Terça-feira , 16 de Novembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (32º episódio)

 

http://bloguehistorico5.files.wordpress.com/2009/03/get_image1.jpg

 

(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/53121.html)

Talamo era o chefe supremo dos Vetões e pai de Talauto. Recebeu o filho e acompanhantes com a maior das alegrias de comandante e de progenitor, ordenando que se cumprissem todas as honras solenes previstas para acolhimento dos mais ilustres visitantes e convidados.

A cidadela engalanou-se, enchendo-se de música, dança e de refinados e deliciosos odores. Preparava-se o banquete para essa noite. Havia que comemorar e enaltecer de glória a chegada do primogénito e sucessor da linhagem, e hospedar condignamente os seus amigos.

Uma vaca foi sacrificada, e após queimarem o quinhão dos deuses em altar próprio, preparam, entre outras vitualhas, o animal para repasto das gentes.

Talauto narrou à assembleia de ilustres Vetões todos os acontecimentos que tinham ocorrido entre os Celtas e os Romanos, a importância das circunstâncias em curso para o futuro da Ibéria. Comunicou igualmente que se havia adiantado em decisões que responsabilizavam todo o seu povo. Não o fizera por rebeldia aos seus superiores ou por pretensiosismo, mas porque era urgente convocar as tribos Ibéricas para concílio e escasseava o tempo para apresentar o seu plano e pedir autorização perante o seu chefe e o Conselho de Anciãos de Obila. Explicava agora, ali, o seu estratagema táctico para persuadir os chefes dos clãs a reunirem-se e assim debaterem o futuro em conjunto.

Ouvidas as suas palavras, com a atenção de assombro dos seus conterrâneos, Talamo fez-se ouvir, vigoroso e imperativo: -“A sabedoria e atitude de Talauto são exemplos a seguir! Na necessidade imperiosa de decidir, assumiu esse encargo, expondo-se às consequências. Não só no campo de batalha, como também na arte de assumir responsabilidade política, este guerreiro demonstra a maior das coragens. É esta a natureza dos chefes. Valido a sua decisão – uma excelente estratégia diplomática – e assim se fará: seremos o centro da Ibéria, pelo solstício do estio!

Ouviram-se vivas e elogios à genialidade de Talauto. Os copos encheram-se rapidamente, para se esvaziarem ainda mais depressa. Os presentes queriam saber todos os pormenores das refregas com os Romanos, incitando os do grupo de Rubínia a partilharem as suas façanhas. Alépio, bem humedecido pela cerveja e com uma alegria contagiante, cativou as atenções, entrando pela noite com o esmiuçar dos acontecimentos, sem deixar de lhe juntar alguns pozinhos de exacerbação e fantasia. Os amigos perdoaram-lhe os pequenos exageros e divertiram-se todos com o contador de histórias.

Talauto instalou os amigos em duas câmaras amplas da fortaleza, com todas as comodidades. Ai repousaram até acordarem com o galo a cantar o aparecimento da claridade.

No seguimento de uma refeição ligeira, o hospitaleiro Vetão encaminhou o grupo para uma visita à cidade. Tongídio já conhecia os encantos de Obila e foi logo adiantando que queria ir aos banhos públicos, magníficos, por sinal.

-“Certamente, temos o dia de hoje e todos os que se seguirão. Veremos todos os recantos da minha muito estimada citânia”, disse Talauto, acompanhando com um longo sorriso.

Desceram por uma das ruas que ligava a parte alta e a parte baixa da urbe. Enquanto caminhavam, puderam apreciar as admiráveis vivendas da classe dos notáveis, de pedra bem aparelhada e telhados perfeitos de lajes e colmo, para a seguir lhe ser dada oportunidade para comparar com a humildade e simplicidade das casas dos menos abonados. Em alguns casos eram mesmo rudimentares habitações criadas sob portentosos penedos de granito, ou mesmo lúgubres buracos escavados nas encostas de saibro, a jeito de tocas. O rosto da pobreza estampava-se nos panos rotos que serviam de portas e janelas. E não faltavam frinchas por onde entrava o vento e a água. A realidade ali não tinha nada de especial: era assim um pouco por todos os povoados. As ruas eram percorridas constantemente por pessoas e animais domésticos e silvestres adestrados. Por isso também, a limpeza não prosperava por aqueles sítios.

Chegados à zona plana, percorreram as ruelas labirínticas até se deparem com as áreas mais amplas, abertas e algo arborizadas. Alcançavam então o espaço central da vida pública de Obila. Aí o ambiente era outro, tanto mais que era o lugar mais nobre para a população. Tratavam-no com cuidado e esmero, esforçando-se por o manter limpo e desobstruído.

Uma fonte bem colocada criava, em conjunto com uma pequena mancha de castanheiros, um recanto fresco e bucólico que convidava ao repouso e à conversa calma. Numa outra ala do largo concentraram o buliço da manufactura e do comércio. Lojas de muitas especialidades artesãs produziam e vendiam os seus artigos. As tabernas conviviam em simbiose com a actividade mercantil.

Do lado contrário e em extensão para o eixo do terreiro, encontrava-se o templo principal e pequenos santuários dedicados às divindades mais veneradas. O Templo era sóbrio e, como construção, não era mais do que um altar formosamente talhado, sobre um pódio que exigia 4 degraus de escadaria, ladeado por paredes suficientes para suportar um coberto leve em estrutura de madeira, forrado a colmo. A parte da frente do pequeno edifício religioso tinha apenas uma manta trabalhada em tear, profusamente decorada com motivos naturais, animais e geométricos circulares, ostentando a figura de um radioso Sol, ao centro.

Decidiram então ficar um pouco por ali e tomar uma bebida, enquanto contemplavam as redondezas e a agitação da passagem dos transeuntes.

O taberneiro trouxe as canecas de cerveja e uma caçarola de barro com pequenas porções de carne fumada, para acompanhar. Deixou tudo sobre o bloco de pedra afeiçoado que fazia de mesa, em volta da qual se sentou o grupo, sobre troncos de carvalho, cortados à medida.

-“Bem, agora vou aniquilar os vermes e fungos que tenho atraído nos últimos tempos. Vou aos banhos, ali em frente, ao lado da fraga da fecundidade. Já sinto que trago uma túnica de lesmas agarradas à pele, hehhehhe!!!

- “Acompanho-te Tongídio. Sempre quero ver se as termas são tão admiráveis como as vacceias.”

- “E iam sem mim?! Nem pensar. Quero também expurgar a pele dos pesos que tenho vindo a acumular desde Bracara.”

Levantaram-se os três caudilhos, aguardando a manifestação de intenções de Rubínia e de Talauto. Porém, ela declinou, dizendo que ficaria por ali a desfrutar do lugar e do repouso. Introspectivamente, Rubínia recordava e sonhava.

O Vetão, embora tivesse vontade de ir aos banhos, por cortesia, ficou a fazer companhia à convidada. Face à recusa dos companheiros sentados, os três guerreiros e líderes de tropas, como catraios, fizeram uma competição de corrida para ver quem chegava primeiro às termas.

O complexo termal era verdadeiramente uma obra de arte. Destacava-se de todas as outras construções do lugar. Parecia que Obila tinha nascido naquele ponto e dali crescera perifericamente. A imagem não era de todo descabida. Obila atingira o seu expoente urbano, em boa parte, devido às águas sulfurosas e quentes que brotavam espontaneamente do interior da terra.

Em tempos ancestrais, naquele ponto recôndito do interior da Ibéria, começaram a surgir acampamentos nómadas, que mais tarde se configuraram em sedentários, em torno das poças de água borbulhante. Construíram-se depois uma rude fonte e um tanque tosco iniciais para retenção e acumulação das águas dos deuses. Já então o assentamento humano se propagara.

Criado o espírito de comunidade e a necessidade de protecção perante visitantes hostis, elevaram-se as primeiras defesas e, dentro dessas surgiram primitivas experiências de organização social. Nascera o povoado.

Mesmo não sendo a primeira impressão, Tongídio extasiou tanto como os dois companheiros, quando voltou a cruzar a antecâmara de recepção do recinto termal. As paredes testemunhavam, de forma elevada, a força artística e criativa dos artesãos que talhavam a pedra. Os motivos geométricos repetiam-se com grande perfeição, intercalados com a representação zoomórficas e vegetais, num equilíbrio que cativava à contemplação. Talvez fosse uma visão do mundo seguinte, onde humanos conviviam com os deuses; talvez fosse uma mensagem epigráfica codificada que indicava o caminho para uma nova e melhor existência. Talvez fosse tanta coisa, mas desfeito o feitiço inicial, havia que retemperar forças nas afamadas águas.

(continua…)

 

Andarilhus

XVI : XI : MMX

publicado por ANDARILHUS às 20:42
Quarta-feira , 10 de Novembro DE 2010

Por Ti Seguirei... (31º episódio)

http://mjfs.files.wordpress.com/2007/09/berrao-touros-de-guisando.jpg

 

(Continuação de http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/52359.html)

- “Tongídio, grande companheiro. Há quanto tempo não te via. Desde o teu casamento?! Áh e Rubínia, como… mas… também está aqui! Que grande alegria! Mas… Afinal o que se passa?! A que se deve este cenário de perseguição por estes abutres ambulantes?

Como já começava a míngua da luz, decidiram estabelecer-se por ali, para passar a noite.

Os Vetões vinham bem preparados para longas andanças em deriva pelo território. Os Arévacos mostravam-se empertigados e muito activos, o que exigia maior atenção nas fronteiras. Por isso, nessa noite não faltou a carne fumada e os bolos de mel e cevada, bem acondicionados no estômago por umas generosas goladas de cerveja.

Talauto tomou conhecimento da demanda do grupo e dos motivos da sua génese. Associou então o relato às histórias que já ouvira sobre uma onda de rebeldia que caíra sobre os Romanos e aliados, perpetrada por um grupo de Celtas do setentrião ocidental. Sempre pensou que era mais um episódio do imaginário das pobres cabeças que sentiam a opressão cada vez mais perto. Afinal era tudo verdade! E mais, o seu irmão de sangue era um dos protagonistas.

-“Já se aperceberam que algo que parecia de todo impossível está a acontecer e cresce, com grande possibilidade de sucesso? De tanto que me contaram, uma ideia é central: os povos da Ibéria estão a unir-se contra um inimigo comum, como jamais o haviam feito.

Reparem nas origens deste conjunto de gente que formais e lembrem-se dos outros que entretanto seguem convencidos pela vossa causa. Todos os povos do Nordeste e meseta central estão representados. Se conseguirem reunir todas as forças, não haverá exército que vos vença!

Talauto era tido como um sábio. Uma figura de acertadas interpretações e firmes decisões. Diziam que escutava os conselhos dos deuses, privando com eles.

O Vetão ajeitou-se no assento de madeira concentrando em si a atenção dos presentes. Estavam todos em volta de uma fogueira ampla mas de chama mortiça.

- “Temos de aproveitar este momento de grandes sortilégios para libertar a pátria dos seus parasitas externos. Soube que os Romanos pensam também que esta é uma oportunidade única para as suas cobiças. Os mercadores que vêm do Sul e do Oriente trouxeram relatos sobre mais duas legiões que estão prestes a entrar na Ibéria, enquanto ainda Aníbal não está preparado para acometer contra o inimigo. Mas mesmo sem os Púnicos, agora é a nossa vez!”

- “Falas bem meu caro irmão. Não podemos permitir que se expandam pelo território e comecem a instalar quintas e famílias trazidas da Itálica. E muito menos deixar prosperar os campos militares romanos. Se facilitarmos, o tempo transformará o nosso inimigo invencível. Se os temos agora concentrados sobre nós, há que os levar para sítio que nos seja favorável e dar-lhe uma lição inesquecível. Assim já o referiu também Alépio”. Lembrou Tongídio.

Tornou-se assim, aquela noite, numa viagem de planos estratégicos e sonhos sobre o advir, com farta conversa, comida e bebida. Foi um momento afortunado e importantíssimo para o futuro próximo da Ibéria.

Tomaram muitas decisões. Sobretudo acerca da união entre os irmãos desavindos das várias tribos e cerrar fileiras contra o inimigo comum. Urgia também saber por onde andavam os Romanos e as manobras que iam realizando, em conjunto com os aliados.

Talauto, considerou determinante a reunião dos diferentes povos e, com mais uma ideia de génio, aventou promover um concílio dos clãs, durante o qual se realizariam festividades em honra dos patronos dos diferentes panteões tribais, e se realizaria também uma competição entre as tribos com base em jogos tradicionais, que incluíam modalidades relativas a força, resistência, destreza, astúcia e inteligência. A rivalidade reinante e o desafio da disputa garantiam, logo à partida, participação alargada.

Despachou emissários aos 4 ventos que embalavam a península, no intuito de convocar os chefes e os seus séquitos para o evento, o qual marcou para o solstício do estio, na cidade central dos Vetões, Obila.

No dia seguinte, um contingente liderado por Talauto seguiu para Norte, em direcção à bela capital vetã. O corpo principal da hoste permanecia junto das fronteiras, de sentinela a indesejadas visitas.

Com facilidade e sem contratempos, em dez dias tragaram o território que os separava do destino. Iam finalmente repousar em lugar amigo e sem receios de más surpresas. Porém, Tongídio suspirou: Obila era confortável e segura demais para o seu permanente anseio de novas aventuras e aliciantes desafios.

De facto, a cidade era de grandes dimensões e muito povoada. Estava aberta e com poucos guardas. Algo estranho para o grupo de Rubínia. Situação que já não constatavam há muito tempo.

Obila alargava-se por um amplo planalto, crescendo depois por uma colina central, sobre a qual se erguia uma cidadela cuidadosamente fortificada. Em volta do perímetro urbano, três anéis de grossos muros, conjugados com um profundo fosso exterior, reforçavam as defesas arquitectónicas. Cada muralha tinha pelo menos três portas, nunca coincidentes entre muralhas. A ladear as portas junto do fosso, torres, erguidas em madeira, serviam de pontos altaneiros de vigia do território circundante.

No interior do recinto da cidade vivia-se um ambiente frenético de movimento de pessoas e bens, acelerado pelo próspero desenvolvimento mercantil do lugar. Os espaços da citânia estavam bem delimitados e hierarquizados.

A Nascente, junto dos contrafortes da cidadela, impunha-se, também imponente, o bairro das residências da oligarquia vetã e das famílias dominantes. Abaixo, já nas planuras, estendia-se uma grande mancha de casas, que albergavam a generalidade da população.

A Norte, a cidade estava ocupada por zonas militares, com áreas de treino, de estábulo e arsenais, bem como por pequenas indústrias florescentes, designadamente ligadas ao trabalho de metais, ao labor da tecelagem e à produção de artigos de barro e entalhamento de pedra.

A Poente e a Sul, a urbe abria-se à comunidade com os seus espaços públicos. Aí encontrava-se o poder religioso e os templos, a força do comércio, com variadas actividades de escambo, os banhos públicos e os espaços de lazer e convívio. Fora de muros, numa encosta verdejante adjacente estabelecera-se o local de realização dos ritos funerários, muito próximo do complexo granítico destinado aos sacrifícios em honra dos deuses.

O poder civil e militar concentravam-se no topo, na cidadela. Foi para aí que seguiu o grupo, depois de admirar a beleza e o frenesim de Obila.

(continua…)

 

Andarilhus

XI : XI : MMX

publicado por ANDARILHUS às 21:02

O Sol Invictus

http://www.wendycarlos.com/eclipse/01fin.jpg

 

Até que desenlacem os braços do meu Sol,

Estranharei todas as sombras,

Os agouros de runas.

Combaterei as alucinações

Dos calores postiços;

Vaguearei por oásis de areia ressequida

Refrescarei no deserto de lágrimas dunas.

 

Até que do meu Sol venha o abraço do amor,

Escorraçarei os falsos messias

Não crerei nas promessas de santos idólatras

Nos odores de incenso de bolor

Das catedrais frias

De deus ou do homem;

Dormitarei na solidez das casas ruídas

Acordarei nos medos da prisão da lembrança.

 

Até que o meu Sol não seja reposto,

Ignorarei qualquer corpo estrelar

Não cingirei o sorriso no rosto

Não ensaiarei sinal de ressuscitar;

Serei cadáver para os necrófagos

Da Tristeza

Serei mar de faina para as rapinas

Da desgraça.

 

Até que o Sol, aquele Sol… O meu Sol

Se faça super-nova

Em estrebuchado resgate

Do definho no burilado negro encanto,

Incinerando as correntes de cera

Faiscando os cães de seda

Que lhe sugam as órbitas de luz

Que o tapam em obscuridades

E lentamente o esvaem de alma …

Não…

Sim, serei noite eterna de aguardar

… Sem madrugar.

 

Andarilhus

X : XI : MMX

publicado por ANDARILHUS às 08:42

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