Sexta-feira , 29 de Abril DE 2011

Por Ti Seguirei... (39º episódio)

 

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O início tempestuoso dos jogos consumiu praticamente a manhã. Quando a normalidade foi reposta, com cada qual contido no seu lugar e em ordem, para continuar a cerimónia inaugural, Talauto retomou as palavras de acolhimento, recuperando a comunicação no ponto em que havia sido interrompido.

-“Acabamos de assistir a mais uma prova que relembra a previsão que convosco partilhei, sobre o futuro próximo. Os deuses manifestaram-se claramente: só colaborando conseguiremos vencer um inimigo poderoso. Hoje, um touro bravo, amanhã, uma torrente gigantesca de soldados disciplinados e tácticos.

Passemos agora aos jogos. Tenho a certeza que nos irão elucidar, uma vez mais, o quanto poderemos ser maiores, em conjunto, porque, cada um dos nossos valorosos povos é uma das pedras basilares da fortaleza que é a Ibéria. A clarividência e a destreza de cada arte e saber, reunidos, serão o segredo da resistência do nosso baluarte comum. Cada um de vós trará o seu melhor e será complementado pelo melhor aportado por cada um dos outros.

Digam-me: não será importante conhecermos quais os valores distintos que temos para conjugar?

Quais os que estão mais habilitados para a estratégia e a astúcia das manobras e acções, singulares ou em equipa? Quem, entre nós, tem a maior destreza e acutilância no manusear de armas? Onde estão os mais forte e ágeis nas lutas de corpo a corpo? E os de olhos e precisão de falcão, quando se trata de atingir um alvo à distância? Quais os mais rápidos e resistentes à fadiga?

O que poderemos aprender com os mais exímios? Como poderemos reunir tanta aptidão, inteligência e energia em proveito da Ibéria? E como reconheceremos os líderes naturais que potenciem os nossos virtuosismos?

Afinal, o quê e quem és tu Ibéria?! O que queres para o teu advir?!

O discurso inflamado do vetão cativou mesmo os mais alienados e calou completamente os burburinhos. As pessoas pareciam fascinadas e a visão de outros tempos e de outras formas de existência pareciam mais razoáveis e até aceitáveis. Aquele desafio de procurar os mais notáveis, como exemplo para uma plataforma de congregação, que contribuísse para o interesse geral, era algo estranho, mas que deixava o pensamento em alguma convulsão.

Face ao silêncio da plateia, dominada pelas suas palavras, Talauto, continuou, agora mais prático e de forma a desmanchar aquele feitiço de mudez e seriedade.

- “São variados os jogos que iremos disputar! Eis a relação deles: luta com armas - duelos à espada e jogo do pau; luta corpo a corpo; corrida - a pé e a cavalo; captura de cria de javali; arremesso de funda e arco; jogo da calva. Finalmente, a subida ao pinheiro ensebado. Agrada-vos o programa?!”

A multidão sacudiu-se de gáudio e saiu do aturdimento, resfolegando em gritos e assobios. Talvez fosse do Sol impiedoso, mas o que era certo é que os pensamentos e as sensações agitavam-se numa turbulência desenfreada, como se corressem, libertos das garras de bicho obscuro e medonho, sem saber ainda a direcção que tomavam e qual o destino a que pretendiam chegar.

Talauto ainda não terminara. Com gesto simples para a populaça, já rendida ao orador, mostrou intenção de continuar. Escutaram-no, atentos.

- “Antes do inicio das provas e como a tarde já entrou neste dia inesquecível, convido-vos a descerem ao campo dos jogos e conhecerem os campeões dos diferentes povos, o júri e demais participantes neste evento. Entretanto, dêem também alguma atenção à fome e à sede”. Apontou para o caminho de acesso ao recinto e fez um movimento de termo.

A aproximar-se, em longa fila, vinham carros puxados por vacas, com grossas rodas de madeira, que chiavam agudamente, naquele som característico do gingar do eixo motriz dentro das ganchas de suporte, muito polidos por anos de fricção. Os carros traziam grandes cargas de pão de bolota, castanhas em conserva, carne seca, azeitonas, frutos silvestres, mel e barricas de cerveja.

Com excepção dos arévacos, que empurravam rudemente todos os que se chegavam ao seu alcance, aquela grande massa de gente conviveu entre si, trocando ideias, risos e cumprimentos. E assim se passou a fase de maior canícula.

Já com o astro solar numa posição bem menos perpendicular, com as vitualhas esgotadas e após curtos descansos de sesta, os insignes ocuparam a tribuna, enquanto as pessoas se distribuíam pelas encostas que coroavam a área dos jogos. Concorrentes e júri aguardaram pelo início da competição.

Talamo assomou-se à frente do terraço e dirigiu-se aos expectantes: - “A prova inaugural dos jogos será a luta com varapau. Ainda antes de terminar o dia, teremos a luta de espadas e o combate corpo a corpo. Amanhã, pela manhã, sairão para os bosques os grupos da captura da cria de javali e terão todo o dia para regressarem com uma presa, viva e sem qualquer ferimento. Por cá, teremos as corridas, a pé e a cavalo. De tarde, será tempo das provas de pontaria: tiro com arco e funda. No último dia, daremos lugar ao jogo da calva e ao trepar ao pau de sebo.

Toque-se a música de entrada dos competidores e que os representantes das comitivas, em conjunto com os ajudantes da organização, preparem o arranque das provas. Serão os juízes a dar início ao torneio. Que ocorra ao gosto dos deuses e quanto a vós, apreciem.”

Os aplausos soltaram-se, enquanto dois druidas chamavam os candidatos à vitória no jogo do pau. A prova decorreria por eliminatórias, sendo classificados para a ronda seguinte aqueles que alcançassem, primeiro, 3 toques no tronco ou cabeça do adversário ou o conseguissem desarmar.

Os guerreiros, munidos de bastões, superiormente decorados, de madeiras resistentes mas de fibras muito flexíveis, acercaram-se do campo da acção. Segundo as regras, estavam descalços e só com túnica de lã sobre o corpo. O júri começou por fazer o sorteio. As pedras tiradas do vaso cerâmico ditaram as parelhas para combate.

Os designados pelos Turdetanos e pelos Calaicos iniciaram o torneio. Seguiram-se os restantes, em combates rápidos, seleccionando-se os mais habilitados para a 2ª fase. Esta decorreu igualmente sem disputas renhidas. Ficaram para a última ronda os 3 concorrentes que melhor dominavam a arte. Teriam de jogar entre si para se decidir qual ficaria com mais pontos. No fim, após combates muito equilibrados, saiu vencedor o Cantábrico, superando o Asture e o Calaico.

Estava entregue o primeiro troféu. As vírias de prata iam para a montanha!

A prova seguinte exigia destreza similar, mas com arma mais curta: a espada. Apresentaram-se os candidatos, entre os quais, Mauri, pelos Vetões, Tongídio, pelos Lusitanos e Gurri, pelos Vacceus. Quis o sorteio que não se encontrassem na primeira classificação. Já na 2ª eliminatória, Gurri enfrentou o arévaco, Tanino.

A calma e olhar firme de Gurri incomodavam Tanino enquanto, frente-a-frente, se preparavam para o confronto. Com aquele jeito de erva daninha, cuspiu para os pés do vacceu e atirou-lhe, com rancor e soberba: - “Lembras-te dos dentes de Corveio? Hoje vou fazer saltar os teus e obrigar-te a engoli-los!” Gurri permaneceu impávido e sempre com o olhar fixo no oponente.

O druida fez o sinal aguardado. Como um relâmpago, o vacceu ergueu a espada e com tal força a fez tombar sobre a de Tanino, que ambas se quebraram a meio, no primeiro choque, atirando com Tanino pelo chão, embora sem qualquer ferimento.

Interrompeu-se a prova, para munir os beligerantes com novas armas, de gume rombo. Uma vez mais, confrontavam-se. Mas, Tanino recuou um pouco, na perspectiva de novo ataque rápido. Gurri manteve a postura, avançando decidido sobre o adversário. Começaram a troca de golpes, deixando o arévaco em grandes dificuldades para suster o poderio contrário. Todavia, Tanino, rés manhosa, tinha a mão cheia de terra que havia apanhado quando caíra pelo solo e, no momento oportuno de contacto físico com o vacceu, atirou-lhe a poeira para os olhos.

Momentaneamente, quase cego e fragilizado, Gurri ainda susteve as investidas iniciais do arévaco, que sorria e escarnecia do oponente. Por convenção, o combate terminava quando um dos lados tocasse o peito do outro com a espada. O atacante conseguiu finalmente encostar a arma ao corpo do indefeso Gurri. Porém, como a arma não tinha gume e não provocava ferida, Tanino insistia em repetir os golpes e a usar a espada como martelo, mesmo após ter sido declarado o fim da disputa.

Tongídio correu do seu lugar para assistir o amigo que estava numa situação muito perigosa, perante aquele rufia desejoso de vingança. E a bom tempo o fez. Naquela situação, o vacceu perdeu o equilíbrio e tombou pelo chão, ficando ainda mais exposto à fúria do outro. Tanino, depois de empurrar o membro do júri, preparava-se para bater com toda a violência na cabeça do prostrado: - “É agora que vamos contar os teus dentes todos!!!”. Tongídio lançou-se de longe sobre o arévaco, frustrando-lhe as intenções. Entretanto, chegavam diversos guerreiros que dominaram a situação.

Rubínia trouxe água e lavou os olhos a Gurri, que continuava sem se queixar ou dizer palavra. Alépio fazia um grande esforço para controlar Urtize e os restantes elementos da comitiva vacceia. Mais no epicentro da acção, muitos braços seguravam Tongídio que queria arrancar a cabeça ao arévaco. Este, por sua vez, ainda ria e apontou para o Lusitano: -“A seguir serás tu! Heehehehhe!!!!”.

Mas não foi. No seguimento de grande discussão entre os constituintes do júri, ficou decidido dar oportunidade a Tanino para continuar na competição, apesar do comportamento impróprio. Por seu lado, Tongídio venceu o seu adversário Cónio, assim como Mauri derrotou o Vascão. Os 3 continuavam para a ronda final.

Começaram o Lusitano e o Vetão. Curiosamente e tal como no treino, terminaram com um empate, com um toque em simultâneo. Abraçaram-se como irmãos.

Em continuação, Mauri enfrentou Tanino. Este não era par para o Vetão, que em poucos movimentos o desarmou, voando a espada para o meio da assistência. De lá, atiraram uma outra espada, vinda do seio dos arévacos. Este exemplar não era rombo, pelo contrário tinha a lâmina bem afiada. Porém, só alguém muito perto é que poderia avaliar esta mudança.

Ingénuo, Mauri continuou o combate dentro dos limites que tinha por certos para o torneio. Só quando começou a sentir uns ardores nos braços e pernas é que se deu conta que já tinha vários golpes bem entranhados na carne e largava pequenos fios de sangue. O sorriso sórdido de Tanino e um olhar mais atento para a sua arma, explicou tudo. Tomou consciência que lutava pela vida. Assumiu outra atitude de defesa, a qual sairia muito cara ao – agora - inimigo. Tanino já não lograva as facilidades de atingir Mauri como até ali o fizera. O Vetão, por seu lado, não queria simplesmente ganhar a contenda, queria mesmo dar uma lição completa ao arévaco. Por isso, atrasou o desfecho e golpe após golpe, foi marcando o corpo de Tanino de nódoas negras e alguns ossos partidos, excepto o peito. Tanino perdeu o sorriso e também os dentes de um dos lados do rosto, gritava por socorro e cambaleava. No crescendo da fadiga já não conseguia reagir a tempo com a arma e defendia-se expondo ao choque a parte do corpo que menos lhe doía. Era já um trapo disforme de humilhação humana.

Mauri também já não estava nas melhores condições. O esforço e a sangria lenta roubavam-lhe as forças e o discernimento. Com uma estocada fez ajoelhar o arévaco, agarrou-lhe os cabelos ruivos, puxando a cabeça para trás e expondo-lhe o pescoço. Abriu em grande angular o braço da arma e descarregou-o com toda a força sobre o peito do infeliz jocoso. Tanino aspirou e desfaleceu, com o externo esmigalhado, mais morto do que vivo. Mauri também ajoelhou e tombou para o lado, de fraqueza.

O Vetão não poderia disputar a vitória com Tongídio, pelo que a queriam atribuir a este. Contudo, o Lusitano não aceitou e desistiu da prova, garantindo que as vírias de prata fossem entregues a Mauri.

 

Andarilhus

XIX : IV : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 19:24
Quinta-feira , 21 de Abril DE 2011

Por Ti Seguirei... (38º episódio)

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Aos poucos, todos os caudilhos acenaram afirmativamente com a cabeça, concordando. Areatavo ainda resmungou, mas percebeu que não teria outra solução que não fosse aceitar. Tanto mais que os druidas dos arévacos também estavam na enunciação do sortilégio. Também, não seria mais do que um pequeno adiar do desfecho que entendia por garantido.

Encerraram as vedações em madeira do campo de jogos e trouxeram um portentoso touro, conduzido entre vacas, as quais foram retiradas de imediato. O macho bobino certamente que teria comido urtigas e tojos – e não ervas tranquilizantes - tal era a ferocidade que mostrava, com os cascos a raspar no solo e os roncos que emitia enquanto ostentava, em desafio, os formidáveis e aguçados chifres.

Os que se apresentavam para dominar o bicho, rebuscavam as ideias, mas não concebiam como poderiam sujeitá-lo sem o ferir e deixá-lo ileso para o punhal cerimonial.

Acercaram-se das barreiras, distanciando-se ao longo daquelas. Só Tongídio, que substituía o incontrolado Sonim - e garantia assim mais uns dias de vida a Areatavo -, Gurri, que ocupava o lugar do seu vetusto chefe, Erizeu, e Talauto, por razão similar, se mantinham reunidos a ponderar uma estratégia comum. Tentaram agregar os restantes caudilhos, chamando-os para si. A custo, começaram então a conferenciar em conjunto, como agilizariam a imobilização do touro.

Sempre empenhado em destruir qualquer acção conjugada, Areatavo subiu para o topo da cerca e berrou para os que até então se tinham manifestado mais solidários consigo: -“Deixemos estas meninas a ver como domamos um animal bravio. Venham, vamos terminar com esta farsa e certamente que os deuses nos beneficiarão.”

Temerários, mas sem absoluta convicção, os líderes do Sul e Centro da Ibéria, acompanhados ainda pelo vascão, galgaram igualmente a tábuas. Talauto tentou persuadi-los: -“Esperem, vamos planear primeiro como, com a ajuda de todos, poderemos ludibriar o touro e apanhá-lo, vencendo o desafio…”

-“Não nos passes conversa de fraco; atenta e aprende!”

O bicho cheirava o ar e mostrava crescente fúria, com tamanha presença humana e por se encontrar fechado, sem saída para se afastar. Eram 6 os incautos. Saltaram para a arena no extremo contrário àquele onde permanecia o animal. Distribuíram-se pelo espaço, todos eles com uma corda, que tentariam colocar no cachaço da presa, pensando depois dominá-la por força de braços. Tinham tanto de coragem como de insensatez: aquele peso bruto tinha um poder físico suficiente para os arrastar a todos.

Areatavo, sem perder a postura de líder, adiantou-se lentamente, tentando surpreender o touro distraído com o ruído do público. Chegou-se bem próximo, a 10 passos do objectivo, mas foi descoberto. De imediato, a besta, que pingava abundante muco pelo focinho, virou-se, sacudiu a cabeça hasteada, sulcou profundamente o chão com os cascos e acelerou, levantando uma grossa nuvem de poeira.

O que se viu de seguida foi algo estranho e jamais presenciado por aquelas gentes. O arévaco e os restantes correram a bom correr em busca do tabuado que os libertasse daquele vertiginoso demónio chifrudo. O túrdulo e o batestano subiram num ápice a uma árvore que estava quase ao centro da arena, os demais, por estarem mais próximos, alcançaram a cerca e subiram-na. Porém, Areatavo não teve a mesma sorte: o touro alcançou-o já próximo das barreiras, baixou a cabeça e quando a ergueu trazia o infeliz espetado por um chifre, bem entranhado na coxa direita. Tal a força daquele pescoço musculoso que o atirou para lá da paliçada. Quando aterrou, Areatavo esvaia-se em sangue, sendo logo assistido pelos homens que aguardavam no exterior e pelos druidas.

O animal virava-se agora para os da árvore. Sentia-lhes o cheiro. Marrava com força no tronco que, apesar de alguma robustez, já mostrava sinais de ruptura, com as fibras a rasgar.

Talauto, apesar de saber que acabaria por ali o seu projecto para a Ibéria, preparava-se para dar ordens para abater o touro. Porém, Tongídio interveio: -“Espera meu irmão. Não podemos deitar tudo a perder. Temos de tentar: estas dificuldades são um sinal dos deuses; eles querem-nos unidos, e mandam-nos esta provação para nos obrigar a agir em conjunto!” Correu para o Sacerdote Mor e arrancou-lhe a grande capa vermelha, deixando-o a protestar. De seguida entrou no cercado, com ideia de atrair o bicho e, assim, criar o ensejo para que os outros pudessem fugir para lugar seguro.

Foi a tempo oportuno que o fez. A árvore era de porte pequeno e exíguo para permitir que dois musculados guerreiros se mantivessem nas suas curtas ramagens. Espónio e Alurso seguravam-se como podiam, a cada investida da possante cabeça. O galho que sustentava o batestano cedeu, fazendo-o cair e deixando-o à mercê do touro. Este focou o novo alvo e embruteceu as ameaças conhecidas. Já se preparava para acometer quando uma apelativa mancha de cor viva o atraiu irremediavelmente. Tongídio expunha e sacudia energicamente a capa vermelha, a pouca distância.

Instintivamente, o colossal bobino concentrou-se no pano e correu como louco na direcção do celta. Já praticamente a roçar a capa, Tongídio saltou para o lado e largou-a sobre a cabeça do animal. Enquanto este, tapado pelo manto, saltava sobre as patas dianteiras e sacudia ferozmente os chifres, o celta auxiliou Alurso a erguer-se (ferira-se na queda, lancetado no rosto e peito pelas arestas vivas dos ramos secos) e, já com Espónio pelo solo, saíram os 3 de perigo.

A multidão exultava! Dava vivas aos que saiam da arena e viam no episódio a intervenção e a inspiração divina. O guerreiro da tatuagem azul fora o braço dos deuses. O momento era propício aos desígnios dos defensores do concílio entre os povos, e não foi desperdiçado.

Novamente reunidos, e agora com a convicção e empenho de todos, os caudilhos prepararam a domínio daquela besta desafiante, que por eles aguardava.

-“Já vimos que o animal pode ser dirigido para um alvo: um manto vermelho. É nesta base que temos de planear a acção. Como fiz há pouco, vou atraí-lo novamente para a capa e tentar enleá-la nas hastes o mais possível. Enquanto espernear na escuridão das sombras, aproximamo-nos todos e cada qual coloca-lhe uma corda nas patas ou pescoço. Se o conseguirmos, obrigamo-lo depois a tombar pelo chão e amarramo-lo. Vamos tentar desta forma?”

Um brado uníssono de 10 gargantas em comunhão firmou o pacto de entreajuda. Finalmente, algo os unia em busca de um fim comum e do interesse global.

Ainda bem marcado pelas sequelas e pelo sangue seco, Alurso levantou-se da esteira onde o colocaram, mancou saltitante até junto da cerca e recolheu a capa vermelha que tinha sido, entretanto, projectada para fora. Dirigiu-se ao grupo que se preparava com os apetrechos necessários, estendeu a mão e encarou Tongídio: -“Toma celta. Nesta nova tentativa, estarei imediatamente atrás de ti e não recuarei; darei a vida se me for pedida. Há pouco encontrei a valentia e a fraternidade. E a importância destes valores para o futuro da Ibéria. Gostaria de ter a honra de te ter por irmão.

Tongídio aquiesceu, tomando o chamariz do plano e cumprimentando de seguida o batestano.

Ao ver o gesto, Talauto sorriu e sentiu-se iluminado com a sabedoria dos druidas. Na verdade, eles nunca pretenderam encontrar o destino das gentes da Ibéria no veredicto dos deuses. Apenas construíram, com astúcia, um artifício para que os homens se tolerassem e colaborassem entre si, enquanto porfiavam pela revelação divina.

Com retumbantes apoios de toda a assembleia, uma vez mais, saltaram para a arena. Tongídio colocou-se à frente e foi avançando. Os restantes guerreiros seguiram-no em fila, com espaços regulares, tal como o combinado. No passo seguinte da estratégia, contava-se com o êxito do lusitano na firme colocação da venda. Após a qual, os caudilhos correriam, um após outro, a apertar cordas ao corpulento animal. A seguir, divididos em duas equipas, colocar-se-iam de ambos os lados do bicho, não permitindo que ele se movesse. Depois, com esticões violentos tentariam derrubá-lo pelas patas e, então, lançar-se-iam sobre ele para o laçar.

Como estava previsto, o touro arremeteu contra a capa vermelha. Tongídio acelerou para encurtar espaço para o atacante. Já sobre o momento se devia desviar para o lado, escorregou ligeiramente e perdeu o equilíbrio essencial para o salto. Para assombro de todos, o manto enfaixou-se no focinho do animal e Tongídio, para não ser abalroado e espezinhado ou receber golpe fatal das pontas afiadas, quase instintivamente recebeu com o peito o embate da fera e encaixou-se entre os chifres, agarrando-se às orelhas e à parte de trás da cabeça do touro. Estava agora a ser sacudido violentamente, segurando-se firme, como uma sanguessuga.

O planeado estava às avessas e os companheiros tão estupefactos como o público. Mas, Alurso reagiu de imediato, agarrando-se ele também a Tongídio e aportando mais pressão à cabeça agitada do bicho. Talauto e Gurri fizeram o mesmo e os demais chegaram-se ao touro pelas laterais. Um deles, Arúspede, o calaico, agarrou-o pela cauda, obrigando-o a abrandar. Estava consumada a pega do demónio.

O touro lutou com toda a sua bravura para repelir as forças que o retinham, conseguindo ter algum sucesso. Porém, os guerreiros, e apesar das mazelas, erguiam-se e atiravam-se novamente a ele, com toda a ânsia. Os movimentos foram reduzindo de intensidade e então, Espónio armou duas cordas a cada dupla de patas, sem ainda as esticar. Prepararam-se e ao sinal de Tongídio – que, dada a sua posição, seria o último a sair da cara do touro – correram todos para ao mesmo lado, em dois grupos, e puxaram ambas as cordas em simultâneo, provocando a queda do animal. Saltaram-lhe em cima, amarraram-no pelos chifres para imobilizar a cabeça e ataram-lhe as patas. Estava pronto para a cerimónia.

A poeira assentou, mas por pouco tempo. De imediato uma torrente de gente descia das encostas para saudar os corajosos domadores do grande touro sagrado. Rubínia abraçou Tongídio, assim como Alépio e até Zímio expressou alguma alegria. Cada qual daqueles valorosos recebeu as manifestações de respeito e admiração. Foram erguidos em ombros.

O Sacerdote Mor, resmungão, mas sorridente, recuperou a sua capa, algo esburacada e suja, aproximou-se da vítima e cumpriu os rituais próprios. Um golpe perfeito no coração e o touro expirou sem maior sofrimento. A cor do sangue e o aspecto das entranhas confirmavam a graça dos deuses e a aprovação da amizade, da concórdia e do acordo conjunto entre os povos ibéricos. Os jogos deviam realizar-se.

 

Andarilhus

XXI : IV : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 08:23
Terça-feira , 19 de Abril DE 2011

Por Ti Seguirei... (37º episódio)

 

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A manhã do dia do solstício do estio apresentou-se convicta do seu simbolismo e importância para os xamãs vaticinadores. Prometia época prenhe de calor, o que maturaria a natureza em ondas de fertilidade e alimento. Era neste período que se assegurava o futuro, a existência (a experiência recomendava seguir o exemplo da formiga e recolher e armazenar sustento para os meses do frio).

Ainda bem cedo e já o Sol anunciava governar o céu e a terra como um escudo de cobre, polido imaculadamente até à exaustão. Recebeu os despertos de Obila e cercanias com todo o entusiasmo. Uns após outros, tomada a refeição matinal, dirigiram-se para o recinto dos jogos. O grande momento estava prestes a chegar.

Os socalcos das colinas que serviam de plateia começaram a compor-se, ocupadas pelos autóctones e as comitivas visitantes, assim como por curiosos de povoados próximos. As equipas competidoras reuniam-se e ordenavam-se no espaço que lhes estava destinado, e de igual modo, os juízes (conjunto de druidas, de várias proveniências). Um punhado farto de guerreiros garantia a segurança e a paz, entre espectadores e campeões. Faltava apenas o cortejo dos ilustres, políticos, militares e religiosos. Não demorou a mostrar-se no acesso á área dos jogos.

À frente, Talamo, acompanhado pelo Sacerdote Mor, portador do archote com a chama sagrada, recolhida no templo central do santuário. Seguiam-se os distintos de Obila e convidados destacáveis. A encerrar o desfile, um jovem, em vestes brancas e fita verde pela cintura, trazia, por corda dourada, um dócil e pachorrento boi, ele também pintado de branco e com uma grinalda de flores multicolores no cachaço. Todos os que conseguiam alcançá-lo procuravam tocar o bovino santificado, como meio de purificação e de obtenção de protecção divina.

Deslocaram-se para a tribuna, colocada em ponto altaneiro e privilegiado. Com a chama sagrada, o sacerdote acendeu a pira de consagração aos deuses. O fogo estaria vivo durante todo o torneio, elevando-se na atmosfera com um rasto longo de fumo. Chamou pelo moço que conduzia o animal. Com o auxílio de outros, fez ajoelhar o boi e atou-lhe as patas. O bicho não ofereceu resistência, parecia drogado com as ervas certas.

Seguiram-se as evocações e as preces, os gestos e os ritos, até que de uma das largas mangas da sua túnica surgiu um longo punhal branco, de sílex. Projectou no ar o movimento de subida e acelerada descida do instrumento central da cerimónia do sacrifício. Foi eficaz: o animal tombou para o lado sem sequer emitir qualquer som. O golpe fora perfeito. Os deuses aceitavam benevolamente a imolação fora do espaço do santuário e mostravam apreço pelos presentes e pelo evento. Os sinais eram excelentes.

Assomaram então à frente os representantes religiosos dos diferentes povos e exortaram igualmente aos deuses que professavam.

Findas as formalidades religiosas, Talauto tomou a palavra.

- “Iberos, sejam bem-vindos a este momento memorável!

Nós, vetões, abraçamos-vos em saudação. Sentimo-nos enobrecidos pela vossa presença e orgulhosos por receber este concílio dos povos da nossa grande pátria”.

Em uníssono, todos os presentes reagiram com diferentes sons, em resposta a Talauto, enquanto a música retomou, na sua toada marcial, com forte presença das gaitas-de-foles.

O Caudilho continuou: - “Reunimo-nos por estes dias para promover a amizade e a união. Já há muito que é tempo de terminar com quezílias e ódios antigos; apagar os conflitos amargos e o azedume e deixar que a disputa ganhe forma na confraternização, através da competição sadia, que promova a força, a destreza e a inteligência. Convido-vos a participar ou acompanhar os magníficos jogos que temos em plano. Deles falarei mais adiante.

Novo brado geral da assembleia, desejosa de assistir à acção. O entusiasmo era favorável ao negócio de vendedores ambulantes de cerveja, água, de alguns petiscos e até de pequenos objectos artísticos em madeira, osso ou cobre, com figuras alusivas aos jogos. Assim como, particularmente, para os angariadores de apostas, que não perdiam a oportunidade para potenciar a sorte.

Este torneio não tem razão apenas no elementar convívio de competição e diversão; tem também motivos extremamente sérios a suportá-lo. Motivos que nos convocam a todos e nos exigem uma posição comum, vigorosa, maugrado o destino da Ibéria estar em risco e termos em mãos a decisão de o evitarmos.

Desde sempre que invasores, de origens diversas, cobiçaram a nossa terra. De uma forma mais ou menos agressiva sempre logramos resistir. Agora, temos um inimigo imensamente perigoso e sobretudo mais determinado do que qualquer outro. Disposto a tudo, inclusivamente, a atiçar as nossas cisões e rivalidades ancestrais, para nos dividir e conseguir facilmente conquistar-nos. Refiro-me aos romanos… Com este evento, vamos também mostrar que não nos conseguirão dobrar e, que sim, seremos mesmo nós a terminar com as contendas que temos vindo a alimentar!

Desta vez, a assistência reagiu mais murcha, com alguns apoios, ouvindo-se igualmente alguns apupos. De facto, havia ainda muitos desencontros a tornear: povos que não pretendiam celebrar pactos de amizade com antigos inimigos viscerais e as simpatias enfatizadas pelos romanos, dadas as perspectivas de sucessos e vantagens da amizade com os estrangeiros. Talauto deixou que as manifestações terminassem e deu tempo para que o silêncio aparecesse e permitisse a reflexão de todos e sobretudo a atenção para o que iria dizer a seguir.

- “Para aqueles que consideram as minhas palavras vãs, deixo apenas um pedido: mantenham-se cépticos quanto à nova realidade e dispostos a assumir a defesa da Ibéria sob um comando conjunto, que unifique todos os patriotas. Tal vai ser necessário, assim vos digo…

Uma longa gargalhada de chacota percorreu as comitivas. Um qualquer homenzito, de uma qualquer tribo, a comandar os guerreiros de todos os povos?! Nem pensar! Cada clã só o permitiria se fosse o seu chefe a liderar todos, agora entregar as suas forças a um estranho?! Que grande gozo este vetão lhes dava. A risada continuava, condimentada por graçolas bem audíveis e gestos expressivos dirigidos ao orador. Cochichos e movimentos bruscos corriam pelos carrancudos caudilhos da tribuna, alguns pensando mesmo em abandonar a conferência.

Talamo levantou-se e apressou-se em apaziguar os ânimos e restabelecer a calma e a confiança: -“A todos sugiro a calma! O meu filho tem acerto no que diz, mas nada está decidido, como é evidente. Do perigo, só não o vê quem o pretende esconder atrás de um escudo. A questão não é se vamos enfrentá-lo; porque isso é seguro, pelo menos no que diz respeito aos vetões. A questão é como vamos reagir ao invasor. Seremos migalhas fragmentadas ou um punho bem cerrado, no qual cada povo será um dedo bem unido aos demais? Esta reunião serve para maturarmos sobre isso e ouvirmos todas as opiniões e…” E foi atalhado no discurso.

-“Nós, os arévacos, jamais nos aliaremos com quem quer que seja contra os romanos! Aliás, não sei porque insistes em apelidá-los de invasores! São melhor gente do que algumas escumalhas que se espalham pela Ibéria como cães esfaimados. Vejam os astures, animais dos montes que, com o gelo, descem à planície para pilhar galinhas. Pobres coitados! Ou os Lusitanos, que são tão rudes como os calhaus dos montes de onde foram chocados. São também uns ladrões! E porque não falar em vós, vetões, medrosos com a pressão dos vossos primos do Ocidente, andais sempre a tentar empurrar as fronteiras do território do meu povo… Quem dos presentes, se consegue assemelhar na virtude e grandeza dos arévacos? Todos inúteis! E querem fazer frente aos poderosos legionários do Lácio e a todo o conhecimento que com eles se desloca… Cambada de idiotas. Será pelos jogos que vos vamos mostrar quão ridícula é vossa insignificância e deixar-vos cheirar a nossa superioridade!

A intervenção de Areatavo quase provocou a revolta e a luta generalizada. Estava a conseguir alcançar os seus objectivos.

-“A quem chamas de pilha-galinhas, rafeiro dos romanos?! Porque não me mostras já a tua superioridade?” Gritou o chefe dos astures, a ranger os dentes e a empurrar quem o segurava.

Sonim, dirigente dos Lusitanos, nada disse. Deixou apenas escapar um sorriso sarcástico e fez o movimento de quem se retirava. Contudo, virou-se repentinamente e já com a falcata a brilhar, correu para Areatavo, que só teve tempo de se encolher, assim que viu a arma a descer direita à sua fronte. Ouviu um choque metálico. Quando olhou para cima, percebeu que Tongídio tinha desviado o golpe de Sonim e agora o segurava, afastando-o.

As comitivas estavam ao rubro e já se desafiavam. Algumas pedras voavam entre a assistência. Os civis de Obila e de outras paragens começaram a retirar-se. Os insultos corriam céleres e a gosto dos perpetrantes daquela irracionalidade geral. As tribos procuravam querela com quase todas as outras. Em pouco tempo, verificou-se que estavam ali as mesmas 3 facções que se haviam revelado no jantar: as duas que se opunham e a terceira, para já, neutra (mas com grande crispação dos astures).

Não se vislumbrava solução para a situação e o mais certo é que tudo terminasse numa pancadaria desenfreada. Os sonhos de Talauto começavam a ruir…

Porém, a providência tratou de inspirar uns quantos. Os juízes, druidas que representavam a diversidade daquelas gentes, chegaram-se ao centro do recinto e em círculo, de mãos dadas, começaram a entoar uma melodia cerimonial, de evocação dos deuses do concílio. Com o entoar do cântico, lentamente, começou a reduzir o ruído dos vozeirões da discórdia e do ódio. Calou-se a assembleia, finalmente. O respeito pelos anciães que comunicavam com os deuses e guardavam a sabedoria era imenso. E foi o que salvou a situação.

Um dos druidas avançou, como pêndulo do círculo, e falou: -“Os vossos corações e pensamentos estão completamente tolhidos por espíritos de malignidade; toldados pela oposição compulsiva ao outro. Como vemos que entre os homens não há possibilidade de pacto e harmonia, deixemos que os deuses revelem a sua vontade e que todos a aceitem, sob penhor de ser esconjurado aquele que for contra a voz das divindades!

Tragam outro boi, mas desta vez dos mais pujantes. Todos os chefes dos clãs terão de congregar esforços para dominar o animal, para que o sacerdote o possa imolar segundo os ritos sagrados. Temos dito, esta é a vontade dos superiores.”

-“Sábio conselho. Os vetões estão de acordo e acatarão as indicações do sacrifício. Quanto a vós, aceitais e jurais honrar o compromisso?” Perguntou Talamo.

 

Andarilhus

XIX : IV : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 19:41
Segunda-feira , 18 de Abril DE 2011

De Negro Translúcido...

 

  

Herdaste o negro veludo

No destino vadio

Do teu ninho de vegetação;

Guardaste o verde liberdade

Do teu bravio

Olhar, pela intemporalidade.

Entraste em minha casa;

Adoptaste-me,

Para companheiro,

Sem premissas

De espécie,

Sem reservas

De idade

Ou de qualquer medida

Da mórfica existência:

 

Entraste em espírito,

Endereçado ao meu!

 

Tiveste-me por família

Por instinto de afectividade.

Foste humana, embora felina;

Foste confidente, embora sem palavras;

Foste calor, embora sem abraços;

Foste carinho, embora sem beijos;

Com o teu negro halo

Tantas vezes me iluminaste

Na esperança, na pertença

… na felicidade.

 

Agora és já saudade

És mais uma estrela no céu

Graciosa e prateada.

Deixaste o negro veludo comigo

Como promessa e condão

De eterna reunião,

Quando te vou mirar,

Regressas a invadir minha casa

Adoptando-me.

Foste Estrela e segues estrela,

Sempre

Com o teu espírito

Endereçado ao meu…

 

Até sempre, amiga/filha/irmã, minha Estrelinha (gata)

 

Andarilhus

XVIII : IV : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 13:40
Segunda-feira , 11 de Abril DE 2011

Por Ti Seguirei... (36º episódio)

 

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Nessa noite, Talamo e os seus convidados festejavam a véspera do início dos jogos. Á imagem dos jantares anteriores, desde a chegada das comitivas, cada chefe de clã fazia-se acompanhar de um pequeno séquito de indivíduos da maior confiança e fidelidade, ilustres entre os seus.

Á mesa suprema dos vetões reuniam-se assim as elites de uma alargada amostra dos povos da Ibéria. Destacavam-se pelas mais nobres artes: a chefia, a índole guerreira, a sabedoria ou a religião; todas elas, tantas vezes, manifestadas numa só pessoa.

O anfitrião começou por dar as boas vindas aos convivas e exortando aos deuses a dádiva de uma boa reunião entre pares. Indicou para que se servissem as iguarias e ordenou a execução musical e de entretenimento. Acenou graciosamente para que todos tomassem os seus lugares e iniciassem o repasto.

O salão era amplo em espaço e prumo, embora singelo na decoração. Ostentava colunas despidas e tecto unicolor. As paredes mostravam a sua natureza granítica e, por adereços, apenas sustinham os suportes dos archotes de mecha ensebada que iluminavam, eficazmente, o perímetro.

Uma só mesa em forma desenhada de U, tosca mas robusta, de secções longas, complementada por bancos paralelos, com iguais características, apresentava-se como o mobiliário central. Na verdade, para além deste singular conjunto, por tamanho recinto só se viam mais alguns escabelos singulares, sobretudo na área dos músicos.

No topo da mesa, sentaram-se os vetões e os povos mais próximos por natureza afectiva e geográfica. Pelos braços laterais daquela, sucediam-se as tribos, de acordo com os mesmos critérios e afinidades. Os vacceus estavam no extremo direito de Talamo e os arévacos imediatamente a seguir, no início do segmento perpendicular.

Começaram a distribuir o pão e os manjares. Pequenos pipos de cerveja faziam um corrupio constante, aos ombros de gentes que já transpiravam na azáfama de manter os copos de barro ou os chifres de touro atestados. Travessas de madeira foram dispostas entre os comensais com as mais variadas carnes assadas em espeto: dezenas de frangos e melros; caprinos e bovinos, coelhos, veados e a grande especialidade, onagro.

As mulheres iam e vinham, mantendo a fartura e provendo para que nada faltasse entre todas as comitivas. O jantar decorria normalmente, entre conversas e gestos elucidativos, com risadas e mesmo gargalhadas à mistura. A concórdia dominava os espíritos.

Já havia largas passadas na noite quando, repentinamente, se ouviu uma voz alterada a emergir do burburinho da sala e da própria sonoridade musical. Fez-se silêncio em busca de quem assim vociferava. Era Corveio, dos arévacos, o qual protestava, mostrando grande desagrado: - “Temos as travessas vazias há já muito tempo! Vejo que não nos servem como servem os outros convidados desta mesa. Tratam-nos como menores, injuriam-nos e humilham-nos! Por onde andam essas vis mulheres que repartem a comida? Estava melhor no acampamento: pelo menos por lá não passo fome.” A intervenção foi aclamada e reiterada pelos restantes do seu clã.

As diferentes comitivas entreolhavam-se interrogativas. Não percebiam qual a razão de queixa. Julgaram ser um arrufo de um grupo já com muita cerveja passada pela goela. Continuaram o jantar, mas sem a descontracção anterior e mais atentos aos acontecimentos. A música retomou.

Os do grupo de Rubínia, conhecedores de outros factos sobre os arévacos, ficaram bem mais preocupados. Tongídio fez sinal a Gurri, o qual, junto dos seus vacceus, era o mais próximo dos excitados.

Talauto, diligenciando a vontade do pai, chamou o governante dos serviçais e procurou saber o que se passava. O subordinado, periclitante e algo engasgado foi dizendo: -“As mulheres recusam-se servir os arévacos, senhor… Começaram por fazê-lo normalmente, como com todos os restantes, contudo aqueles… hum… digamos, tiveram atitudes incorrectas com elas, nomeando-as de ordinarices e, furtivamente, tocando-as com malícia e abuso… Agora, as raparigas negam-se a passar por eles e há já noivos e maridos só contidos pela força, na sala adjacente. Não sei mais o que fazer. Isto está a descontrolar-se.”

- “Loivo diz às mulheres que os sirvam. É a minha ordem, bem como que os respectivos homens se acalmem. Não me apercebi da situação, mas agora serei eu a tratar do assunto.”

Assim que abastecidos de alimento, os arévacos contiveram-se de outras manifestações enquanto se iam empanturrando. Porém, satisfeita a gula, não demorou muito a que começassem a prestar atenção a outros motivos de voracidade. O próprio Corveio - a voz que antes se erguera para reclamar -, instigado pelos outros, puxou uma mulher que passava com um tabuleiro de pão – o qual vazou pelo chão – obrigando-a a sentar-se no seu colo e apertando-a contra si, enquanto a criatura barafustava e esperneava, procurando liberta-se do abraço insolente. Os outros arévacos riam-se desmedidamente, incluindo o seu chefe Areatavo, e começavam a olhar em redor na busca de presas semelhantes.

Ciente da possibilidade de alastramento do agravo e perante o espanto de toda a sala com tais insólitos acontecimentos numa cerimónia que se entendia, a todos os títulos, formal e de grande esforço diplomático, Gurri - antecipando-se a Talauto -, num salto, deixou o seu lugar, deu dois passos por cima da mesa e atirou-se sobre Corveio, que teve assim de largar a rapariga vetã.

Rolaram pelo chão. Corveio levantou-se primeiro, sacou da adaga e investiu sobre Gurri, que ainda se erguia. O vacceu, guerreiro muito experimentado, desviou o braço atacante e projectou o corpo, pleno de energia, na direcção do arévaco, aplicando-lhe uma formidável cabeçada no rosto, obrigando-o a tombar pelas lajes de ardósia e à inconsciência.

Areatavo e os seus, observando o companheiro sem sentidos e a sangrar profusamente pela boca e nariz, puxaram das armas e cercaram Gurri, de rompante. Porém, já os vacceus acorriam em socorro do seu chefe, assim como Alépio e Tongídio. Formaram-se dois grupos, prontos para se desossarem ali mesmo, no salão nobre dos vetões.

A maioria das outras comitivas ficou expectante, enquanto astures e cantábricos acusavam os arévacos de provocadores, e os túrdulos imputavam as culpas a Gurri por excesso de zelo.

-“Alto! Guardem-se as armas e cada qual regresse ao seu lugar. Sou vosso anfitrião e também, enquanto aqui estiverem, a autoridade deste local e dos seus hóspedes!” Interveio Talamo.

– “Tragam água e ajudem esse homem a recompor-se.” Ordenou.

Não foi imediato, mas pelo menos as armas desapareceram nos cinturões e os grupos deslocaram-se para as suas posições na mesa, embora permanecendo de pé.

-“Areatavo, o teu contingente tem demonstrado falta de respeito pelo meu povo, que vos acolhe. Os comportamentos grosseiros de hoje, primeiro na taberna da praça central de Obila, e agora estes excessos durante o jantar, são intoleráveis!

Se quereis actividade e exercício deveis guardar-vos para amanhã, para o torneio. Estamos reunidos para disputar jogos de amizade e procurarmos os consensos possíveis face aos acontecimentos recentes na Ibéria.”

- “Talamo, os arévacos são senhores do seu destino, em qualquer lugar que seja. Estamos nos teus domínios para mostrar as nossas capacidades nos jogos e não para ser teus vassalos. A partir de hoje, não entraremos mais em Obila.

Quanto a esse tão badalado concílio que procuras, sabemos bem dos teus planos para juntar forças contra os nossos amigos romanos. Não os julgais bem: eles buscam apenas a aliança diplomática e o trato comercial. Andam agora mais alvoroçados militarmente porque foram atacados por grupos celtas, cujos líderes estão aqui nesta sala. Os mesmos que tanto mal têm propagado sobre os arévacos, com armadilhas e acções cobardes, as quais pagarão futuramente.” Respondeu Areatavo, procurando subverter a realidade dos factos, enaltecendo o seu povo e aliados e deixando Tongídio e companheiros com o sangue a ferver.

Por consideração com os vetões, não responderam ao arévaco.

Talamo apontou o dedo a Areatava e foi duro nas palavras: -“Por honra de anfitrião, estou obrigado a ouvir as tuas ilusões ou mentiras. Sabemos bem onde procurar a verdade. Talvez os próximos dias nos esclareçam sobre quem terá razão. Entretanto, dispenso quem quiser abandonar este jantar e faço votos para que se esqueçam estes infelizes episódios e haja justiça e mérito nos jogos que começam amanhã.”

Os arévacos seguiram o seu líder, que mostrou bem o rancor antes de sair: pegou numa travessa e arremessou-a para o meio dos músicos, que só tiveram tempo para se desviar e saltar umas quantas notas da melodia.

Corveio, ainda aturdido, e a jogar na mão com dois dentes - como se fossem dados -, arrancados pelo golpe de Gurri, deixou um praguejo, que saiu “assobiado” pelas novas aberturas da dentadura: - “Esspero-te noss jogoss,vacceu! Vou-te arrancar esssa cabeça de carneiro montêss!”.

Os clãs do Sul também deixaram a reunião.

Talauto, em nome do pai, convocou os chefes das tribos para um canto da mesa e passou a dar-lhes conhecimento da situas circunstâncias: -“Ilustres caudilhos, de uma maneira geral já todos devem saber do avanço dos romanos na Ibéria, sob pretexto de se defenderem dos cartagineses de Aníbal, longe da pátria. Com esse motivo adiado, agarram-se agora ao desejo de capturarem os celtas que venceram a poderosa legião junto a Sekia.

Na verdade, como é fácil adivinhar, mesmo para os que não têm o dom de escutar os segredos dos deuses, o que estes estrangeiros querem é aumentar o seu território e explorar os recursos admiráveis da Ibéria, impondo o seu domínio e lei aos povos que aqui sempre viveram.

Os arévacos são ingénuos, deixando-se utilizar como os sapadores dos seus intentos de infiltração. Hoje, descobrimos mesmo que há romanos disfarçados na comitiva deles. Num descuido, revelaram as marcas da Legião: a tatuagem que um tentava esconder é indesmentível, e só podem ser romanos a usar aqueles feios apetrechos para os pés a que chamam caligae!

Temo que este grupo seja uma avançada para espiar os nossos movimentos e também para lançar a discórdia entre nós, levando à frustração da união contra os novos invasores.

Assim vos digo, temos de reunir forças e dar combate aos romanos, ou então seremos subjugados e escravizados!”

Os chefes dos Lusitanos e dos Calaicos não poderiam estar mais de acordo. Aliás, já estava a faltar uma boa guerra que obrigasse os coiros a transpirar. Os dirigentes das tribos do Norte conferenciaram entre si e o asture anunciou que iriam esperar até final do torneio, perscrutar a vontade dos deuses, e só então dariam uma resposta.

O serão continuou, mas algo comprometido com os factos ocorridos. Quando já estava um conjunto de indivíduos muito restrito no salão, sobretudo locais, Talamo deu ordens para que se reforçassem as patrulhas nas fronteiras Norte e Este, e que estivessem em permanente alerta. Suspeitava que chegariam visitas indesejadas.

 

Andarilhus

XI : IV : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 22:13
Quarta-feira , 06 de Abril DE 2011

Meia Década a GALGAR: Aniversário!!!!!!

 

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Este Blogue, ou de forma mais realista, talvez, este monólogo/conferência interior faz hoje 5 anos…

 

Desde a sua Génese (http://galgacourelas.blogs.sapo.pt/308.html) tem servido ou serve-se das minhas entranhas mais psico-emocionais e ficcionais, imateriais e etéreas, com marcas bem ferradas no corpo metafísico, mas também verdadeiramente corpóreo, sacrificado a chaminé de fuga e assessor psiquiátrico, conselheiro afectivo, imolado aos meus mais recônditos inconscientes ou percebidos/adivinhados conscientes de todos os sentimentos e pensamentos, sofridos ou festejados.

Enfim, a minha voz crítica, o meu postigo sagrado para o ambiente e as vivências mundanas.

Já foi um pouco de tudo, vestiu farda de muitas profissões e de maior número de trabalhos, inspirou as brisas dos sete fôlegos e diluiu-se por mil olhares, no miradouro de todas as perspectivas. Já embalou o sussurro de tanto que apenas se pode sonhar, já atirou o grito do muito que se pode dispensar. Já foi felicidade, já foi dor… É a vida, assim e assim será, como o oceano de marés cheias e marés vazas…

 

Renascer, todavia… SEMPRE!!!!!

 

O meu abraço de gratidão para todos e todo o apoio expresso, e mesmo aquele contido no silêncio da leitura e no anonimato.

CARPE DIEM

 

Lembranças com meia década a galgar courelas:

 

“Exodus

 

A tradição judaica, dentro do seu prolífero compêndio de narrações e episódios proverbiais, numa das obras mais belas produzidas pelo Homem e de inspiração superior - a Bíblia – relata, a certo momento do Antigo Testamento, a Passagem (Pesach) ou como todos conhecem, a PÁSCOA (adaptada depois pelo universo cristão). Conduzidos por Moisés, os Hebreus libertaram-se do jugo dos Egípcios de Ramsés II após muitos anos de cativeiro e rumaram à Terra Prometida.

Interessante esta ideia de “Passagem”. Muitas vezes, conscientes ou mesmo sem nos apercebermos, confrontamos a “passagem” nas nossas vidas ou mesmo nos nossos dias. Apesar de lhe resistirmos, escondendo-nos nos nossos recônditos calabouços, tomando a vontade servil e abafando os sonhos… chega sempre o dia da coragem para lançar as sandálias ao deserto. E, se estivermos preparados, nelas abotoamos os pés da esperança e da alegria renovada. RENOVAÇÃO! O corpo deixa de ter forças para reprimir o espírito e rende-se ao seu domínio: AVANÇAMOS sem temor! A Terra Prometida é já ali, numa nova cidade, numa nova rua, numa nova pessoa, num novo milagre… REDENÇÃO!

Nós que somos intrinsecamente impelidos para o pedestrianismo, encontraremos, a níveis diferentes, a renovação e a redenção a cada trilho que tomamos?

O eterno retorno ao sagrado original – a mãe natureza – depois de dias de “caos” na azáfama dos dias repetitivos e sensaboria dos postos ocupados nas instituições criadas pelo Homem, a remissão dos “pecados” e tentações provocados pela competição social. Serão estes motivos inconscientes para o êxodo e busca de exílio momentâneo em lugares afastados dos impérios e prepotências dos Ramsés dos nossos tempos? Afinal, porquê caminhar???!!!

[12 Abril 2006]

 

 

ANDARILHUS “(º0º)”

 

VI : IV : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 08:19
Terça-feira , 05 de Abril DE 2011

Por Ti Seguirei... (35º episódio)

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Talauto ordenou o acompanhamento permanente dos arévacos e relatórios periódicos das suas movimentações. Só entrariam em Obila com escolta local.

Entretanto, intensificavam-se os trabalhos de finalização do recinto dos jogos, fora do espaço amuralhado, tal como previsto.

Aproveitando um conjunto paisagístico definido por uma prolongada depressão do terreno entre duas suaves elevações, reunindo a disposição ideal para o enquadramento do foco da acção com a assistência, limitou-se o campo dos jogos, construíram-se estruturas em madeira e dispuseram-se os materiais necessários às várias modalidades em disputa, limpou-se o terreno para a presença dos espectadores e criou-se a área do júri e registo das classificações.

A Poente e adjacente a esta área central, num prado pouco irregular, regularizou-se o solo - retirando as pedras mais expostas e cortando a vegetação - para palco das corridas, apeadas e em montada. No limite mais afastado, ergueu-se a imagem de um berrão monolítico, que servia de ponto de retorno e dividia a pista em dois sentidos.

Uma vez em visita a todos estes preparativos, para garantir que tudo estaria pronto no dia seguinte, Talauto, sempre acompanhado pelos seus hóspedes amigos, sugeriu que fossem um pouco mais além e visitassem o espaço sagrado. Por lá também se desenvolviam trabalhos de limpeza e adorno.

Enquanto se aproximavam, passaram por uma coluna de animais, guiados para os currais do santuário, onde aguardariam o momento excelso em que seriam consagrados aos deuses, servindo como instrumento de manifestação dos sinais divinos sobre os desígnios que estavam reservados aos Homens. Um par de bois jovens e robustos seguiam, conduzidos, cada qual, por 4 sacerdotes possantes, cada um destes a firmar, de forma bem retesada, uma corda, de modo a não permitirem a marrada dos bichos, para qualquer um dos lados. Seguiam também, vacas, porcos, bodes, cabras, ovelhas e uma parafernália de aves num carro-gaiola.

O recinto abria-se após um amplo vestíbulo ladeado por berrões de grande volume, figurando touros e porcos, dispostos na formalidade de uma imponente guarda de admissão e de vigilância da passagem do mundo ímpio para o sacro.

O complexo do santuário estava organizado como um circuito de jornadas de metamorfose do peregrino para alcançar a respeitável comunhão com os deuses: a purificação, a reverência, a devoção, a sujeição, a oferenda, o rogo.

Rubínia maravilhou-se e praticamente imaterializou-se para o exterior. Viajava no seu íntimo, buscava as recordações e o conhecimento do seu mundo experimentado. Entrara num lugar que a obrigava a redimensionar a sua concepção da escala de grandiosidade atribuída ao labor humano, inspirado pelos deuses: o santuário de Obila impunha-se como a multiplicação indescritível, em tamanho e monumentalidade, do saudoso santuário de Panoia, onde conhecera Tongídio. Tantas lembranças, tantas quimeras. Soltaram-se as lágrimas por motivo da memória e também pelo forte sentimento da presença divina.

Os altares sucediam-se, esculpidos nas dádivas graníticas da deusa Atégina, tão abundantes naquelas paragens. Uns mais verticais, outros mais achatados e amplos, cada qual concebido para determinada função dos rituais. Escadas, fossas e canais rasgados na rocha estavam limpos das ofertas dos ventos e das oferendas dos devotos. Os templos de cada deus aí venerado, que regiam a utilização dos altares, haviam recebido novas mantas de linho e lã e o enfeite com as mais belas flores da região. Estavam engalanados.

Talauto deu-se conta da alienação emocional de Rubínia e notou uma forte – mas muito bem camuflada – impressão em Tongídio. Os restantes amigos estavam igualmente impregnados pelo ambiente etéreo. Lembrou-se de um pequeno altar, colocado discretamente num dos limites do recinto e decidiu promover uma pequena cerimónia, em honra dos companheiros.

Meus dilectos amigos! Sinto que estais encantados neste lugar sacro. Temos aqui o ensejo para pedir a bonança, para vós e vosso destino e, já agora, para os jogos e futuro de concórdia na Ibéria. Vamos ao altar do panteão universal, onde cada qual poderá exortar a protecção do seu deus e realizar a respectiva oferenda. Sigam-me.”

Como não haviam trazido dádiva para a cerimónia, Talauto convocou o Sacerdote Maior e solicitou 5 pombas, das mais dóceis e imaculadas, para o sacrifício. O próprio líder religioso executou os ritos, prenunciando o aproximar de tempos de amargura e de provação, que se dissipariam após um acontecimento decisivo, dando lugar a um longo período de paz e de fortuna. A tranquilidade assomou-se aos acólitos.

O regresso ao povoado pautou-se pelo silêncio e a introspecção, porém com um brilho especial em cada rosto. Após os sussurros divinos, os gritos e a maledicência mundanos já não sortiam efeitos tão desanimadores e de tamanha preocupação.

A crua realidade humana não concede tréguas aos que respiram a paz, na sua maturação mais íntima. A razão não consegue abster-se incondicional e intemporalmente aos estímulos constantes e diversos da sôfrega vida, como o faz a loucura. Assim que chegados às portas de Obila, o senhor vetão foi requerido com urgência para a praça central: os arévacos, em visita ao povoado, tinham provocado uma altercação na taberna onde assentaram, descarregando grande fúria pelos elementos da escolta e pelos restantes clientes do estabelecimento. Por lá se mantinham entrincheirados, a comer, beber e destruir, não obedecendo às ordens para regressarem ao acampamento.

Talauto acudiu ao local, secundado pelos celtas amigos e por uns quantos homens-de-armas. Encontraram muitos despojos do recheio da taberna espalhados pelo espaço exterior. Projectados, certamente, pela porta e janela, agora arrombadas. A multidão concentrava-se como bagos maduros de um grande cacho de uvas, mas mantinha-se afastada, respeitando as instruções das autoridades.

O responsável pela escolta do grupo tumultuoso, com a devida reverência, dirigiu-se ao chefe e procurou explicar a situação, assumindo a sua falha de controlo.

- “Sou Sélvio. Peço que me castigues, pois não consegui dominar estes tratantes arévacos. É muito estranho, ficamos com a impressão de que se comportam propositadamente para causar problemas. São cerca de 25 guerreiros. Pediram educadamente permissão para entrar em Obila. Porém, assim que atravessaram as muralhas, começaram a insultar e gracejar com os nossos compatriotas e todos os indivíduos de outras tribos com quem se iam cruzando. Foram rudes com as mulheres e os velhos. Pretendíamos retirá-los de imediato, contudo surpreenderam-nos, desatando a correr indiscriminadamente em direcção ao centro. Concentraram-se nesta taberna e, desde então, desataram a partir tudo no interior, a expulsar todas as pessoas cá para fora e vão-se servindo do que bem entendem. Já tentamos persuadi-los a sair mas, a cada nossa manifestação ou movimento, atiram com mais alguma coisa lá de dentro. Se forçarmos a entrada, receio que haverá sangue, muito. Entrego-me nas tuas mãos, meu senhor.

- “Acalma-te Sélvio. Tenho a certeza que fizeste o teu melhor ou aquilo que qualquer um faria no teu lugar. Sempre desconfiei deste contingente. Eu trato disto agora. Preparem as armas e as redes, para o caso de serem necessárias”. Talauto sorriu para o subordinado, transmitindo-lhe confiança. De seguida, fez um ténue sinal a Tongídio, Alépio e Gurri. Perceberam, de imediato, que gostaria que o acompanhassem.

Os 4 aproximaram-se da entrada do negócio, cuja porta estava tombada pelo chão. O vetão encheu os pulmões e gritou grosso para o interior: - “Sou Talauto, filho de Talamo, chefe supremo dos vetões. Vou atravessar esta passagem para conferenciar convosco. Se não terminarem com esta agressividade desnecessária, dou ordens para que sejam todos passados à espada!” Sem mais palavras, entrou na taberna, seguido pelos 3 amigos.

Os arévacos estavam reunidos no extremo contrário à porta, alguns de pé, outros sentados pelas cadeiras e mesas que ainda permaneciam no interior do estabelecimento. Pipos esventrados, a cerveja a correr pelas lajes, ensopando o tapete irregular de palha, louças partidas e o mobiliário completamente arrancado às suas posições originais, marcavam o ambiente que rodeava o grupo de arruaceiros, que ostentava um sorriso colectivo irónico, enquanto elevavam as vasilha das bebidas em brinde aos recém-chegados.

- “Quem é o chefe desta horda insana?!”

Levantou-se um guerreiro que se demarcava pelo contraste das suas negras vestes com o cabelo longo e ondulado, de tom vincadamente ruivo, e de tez carmim claro: - “Sou eu, Tanino, estou indigitado por Areatavo, líder do grupo que o meu povo enviou para os jogos.

- “Tanino, a que se deve esta vossa insurreição e comportamento marginal? Será que procurais “trabalhos” extra? Fostes recebidos com cordialidade e hospitalidade, na exacta medida conferida aos outros povos. No entanto, esqueceis o respeito por quem vos acolhe e distribuis destruição e violência. Exijo que vos retireis ordeiramente e sem mais contratempos, sereis escoltados ao vosso acampamento e não voltareis a por os pés em Obila, até que termine o torneio. Logo mais, falarei com Areatavo.”

- “Nós só queríamos um pouco de diversão. É grande a monotonia e a espera. Tudo se precipitou: estes rapazes estão ansiosos por acção! Hehehehhe!” Respondeu o arévaco e continuou: –“Tal como pediste, vamos regressar à nossa base calmamente. Sobre voltar, ou não, a pôr os pés na cividade… logo veremos. Temos necessidades…” Piscou o olho ao interlocutor e acentuou o sorriso sarcástico. Colocou-se em marcha, atirando a cadeira contra a parede e fez sinal para que o seguissem.

A nova menção a “pôr os pés” levou a que Alépio, inconscientemente, desviasse o olhar para os pés dos arévacos e o que viu fez com que se abeirasse discretamente de Tongídio e lhe segredasse, sem o encarar: -“Examina os pés daqueles 3 que estão encostados ao balcão…

- “Romanos!!”, Tongídio soltou um grito surdo, sem que os outros percebessem.

Apesar dos longos mantos de lã, as Caligae viam-se de forma esclarecedora. Ou eram realmente Romanos ou haviam sido roubadas àqueles. Só os do Lácio produziam e utilizavam aquele tipo de calçado.

Ponderado, Alépio controlou o ímpeto de Tongídio, sem atrair atenções, deixando a continuação da farsa, evitando a denúncia imediata.

Tanino e os seus, desta vez, cumpriram com a observância da ordem e saíram de Obila pacificamente, apesar das risadas de escárnio.

Talauto tomou conhecimento da descoberta de Alépio e, por sua vez, comunicou a situação a seu pai. Talamo, fonte de sabedoria e experiência, pediu que todos se contivessem e entrassem no jogo do inimigo. Era importante obter o máximo de conhecimento, enquanto aqueles ignoravam que já haviam sido descobertos. Por outro lado, com tacto e argúcia, perscrutariam quais os povos que estavam pela sua causa e quais os que estavam envolvidos na trama urdida pelos romanos. O jantar dessa noite poderia revelar as respostas.

 

Andarilhus

V : IV : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 08:43

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