Quarta-feira , 26 de Janeiro DE 2011

A Solidão de Platão

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Se soubesses

Há quanto tempo

Me perco no tempo

Em círculos, sem prazo,

Sempre a correr

Plantado como um girassol

Onde te vi

Pela última vez;

Se soubesses

O tamanho longo

Deste comprimido espaço

Onde me quedo

Em viagem sem fim

De romeiro ao momento

Quando te senti

No derradeiro adeus

Com que me deixaste

Em espera,

Preso algures

Entre os idos e o advir,

Sem ser presente,

Retido no instante

Da expectativa

Que não amarra

Mas oprime

E não consente

O arrombar âncoras

Enfunar as velas

E levitar

Pelo mar

Das novas direcções…

Se soubesses

Que sempre que te fito

Procuro-te

Naquele tempo

E naquele espaço,

Buscando uma faísca, um sinal

… um olhar cúmplice,

Que me transporte

Contigo

Para a perpétua idade

Da PAIXÃO!

 

Amor só… não contenta;

Platão só… não faz mover o Mundo…

 

Andarilhus

XXVI : I : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 18:36
Sexta-feira , 14 de Janeiro DE 2011

Por Ti Seguirei... (33º episódio)

 

 

http://www.chevallierswords.com/attachments/Image/Cimitarra%20Persa%20-%20Shamshir.jpg

 

- “O meu povoado é mais humilde. Não tem tamanha expressão de vida pública e de espaços mercantis fixos, sociais e religiosos. Somos mais agricultores e criadores de gado e, na arte da permuta, viandantes. Obila é apaixonante… mas tenho tantas saudades dos meus lugares e do meu povo…”, deixou escapar Rubínia, entre soluços árduos de conter.

- “Espero que o regresso a Tanábriga já não demore. Esta praga romana que provoca a mudança e tresmalha a paz das pessoas. Porque não ficam pelos seus domínios? O que querem de cá?!”

-“Querem o mesmo que qualquer nação procura quando atinge estádios elevados de desenvolvimento: expansão e conquista. Os Romanos são uma força emergente que dificilmente será travada, sobretudo se continuarem a encontrar oponentes isolados e divididos entre si. E é isto que devemos evitar na Ibéria, para repelir ou, pelo menos, para atrasar as ambições de Roma. Nós, Vetões, apesar de ainda imunes aos avanços do inimigo, não descuramos a vigilância aos perigos efectivos. Temos observado com muita atenção as manobras e simulações dos povos que nos têm invadido. Os Romanos são, de longe, os mais astutos e premeditados. Não dão ponto sem nó. Tenho absoluta certeza de que, neste preciso momento, arquitectam um plano para explorar as circunstâncias. Adivinho que muitas novidades sobre o inimigo surgirão em breve.”

-“E que mal fizemos nós a esses Romanos, Talauto? Sempre vivemos livres neste nosso lindo território. É certo que, por vezes, ocorrem algumas querelas entre clãs, algumas campanhas de saque ou de represália, por motivos de proveitos ou amores. Mas, sempre tudo acabou a bem e os prejuízos são sempre contidos. Agora, esta ameaça externa prepara-se para escangalhar todos os equilíbrios e o nosso modo de viver e gozar as condições que os deuses nos ofertaram. O nosso mundo está em real contingência de desaparecer… E eu que tinha tantos planos para concretizar, logo que resgatasse Tongídio e retomasse as lidas diárias… Desejo ser mãe, por exemplo… Sonho em ter uma grande família e viver calma e tranquila ao lado de Tongídio e dos descendentes que ele me der…”

Rubínia e Talauto continuaram a analisar a situação e a discutir as possíveis soluções para a crise que abalava a Ibéria e anunciava a chegada de uma nova ordem, de um novo mundo. Os costumes e as maneiras de existência e coexistência entre homens e entre estes e a natureza e os deuses, construídos paulatinamente, com grande esforço de inúmeras gerações, enraizados em tempos tão longínquos, iriam, em breve, ser postos à prova e mesmo à sobrevivência.

Ainda na pele de três joviais catraios saídos de mais uma brincadeira marota, Tongídio, Gurri e Alépio, abandonaram finalmente as instalações das Termas. Nem as águas tépidas e tão pouco as quentes haviam sortido efeito de relaxamento e amolecimento dos guerreiros. Pelo contrário, denotavam mais energia e desenvoltura nos corpos. Talvez fosse a leveza provocada pela profunda limpeza a que se submeteram.

- “Seja qual for a razão desses semblantes taciturnos, estão os três convocados, e principalmente Talauto, para a visita às áreas de treino e aquartelamento dos guerreiros!”, gracejou Tongídio.

Com a chegada do grupo, Rubínia apartou as lágrimas e as tristezas, contagiada pela euforia e alegria sorridente que agora a rodeava: -“Apenas recordava que ainda há a resolver mais alguns assuntos para podermos voltar para casa, meu marido. Logo trataremos disso, vamos então apreciar a arte de briga dos mancebos de Obila.”

Não saíram da mesa sem tomar mais uma caneca bojuda de cerveja e, assim recompostos, lá seguiram para o local previsto.

Do largo central alongava-se a rua principal da urbe, por onde continuava a pitoresca extensão de lojas comerciais. Até que, a dado trecho, reduzia a largura daquela e o piso perdia o lajeado para dar lugar à terra batida, polvilhada de pedras pequenas e soltas, convertendo-se então em mais uma azinhaga, entre tantas outras, que serpenteavam em torno das habitações de outra área residencial.

O casario localizava-se numa destacada elevação. Abaixo encontrava-se o amplo espaço destinado à disciplina marcial, imediatamente antes da muralha defensiva interior.

Antes de iniciarem a descida, Talauto estacou e apontou para o exterior dos muros da cidade: -“O terreiro em frente, após estas portas da urbe, é o local destinado às actividades lúdicas, desportivas ou de combate, que aglomeram grandes multidões. Ali irão realizar-se os jogos marcados para daqui a poucos dias. Logo a seguir, no horizonte e onde começam a surgir os afloramentos graníticos, existem, desde os primórdios do povoado, grandes altares e monumentos de sacrifício aos deuses, por nós adorados. Haverá certamente ocasião para visitar e honrar esse local sagrado.”

Dada a explicação, retomaram o caminho inclinado, ondulante e escorregadio até ao aquartelamento.

Os guardas colocaram-se em reverência ao seu comandante e deram passagem ao grupo. No reduto das armas, alguns cavaleiros ensaiavam manobras de ataque em formação, movimentando-se primeiro numa aparente anarquia, para depois cerrarem fileiras e investirem como um corpo coeso contra um inimigo imaginário. Os adversários de madeira tombavam com estrondo ao embate das lanças e a passagem dos cavalos.

Os exercícios continuavam, repetindo-se vezes sem conta e integrando jovens guerreiros na força equestre. Talauto levou os companheiros até junto da cerca dos cavalos, mostrando os admiráveis equídeos vetões, adestrados e preparados desde pequenos para a guerra e para enfrentarem os perigos e ameaças, sem recuarem.

Terminados os treinos de cavalaria, entraram na arena os guerreiros peões, aptos ao manuseamento de armas diversas. Os Vetões experimentavam todo o armamento utilizado, especializando-se depois numa arma específica, a qual designava a sua filiação ao corpo respectivo do exército. Estes corpos de guerra praticavam individualmente, mas também em sistema com os restantes, procurando sempre estratégias combinadas do conjunto.

O chefe cicerone convidou os restantes a um pequeno repouso, sentados sobre uns fardos de palha. Dali viam os combates corpo a corpo dos homens de falcata, punhal e machado, assim como o treino de tiro ao alvo de arqueiros e fundibulários.

Entre as dezenas de homens que se batiam no recinto militar, destacava-se um, alto e magro e ainda mais moreno, o qual, com uma espada algo diferente da falcata (ainda mais curvilínea, mas mais fina e leve), desarmava e derrubava os oponentes rápida e destramente, atraindo sobre si cada vez mais adversários e enfrentando vários simultaneamente. Via-se que estava descontraído e com a situação controlada. Dominava plenamente a arte da espada, vencendo sem ferir qualquer dos companheiros.

Como todos os olhares incidiam sobre aquele ponto da algazarra, Talauto, sorridente, apresentou a figura que cativava a tenção: - “É conhecido por Mauri. Encontramo-lo ainda de tenra idade a Sul do nosso território. Julgamos que seja originário das tribos além Mediterrâneo. Terá passado para a Ibéria com a família, aquando de mais um daqueles períodos de miséria dos povos de lá. Estava só; talvez se tenha perdido ou mesmo ter sido abandonado. Foi criado pelo guerreiro que o recolheu e o encarou como filho. Hoje é um dos nossos e, como vêm, um dos mais dotados.”

-“Sim, parece ser mestre no uso daquela espada estranha.”

- “Aquela arma tem por nome cimitarra, Alépio. É muito comum nos povos do deserto do Norte de África. Foi encomendada a um mercador e oferecida a Mauri quando passou as provas de iniciação de guerreiro, pelo seu excelente desempenho e por todos os serviços que tem prestado ao nosso clã.”

-“Tem movimentos diferentes… sem aplicação de grande força. Concentra o combate na agilidade e sobretudo nas fragilidades e erros do adversário… Não vos parece?

-“Sabes Tongídio, todos nós já vimos alguém a combater desta forma e com grande, digamos… desconforto para os Vacceus. Alguém que está aqui. Só vi um guerreiro semelhante em Rubínia, quando enfrentou um dos meus: Urtize!

Todos se viraram para a mulher, que ruboresceu e encolheu os ombros com um olhar sorridente.

-“Gostaria de experimentar esta forma de luta. Poderei combater com Mauri, Talauto?

-“Julgo que sim, desde que não te sintas afrontado se não conseguires a vitória, Tongídio. Vou chamá-lo.

O Vetão adoptado aproximou-se, baixou a cabeça em sinal de obediência e respondeu afirmativamente ao solicitado. Recuou para a arena e avisou os companheiros para se afastarem. Ficou a aguardar pelo Celta.

Tongídio, apertou um pouco mais a couraça, tirou todos os adornos desnecessários e empunhou a falcata, aproximando-se de Mauri. Frente a frente, trocaram sinal indicativo de estarem prontos.

O Celta, sempre intrépido, tomou a iniciativa de ataque. Elevou a arma sobre Mauri, que se limitou a desviar e a aproveitar o desequilíbrio contrário para investir a espada curva. Desta vez, foi Tongídio quem, com igual flexibilidade, se desviou do contra-golpe. Prometia.

Novamente, o visitante apontou a arma e projectou-a em frente, obrigando o outro a fazer ressoar o metal, desviando o gume afiado. Mauri defendia-se bem das investidas e procurava contra-atacar nos momentos em que Tongídio perdia algum do prumo posicional. Porém, este, energético, recuperava bem das exposições momentâneas. Prolongou-se o combate nesta igualdade de forças.

Entretanto, todos os guerreiros haviam parado os exercícios para acompanharem o duelo que opunha um dos seus campeões ao estranho.

Raramente Mauri encontrava rival à sua habilidade. Desta vez, o adversário não se vergava pelo simples engenho. Tinha de fazer algo mais. Obrigar o Celta a um desgaste físico fulminante não seria solução; ele mostrava-se robusto e incansável. Apanhá-lo com um golpe de surpresa também parecia não resultar. A única forma de o vencer passava por se esmerar na destreza de movimentos, procurando desarmá-lo.

A leveza da cimitarra rasgava o ar de forma graciosa e quase imperceptível, pela sua velocidade de deslocação. Só muito concentrado, Tongídio obstava e se defendia do brilho frio e repentino da arma de Mauri. Quando podia, atirava com pancadas fortes da rija falcata sobre a aparente fragilidade do outro ferro. Mas aquele também não demonstrava mossa e aguentava firme. Não se adivinhava desfecho e assim foi passando o tempo, com cada vez mais gente a assistir a tão interessante embate.

Cada qual foi dirimindo as suas múltiplas técnicas, de força, de coordenação de movimentos e até de subtileza. Quando algum dos beligerantes parecia enfraquecer, logo reacendia o empenho e passava para o domínio do combate.

Transpiravam e a poeira levantada agarrava-se ao corpo, colorindo-os como pequenos espectros alvos. A boca de ambos estava seca e a voz já rouca. Os cabelos encrespados e grossos pela fuligem de terra.

O crescendo cansaço produzia algumas abertas na concentração e tornava os movimentos menos calculados e mais instintivos. Mauri conseguiu tombar Tongídio pelo solo, porém aquele, num movimento de pernas, rasteirou e levou o primeiro a igual queda. Ergueram-se como gatos, ambos rodaram em busca do oponente e, quando se confrontaram, estavam bem próximos e cada qual com a arma adversária a fazer pressão sobre o pescoço. Um empate. Após uma luta emocionante, os deuses haviam decidido que nenhum sairia vitorioso daquele momento memorável.

Passaram-se alguns momentos, de respirares silenciosos, até que a multidão começou a gritar em êxtase e a aplaudir, aproximando-se dos contentores, que continuavam na mesma posição de impasse. Tongídio e Mauri olhavam-se ofegantes mas inertes. O Celta piscou o olho ao Vetão, que sorriu. Deixaram tombar as espadas e abraçaram-se, elogiando-se mutuamente.

- “Tenho de voltar às Termas!!!”, gritou Tongídio para os companheiros, que corriam para ele.

 

XIV : I : MMXI

Andarilhus

publicado por ANDARILHUS às 09:35

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