“Preparem-se para abandonar este sítio nefasto e retirar para o outro lado do rio. Afinal ainda não é hoje que saudamos a morte.” Depois, virou-se para Urtize e gritou-lhe uma vez mais: -“Não me esquecerei da tua lealdade e, sobretudo, inteligência! Vamos, atira para cá a nossa salvação!

De facto, tratava-se de uma ponte formada por 4 grossas cordas, em quadrado, tendo no lado inferior ramos seccionados à medida e distribuídos uniforme e longitudinalmente, para servir de passadiço. Com cordame mais leve uniram os ramos às cordas de baixo e estas às de cima.

Para enviar uma das extremidades da ponte, Urtize amarrou uns quantos fios finos – mas resistentes - de linho a uma flecha e projectou-a para o outro lado. Quando os puxaram, arrastaram a passagem manufacturada até à sua margem. Bastava agora, amarrar firmemente as 4 cordas principais…

Assim o fizeram. Alépio organizou de imediato a saída daquele cume da morte. Começou por ordenar a passagem dos feridos e colocou os homens das fundas e dos arcos bem junto à ponte e um pouco à sua frente - já com os Romanos a subirem o outeiro para um derradeiro ataque - organizou uma defesa de guerreiros bem armados e mandou retirar todos os outros para o lado de lá do rio. Aí alinharam-se igualmente Urtize e os seus companheiros, prontos a disparar as armas de projecção.

(continua…)

 

Andarilhus

XIII : IX : MMX

publicado por ANDARILHUS às 20:58
Sexta-feira , 10 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (20º episódio)

 

http://www.nadaonline.net/forum/viewtopic.php?f=19&t=5715

 

(continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/49497.html)

Alépio posicionou os homens de acordo com o armamento disponível. Numa primeira linha, reuniu algumas dezenas de guerreiros com falcatas e os poucos escudos de que dispunham. Imediatamente a seguir colocou uns quantos homens com chuços pesados e compridos, que substituiriam as inexistentes lanças longas. Atrás e sobre uma suave elevação estavam então os lanceiros de pedras e os escassos arqueiros. Na última posição e já sobre a margem do rio, mantinham-se aqueles que não dispunham de armas, preparados para substituir os companheiros feridos ou mortos, reutilizando as suas armas.

A única vantagem disponível para os Celtas era saberem com precisão quem iam enfrentar. Ocupavam um lugar muito rochoso e irregular, pejado de árvores e arbustos. A cavalaria romana que se aproximava, para combater, teria de prescindir das montadas, sujeitando-se a uma situação difícil, uma vez que os cavaleiros não ostentavam os atributos de técnica e recursos mais apropriados para lutar como peões (não estavam equipados com os grandes escudos da infantaria e as armas de ataque eram mais ligeiras). Por outro lado, quem detinha esses predicados, a poderosa infantaria Romana, ia alongar a sua chegada ao planalto e tardaria a reunir em formação de batalha com efectivos suficientes. Se conseguissem rechaçar a investida inicial da cavalaria, poderiam ganhar tempo e vender bem cara a derrota. Era curta a vantagem, mas não displicente.

No extremo contrário do planalto começava a adensar-se uma nuvem de poeira. Sinal do grande movimento que se acercava. Uns atrás de outros, os cavaleiros desembocavam do trilho, como se saíssem de um buraco de túmulo, e agrupavam-se sobre o manto verde. Quando a formatura terminou, eram perto de 3 centenas de pontos cintilantes ao Sol, de armaduras bem polidas. Por alguns instantes só se ouviu o cantar vertiginoso do Ebrol, na sua prolongada queda pela serrania.

Verificados os rastros, os Romanos retomaram a marcha, em 6 colunas, direitos ao reduto Celta. Presumiam-nos nas cercanias, já que estavam sem cavalos, mas não desconfiavam que se haviam acantonado e se aprestavam para os enfrentar.

Não demoraria muito a que os inimigos encontrassem Alépio e os seus. Estes mantinham-se atentos e prontos. Cada qual passava pelo pensamento as imagens da sua vida e recordava os momentos e os entes mais queridos, alentando-se para a liça.

Tongídio estava na linha da frente da defesa e remoía-se de ansiedade para se atirar aos inimigos. A tatuagem do urso azul ganhava relevo no braço, como que se tivesse vida própria. Rubínia secundava-o e não arredava pé, por muito que o marido lhe implorasse para que recuasse para junto do Ebrol.

Chegados a meio do planalto, alguns cavaleiros dispersaram, adiantando-se ao grosso da força. Os legionários que sondavam o outeiro toparam com os Celtas e, logo ali, um deles foi a primeira baixa da rixa, com o rosto desfeito pelo arremesso de um fundibulário. Estavam abertas as hostilidades.

Os sons e o galope estridente resultantes desta escaramuça alertaram a formação dos Romanos que, após ordem superior, acorreram aos companheiros que desciam da elevação. Pararam no sopé desta, a alguma distância da área arborizada. Assim que o comandante teve conhecimento da localização dos Celtas, dividiu a hoste em grupos mais pequenos e ordenou que tomassem posição estratégica em volta do sítio. De seguida, de cada ponto do cerco, saíram vários cavaleiros, que se entranharam em força no outeiro, por todas as direcções, lançando uma chuva de dardos contra os barricados. No reduto, os Celtas abrigaram-se e aguentaram o ataque, obrigando depois os atacantes a recuar, ameaçados pelos longos e pontiagudos virotes de madeira e pelos projécteis. Os dardos dos legionários feriram 3 dos defensores, que foram imediatamente substituídos pelos guerreiros da retaguarda.

Entre os Romanos, as baixas foram bem mais significativas. A dificuldade de movimento dos cavalos entre as rochas e o arvoredo expunha por longo tempo homens e animais, alvos fáceis para as armas de arremesso. Os arcos e as fundas celtas provocaram morte e ferimento a vários soldados. Alguns ficaram a obstruir o solo junto à frágil fortificação, dificultando ainda mais a manobra dos cavaleiros activos. As investidas sucediam-se, mas redundavam sempre em fracasso e numa crescente disparidade entre os homens abatidos dos dois lados da contenda.

O chefe da cavalaria romana, Lucius Severinus, ambicionava ganhar o mérito e a glória de capturar os fugitivos que Marcus Minucius Rufus tanto desejava. Certamente que a recompensa seria excepcional. Talvez até o regresso a Roma e um cargo na magistratura. O ataque não estava a resultar: os cavalos não eram vantagem naquele terreno. E, tal como Alépio previra, decidiu forçar o andamento dos acontecimentos, ordenando aos seus comandados que desmontassem e atacassem os Celtas a pé, confiante que o número superior de efectivos seria suficiente para obter a vitória.

Lucios Severinus sentia a oportunidade a escapar-se-lhe das mãos. A infantaria já deveria estar sobre a subida para o planalto. Reuniu consigo uma centena de legionários e concentrou os restantes em duas filas circundantes ao morro e deu sinal para avançarem. Porém, estes, não estavam confortáveis com a situação e sentiam-se algo deslocados das suas funções de combate. Apenas com a gládio na mão e um pequeno escudo no braço, começaram a subir a encosta em linhas o mais cerradas possíveis que o relevo e os obstáculos permitiam. A meio da subida já estavam completamente desorganizados.

Em cima, Tongídio e companheiros aproveitavam a pausa para recuperar as barreiras e reforçá-las, utilizando mesmo os corpos dos legionários e dos cavalos liquidados. Chegaram-se à frente os guerreiros com os paus longos, na expectativa de mais um assalto da cavalaria.

Porém, quando alguém gritou que os Romanos voltavam à carga e que vinham apeados, rapidamente trocaram para as posições iniciais.

Desta vez, sim, não faltariam os combates corpo a corpo.

 

X: IX : MMX

Andarilhus

publicado por ANDARILHUS às 20:12

Por Ti Seguirei... (19º episódio)

 

http://gooutside.terra.com.br/Edicoes/24/imagens/bienvenido1_132.jpg

 

(continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/49191.html)

Uma longa mancha avermelhada movia-se em ordem e naquilo que parecia ser um passo único e simultâneo. Eram precedidos por fileiras de cavalaria, que formavam a vanguarda da legião e forçavam o passo. Estavam quase no local onde os Celtas tinham conversado com o pastor. A encosta dura que os apartava em distância e altura iria atrasar um pouco os legionários peões, mas a cavalaria seria lesta a galgar o obstáculo. O grupo cansado dos Celtas não poderia esquivar-se por muito mais tempo. Sentiam-se abandonados pelos deuses e carentes da sua bênção. A sorte não lhes sorria. Tinham talvez meio dia - ou mesmo menos - até que se vissem confrontados com os primeiros inimigos.

Alépio chegou-se ao centro do grupo, olhou para alguns dos ilustres dos diferentes clãs e também para Rubínia, procurando perceber os seus pensamentos e avaliando a reacção que se seguiria ao que iria propor. Respirou fundo e proferiu, em jeito de profecia: -“Tem sido um prazer e uma dádiva combater a vosso lado e partilhar a fortuna que nos é comum. Assim foi e assim vai continuar a ser. Morrer a vosso lado será mais um momento de grande júbilo. Estes Romanos não nos apanharão com vida. Vamos lutar até que os deuses nos levem para os seus domínios!

O grito de aprovação foi medonho. Os guerreiros estavam plenamente vinculados àquela espécie de irmandade e mais entendiam que uma morte digna era superior a uma vida infame de prisioneiro. Mesmo os que não dispunham de armas estavam dispostos a lutar, quer fosse apenas com os punhos, quer fosse com pedras ou estadulhos.

Rubínia, no íntimo, ainda deixou emergir a tristeza e a decepção. Tinha levado a cabo tamanho projecto para encontrar e salvar o seu amado Tongídio, e tudo se perderia num ápice. Não conseguiria levá-lo de regresso a casa. Contudo o seu ânimo elevado tratou de sarar as fragilidades e aceitar que, pelo menos, morreria ao lado dele. Estariam para sempre juntos.

-“Assim seja”, continuou Alépio. “Vamos entrincheirar-nos no outeiro ao fundo do planalto e preparar as defesas”.

Tongídio com Rubínia e alguns homens ficaram junto ao extremo da encosta por onde surgiria o inimigo, controlando a sua evolução de andamento. Os cavalos também estavam por ali, uma vez que já não seriam necessários. Apenas um foi levado para o sítio da última resistência. Teria um destino sagrado.

No outeiro, aproveitaram os afloramentos graníticos, complementando-os com pedras, troncos e ramos, nos espaços abertos. Fizeram assim, apressadamente, uma pequena cerca, que confinava a Oeste com o Ebro. No interior, acumularam rebos em quantidade, para as fundas e para projecção manual. Recolheram igualmente varas fortes, as quais afiaram e endureceram nas extremidades, aparando-as e queimando-as ligeiramente. Num espaço mais amplo, amontoaram algumas pedras mais afeiçoadas, que serviriam de ara sacra, onde ofereceram cerimonialmente o cavalo, aos deuses da guerra e da concórdia. Cumpriram os diferentes ritos, segundo cada povo ali representado, pedindo força, coragem e discernimento para a peleja que chegaria em breve.

Na retaguarda, para além do rio, prolongava-se o outeiro, e com ele, a fuga desejada mas impossível. O vão entre margens não era grande – cerca de 6 braçadas – mas a altura e inclinação do troço, quase em cascata, a força da corrente e o leito de rocha nua eram razão de morte certa a quem caísse na armadilha. Se pelo menos tivessem mais um dia de vantagem sobre os Romanos, poderiam tentar construir uma travessia. O corte das árvores necessárias sem as ferramentas adequadas era muito moroso.

Assim que Tongídio se apercebeu que a cavalaria inimiga se adiantava e iniciava a subida da encosta, reuniu os cavalos e atiçou-os bruscamente e em debandada pelo caminho abaixo e ao encontro dos que subiam. A confusão iria atrasá-los um pouco mais. Depois recuou com os demais para a improvisada fortaleza. Rubínia fez igualmente os votos à sua venerada Trebaruna, apertando firmemente o amuleto da divindade contra o peito.

Restava-lhes aguardar.

 

X : IX : MMX

Andarilhus

publicado por ANDARILHUS às 08:32
Quinta-feira , 09 de Setembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (18º episódio)

 

http://www.trekearth.com/gallery/Europe/Portugal/South/Setubal/Setubal/photo991555.htm

 

(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/49125.html)

Contorcido com dores, ergueram Reburrino para o cavalo de um companheiro, que o ampararia durante a deslocação. Deixaram para trás o souto, a passo rápido e sem se preocuparem em esconder os vestígios da permanência naquele lugar. Não havia tempo a perder.

Ia ainda curta a jornada quando, corroborando as palavras de Alépio, surgiu o Ebrol, mostrando-se em toda a sua imponência selvagem e energia pujante, alimentado pelo degelo, que o fazia correr, louco e intransigente, pelas escarpas da montanha. Apresentava-se lato e farto, abrupto e rebelde. Os Celtas continuaram, orientando-se pelo serpentear do Ebrol, em direcção a montante. Seguiam para Oeste, mas também para Norte.

Se partiram céleres, uma vez mais, a minguada quantidade de montadas para o número superior de cavaleiros começou a reivindicar o aparecimento de fadiga nos animais, a qual se propagou naturalmente aos homens, depois. A marcha diminui de intensidade e cobria cada vez menos terreno, no avançar do dia.

Movimentavam-se em silêncio e em permanente ansiedade, perscrutando a envolvência, com os sentidos em estado de alerta para qualquer som anormal ou vista desagradável. Quase sentiam o cheiro dos Romanos, mas não sabiam onde estavam exactamente os perseguidores. A cada topo das barreiras do relevo, o olhar para trás poderia revelar o que não desejavam.

Nessa noite o descanso foi uma mera ideia. Pararam apenas pelo zénite da escuridão e poucos conseguiram adormecer.

Assim que se pressentiu a alvorada, logo os fugitivos retomaram o trilho, sempre em ascensão.

Até então o Ebrol espreguiçava-se por uma bacia demasiado larga para mirrar qualquer intenção do seu atravessamento. Contudo, cada vez mais entranhadas na serrania, as suas margens tendiam a aproximar-se, como se cerrassem o abraço ao caudal.  Certamente que um ponto de possível travessia estaria agora mais próximo.

Um pastor que porfiava por aquelas paragens rudes deu-lhes algumas indicações: -“Após aquele cume de rocha amarelecida – aquele que se vê acolá, vêem? – vão encontrar um planalto de erva rasteira. Vou lá muitas vezes com o rebanho. Perto da subida que se lhe segue há uma pequena ponte de madeira. Utilizamo-la sobretudo no Verão, quando fazemos as viagens de escambo com os povoados de Poente”. Agradeceram a explicação e acataram a instrução.

De facto, após vencerem uma encosta que deu luta feroz e apreciarem a tonalidade estranha daquele pico de granito, sentiram o ânimo recuperar o fôlego e uma maior tranquilidade ao absorverem a imagem e os odores da paisagem inspiradora do planalto. Ficaram com ganas de se deitarem naquela cama verde e macia e deixarem-se dormir longamente. Para os que caminhavam foi instintivo, para os que seguiam no dorso dos animais, alguns saltaram abaixo das montadas: uns e outros rebolaram-se naquele pano ledo, buscando algum conforto físico e mesmo emocional.

Alépio é que não desarmava ou relaxava. Foi de imediato à procura do ponto de passagem referido pelo pastor. E o que descobriu não foi nada animador. A ponte ou o que dela restava encontrava-se abaixo, junto à linha de água, esbarrada contra umas raras fragas, cujos cabeços sobreviviam ao afogamento do caudal vigoroso do Ebrol. Tudo indicava que a força do rio tinha sido déspota, num momento de maior rubor.

Enjeitava-se a solução. Havia que procurar alternativa. Alépio apressou-se a regressar para junto da comitiva e dar a mal fadada notícia. Ainda não tinha chegado junto deles e já notava que algo não estava nos conformes. Os seus companheiros estavam todos reunidos, de pé e a contemplar o caminho que os trouxera até ali.

Afinal eles tinham uma notícia ainda pior. Uma notícia terrível. Avistavam os romanos!

(continua…)

 

Andarilhus

IX : IX . MMX

publicado por ANDARILHUS às 20:21

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