Sexta-feira , 29 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (55º episódio)

 

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Ortas já estava alerta. Dali conseguia-se avistar ao longe a aproximação e o assentamento das incontáveis tropas do Lácio em frente à vertente de Ribasdânia. Esta não se via, ocultada pelo cabeço mais elevado que ficava de permeio, o mesmo que alojava, no cume, o Santuário de Argerez.

O vale era uma extensa mancha em tons grená e vermelhos, onde cintilavam os materiais metálicos. O solo parecia mexer-se, como se fosse um formigueiro. Confirmava-se que a formidável máquina de guerra romana estava em marcha para a tomada do último reduto de defesa e oposição na Ibéria.

O alto-comando dos resistentes entrou em Ortas apenas para verificar a situação e deixar algumas advertências finais.

O lugar, rijamente encouraçado por muros de grande envergadura, rematava numa parede vertical de uma das escarpas mais inóspitas do Padrelas. Bem defendido na frente, era praticamente intransponível a qualquer assalto directo ou ao impacto de máquinas de guerra, por não poderem chegar-se o suficiente para atingirem e abrirem brechas na muralha.

A fortificação estava ocupada pelo grosso das forças dos cantábricos, vascões e astures. Deles dependia a sustentação do flanco Norte. Alépio empenhou-se em convencer os aliados para a situação crítica do sítio. Deveria ser defendida a todo o custo; só abandonada no limite, se os romanos tivessem êxito em invadi-la. Poderiam contar com os de Pentões, os quais recuariam para a reforçar, assim como seriam apoiados pelos inúmeros grupos de cavaleiros vacceus e vetões, os quais, dirigidos por Gurri, estariam em permanente cobertura do território da cordilheira defensiva, em apoio e vigia a alguma infiltração mais atrevida do inimigo.

Ortas encontrava-se encostada a uma das raras e exíguas passagens entre o planalto - vale - e a média e a alta montanha. Na verdade, tratava-se de um trilho mais calcorreado (e mais apropriado) pelo cabrito-montês do que pelo ser humano. O castro ancorava-se junto a uma curva muito apertada - em cotovelo - do carreiro, que ali, mercê dos degelos resultantes do termo das épocas do frio, se entranhava no chão, ladeada por dois taludes de saibro, a jeito de canal profundamente cavado.

Regressaram a Ribasdânia já as estrelas pintalgavam o firmamento. Após um dia bastante agitado, descansavam o possível enquanto miravam à distância a luz tremida das inúmeras centenas de fogueiras que confortavam os legionários, e deixavam o pensamento escorregar para a ansiedade da previsão dos acontecimentos que preencheriam o dia seguinte, duvidando se ainda gozariam, então, daquele sossego temporário e frágil.

Entretanto, irrompeu um par de mensageiros de Montes Negros pelas azinhagas escuras da fortaleza. Traziam notícia de circunstâncias idênticas. O campo romano era extensíssimo e cobria toda a área do sopé do Padrelas, correspondente à linha completa de protecção altaneira dos iberos. A quantidade e capacidade dos efectivos romanos eram elucidativas da sua determinação. A expansão pela Ibéria assumia-se como primordial para Roma, quer na conquista de mais território e respectivos recursos, quer na política estratégica face a Cartago e ao seu maior mentor, Aníbal.

Pela manhã seguinte, o cenário tinha tanto de avassalador como de confrangedor: os legionários eram como seixos numa margem fluvial e, para além das suas linhas, uma outra multidão - que se distinguia perfeitamente pelas tonalidades – denunciava a presença de arévacos, titos e belos. Para a maior parte dos guerreiros, sobretudo os celtas, que nunca tinham assistido a concentrações humanas daquela grandeza, apenas habituados a algumas dezenas ou eventualmente centenas de pessoas, ao observarem abaixo aquele mar de gente, julgavam que ali se reunia toda a população do Mundo. Aliás, nem sequer imaginavam que havia tanta gente…

Alépio ficou preocupado com o poderio do adversário. Eram tantos que, por muitos que aniquilassem, iam sempre aparecer mais. Realmente, só um golpe da fortuna traria a vitória. Mas, fosse como fosse, os guerreiros da pátria dariam o seu melhor – a vida – para escorraçar os invasores. E os planos, se bem delineados, ajudariam a compensar um pouco as diferenças entre as forças em conflito.

Entre os invasores, cumpria-se a já costumeira actividade de levantar estruturas de protecção. Criavam-se fossos e pequenas paliçadas nas zonas de redoma do acampamento e aprovisionamento, espalhavam-se barreiras e áreas fortificadas em madeira na vanguarda da fronteira com o baluarte ibero e montavam-se as máquinas de guerra possíveis e ajustadas às condições daquela batalha: balistas e catapultas.

Quintus Scipius, sem margem para novos fracassos, vivia numa azáfama que o predispunha ainda mais enfatuado e azedo do que já era usual. Ora fiscalizava os trabalhos em curso, hostilizando os soldados-operários, exigindo um esforço sobre-humano, não se coibindo mesmo de utilizar a vergasta para transmitir o exemplo através do suplício de alguns; ora convocava os oficiais e lhes passava uma reprimenda, obrigando-os, sob ameaças, a uma atitude tenaz, tão arrogante como a sua, a exercer sobre os subalternos.

Quando decidiu reunir o conjunto de generais e patentes superiores das diferentes legiões, já o descontentamento grassava nas hostes latinas. O exército romano era um corpo militar orgulhoso da sua tradição, a qual era entendida, de certo modo, como um legado de profissão. Compunha-se de gente de todas as condições sociais - representativo da pluralidade do povo de Roma -, nomeadamente, muitos patrícios, entre os quais, alguns provenientes de famílias de elevada notoriedade e reputação. Quintus tratava todos por igual, mas quase ao nível da inferioridade normalmente atribuída a escravos… uma humilhação e uma prepotência!

Porém, maior era o rancor que ruminava entre os aliados da península, sempre mantidos à parte das decisões e considerados apenas como uma matilha de cães a serem lançados ao inimigo a tempo conveniente.

O Cônsul começou por, insistindo na mesma nota, instigar à severidade na condução dos legionários, de forma crua, para os manter na linha: - “São uns relaxados, que vivem à custa do soldo de Roma! Têm a atitude de quem está em pleno descanso numa vila nas margens do Tibre. Há que os acordar para a realidade: se fazem parte desta campanha é para irem até ao limite, à morte se forçoso! Até agora só temos andado a passear pela Ibéria; adiante será para criarmos raízes e iniciarmos a construção do mundo romanizado, nestas terras!

Fez uma pausa para recuperar o fôlego que se escapara com a cólera verbalizada.

- “Para estendermos para cá as nossas províncias, primeiro temos de lidar com esses ratos de campo, que têm sido um empecilho e nos têm humilhado como se fossemos nós a presa. Mas, agora estão na toca. Taparemos as saídas do covil e vamos apanhá-los como furões, nem que para isso seja preciso fazer desmoronar a montanha que os acoita!

Ainda de rosto vermelho e inchado pela ira, teve de fazer nova pausa e sorver uns golos de vinho, para prosseguir depois.

-“Ora bem, a situação não é fácil: os bárbaros estão bem entrincheirados. Tal como vejo a situação, confio no seu comportamento irascível – termo que provocou alguns olhares cúmplices e de soslaio entre os oficiais, que viam em Quintus o exponente máximo da irracionalidade –, que os levará certamente a abandonar as posições de defesa para nos atacar aqui. E isso será o ideal. Pelo menos, evitaria as muitas baixas que poderão ocorrer se os formos tirar do ninho. Mas assim será, se eles não reagirem do modo que nos é mais conveniente.

Como é fácil verificar não temos aqui um estado de sítio vulgar. Não há forma de nos aproximarmos com protecção dos redutos fortificados. As vertentes escarpadas não facilitam o avanço de torres ou aríetes de campânula. Como não sabemos se a iniciativa terá de partir do nosso lado, quero que os engenheiros e sapadores comecem desde já a analisar a situação e que proponham soluções que nos permitam atingir os bárbaros sem que fiquemos muito expostos no avanço.

Entretanto, ordeno que as tropas do perecido General Octaviano Auris, agora sob comando deste jovem Tribuno, Fábio Fúlvius, se dirijam para o extremo Norte e aí exerçam pressão sobre as defesas, a ver se obtemos uma oportunidade para flanquear o inimigo. Deixemos por ora a via do Sul em acalmia.

Mantenham-se todos atentos às manobras bruscas dos iberos, sobretudo para uma eventual sortida. O contra-ataque deverá ser imediato e fulgurante!

Os maltrapilhos dos nossos aliados ficarão de reserva; não são de confiança para os colocarmos no âmago da batalha: podem desertar e enfraquecer a estratégia…

Se alguém se quiser pronunciar, que avance; se não houver opiniões, vamos ao trabalho que Roma aguarda notícias!”

Face a tamanha rispidez, e apesar de existirem múltiplas ideias, ninguém opinou, encerrou-se o concílio e cada um partiu para a sua missão.

Sob Ribasdânia mantiveram-se as operações de reforço do acantonamento, sempre com os do Lácio em prontidão para intervir ao menor sinal de movimento dos do alto. Assim que aprontaram as máquinas de arremesso, adiantaram-nas o mais possível e iniciaram as hostilidades contra os muros do reduto ibero. No entanto, a distância anulava a potência necessária para fazer mossa na muralha. Servia apenas para alvoroçar um pouco e provocar os defensores, tentando-os a uma resposta.

Alépio, com esforço, mantinha controlo sobre os eriçados celtas, sobretudo Tongídio, os quais pretendiam devolver aos romanos, em mão e com gratificação de mais uns quantos golpes de falcata, os projecteis que caiam na fortaleza.

Seguindo as instruções do Cônsul, Fábio Fúlvius organizou as suas forças e marchou para as proximidades de Pentões e Ortas, concentrando-se junto a esta última. Indicou o local da base de operações e começou a estudar as circunstâncias e sobretudo as dificuldades para trepar a montanha, com a oposição rapina a coroar a progressão.

Fez uma primeira tentativa, enviando duas centúrias para ganharem posição numa zona lateral a Ortas, num socalco amplo, que se abria a dado trecho da passagem para a montanha, logo após a curva afunilada e cavada, e que poderia ser utilizado como plataforma de ataque ao castro.

As intenções saíram frustradas quando, de cima, o envio de uma avalanche de enormes pedregulhos a rolar direitos ao trilho e os inúmeros rebos e setas lançados apanharam alguns dos atacantes e colocaram os restantes em retirada. O canal de passagem ficou praticamente entulhado, dificultando ainda mais posteriores iniciativas do género.

- “Vamos avançar para o outro bastião [referia-se ao alto de Pentões] – parece ser mais permeável – e, daí, procurar voltar para esta fortificação a cotas de altitude mais favoráveis”.

(continua)

 

Andarilhus

XXIX : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 19:56
Terça-feira , 26 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (54º episódio)

 

A indumentária leve, o caminhar despreocupado e a distracção aos rumores omnipresentes da guerra aportavam um bem-estar, já há muito não sentido. Somava-se-lhes a paz recebida do bucólico cenário envolvente, que se esgueirava pela alma, pelo mundo interior. Os sentidos, como que libertos da acumulação de clausuras abafadas e infectas, despertavam para os - já algo esquecidos - sons das aves, os odores maduros do estio, a diversidade dos tons arrebatantes da flora e das mantas de nuvens no céu que se avistavam dos miradouros verticais consentidos pelas copas das árvores.

Seguiam de mão dada, apoiando-se reciprocamente no avanço pela vertente escorregadia, provocada pelo plano oblíquo constante e dificultado pelo tapete de caruma que cobria longas áreas ou pelos trilhos e barrancos de saibro solto. Aqui e ali pontapeavam pinhas, subiam às fragas cinzentas, enfeitadas por líquenes, em forma de rosáceas brancas e cinza-claro, e por musgo… aquele musgo, farfalhudo como barbas, de diferentes cambiantes de verde.

Divertiam-se com bolotas, oferta dos carvalhos e, num relance de sorte, toparam com uma velha pavieira, atestando-se de saborosos frutos, somados às múltiplas framboesas e amoras que iam colhendo. Saciaram-se de mais frescura em pequenos regatos, superaram o confronto estático de tojos e silvados até que, após ultrapassarem uma barreira cerrada de giestas, encontraram um lugar mais chã, onde prosperava um belo prado, com pequenos desníveis. Ao fundo de um curto outeiro, o curso de um dos canais aquíferos formava uma ligeira queda da água cristalina, a jeito de uma bica, sobre uma singela represa. Ai, Tongídio e Rubínia fizeram uma parada a pedido dela. Numa fresca oferecida por um negrilho, sentaram-se a admirar o lugar abençoado pelos deuses.

Aproveitaram para tratar de alguma higiene pessoal e para enxaguarem as roupas encarquilhadas pelo suor e pela poeira das muitas demandas. Rubínia limpava também o amuleto da “Senhora das Águas”, enquanto se recordava da amiga Bolota e dos momentos penosos passados em Pellenda. A tranquilidade dominava.

As sensações eram tão avassaladores que quase se permitiam iludir, julgando-se repousar no bosque do termo de Tanábriga, numa daquelas saudosas rotinas em que visitavam as matas para aprovisionar lenha e apanhar alimentos silvestres. Recordaram alegremente alguns dos episódios que mais marcavam a memória, como aquele em que enfureceram um ninho de vespas, quando, em busca da fruta doce, sacudiram a ramagem de uma amoreira; escaparam ilesos porque a “Lagoa das Chagas” estava muito próxima e o mergulho salvou-os de dezenas de ferroadas certas.

- “Já não faltará muito para nos podermos banhar novamente na lagoa… Anseio-o e estou determinada a completar o meu destino para regressar aos meus hábitos…

- “… É só darmos a sova final nos visitantes que não foram chamados a estas paragens! Mas, espera Rubínia, façamos silêncio… escuta…

O ouvido treinado de Tongídio pusera-o alerta. O burburinho, inicialmente ténue, crescia rapidamente. Não demorou a perceber-se o som característico do choque de cascos de cavalo sobre pedra e o tilintar de peças metálicas.

- “Rápido, toca a recolher tudo e passar para lá do giestal. Vem aí tropa!

Semi-nus e descalços carregaram os pertences e correram no sentido do alto da montanha. Já depois dos arbustos, vestiram à pressa a roupa ainda bastante húmida e ficaram de atalaia.

O instinto aconselhara-os bem: um esquadrão de mais de 5 decúrias de cavalaria romana irrompeu do matagal. Os viandantes chegaram-se à fonte de água e desmontaram. Eram certamente batedores avançados, em busca dos limites das posições dos iberos e reconhecimento do território.

Tongídio fez sinal à mulher para se afastarem em silêncio. Recuaram uns bons trinta passos quando, após passarem por uma faixa densa de fetos, deram com um bando de perdizes que, alvoraçadas da sua quietude, imediatamente, largaram em esvoaçar furioso e estridente. Raios, lá se iam o silêncio e o ensejo de se afastarem sem perigo, devido àquelas aves de escarcéu! A reacção dos romanos foi contínua. Os cavalos começaram a relinchar e logo se ouviram a galopar. Daí até se sentirem as ramagens a gemer e a estalar com a pressão dos corpos dos predadores a furar foi um instante.

- “Por todos os deuses, corre Rubínia! Escala o monte e coloca-te a salvo. Eu retenho-os o máximo de tempo que puder!

Ela olhou e ainda hesitou, mas não havia outra solução que não fosse ir lá acima pedir ajuda; os dois jamais conseguiriam uma fuga com sucesso. Arrancou como um javali, atravessando a vegetação em linha recta e sem olhar a obstáculos.

O lusitano pegou num galho graúdo de freixo e, ladeado por duas árvores, colocou-se entre o sítio em que aguardava o aparecimento do inimigo e a direcção que a mulher tomara. Não esperou muito. Como a vegetação não permitia outra formatura, os legionários rompiam pelo mato em fila.

O da vanguarda, apanhado de surpresa, tombou do cavalo, inanimado, com o nariz desaparecido no interior da cavidade do rosto. O seguinte ainda puxou do gládio, que logo largou com a forte pancada no ombro e braço armado. A ponta da vara fibrosa apontada à fronte determinou a estocada final para o derrubar e pôr fora de combate.

Os romanos já eram muitos à vista de Tongídio e tentavam contornar a sua posição, para o dominar. Este, agora armado com a espada do adversário abatido, dirimia golpes com os que se aproximavam, provocando-lhes mais baixas. Porém, como o número de inimigos crescia rapidamente e se tornava sobre-humano enfrentar tantos, começou a deslocar-se em busca de refúgio em áreas cada vez mais densas da floresta, mantendo a luta acesa e puxando os legionários para longe da companheira.

Por sua vez, Rubínia progrediu bem na ascensão da encosta. Quando já avistava ao longe o clarão de luz que significava a adjacência da cinta desflorestada e o alto dos Pentões, percebeu também que a perseguiam de perto.

Alguns dos legionários deixaram a caça a Tongídio para se enveredarem na floresta no encalço de outros potenciais inimigos. Encontraram os rastos de outro indivíduo e seguiram-nos. Porém, a marcha não era célere quanto o desejado: as montadas esforçavam-se, contudo o declive e a vegetação tolhia-lhes o ânimo e a resistência. Abeiravam-se lentamente de Rubínia com, cada vez mais, acrescida dificuldade.

Estavam praticamente a alcançá-la quando a mulher arribou ao descampado e puxava das últimas energias, agarrando-se ao mato que subsistia hirto, para fazer as passadas finais até ao cume. Estava quase à distância de um braço quando também os cavalos entregavam as últimas forças, empinando-se nas patas traseiras sem que conseguissem avançar. Enquanto os cinco romanos desmontavam para prosseguirem a pé, Rubínia ganhou alguns passos de vantagem e gritou lá para o alto: -“Gurri! Alépio! Todos! Acudam; ajudem-me! Sou perseguida!

Do cabeço, os iberos acorreram céleres às fragas limítrofes e espreitaram para baixo, na direcção dos apelos. Zímio que reconhecera de imediato a voz de sua senhora foi o primeiro a acudir, pulando como um felino para o exterior e rebolando pela vertente, com a dificuldade de estacar o salto. Levantou-se, puxou Rubínia para cima e enfrentou o inimigo. A fúria pelo receio de perder a sua protegida, arrepiou-lhe o sangue e, da sua colocação superior, com facilidade rompeu o pescoço do primeiro adversário e cravou a ferro o peito do seguinte. Ainda com a arma presa no externo do oponente, avançaram os outros legionários. Estava iminente o disparo de um dardo sobre Zímio, mas uma pedrada violenta, aplicada pela funda bem treinada de um cantábrico, adiou o perigo e estoirou com o crânio do litigante. Entretanto, chegavam os reforços, e os romanos sobreviventes correram para os cavalos, pondo-se em fuga.

Alertados por Rubínia, Talauto e a maioria dos guerreiros mergulharam na floresta em socorro de Tongídio. O lusitano continuava a deambular pelo arvoredo acossado pelos muitos inimigos. Escondia-se, para atacar de surpresa os grupos mais pequenos de romanos - de 2 e 3 homens -, dispersos na busca, e voltar a fugir e acoitar-se.

As circunstâncias mudaram radicalmente com a aparição dos reforços ibéricos. A vantagem romana perdia-se em número e em capacidade de combate naquele ambiente. Vendo os seus soldados a serem abatidos com rapidez e certa facilidade pela impetuosidade dos autóctones, o centurião ordenou o recuo até ao local onde haviam deixado os cavalos e, daí, a retirada para longe daquele nefasto encontro. O importante estava feito: localizaram o extremo Norte dos defensores. Embora lhes tivesse custado mais de duas dezenas de baixas.

Gurri encontrou Tongídio exausto e de tal forma sulcado por múltiplas feridas superficiais que parecia ter tido um mau encontro com um bando de gatos-bravos. Na verdade, o corrupio e a luta tinham-lhe valido as inserções tatuadas dos galhos e ramos da vegetação e também algum pequeno toque de um gládio mais acertado. Refrescou-se e lavou os maus tratos num ribeiro, juntou-se aos amigos e regressaram à fortificação, carregando os despojos de guerra.

Já sob a protecção dos contrafortes do Padrelas, tiveram notícias do aparecimento de romanos noutras posições. Os sinais de fumo de Ortas comunicavam que o inimigo já se tinha mostrado por Montes Negros e no sopé da grande fortaleza, Ribasdânia. Os romanos chegavam por fim e mediam a situação do terreno e do inimigo.

Alépio deu instruções para manterem o estado de alerta máximo, conterem o inimigo em caso de assalto, enquanto fosse possível e, tendo de recuar, sinalizar por fumo ou fogo o abandono do Alto dos Pentões. Em caso de evacuação, deveriam tomar a direcção de Campo-da-Égua, um planalto assim denominado pelos naturais daquelas paragens, por estar associado ao mito de uma égua sagrada, prodigiosa e raramente vista, que estaria na génese das centenas de potros selvagens que pululavam nas alturas e jamais alguém conseguira domar. Nem os lobos ousavam acometer sobre os equídeos que passeavam os deuses sobre os seus dorsos mágicos.

Feitas as despedidas e as recomendações finais, a comitiva de Alépio partiu para Ortas, um baluarte pequeno mas muito robusto. Era fulcral como praça-forte de apoio a Risbasdânia. Se este precioso amparo, a fortaleza-mãe ficaria por sua conta, quanto a possíveis investidas – embora pouco expectáveis pelas dificuldades do relevo - surgidas a Norte.

O futuro da Ibéria estaria em breve definido…

(continua)

 

Andarilhus

XXVI : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:51
Sexta-feira , 22 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (53º episódio)

 

Os druidas abriram o ventre do animal e retiraram as vísceras determinantes para o oráculo. Analisaram-nas, sulcaram-nas com as adagas de silex e, finalmente, pediram um bacio de bronze com brasas, onde colocaram o fígado a fumegar. Leram os sinais do fumo e evocaram uma vez mais os deuses.

Após a conferência dos 3 sacerdotes, um deles revelou os vaticínios: -“Os deuses são nebulosos na sua vontade. Não há dúvida que querem que alguém – e apenas um - se levante e abrace os povos da Ibéria, protegendo-os como um pai, com afeição igual para com todos. Será o nosso chefe e só ele nos poderá garantir a vitória.

Quanto à nomeação de tão especial pessoa, não há uma designação concreta. O único sinal dos deuses é declarar-vos que só reconhecerão o vosso líder supremo após o sangue ser derramado e, então, o próprio sangue acusará aquele que merece a maior das honras. Temos dito, por bondade dos mestres solares.

Logo se iniciaram os murmúrios. Como poderia ser esta a manifestação dos deuses? Porque não indicam um nome, de forma clara?! E aquele mistério do sangue “falar”? Que enredo estranho e complicado.

- “Será que temos de lutar entre nós para os deuses se decidam na escolha?” Perguntava o candidato asture.

- “Talvez só depois de iniciarmos o choque das armas com os romanos e comece a correr sangue é que teremos a revelação.” Comentava outro.

Multiplicavam-se as opiniões, enquanto os elementos do Conselho se agrupavam num círculo sempre em movimento, trocando impressões, em grande confusão. Rubínia mantinha-se apartada, calma, à sombra de um dos poucos carvalhos que existiam no interior do reduto. Até que se ouviu entre os presentes alguém lembrar que fora ela quem tinha provocado aquela busca pela inspiração divina. Porque não ouvir as suas considerações sobre o desfecho do acto…

Os olhares concentraram-se em Rubínia, aguardando que se pronunciasse. Porém, como também ela continuava a meditar sobre o prognóstico, não tendo ainda uma resposta convicta - apesar de sentir que havia um forte propósito nas palavras enigmáticas dos deuses -, foi titubeando alguns dizeres: - “Bem, temos uma adivinha para desensarilhar. Certamente, as divindades não querem ser esclarecedoras; querem antes que nos concentremos nesta demanda que nos junta a todos. Talvez seja um exercício, não para designar um nome proposto por sacras palavras, mas para nos obrigar a encontrar o melhor entre nós. O sangue será a marca… mas como?

- “Deixem Rubínia sossegada! Se não fosse pela vossa teimosia não estávamos aqui a bater com a cabeça no penedo! Arre que são piores que jericos! Até conseguiram aborrecer o sempre alegre Alépio…” Praguejou Tongídeo, contra os que importunavam a sua mulher. Conseguiu afastar a pressão, como pretendia.

-“Esperem! Esperem! Alépio, reparem em Alépio!” Exclamou Rubínia, que focara o brácaro quando escutou o seu nome.

O mentor estratégico sentara-se num pequeno e afeiçoado cabeço rochoso e aí ficara discreto e algo distanciado da algazarra e da questão que o incomodava vincadamente. Ele próprio não pretendia a distinção de líder; apenas desejava que resolvessem a contenda rapidamente para dar continuidade aos planos de guerra. Perdia-se tempo precioso e o inimigo, não tardaria muito, estaria a bater à porta.

Todavia, de facto, algo de transcendente se passava naquele lugar. O banco de granito de Alépio estava ao nível da pedra do sacrifício, sobre o mesmo plano acentuadamente inclinado do relevo, o que mais adensava o mistério do que se podia presenciar: o sangue do cavalo esventrado escorrera pelas cavidades da pedra, por várias linhas que afunilavam num extremo e tombavam para o solo, numa só goteira e após uma cavidade de retenção. Até esse momento o fluído seguia o trajecto natural de procurar os pontos mais baixos das superfícies por onde passava. Só que, a partir daí e contrariando as regras da natureza, o sangue passava a correr ao inverso, deixando de buscar a pendente, para subir ligeiramente a encosta, quer fosse por capricho divino ou por capricho das rugas do solo e do amparo das ervas, confluindo na direcção do brácaro e acumulando-se em torno da rocha, circulando-a por completo como se fosse um laço. Alépio estava literalmente cercado pelo fluído sanguíneo, e nem se dera conta do mesmo.

O pasmo atravessou o grupo e o próprio observado, que saltou imediatamente da fraga. Estava à vista de todos todos; ficava tácita e silenciosamente decidido: aquele era o sinal evidente dos deuses… Pegaram em Alépio, ergueram-no em ombros e aclamaram-no dirigente de todas as armas ibéricas.

Como agradecimento e acatamento da decisão superior, queimaram o animal sacrificado, ao qual juntaram também duas rolas pela concórdia. Mas as cerimónias não ficariam por ali.

-“Por ora chega de festejos, toca a mexer, seus frouxos! Há muito a fazer, vamos ao que interessa!” Gracejou o Grande Chefe, com um sorriso de orelha a orelha.

Com a mesma alegria, foi obedecido num ápice. Cheio de entusiasmo, Alépio passou a distribuir tarefas. Uns ficariam em Ribasdânia a ultimar os trabalhos previstos, outros fariam uma ronda pelas áreas de concentração dos recursos no conjunto defensivo. Para o périplo convocou os amigos mais próximos.

Na manhã seguinte, deslocaram-se para Sul, inspeccionando Montes Negros, Serapiscos e um ponto intermédio, pelo qual se fazia a ligação da malha de protecção, e que não era mais do que um outeiro com um talude de terra a coroar o topo, a que deram o nome de Argemel. Regressaram à fortaleza central pela noitinha.

A necessidade da presença de Alépio em Ribasdânia ocupou-os dois dias, após os quais, foram ao encontro dos camaradas no outro extremo das posições fortificadas. Partiram ainda de madrugada, mas logo pararam, ao sinal do guia, passado um curto trecho de percurso. A manhã anunciava-se para breve.

-“Quero mostrar-vos outra obra que mandei construir a homens de confiança, em segredo, até ao momento. As muralhas e as torres altaneiras são para a guerra, mas achei também preponderante rasgar um pequeno templo, para colher os favores dos deuses e marcar religiosamente estes tempos e estes lugares. Ides ver a adaptação do santuário de Obila à dimensão destas paragens.”

Encontravam-se numa das ilhargas privilegiadas do Padrelas, verdadeiro balcão sobre o grande vale a Este. Aí, à ordem de Alépio, tinham rompido a talhe a penedia, criando duas fossas para sacrifícios e oferendas, e sulcando, paralelamente, um escadario de pequenos degraus laterais para cumprimento das cerimónias. Atribuíram-lhe a designação de “Santuário de Argerez”. A disposição da edificação respeitava os trâmites tradicionais, recebendo, em prumo com o horizonte, os primeiros raios de Sol da aurora. A consagração já havia sido realizada pelos sacerdotes, através dos ritos próprios, a Bandua, deidade dos laços mágicos, de sangue, da honra e da união dos homens. Símbolo do compromisso ibérico.

- “Tal como Talauto nos recebeu e favoreceu em Obila com uma oferta no altar universal, eu gostaria de retribuir e tomar gesto igual em vossa honra, meus amigos, empenhando-me em laços de verdadeira amizade e irmandade convosco e pedindo a Bandua que vos proteja nas façanhas que surgirão com uma das próximas manhãs. Sois de clãs diversos, mas sois minha família. Admiro-vos e acarinho-vos no meu dedicado coração.” Alépio abraçou e beijou a face de cada um dos amigos, retirou um anho muito jovem de um saco de estopa que corria justaposto ao lombo da montada, aplicou um golpe rápido e decidido à vida do animal, retirando-a sem dor. Quando o Sol já irradiava as primeiras ondas de suave ardor, acendeu brasa e ervas aromáticas, votou a vítima imolada ao deus e rezou baixinho as suas preces. Os restantes acompanharam o momento, concentrados e em profundo respeito.

Reservaram o quinhão sagrado e dividiram a restante carne assada. Com cerveja consagraram à mãe terra, através de libação, e tomaram a refeição purificadora e de reafirmação dos vínculos da amizade.

Foram directos a Pentões, passando ao largo de Ortas, cuja visita ficaria para o regresso. O local de defesa mais a Norte era um dos cumes elevados da cordilheira montanhosa. Até os cavalos tinham dificuldade em chegar ao vértice íngreme. A ousadia de vencer o trilho a passo, tirava o folgo ao mais arrojado e determinado. Certamente que os legionários, sob o peso das armas e protecções metálicas, desesperariam se o tentassem tomar. Na longa e penosa subida de acesso, seriam presa fácil para os de cima. Por esse motivo, Pentões dispunha de uma guarnição bastante reduzida, empenhada apenas na vigília e, eventualmente, no atraso da progressão de alguma aventura romana.

De toda a maneira, Alépio incitou ao armazenamento de grande número de pedras, sobretudo, das mais arredondadas, para serem atiradas pelo monte abaixo, se tal fosse preciso. E se a situação se agravasse, então, poderiam tentar deslocar as grandes rochas que serviam de tapamento geológico, natural. No limite, a fuga estava garantida pelo lado contrário, ao longo da crista do Padrelas.

Enquanto procediam a semelhantes trabalhos, Tongídeo e Rubínia resolveram dar um passeio, descendo até uma zona intermédia da encosta, na qual se formava uma área menos inclinada, quase em patamar, e que patenteava uma vegetação muito colorida.

No início da descida, para que os guardas pudessem controlar qualquer aproximação e ataque, a vegetação fora cortada imediatamente abaixo do reduto de Pentões, utilizando-se os troncos para preencher as falhas na barreira de penedos. A área arborizada aparecia novamente intacta a uns 40 passos abaixo.

O casal de celtas saíra o mais possível desprovidos de peso, deixando as armas maiores e portando apenas uma adaga. Deixaram também as couraças, tudo para contornar melhor as dificuldades da morfologia do terreno. Começaram por saltitar pelos caboucos do arranque das árvores, pelas reminiscências de ramagens, cascas e pelas raízes que foram deixadas para trás, até que alcançaram a floresta e nela se embrenharam.

Com a folhagem surgiam a frescura e as cambiantes luminosas provocadas pela multiplicidade de cores e pelos cones espaçados de maior claridade, gerados no jogo de sombras e luz da entrada dos raios solares pelas falhas do escudo vegetal.

(continua)

 

Andarilhus

XXI : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 07:58
Terça-feira , 19 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (52º episódio)

http://mediateca.educa.madrid.org/imagen/imagenes/publicas/tam3/fh/fh9rpkfsjhj8d62z.jpg

 

- “Logramos levantar um exército na Ibéria, entre as várias facções tribais, como jamais alguém conseguira, ou sequer ousara.

Temos uma mescla de povos de origens muito diversas: do Norte, entre Astures, Cantábricos, Vascões e Vacceus, são cerca de 3000 homens; do outro extremo, Turdetanos, Túrdulos, Cónios e Batestanos, trouxeram-nos outros tantos; Vetões, Lusitanos e Calaicos, são uns 10000 guerreiros; Aníbal também quis dar uma ajuda e enviou 1000 dos seus cartagineses. Finalmente, e sempre uma reserva de grande moral e bravura, alguns dos homens fazem-se acompanhar das mulheres, habituadas a combater a seu lado. No conjunto, julgo que somos aproximadamente 17000 combatentes.

Ribasdânia não tem condições de entrincheirar semelhante força. Uma vez que terão de se acantonar pelo exterior, porque não instalá-los em mais alguns pontos estratégicos de forma a criar um sistema defensivo?

Assim o fizemos. Ao longo desta crista do Padrelas distribuímos os guerreiros de Norte para Sul. Colocamos os montanheses no setentrião, num alto chamado de Pentões e outro com nome de Ortas. No outro extremo fixaram-se os povos do Suão, desde Jou, passando depois pelo castro de Montes Negros e um local de retaguarda e reserva, que os orientais enviados por Aníbal nomearam de Serapiscos, em honra do seu deus Serápis. Aqui na fortaleza central fica o dorso da força: vetões, lusitanos e calaicos. Todos os pontos foram fortificados a partir das condições naturais e reforçados com madeira e pedra.

Esperamos assim desconcentrar também as forças inimigas e ganhar uma oportunidade para os atacar devastadoramente a partir deste núcleo central, com algumas surpresas que lhes preparamos.”

- “Bravo Alépio! Somos em número inferior a romanos e aliados, mas temos as nossas vantagens. Desde logo, são eles que têm de tomar a iniciativa e subir estas arribas para nos desafiarem. O nosso abastecimento está garantido de água e alimento, pela riqueza natural e pelo acesso garantido por Oeste. Só por desgaste é que nos baterão!” Enalteceu Talauto, pleno de perspectivas positivas.

- “Ora aí está; muito bem colocado: estamos numa situação que nos favorece grandemente. Temos os sítios altos, temos logística e temos a vantagem de determinar e pautar os momentos fulcrais da batalha.”

Abeirou-se novamente da placa de xisto e riscou umas setas no sentido Este – Oeste, na direcção dos diferentes pontos defensivos marcados no mapa: - “Confio que será esta a manobra do inimigo. Assentarão no grande vale que se vê ao fundo. A princípio, explorando a nossa tradicional “irracionalidade” e impulso compulsivo, tentarão atrair-nos para o cenário do terreno plano e aberto, onde estariam em grande superioridade, não só no número de efectivos, como também na aplicação das suas tácticas costumeiras e eficazes de batalha.

Porém, nós, - custe o que custar! -, ficaremos serenos nos nossos ninhos alcantilados. A não resposta e a demora de actividade levá-los-á a procurarem-nos e, então, jogaremos os nossos dados… É sobre isso que vos vou expor algumas tácticas e saber da vossa aprovação. Será arriscado…

O brácaro inclinou-se um pouco mais sobre a ardósia e fez as gravuras ilustrativas dos planos, descrevendo ao pormenor as acções que concebera.

Face à discrepância das duas forças em conflito, os iberos estavam obrigados a retraírem-se nas suas defesas e a rentabilizar ao máximo as suas posições estratégicas. Alépio e todos os presentes no Conselho sabiam-no e foi com espontaneidade que aceitaram e confiaram nos admiráveis projectos relatados pelo brácaro. Aqui e ali sugeriram pequenos acertos, ficando acertado o plano geral de combate.

- “Se estamos todos de acordo, agora que já está entre nós, peço a Talauto que dê as ordens para as tarefas finais de preparação das linhas defensivas. Há que terminar o desbaste e limpeza da encosta a Este e abrir, assim, um tapete para a subida facilitada do inimigo – hehehehe!!! -, aparar os galhos das árvores e colocá-las deitados e camuflados por vegetação espinhosa em frente à muralha, formando mais uma barreira defensiva… e não só…

- “Um momento Alépio. Tu és o mentor da estratégia. Daí ser minha opinião e, se necessário, decisão, que continues a orientar as operações de logística e comando. Aliás, tenho a propor ao Conselho, e sobretudo a cada um dos líderes dos diferentes povos irmãos, que deleguem a chefia em Alépio. Durante a viagem para cá estive a pensar nesta questão: há que designar um líder que a todos guie e que por todos seja respeitado em absoluto, sendo as suas decisões lei. Haverá certamente muitos entre nós capazes de tão excelsas funções, porém parece-me que aquele que, por muitas razões, está melhor preparado e cuja escolha é mais pacífica e natural é este nobre brácaro! O que vos parece?

Talauto tocara o ponto sensível e mais susceptível. Não só os acontecimentos não haviam permitido esta resolução anteriormente como era expectável o adiamento cúmplice desta decisão. Todavia ela era crucial para a conjuntura e o tempo urgia. Chegara o momento de ungir alguém como comandante geral das forças ibéricas.

Os chefes das tribos confrontavam-se novamente com o dilema que lhes mexia com as entranhas. O sentido de independência e o espírito autêntico individualista e de domínio próprio, e a não sujeição a outros, sobretudo estranhos aos seus clãs, estavam bem marcados e sempre à flor da pele. Abdicar desta liberdade, deste poder, era como uma auto-mutilação, um acto de flagelo, pessoal e colectivo. Por isso, tão grande era a dificuldade de congregar interesses e anuências.

Era certo que tinham admitido integrarem a resistência ao invasor, combatendo ao lado dos outros povos; era certo que tinham aprovado a liderança de Alépio na condução da fuga de Obila e na preparação das defesas de Ribasdânia. Contudo, era agora que se definia vida e morte, glória e fracasso, o destino dos povos. Seria de entregar o comando a um guerreiro que não partilhava o mesmo sangue? E seria Alépio a pessoa indicada? Estariam os Homens com virtude e esclarecimento suficientes para fazerem tamanha eleição?

Como seria de prever, embora com menor contestação, a maioria dos caudilhos reconheceu o valor de Alépio, mas exigiu que fossem os deuses a decidirem se haveria um só chefe e qual ou quais os mais aptos para a responsabilidade.

Talauto ainda tentou demovê-los. Aquele debate poderia minar a união e tanto esforço já realizado. A Talauto juntou-se Sonim pelos lusitanos, jurando fidelidade a Alépio. O grosso do exército, com vetões, lusitanos, calaicos e também os vacceus de Gurri, estava do lado de Alépio, mas as restantes tribos mantinham a pressão para que se praticasse uma auscultação aos deuses.

Começavam a extremar-se as opiniões e a inflamar as palavras, no Conselho. Estava difícil o consenso. Alépio verificava a inutilidade de projectar planos ou implementar trabalhos no terreno quando o principal factor para o sucesso não era possível alcançar. Lentamente, distanciou-se do grupo que disputava, arrastando o carro com a ardósia, desalentado.

Rubínia, cujo estatuto lhe permitia permanecer na sala como mera observadora, assistia à argumentação agitada e ao afastamento de Alépio. Sentiu o sangue a fervilhar e o rosto a ruborescer. Ergueu-se do escabelo, pegou numa larga caneca de barro e saltou mesmo para cima da mesa. Atirou com o objecto, partindo-o estridentemente e gritou: - “Mas vocês estão loucos?! Quem é que precisa de romanos, quando já tem motivos mais que visíveis para arranjar querelas internas?! Espécie de fanáticos pelos próprios cueiros! Calem-se, por Terbaruna! Jamais sonhamos, sequer, em chegarmos aqui e conseguirmos reunir estas condições, que talvez não sejam suficientes para a vitória, mas serão certamente suficientes para mostrar ao inimigo que a Ibéria se consegue unir e nunca se renderá! E agora, por um pormenor, por um pedido de esquecimento momentâneo do egocentrismo e do narcisismo de cada um de vós, não se consegue concretizar o que já obrigou a muitas dificuldades e empenhos? Mas, pergunto mais uma vez: estão loucos?!...

Fez-se um silêncio sepulcral na sala. Uma vez mais aquela mulher intrépida assumia o protagonismo só reconhecível aos homens. Porém, a reputação de Rubínia autorizava-a agora a manifestar-se, sem que alguém ousasse negar-lhe esse privilégio.

- “Ouçam, ouçam senhores que tendes o domínio – e o dever! - sobre milhares de pessoas. É o futuro delas, o futuro da Ibéria que está em causa. Sem um comandante único não conseguiremos enfrentar com sucesso os experientes legionários; não seremos um exército, mas antes um conjunto de farrapilhos a porfiar cada um para o seu interesse. Já que não se entendem, deixem-me fazer uma proposta para sairmos deste impasse. Perante as exigências apresentadas por alguns de vós, tenho a reafirmar o quanto é imprescindível designar uma pessoa para ser o nosso maior, durante esta fase de guerra. Quanto a saber quem seja, vejo como genuína essa preocupação e concordo com a mediação divina na escolha. Assim, sugiro o seguinte: quem se quiser candidatar a chefe supremo que se chegue à frente; escutaremos depois a vontade dos deuses pela voz dos druidas. Parece-vos ser uma opção justa?”

Parecia que ninguém queria quebrar o silêncio. A intervenção de Rubínia acalmou os vozeirões e sossegou quase à letargia os espíritos, agora mais pensativos do que impulsivos. Adibérico, chefe Cónio, primeiro a sair do torpor, deu então um murro na mesa e puxou por plenas goelas: - “Concordo! Assim seja feito.”

Um a um, todos os restantes líderes mostraram-se alinhados com a proposta. E “chegaram-se à frente” quase todos eles, também. Alépio mantinha a confiança de 4 das tribos. Com ele, como candidatos independentes, estavam os demais caudilhos. No conjunto apresentavam-se 8 pretendentes à liderança dos iberos.

Foram chamados os homens-sagrados para execução do ritual. Trouxeram um cavalo de batalha, um garanhão negro, dos mais belos e possantes exemplares da manada.

No exterior, em frente à casa do Conselho, uma laje granítica acamada - e bem fixa - sobre dois penedos pouco altos, servia de mesa cerimonial. O declive do terreno permitia que o animal subisse, por um dos flancos, para o rude altar. Prenderam-no a um poste, estacado dentro de um buraco fundo da pedra, aberto para o efeito.

Os druidas juntaram-se à vítima a imolar. Ouviram-se dizeres antigos, com fórmulas mágicas que só os próprios conheciam. De braços erguidos, os sacerdotes evocavam vários deuses, apelando ao seu olhar e à sua ponderação. Acalmaram-se então e chamaram Runo, um robusto guerreiro, o qual, munido de um pesado martelo de pedra, se colocou em frente ao equídeo. Deram-lhe a ordem que aguardava e, movida a massa rochosa, o cavalo caiu sem estrebuchar. A morte fora imediata, sem tempo para sensação de sofrimento.

(continua)

 

Andarilhus

XIX : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:15
Quinta-feira , 14 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (51º episódio)

 

Os romanos cobriam várias dezenas de milhas todos os dias, imprimindo um ritmo de perseguição às jornadas. Assentavam com o ocaso e movimentavam-se logo que surgia a luz matinal. Pausas curtas durante os dias possibilitavam alguma recuperação do fôlego. Apesar de parcas e muito resumidas, as paragens serviam imediatamente para a tagarelice e para retomar o vício, latente e dilatadamente incutido, dos jogos e apostas.

Esta febre pela exposição à sorte e ao azar dava azo, por vezes, a pequenos atrasos provocados por zaragatas, rapidamente tratadas com punições duras e exemplares aos prevaricadores e desordeiros. As chibatadas, aplicadas no local e momento da ocorrência, obrigavam à delonga do corpo militar respectivo, o qual, por essa razão, era igualmente alvo de castigo colectivo, quando chegados ao poiso nocturno.

Porém as Legiões nunca adiavam o arranque por estes motivos menores e, tal como previsto, punham as caligae à estrada.

 

Quem já estava praticamente sobre Ribasdânia era Talauto e o grupo que liderava. Aproximavam-se por Sudoeste.

Ainda afastados do destino, começaram por encontrar um posto de atalaia avançado, designada por Jou. Daí em diante proliferavam as patrulhas das suas forças, com quem trocavam saudações, alegremente.

Um pouco mais à frente, numa arriba sobre campos de castanheiros, passaram por um povoado que distava apenas a um curto galope da fortaleza para onde se dirigiam. Ai depararam-se com a presença dos aliados Turdulos, Cónios e Turdetanos. Cerca de 3.000 guerreiros disponibilizados por estes povos do Sul, que reforçavam as defesas dos magros muros do lugar, deitando mão a todo o tipo de materiais que recolhiam.

Ficaram também a saber que, como não havia espaço em Ribasdânia para receber todos os povos ibéricos, Alépio optara por criar uma desmultiplicação dos efectivos, criando um sistema de defesa assente em vários redutos satélites e de apoio à praça-forte principal.

Quando ouviram os relatos da estratégia, Gurri sorriu com a genialidade do amigo brácaro: mesmo com parcos recursos e tempo, sabia sempre tirar o melhor proveito perante as situações com que era confrontado.

A paisagem era dominadora dos sentidos. Transição entre o planalto, quente e sufocante, cativo entre as barreiras de granito que buscavam os céus, e as encostas desses altares de vertigem e aura, progressivamente mais frias e mais despidas da exuberante vegetação que abundava nos sopés, a região apossava-se da atenção do mais distraído, do mais insensível ou do mais introvertido. Com a paleta de múltiplos estádios geológicos e intemperados génios climáticos, aquelas terras, tão extremas entre o quente e o frio, sempre beneficiaram dos favores dos deuses. Talvez fossem mesmo os jardins por eles muito apreciados. Por isso, bafejadas pelo sopro da fecundidade e da prosperidade, para Homens e outros seres, vegetais e animais. Naquele solo qualquer semente germinava; naquele solo qualquer minério emergia; naquele solo qualquer um ou qualquer coisa podia vingar e ter sucesso de vida.

Assim, deslumbrados, assomaram às portas de Ribasdânia. A imponência da obra vetã era comparável à omnipresença dos contrafortes do monte Padrelas, que servia de fundo a todo aquele grandioso cenário dominado pelo granito, e que furava as manchas verdes de árvores seculares e arbustos rasteiros.

A fortaleza era simples; somente o necessário para a função. Compunha-se de uma só cinta de muro, porém alto e com várias braçadas de largura, suficientes para resistirem longamente ao embate de projécteis enviados de catapultas. Possuía 3 portas, muito estreitas, nas quais só passavam ou um cavaleiro, à vez, ou dois indivíduos, lado a lado. A ladeá-las, e também espalhadas pela circunferência defensiva, um conjunto de torres reforçava a vigia. As pedras da cerca, visíveis, eram de grande volume e demonstravam um aparelhamento perfeito.

Entraram – aclamados pelos guardas – e confrontaram-se com um recinto muito bem organizado e dotado de arsenais e oficinas próprias para a guerra. Apresentava dois níveis, em socalco, aparecendo os maiores edifícios no mais elevado. No inferior, dispunha-se um grande espaço aberto e desocupado de grandes estruturas e, encostado à muralha, chusmas de lanças e amontoados diversos de pedras, aguardavam por força de braço para procurarem alvo.

Pelo topo do muro e pelo espaço interior, milhares de guerreiros ocupavam-se com tarefas diversas ou simplesmente conversavam e davam tempo ao ócio. Outros tantos ou mesmo mais deambulavam pela zona circundante exterior, concentrados em trabalhos, cujo objectivo não se percebia muito bem. Desde logo, tinham devastado todo o arvoredo da parte descendente da encosta, para Este, limpavam e estacavam profundamente no terreno, espaçadamente, alguns dos troncos tombados. Outros traziam ramagens espessas de silvados, giestas, espinheiros e tojos, acumulando-as junto dos troncos.

Os recém-chegados dispersaram pela área. Talauto e os companheiros mais próximos dirigiram-se ao ponto elevado do lugar, onde se situava a sede do comando. Ainda subiam quando, correndo em sentido contrário, pelo estreito trilho, reconheceram Alépio, que gesticulava e gritava palavras, que mal se escutavam ou percebiam, mas facilmente se observava que eram de júbilo. Não demorou a abraçar os amigos.

- “Finalmente, como ansiava a vossa chegada! Vejo que o engodo e a fuga foram um sucesso. Quero saber tudo sobre a forma como ludibriaram os romanos! É bom ver-vos. Venham, lá em cima há comida e bebida, para reporem as energias…

- “Calma Alépio, maior dos brácaros! Já te contaremos tudo: como o nosso líder conseguiu pasmar este velho vacceu, com a sua genialidade, e mais, como, depois de deixar 4 legiões para trás, ainda demos uns sopapos numa outra legião que andava oclusa pelo nosso território.”

- “Sim meu amigo, podes contar com Talauto por par nas tácticas e tramóias de guerra. Verás como também é inspirado pelos deuses da estratégia”. Disse Rubínia, para riso de todos.

- “Ainda passamos uns tempos complicados, sobretudo Rubínia e Zímio, mas partimos o toutiço aos romanos. Mas, adivinho que ainda ficarão em pior estado com o que tens aqui preparado para eles, hehehe!” Nova risada provocada pela intervenção de Tongídio.

- “Sim, sim, vou explicar-vos ao pormenor tudo aquilo que concebemos sobre a recepção e resistência ao invasor, em reunião de conselho com todos os povos. Por outro lado, as informações que tereis serão valiosas para afinar os planos. Vamos à casa do conselho, venham.”

Do alto do baluarte a vista era formidável. A Oeste, com derivação para Norte, o Padrelas crescia e desenhava o perfil da terra e do firmamento. Parecia intransponível; de Ribasdânia para cima o domínio do Homem terminava: para lá, nas alturas, abria-se o terreno sagrado da passagem do mundo conhecido para o mundo místico. A Este e a Sul, o inverso: o declive forte formava um dorso bravo, mas progressivo, de um relevo que parecia uma cascata de socalcos pejados de fragas e campos ondulados e que levava a um vale magnífico, ao fundo, contrastante, como se fosse um lago verdejante, harmonioso e regular, que se perdia de vista. Por aí qualquer um sonharia ter a sua fazenda, a sua casa, o seu senhorio; um vale de sonhados paços.

Sobre esse panorama, após os abraços e tantos afectos, os comentários e os risos, sentaram-se no exterior, em volta de uma grande mesa, talhada e formada por vários troncos afeiçoados de carvalho. Reunia-se o estado-maior das forças iberas.

O primeiro a dirigir-se à assembleia foi Talauto. Relatou os acontecimentos de Obila, as ocorrências de Freixieiro e o êxito e a refrega vitoriosa com o inimigo em Lijós. Alegrou e admirou os presentes com as descrições das manobras de fuga da capital vetã e resgate de Rubínia e Zimio; entristeceu-os porém, quando lhes deu notícia da captura e deporte das populações civis para Sagunto, levadas a cabo pelos romanos.

Talamo ficou inicialmente indignado com a atitude de Alúbias, mas logo entendeu o dilema com que se debatera. Inclusivamente, aproveitou para conduzir Pardo como seu representante e chefe de Freixieiro.

Talauto continuou: - “Julgo que teremos, no máximo, 3 dias até ficarmos enxameados de romanos. No tempo que nos resta até então, há que verificar e terminar o sistema defensivo e debater bem as tácticas que vamos adoptar. A tarefa apresenta-se deveras grandiosa e certamente ficará de memória para as próximas gerações. Presumo que iremos enfrentar mais de 20.000 legionários e ainda não sabemos ao certo o posicionamento dos arevacos. O nosso número de guerreiros deve ser consideravelmente menor…

- “Quanto a isso – e poderás verificar mais tarde – está tudo acautelado. Alépio é um poço de criatividade. Julgo que seria até capaz de engendrar um artifício que levasse os romanos a morderem a própria cauda.

Os povos aliados, de todos os pontos da Ibéria, enviaram contingentes, pequenos exércitos, de acordo com a sua disponibilidade e risco perante o invasor. Exactamente por esse motivo, o grosso das tropas é oriunda dos vetões, calaicos e lusitanos.

Agora já basta de me ouvirem. Como a maioria das ideias e a organização das forças são de autoria deste ilustre brácaro, sugiro que escutemos de sua voz o que já está pronto e o que ainda se prepara”. Adiantou-se o líder vetão, entusiasmado e dirigindo-se ao filho.

Alépio pediu aos ajudantes que aproximassem, sobre um pequeno carro de mão, uma larga pedra de lousa, aprumada na vertical por duas varas de salgueiro. Sobre a superfície lítica negra, bem polida, sobressaiam uns finos sulcos, gravados a cinzel, e destacados por pintura de ocre. Os que já conheciam o artefacto, sorriram; os restantes, aguardavam, intrigados, pela revelação da sua função.

Alépio centrou a ardósia face à assistência e começou a explicar:

- “Caros camaradas e amigos, este é o mapa desta região. Já tinha visto destas figurações entre os marinheiros de Cartago e fenícios. Chamam-lhes também cartas e usam-nas sobretudo para navegar, modelando as costas dos territórios que visitam. Eles têm os mapas representados em papiro ou pele exemplarmente curtida. Nós, por cá, não temos essas matérias nobres e porque precisamos de algo bem resistente, aplicamos a ideia à nossa condição: a pedra antiga.

Bati toda a área e apontei observações, depois apliquei-as em forma de desenho, ficando – como podem verificar – um modelo do relevo e principais características – caminhos, canais de água, bosques, potenciais pontos onde concentrar resistência, entre outros – do território, e que servirá para estudar e explicar a estratégia que devemos seguir, em conjunto, bem sincronizados.

Reparem – apontou - : aqui temos o Padrelas de fundo, a encosta a Este, o alto de Ribasdãnia e os diferentes cabeços em torno desta, os cursos de água e este tracejado são os trilhos que ligam os diferentes lugares e povoados. Conseguem visualizar a realidade a partir desta imagem?”

De uma maneira geral, estavam enquadrados no esquema proposto por Alépio. Então, este pegou num caco branco de uma matéria que, em consistência, parecia o barro e retomou a comunicação: -“Com este pedaço, aglomerado de cal e argila, vou mostrar-lhes a actual colocação das nossas hostes, aquela que julgo que irá ser a colocação, o avanço do inimigo e as medidas que proponho tomarmos para o repelir e para o vencer!

(continua)

 

Andarilhus

XIV : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 19:46
Segunda-feira , 11 de Julho DE 2011

Por Ti Seguirei... (50º episódio)

http://images.uncyc.org/pt/5/53/Legi%C3%A3o_Romana.jpg

 

Nessa noite descontraíram, comeram, dançaram, cantaram e tocaram instrumentos improvisados. Com o desgaste das últimas energias e alguns excessos na bebida, perdoáveis aos rudes e sofridos guerreiros, repousaram sossegados.

A aurora que se seguiu despertou-os para o dia e, novamente, para a grave conjuntura que lhes moldava a existência. A realidade impunha-se e, com ela, as obrigações de cada um e do conjunto para enfrentar as agruras e os obstáculos. Partiram para a etapa final que os levariam até ao centro geoestratégico da Ibéria, por aqueles tempos.

 

Do lado dos romanos, as tropas sobreviventes da contenda, mais calmas e já com alguma lucidez, orientadas por centuriões experimentados, começaram a reagrupar-se. Na orla salubre da floresta construíram um assentamento rudimentar, que serviria de base para a concentração dos legionários extraviados e onde aguardariam as legiões que se deslocavam do Sul e passariam em Lijós, necessariamente.

Os mortos, por motivo da sua quantidade e da falta de quem os inumasse – havia que tratar dos vivos -, continuaram em decomposição rápida das águas acras e estagnadas do pântano ou serviam de pasto a necrófagos. Entre eles, escolheram apenas os soldados com patente, a quem formalizaram sepulturas dignas.

A legião estava um destroço, com quase um terço de finados ou moribundos e outro terço ainda perdido e errante, dos quais alguns jamais regressariam, com receio de serem punidos por deserção. O oficial sobrevivente de categoria mais elevada era um tribuno, seguido de três centuriões. Desconheciam o paradeiro de outros dois centuriões. Todos os restantes superiores estavam enterrados, incluindo o General Octaviano Auris. Na desordem, perderam-se os carros com as provisões e outros pertences da logística, bem como a maioria dos cavalos.

Com as poucas montadas sobrantes, formaram grupos de busca dos companheiros desaparecidos. Os que permaneciam no reduto aplicavam-se em tarefas de limpeza, remendo e arranjo de vestuário, couraças e armas. Recuperavam também algumas tendas que entretanto apareceram presas a arbustos e rochas.

Pelo final desse dia, aumentava o efectivo militar com a incorporação de mais tresmalhados, surgindo também algum acréscimo de conforto com a apanha de lenha para iluminar e sustentar os trabalhos de cozinha. Com a caça garantiam aconchego aos estômagos. A possibilidade de ferver água constituiu-se igualmente numa grande vantagem para o sucesso do trabalho dos cirurgiões, nas amputações, suturas, desinfecção de feridas e até na produção de elixires e unguentos.

Restaurava-se assim, aos poucos, a disciplina e actividade regular militar.

Passados dois dias, chegaram por fim os primeiros efectivos das legiões provindas do cerco a Obila. Mais um par de dias após e toda a força romana na Ibéria estava semeada por Lijós e cercanias, numa extensão que se perdia de vista. Praticamente 5 legiões, num conjunto de cerca de 25.000 soldados. Faltavam apenas os aliados autóctones, arévacos, titos e belos, que se deslocavam desgarrados dos latinos.

Estabeleceram o quartel-general ocasional na cividade. Quintus Scipius, abalado por mais esta derrota e a perda de Octaviano Auris, da qual lhe acabavam de dar notícia, aproveitou para reunir os generais e outras patentes menores e debater o plano de ofensiva sobre os iberos.

- “Generais de Roma terminou a complacência, o erro e o facilitismo com as simulações teatrais do inimigo. Temo-los quase espremidos a um dos cantos da península, não os deixaremos escapar desta vez. Vamos esmagá-los!

Segundo as novas trazidas pelos espiões que enviamos, os bárbaros estão a entrincheirar-se numa fortaleza que denominam de Ribasdânia. O sítio é estratégico, fica numa encosta de montanha o que não permite a utilização de estruturas e armas de ataque, de aproximação à malha defensiva. Apenas faremos uso de catapultas e outras peças de arremesso massivo à distância. O resto terá de ser obtido pelo avanço e valor dos nossos homens. O ataque por Norte está fora de questão: obriga a galgar a montanha nas costas do adversário, o que resultaria na descoordenação das fileiras e à desorganização das unidades, devido ao terreno.

Finalmente, a outra solução será fazer um bloqueio de desgaste, obstruindo as entradas e saídas da fortaleza, esperando o definhar dos seus ocupantes e apostando na iniciativa de ataque deles ou na sua rendição. Quem de vós tiver opinião que a manifeste.

Ouviram-se umas impressões de rouquidão e tosse secas, enquanto se cruzavam os olhares. Ninguém quis colocar em questão a estratégia do Cônsul. Era arriscado demais. De qualquer forma, concordavam com o apresentado. Genericamente, eram os princípios empregues no exército romano, naquele tipo de circunstâncias.

- “Muito bem. Se a apreciação é tacitamente positiva, preparem-se para marchar já amanhã. É essencial alcançar o inimigo o mais depressa possível.”

Logo que se perceberam as primeiras luzes da manhã, o gigante latino colocou-se em movimento, parecendo a grande azáfama e ruído do mercado central de Roma. O número de homens era tão esmagador que foi necessário um grande trabalho de comando para os organizar e para os colocar em movimento, sem que se atropelassem uns sobre os outros. A disciplina e o treino militares ajustaram a interacção de milhares na perfeição.

Só pela entrada da tarde é que as derradeiras fileiras de legionários se juntavam à imensa coluna, despedindo-se de Lijós. Por essa altura o exército romano diluía-se pelo caminho do Norte como um longo rio de copiosas milhas latinas.

Quintus Scipius, no momento em que passou por um ponto alto do relevo, pode contemplar uma vista sobre as suas legiões, alongadas em exemplar ordem pelas planícies adjacentes, que jamais usufruíra. Desabafou então com os seus subalternos mais próximos: - “Quão grande é o poder de Roma! Conseguimos entrar em terras estranhas com tamanha força, capaz de moldar a paisagem, como o estilete criador de Júpiter. Este momento deve ficar registado para que todos conheçam a nossa grandeza.

Mandou chamar dois pedreiros das legiões e ordenou que cinzelassem um monólito de granito, que se destacava na borda do caminho, a jeito de coluna, e nele inscrevessem uma frase simples, mas marcante: “Omnia Vincit Populo Romano” – “O Povo Romano Vence Tudo”.

O mester foi rápido e logo chamou a atenção dos soldados que continuavam a passar. Logo se seguiram os comentários entre eles. Na depuração de várias opiniões, passaram a designar o lugar como o Alto do Populo Romano. Reforçava-se a moral das tropas. O ritmo fazia-se fluído, mas ainda demorariam uns dias para alcançar o alvo.

Por todo este tempo de viagem discorriam as conversas entre os legionários, os quais normalmente marchavam e acampavam numa ordem definida por categorias, ou de classe social ou de idades, formando corpos de infantaria e cavalaria, o que também facilitava o relacionamento inter-pessoal e a afinidade.

Graccus Negro, tribuno de um esquadrão de cavalaria, recordava a sua família que ficara na propriedade, uma villa localizada nas imediações da via que ligava a cidade de Roma ao porto de Ostia. Escutava-o Pôncio Mirtilio, outro patrício, numa das pausas reservadas para a refeição do meio do dia.

- “Pôncio, os meus filhos, Caio e Júlia, por esta hora, devem estar a fazer a maior das travessuras pelo triclínio, gotejando e engordurando os leitos, com as mãos besuntadas pelos alimentos, arreliando a mãe - a minha muito amada Pompeia - e alvoroçando os escravos. A mim também me conseguiam arreliar e castigava-os amiúde. Porém, pudera eu, neste momento, estar junto deles, e sorriria para a sua indisciplina; abraçava-os e afagava-os com toda a força… Já se passaram 21 meses desde que os deixei. De quando em vez consigo enviar uma tabuinha de cera e receber resposta. Vou tendo notícias esporádicas. É pouco…”

- “Compreendo-te camarada. Também sinto saudades dos meus muito estimados pais e irmãos… e de Armónia, a mulher por quem pedi esponsais a seus tios - seus tutores desde que ficou órfã. Não me responderam. O rico e poderoso Senador Marcus Sigilatus não se sentiu obrigado ou ferido na honra por não dirigir verbo a tal proponente: um simples magistrado menor, de família nobre, mas humilde. O exército foi a minha fuga à vergonha, à calúnia, que me acusava de ambicioso e calculista, e a forma de tentar enganar a tristeza. Respeito os meus pais, venero-os e recordo-os nas minhas orações, mas não tenho qualquer intento ou desejo de regressar ao Lácio. Se não for a morte que me aparte da pátria, que seja a vida, em qualquer outro lugar.”

- “Hum, não digas isso, Pôncio. Não alimentes um espírito vencido, sem visões para o advir. És como um frater. Prometo-te que, se superarmos com sucesso esta guerra, partirás comigo, serás convidado em minha casa pelo tempo que queiras e, entretanto, apresentar-te-ei a uma bela jovem – minha cunhada – de seu nome Metella. Conheço-vos bem a ambos e digo-o com toda a confiança: daríeis um excelente casal! Vá, agora come, que se faz tarde.”

Riram-se e concentraram-se nas conservas de peixe seco.

A expansão de Roma arrastava muitas histórias de vida, adiadas, interrompidas e cruzava-as com novas realidades, outras histórias, forjadas em outras cepas, em outras tradições, provocando, por vezes, o fundir de diversos saberes, o encaixe de antagónicas vontades, o aparecimento de novas culturas e sociedades, o refazer de inimizades e amores, a génese de renovadas histórias, de reanimados mundos.

(continua)

 

Andarilhus

XI : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 19:45

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