Terça-feira , 09 de Agosto DE 2011

Por Ti Seguirei... (59º episódio)

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Sem saberem da tragédia que se abatera sobre os seus camaradas, os esquadrões romanos mantinham a distância curta para a fugitiva cavalaria ibérica. Talauto e os seus, melhores conhecedores do território, conseguiam assegurar um espaço de permeio necessário e constante para não serem alcançados, mas sempre atentos para que o inimigo também não perdesse a peugada ou o interesse na perseguição.

As planuras da meseta que se abria nas cercanias de Montes Negros tremiam à passagem dos milhares de equídeos, denunciando a pressa e a crispação. O solo, duramente castigado, revolvia-se, desfazendo-se o equilíbrio natural, ao ponto dos lugares ficarem irreconhecíveis.

No decurso da correria, a vegetação bravia começou a dar lugar a outra realidade, marcada por um novo e progressivo mundo, onde se testemunhava a presença humana, na sua fecunda manifestação de criação. Particularmente naquele quinhão da península, extensos campos de castanheiros desenhavam a paisagem e acusavam uma das principais actividades de produção dos autóctones.

Por essa época do ciclo da vida, os castanheiros estavam já bem desenvolvidos, frondosos e com os ouriços a ultimar crescimento, tornando os soutos muito cerrados. Os perseguidos aproveitavam para atravessar os campos, desaparecendo e aparecendo à vista dos soldados latinos.

Surgiu então uma clareira entre dois pequenos outeiros afastados. Com o inimigo bem visível, os legionários atiçaram ainda mais as montadas para reduzir o intervalo que separava as duas forças… acelerando irremediavelmente para a emboscada.

Os topos das duas colinas coroaram-se de guerreiros, principalmente pelos famosos arqueiros cartagineses enviados por Aníbal. Uma descarga de flechas abateu-se sobre os cavaleiros romanos, completamente a descoberto e numa situação inferior, oferecendo-se como alvos fáceis. Tombaram bastantes à primeira bateria de projécteis.

Caídos, homens e animais acabavam por morrer sob o andamento alucinado da restante coluna militar. Os oficiais, assim que perceberam a cilada, em desespero, incitaram ao máximo os cavalos, dirigindo-se para a protecção de mais um dos muitos soutos da região. Aí, julgando-se a salvo, abrandaram e entranharam-se no lato bosque de castanheiros, determinados em reunir a hoste e decidir a continuação da operação; a cavalaria ibérica sumira-se e a alternativa, conjugada com o regresso ao centro do exército, poderia passar por uma incursão punitiva sobre os bandos de bárbaros que, atrás, acabavam de os atacar, deixando-os com sérias baixas.

Face ao terreno, organizaram-se na formatura possível e iniciaram a manobra de retorno. Acelerariam em investida para os cimos dos outeiros assim que saíssem para campo aberto. De fronte para o inimigo, não seriam miras tão fáceis para os arqueiros.

Os intentos saíram novamente gorados. Os peninsulares voltavam a perturbar os projectos dos romanos, reaparecendo na orla do souto com a sua cavalaria e patenteando ordem para combate, pela disposição das unidades numa extensa frente alinhada.

Predispostos para a batalha e mesmo ansiosos, estavam também os do Lácio. Da mesma forma que o adversário, cerraram fileiras alongadas.

Provavelmente, aqueles cães vão dar meia volta e fugir quando os tivermos quase ao alcance. Devem querer levar-nos para mais uma armadilha. Veremos a reacção que terão; desta vez não cairemos no logro. Avançar, em marcha de passo… para já!” Avalizou o tribuno, chefe em comandante, primeiro em tom baixo, para os mais próximos e depois em vozeirão alto, para se fazer ouvir entre os soldados.

Estendidos pelo campo de castanheiros, contornando-os, o exército romano progredia e ganhava confiança com análogo avanço da força oposta. Desta vez haveria confronto! De ambas as bandas, a passada estugava-se paulatinamente, até ser necessário um controlo mais autoritário para conter os rasgos individuais e manter a organização.

Já a galope, e praticamente em choque, Talauto fez soar a corneta, provocando uma divisão da hoste ibérica em duas metades, as quais se desviaram para o respectivo lado, imprimindo maior velocidade, para caíram em cima dos extremos da formação inimiga. A manobra provocou a desagregação das fileiras romanas, forçadas a acudir os camaradas atacados e a perseguir os celtas.

Com a desordem fomentada, a batalha decorria dispersa pelo souto, através de confrontos entre inúmeros grupos e muitas lutas isoladas. Apesar de significativa diferença de efectivos, penalizante para os nativos, estes conseguiam suster o primeiro embate dos adversários e persistir no combate. E não o faziam por acaso.

Absorvidos na peleja, a superioridade latina e consequente vislumbre de vitória destrambelhou-se e desapareceu quando, das ramagens dos castanheiros - como ouriços maduros e afiados -, começaram a saltar centenas de guerreiros ibéricos sobre os legionários.

Deslocados da guarnição de Montes Negros e ocultos no arvoredo, segundo os planos esquadrinhados na ardósia de Alépio, a comitiva de turdetanos, cónios e túrdulos rapidamente inverteu o equilíbrio de números e a tendência da batalha, que acabou por se tornar nefasta para as tropas de Quintus. Incrementando-se o poder dos opositores, que lhes pulavam para as garupas dos cavalos, lhes trespassavam couraças, tendões e artérias com punhais ou os tombavam das montadas, os do Lácio não suportaram ou conseguiam contrapor a múltiplos e diferentes golpes.

Tal como a maioria dos efectivos da cavalaria romana, da força conjunta de 5 legiões, Graccus Negro não lograria cumprir a promessa de apresentar a cunhada Metella ao seu camarada Pôncio Mirtilio… Menos de meio milhar de cavaleiros teve sucesso na fuga e regressou à base do exército, no vale, já com a tarde adiantada.

Com o ocaso, obscureciam também as perspectivas dos romanos. Quintus Scipius não perdia a ambição ou a certeza na vitória. Tal era inconcebível para a sua mente e personalidade. Todavia, já assumia também que para fazer dobrar a espinha aos bárbaros e conquistar a Ibéria iria custar muito caro em vidas de patrícios e em favores e justiça do Senado. Não previra resistência tão acérrima; aqueles rudes montanheses deveriam saber que estavam vencidos logo à partida: porque lutavam?!

No souto, e após limpeza dos moribundos (acudir aos camaradas e finar os inimigos) e recolha de despojos, um núcleo reduzido de guerreiros recolheu a Montes Negros, enquanto os restantes acompanharam o grupo montado do chefe vetão, formando assim um pequeno exército, de infantaria e cavalaria. Acamparam na floresta para passar o período nocturno.

 

A dada passagem dos socalcos que acumulavam o desnível até Ortas, Fábio Fúlvios assistira, à distância e amargurado, ao desafio inimigo e à subsequente grande desgraça que se abatera sobre as coortes de assalto enviadas pelo Cônsul, chegando a escutar os gritos sofridos dos que ficavam esmagados pela fúria destravada dos troncos. Parou então, indeciso de retornar ao vale ou prosseguir para a sua missão. Pelas suas contas, com Quintus, sem considerar os aliados, estariam agora o equivalente a duas Legiões, compostas praticamente somente de infantaria, com o grosso da cavalaria ausente (ainda não tinha conhecimento da derrota que também flagelara esse corpo do exército), o que poderia ser pouco se os iberos atacassem.

Aguardou e como não presenciou movimentos de Ribasdânia, fez-se ao caminho para Ortas. Ao seu dispor, tinha agora cerca de 6500 legionários, prontos para atacar o grande baluarte do inimigo. Acantonou para passar a noite. A campanha recomeçava com o alvorecer seguinte.

 

(continua)

 

Andarilhus

IX : XVIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:43
Sábado , 06 de Agosto DE 2011

Por Ti Seguirei... (58º episódio)

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Na manhã seguinte, em Ortas, os romanos recolhiam os mortos e faziam as exéquias possíveis. Tratavam de acomodar melhor os feridos e reorganizavam o interior da fortificação.

Fábio Fúlvios desceu ao vale, acompanhado de uma pequena escolta. Faria o relatório ao seu superior e pediria tropas auxiliares para continuar a campanha pelo dorso do Padrelas e a incursão sobre Ribasdânia, pelo flanco.

Quando chegou ao campo principal das suas forças, ouviu os relatos das ocorrências e, sendo um homem de princípios e de ética militar, sentiu-se enojado com os factos. Porém, era também disciplinado, tendo uma fé inabalável nas instituições e nas regras: respeitava e obedecia formal e absolutamente às hierarquias.

Quintus escutou com sofreguidão todos os pormenores que Fábio trazia acerca da escaramuça de Ortas. Revia-se na vitória e estava satisfeitíssimo com o subalterno. Quando a batalha terminasse, prometia distingui-lo magnificamente.

De tal modo, que foi com toda a naturalidade que destituiu o general de uma das Legiões – ganhando mais um inimigo tenaz – e a entregou a Tribuno triunfador.

Antes de regressares Fábio, quero que presencies como arrelio até à exaustão os malditos bárbaros. Vou sacrificar mais uns quantos bons escravos, só para os ver aos gritos lá em cima. Senta-te nesse lectus e goza a paisagem.

Tragam vinho e adiantem lá para a frente mais uma trintena de prisioneiros. Faremos como ontem!

Uma dúzia de cavaleiros dirigiu-se à retaguarda, próximo do assentamento dos arevacos, onde estavam agrilhoados algumas centenas de cativos, sobretudo vetões.

A diligência ficaria, no entanto, interrompida, com as mudanças que surgiram logo a seguir. Os iberos – vetões, lusitanos e calaicos -, a cavalo, saíram de muros e concentraram-se ao longo do caminho que levava ao vale. Cerca de dois milhares de cavaleiros, liderados por Talauto, apinhavam-se até quase metade da extensão da via. Mostravam intenções desafiantes.

Finalmente, eles saem! A postos! As “coortes” de impacto à frente, bem próximas da saída do trilho, seguidas das “coortes” mais ligeiras e manobráveis. Nas laterais e recuada, a cavalaria, o grosso aqui à esquerda e apenas 2 centúrias à direita. Vamos receber o primeiro confronto sem responder e, depois de os deixar emaranhar bem nas nossas unidades, abafamo-los com o cerco! Vamos, chegou o momento; que cada um cumpra a sua parte.” Gritava, excitado, o Cônsul para os oficiais.

E tu, Fábio, mexe-te célere lá para cima. Precisamos que pressiones os bárbaros, de outro ângulo. Entre dois fogos, acabamos com eles!

O Tribuno juntou-se à Legião que já havia iniciado a manobra de deslocação, seguindo a vereda ascensional, primeiro um pouco a Norte, para depois virar a marcha para Ortas.

Na verdade, os romanos reagiam precisamente como Alépio previra. Os iberos tinham uma lição completa, bem estudada, para aplicar ao inimigo.

O timbre das gaitas-de-foles ganhou o éter, cerimonioso e retumbante, de tonalidades agudas. Os guerreiros iniciaram cânticos de guerra e desataram a bater com as armas nas caetras. Os das muralhas acompanhavam. Talauto ergueu o braço e todos se calaram, ficando quedos, enquanto os cavalos, excitados pelo frenesim, relinchavam, erguiam-se nas patas e até se ferravam entre eles.

“Celtas, recordam-se da infâmia de ontem?! Não poupem nenhummmm!!!!!!!!!!!!!!”

Saltaram pedras no arranque dos milhares de cascos, ergueu-se densa poeira, por onde pouco se via, mas ouviam-se os gritos selváticos daquela gente que formava a onda de morte que descia a montanha numa rapidez alucinante.

Ao fundo do carreiro, a consciência de superioridade em efectivos não era suficiente para acalmar o intenso nervosismo dos legionários que preenchiam as primeiras linhas, as mesmas que susteriam o embate brutal daquela força destravada e fatal que se aproximava. Como mandava a experiência e a táctica, manobraram para as conhecidas disposições em “tartaruga”, por “manípulo”, protegendo-se atrás e sob os escudos, dando as pontas das lanças e pilluns ao adversário. Com os escudos bem fincados no solo e a eles encostados, amparavam-se também uns aos outros, em cadeia, para receber o impacto devastador que se agoirava. Os centuriões gritavam as ordens, obrigando à coesão e mantendo os homens concentrados e na sua função do conjunto, atentos a possíveis deserções.

Muito recuada, a cavalaria romana aguardava, algo relaxada. Só entraria em combate quando fosse o momento de rodear o inimigo.

A nuvem de pó ganhava cada vez mais velocidade e os gritos intensidade. Parecia a chegada de um furacão raivoso, ritmado pelo tremor do chão provocado pela corrida desembestada.

Quando já conseguiam mirar nos olhos, os legionários cerraram as formações, encolheram-se e esperaram pela violência e o caos do choque. O odor da tensão incitava os cavalos para o risco, sem contemplações instintivas de defesa, deixando-se conduzir directos às pontas afiadas das lâminas que reluziam no extremo das defesas romanas.

Deu-se então o golpe de mestre concebido por Alépio: como uma enxurrada repentina a passar entre as rochas mais altas dos ribeiros, a horda atacante dos iberos, em vez de se abater sobre a infantaria entrincheirada atrás dos escudos, passou-lhes ao lado, entre os corredores que separavam os “manípulos” das “coortes” da vanguarda, dirigiu-se como um vento, deliberado e ausente a distracções, na direcção da cavalaria contrária, cujos soldados foram apanhados desprevenidos e sem estar plenamente prontos para batalha.

Nos primeiros momentos do embate inesperado, os romanos tombaram em grande quantidade. Dir-se-ia que o primeiro golpe de cada celta da dianteira havia encontrado uma vítima. Após a surpresa inicial, os do Lácio contiveram melhor as investidas da passagem contínua da coluna ibérica, equilibrando os combates.

Para maior perplexidade dos estrangeiros, Talauto não deu meia volta para investir novamente sobre a cavalaria inimiga. Pelo contrário, seguiu em frente, levando a incursão para a retaguarda do exército romano, invadindo as zonas de logística e onde estava estabelecido o cárcere, já bem perto do acampamento dos arevacos.

A manobra deixou Quintus completamente desprovido de reacção, sem saber bem como contrapor ao adversário. Algo lento, acabou por concluiu que a razão de tão insólita acção apontava para a tentativa de libertação dos prisioneiros. Assanhou-se em despertar para a realidade, ordenando o contra-ataque da sua cavalaria.

Porém, outros motivos de preocupação apareciam, do alto da serrania. As portas de Ribasdânia expeliam mais uns milhares de guerreiros, a maioria apeados, desta vez. Pelo carreiro abaixo, chefiados por Tongídio, corriam em grande gritaria e arreganho.

A infantaria avançada romana que, face às ocorrências, saíra da formatura em “tartaruga” e estava mesmo algo desleixada a olhar para trás e a seguir a passagem indomável da cavalaria ibérica, sobressaltou-se com a nova avalancha mas, bem disciplinada, rapidamente se colocou em fileiras de contenção, às ordens dos centuriões.

O Cônsul, que tanto desejara a saída dos bárbaros, estava agora desvairado e quase rouco de tanto vociferar.

Entretanto, na outra ponta do campo, Talauto atacava os guardas que mantinham subjugados os seus compatriotas. Alguns dos cavaleiros aproveitaram para arremeter furiosamente sobre os traidores ibéricos, entrando ligeiramente no reduto dos titos. Foi nesse momento que se concretizou um dos eventos – premeditados - que marcariam o desfecho da guerra. Enquanto trucidavam os desorientados titos, semeando a confusão, com incêndios e destruição, cerca de uma dezena de guerreiros saltou dos cavalos, misturou-se e “desapareceu” na multidão tumultuada.

Já a enfrentar o contra-golpe da cavalaria inimiga, o caudilho vetão passou à fase seguinte do plano. Manteve o combate aceso durante algum tempo, depois, pegou na corneta e largou o sinal: logo que possível, os guerreiros libertaram-se do oponente directo e juntaram-se à fuga colectiva. Contudo, não tomaram como destino Ribasdânia; seguiram para Sudoeste, ao encontro dos termos de Montes Negros…

Sondado para que desse as ordens, Quintus Scipius, mais atento à nova investida dos bárbaros, deu indicações para que as unidades equestres perseguissem os cavaleiros ibéricos. Estavam em ligeira superioridade numérica, e poderiam assim, pelo menos, controlar aquela horda de selváticos e mantê-la afastada do teatro principal de operações. No entanto, esqueceu-se que ficava reduzido, mesmo que momentaneamente, a duas centúrias de cavalaria, as quais apartadas da força principal, se tinham conservado apenas em alerta e não haviam participado nos combates. Pouco importava porque o cuidado do Cônsul era agora a segunda vaga de ataque do inimigo.

Tongídio, à cabeça da torrente exaltada, levava em mãos um cajado com um capacete romano no topo. A menos de uma centena de passos do vale, estacou e ergueu o bastão, assinalando paragem. Os homens que liderava saíram do trilho e espalharam-se pelo monte, por toda a vertente Este de Ribasdânia. Uma vez mais, os legionários ficavam sem oponentes para combater. O desagrado provocado pela ansiedade, fundada na permanente perspectiva de combate e consequente adiamento, manifestava-se numa enervação galopante. A amargura começou a dar azo a alguma exaltação latente e exteriorizada, instigando-se mutuamente contra a humilhação e gozo protagonizados pelos bárbaros montanheses.

As chefias intermédias sentiram o controlo e a disciplina em perigo, a esvaírem-se. Comunicaram-no aos oficiais superiores.

Sintonizado com o espírito de raiva dos seus inferiores, Quintus ordenou o ataque a toda a extensão da força rebelde: “Subam o monte e deitem-nos cá abaixo!”

A princípio, ordenadas e coesas, as coortes dispuseram-se lado a lado para abarcar toda a encosta, na qual iniciaram a subida, a passo cadenciado pelos tambores de combate. Contudo, o bater dos tambores atrasou-se paulatinamente, face ao acelerar da passada anormal dos irados legionários. Em pouco tempo a organização e tradição do exército romano, construídos ao longo de séculos, indiciavam ruptura, transformando soldados profissionais numa multidão de rufias, sem ordem ou regra.

Apesar do esforço dos centuriões, dos decuriões e dos “optios”, 6.000 homens desvairados desmanchavam as formações, aqui e ali, até que desataram em correria, desalinhadamente, direitos aos odiados adversários.

Tongídio deixou-os arribar até meia centena de passos. Estando então já em adiantada ascensão a força que assaltava, o lusitano indicou a retirada.

Entusiasmaram-se os latinos, esquecendo o esforço da subida, para acelerarem e dispersarem ainda com mais furor. Queriam apanhá-los antes que transpusessem e fechassem as portas de Ribasdânia.

Sem o saberem, galgavam a montanha ao encontro de uma morte trágica…

Com os seus guerreiros a salvo, bem encostados aos muros da fortaleza, Alépio agitou o pano imaculado de linho e cumpriram-se de imediato as suas instruções. Homens escondidos ao longo da colina cortaram as amarras que retinham os pesados troncos de pinheiro, os mesmos que, aquando dos preparativos da batalha, haviam sido abatidos e acumulados na horizontal, paralelos ao declive, bem tapados pelos arbustos.

Com a encosta desbastada, plena de obliquidade, as centenas de madeiros, de perfil circular quase perfeito, ganharam rapidamente grande celeridade, precipitando-se a rebolar freneticamente, ao encontro dos romanos. A colisão deu-se quase instantaneamente: sem tempo ou espaço para evitarem a passagem dos duros troncos, a maioria dos legionários foi apanhada pelo deslizamento daqueles lenhos e de tudo o que entretanto arrastavam.

Uma grande quantidade dos atacantes pereceu no local, outros ficaram amputados e esmigalhados, agonizando numa morte lenta, escutando-se desesperados pedidos por um golpe de misericórdia. A hecatombe foi de tal proporção que alguns dos enormes troncos acabaram por ficar imobilizados antes de atingir o vale, travados pelas dezenas de cadáveres que amontoavam sob si. A vertente mostrava um aparato macabro: mortos, centenas de manchas de sangue, pedaços de corpos, pedaços de carne, roupa, armas e armaduras espalhavam-se copiosamente.

Cegos pela soberba e orgulhosos, os romanos perdiam, no tempo de tomar dois golos de vinho, 2.000 efectivos de uma só assentada e quase outros tantos nos dias seguintes, mercê das sequelas e ferimentos provocados.

(continua)

 

Andarilhus

VI : VIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 16:43
Quinta-feira , 04 de Agosto DE 2011

Por Ti Seguirei... (57º episódio)

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A bateria de descargas dos engenhos bélicos de Fábio Fúlvios era tão intensa que chegou a um ponto em que se esgotaram os dardos. Então, para improvisar e manter a pressão sobre o inimigo, deitaram mão a ramos e troncos de pequenas árvores, com as dimensões adequadas, afiaram-nos num dos extremos e queimaram-nos ligeiramente em fogueira branda. Produziram assim chuços, para utilizarem como objectos de arremesso.

Entre os iberos procuravam-se todos os meios para protecção do ataque aéreo inimigo. Uns cavavam buracos nas barrondas de saibro, outros erguiam pequenos muretes de pedra e, a maioria, mantinha-se sempre a coberto da muralha. Os mais audazes, que se deslocavam em campo aberto, expunham-se a ficar violentamente varados pelas estacas voadoras de madeira ou com os ossos amassados pelo choque de pedradas de grande volume. A constância destas casualidades era grande e muitos caíram por semelhantes ferimentos.

A situação mantinha-se num impasse. O Tribuno alterou então um pouco a táctica. Após estudar meticulosamente a fortaleza, deu indicação para que as catapultas concentrassem a acção num segmento da muralha que se mostrava mais frágil (zona onde existira uma porta; agora emparedada por rochas mais miúdas), sobretudo com um aparelho que demorara mais tempo a montar: uma catapulta de maiores proporções. O objectivo era abrir brecha com a colisão de grandes seixos contra o aparelhamento ciclópico. Das posições que haviam alcançado, o efeito das máquinas balísticas era poderoso, apesar da imponência dos muros que atingiam. Os da península não haviam contado com a possibilidade dos romanos arribarem tão próximo com tamanho poder de devastação.

Desprevenidos, os defensores que se abrigavam junto ao local apontado para abrir rombo foram apanhados pela ruína das pedras em grande quantidade. A largura da barricada lítica atrasava uma queda definitiva da secção mas não impedia a sua crescente fragilidade e decadência.

Fábio sabia que não poderia deixar chegar a Lua sem que aproveitasse a ruptura já provocado nas defesas. O inimigo, na escuridão da noite, certamente que reconstruiria o pano fendido. Sem descanso, continuaram a fustigar a posição alvejada, alargando progressivamente o buraco, que crescia de cima para baixo.

Os de dentro nada podiam fazer, sob pena de sofrem perdas maiores. Comunicaram à distância com Ribasdânia, acusando o risco da iminente entrada dos romanos em Ortas e pedindo reforços.

Com a tarde já bem adiantada e os dois terços superiores daquela faixa da muralha derribados, as armas calaram-se. Fez-se um silêncio assustador. A cadência ritmada dos estrondos das pedras desaparecera e deixava um ambiente de mistério, de interrogação aos iberos. “O que se passará? Será que os cães desistiram? Ou ficaram sem projécteis?” Começaram a erguer-se dos esconderijos, a alçar os pescoços e a espreitar para fora.

E o que viram arrepiou-os: os legionários alinhados numa coluna de fileiras sucessivas de 6 elementos, que se perdiam de vista para os lados dos Pentões, mantinham-se quietos, mas em formatura de ataque. Ao lado das primeiras linhas, um conjunto de homens – talvez uma centúria completa, segurava uma longa e pesada plataforma de madeira. Atrás destes, mais cinco coortes permaneciam em formação tradicional.

No interior do reduto, alguém teve enfim a visão do que ia acontecer e gritou bem alto: - “Às armas que eles vão tentar passar pela falha na muralha! Acudamos todos ao local; concentremos lá as nossas forças!

E de facto, após ordem do comandante, os corneteiros da Legião deram o sinal sonoro esperado. Rapidamente os que carregavam a plataforma de madeira movimentaram-se em passo leve, colocando-a como uma rampa que levava topo da secção diminuída da muralha. O manejo oposto das fundas e lanças causou forte redução dos efectivos que garantiam a acção de sapador.

Ainda mal colocada em posição e já os legionários galgavam a rampa, iniciando novo assalto. Umas após outras, as fiadas de latinos abeiravam-se dos adversários, encarando-os de perto. Reiniciaram-se os combates corpo a corpo e ressoaram novamente os tinires das armas. Das laterais, os iberos faziam chover pedras e dardos sobre os inimigos que se encontravam na boca da invasão. Uma grande multidão de indivíduos apertava-se naquele estreito ponto, acumulando-se os abatidos, cujos corpos eram desgraçadamente profanados por espezinhamento, perdendo mesmo as formas humanas, despedaçados e inchados.

Apesar de alguns momentos em que os romanos conseguiam avançar para o interior da fortificação - para serem, com maior ou menor dificuldade, rechaçados -, os iberos mantinham as posições iniciais ainda em sua posse.

Porém, o tribuno tinha ainda outro dado para jogar: as coortes que se mantinham em formatura. Pleno de astúcia e excelente estratega, Fábio Fúlvius conservava uma reserva de tropas, para fazer avançar subitamente quando o inimigo estivesse distraído e completamente envolvido noutras prioridades.

Assim que o combate se tornou mais encarniçado, as unidades que aguardavam investiram sobre as muralhas, numa zona afastada da contenda que concentrava o grosso das forças, procurando transpô-las com recurso a escadas. A resistência dos iberos foi muito débil, mercê da falta de efectivos.

Sem grandes sobressaltos, a quase totalidade das 5 coortes entrou em Ortas, convergindo na direcção dos camaradas que forçavam a entrada no local inicial do ataque, flanqueando, deste modo, o inimigo. Pressionados de dois lados, após momentos intensos de combate, os iberos não tiveram outra alternativa que não fosse retrair-se e buscar protecção junto dos muros de Sul, evitando a manobra de cerco que os romanos procuravam levar a cabo.

O crepúsculo anunciava-se a passos largos. O cenário estava igualmente turvo para as hostes locais. Perdida uma parte significativa dos guerreiros, os iberos eram agora um magote bastante reduzido de homens, encurralados contra os muros, angustiados nas suas perspectivas, e que se viam confrontados com uma massa de legionários, sedentos por concretizar a vitória, altamente motivados e pouco interessados em fazer prisioneiros.

Virar as costas aos oponentes e ensaiar a fuga pela saída próxima não era solução: a perseguição acabaria com o que restava dos cantábricos, vascões e astures. Os portões estavam abertos mas, apesar da tensão e ansiedade, não houve tolo que para ela corresse. Os celtas montanheses estavam determinados a morrer e a vender caro cada singular sopro de vida. Mantiveram-se aprumados e coesos. E foi o que os salvou, ou pelo menos, foi o que salvou a maioria deles.

Reunidos e reorganizados no interior do baluarte, os romanos preparavam-se para a estocada final. Soou novamente o toque de trompa. Retomaram o movimento, com passada lenta, avançando com os escudos ostensivamente à frente e os pilluns e gládios prontos para a função.

As circunstâncias revelavam que a noite iria cair definitivamente para muitos. Ouviam-se promessas e preces aos deuses, entre alguns gritos de desespero, vozes de despedida a presentes e ausentes. Inusitadamente, o conformismo à certeza de um desfecho previsto caiu e revigorou-se o moral celta, com o aparecimento de reforços - um grupo alargado de várias centenas de cavaleiros, liderados por Gurri - que arremeteram sobre a formatura inimiga, pretendendo desbaratá-los.

Logo aos primeiros confrontos do contra-ataque, verificou-se que, com aqueles parcos efectivos e quase com o Sol sobre o leito do horizonte, já não conseguiriam inverter a situação e fazer capitular os do Lácio. Gurri determinou a retirada, ficando a cavalaria a aguentar a pressão do combate, até que os peões se pusessem a salvo. Esta fuga apoiada permitiu que muitos guerreiros fossem poupados, para continuar a luta, noutro dia, noutra fase da guerra.

Os romanos estavam vencedores, mas praticamente reduzidos a dois milhares de soldados. Pago desta forma o esforço de conquista, restava agora ao Tribuno entrincheirar-se no sítio fortificado e pedir mais legionários, para posterior avanço sobre Ribasdânia.

No pólo central da ameaça romana, Quintus Scipius, tentara novas manobras que provocassem o contra-ataque ibérico. Porém, nada surtia o efeito pretendido. Antes pelo contrário, todas as iniciativas tinham redundado apenas na morte de mais umas centenas de legionários. Passara o dia a enviar tropas para a chacina.

Em mais um acto de crueldade desnecessária, que chocava os próprios compatriotas, ordenou a presença de meia centena de cativos (os mesmos que haviam sido capturados em Freixieiro, entre outros, e cujo envio para Sagunto fora, entretanto, adiado), colocou-os bem junto ao sopé do morro que suportava Ribasdânia. De seguida, posicionou um soldado nas costas de cada um dos prisioneiros. Com o aparato pronto, gritou bem alto, para as silenciosas multidões – acima e no vale - que assistiam à cena e não estavam a compreender o motivo da mesma: -“Como os covardes não saem do refúgio onde se acoitam, vou mostrar-lhes que o sangue, que tanto escondem e receiam perder, será pago por outros que não têm sequer a capacidade de lutar. Estes aqui serão os primeiros, mas, ao ritmo da ampulheta, serão massacrados novos grupos destes reles cativos, até ao último, enquanto, não saírem daí de cima e se renderem! Legionários ao meu sinal, cumpram a execução!

Talauto, Pardo, Mauri e outros vetões, que até reconheciam alguns dos que Quintus marcava de morte, bem como todos os que, incrédulos, fitavam atónitos, na perspectiva do que iria acontecer. Alépio reagiu imediatamente, mandando preparar a cavalaria para um ataque. Porém, o Cônsul, fanático, não perdeu tempo: -“Agoooraaa!!!”

Naquele instante, os que observavam sentiram no íntimo, de algum modo, as lâminas dos gládios com que os soldados trespassavam as vítimas, vazando-os acima da zona da cintura. Escolhidos indiscriminadamente, como exigira Quintus, anciãos, jovens, mulheres e crianças tombavam em dor e golfadas de vida, perante os olhos húmidos dos iberos, alguns deles familiares ou vizinhos…

Nas muralhas, agonizavam de raiva, arrancavam porções de cabelo e auto-infligiam-se de golpes, tamanha era a fúria contra o carniceiro. Tongídio encarou Alépio: -”Dá as ordens certas Alépio! Há que vingar os nossos conterrâneos e acabar com estas feras imorais. Não podemos deixar que execute impunemente mais mártires. Temos de os enfrentar! Dá as ordens certas ou perdes o controlo sobre os teus guerreiros…

-“Sim, para destruir este discípulo do mal, temos de tomar a iniciativa. Reúnam-se na sala do Conselho, vou explicar o que vamos fazer.”

Já era tarde, Quintus deu instruções para prepararem o campo, zelando pela segurança e vigília nocturna.

(continua)

 

Andarilhus

IV : VIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:41
Terça-feira , 02 de Agosto DE 2011

Por Ti Seguirei... (56º episódio)

 

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Sob os Pentões e ocultos na mata que antecedia a encosta rapada, o Tribuno transmitiu os seus planos. Ordenou aos legionários que se privassem de todo o peso excedentário e subissem a ladeira gradualmente, em diagonal, em fila apertada, aos pares, protegidos pela colocação dos escudos ao alto e próximos uns dos outros, a jeito de cobertura.

Desde o início que a acção assumiu um ritmo quase de cortejo fúnebre, penoso, não apenas pelas dificuldades naturais do terreno, como também pela queda de blocos de granito e outras matérias, enviados pelos defensores, que, por vezes, eram de tal peso que rompiam com a formatura de ataque, atirando com uns quantos infelizes montanha abaixo. No entanto, logo os legionários se posicionavam para recompor a longa coluna humana e fechar os pontos fragilizados, continuando a avançar.

Os cerca de dois mil romanos empenhados na ofensiva agonizante criavam uma corrente contínua de elos entre a base e o cimo do monte, até junto à barreira de grandes fragas. Assim colocados no extenso e acanhado socalco repisado e sempre em exposição aos arremessos superiores, faziam correr de mão em mão, os instrumentos de assalto, sobretudo escadas e ganchos cordoados.

Quando já com os apetrechos necessários e prontos nos locais escolhidos para transporem o último obstáculo, soou o sinal de investida directa ao reduto. Desceram os escudos abaixo dos ombros, surgindo então algumas dezenas de escadas que se apressaram a fincar bem no solo e a atirá-las contra as rochas da muralha, enquanto outros, balanceando em círculos, atiravam ganchos de fixação para lá das pedras do topo. Uma dezena de passadas a um nível inferior, em esforço de equilíbrio na vertente, uma centúria de arqueiros disparava ininterruptamente para os limites do refúgio celta, contrariando as tentativas dos defensores para cortarem as cordas dos ganchos ou para balancearem e despenharem as escadas no abismo em frente.

O envio constante de flechas provocava já bastantes estragos entre os iberos que se martirizavam para reprimir a entrada do inimigo. Verificando que não conseguiriam conter por muito tempo os copiosos legionários, accionaram-se os sinais de fumo a pedir auxílio.

A breve trecho, começaram a saltar os primeiros soldados latinos para dentro do recinto, passando a luta para o domínio da espada, do machado e da lança. O pequeno contingente de vascões e cantábricos conseguiram segurar e até afastar os romanos nos primeiros momentos da invasão, contudo a entrada constante de mais inimigos obrigou-os a recuar continuadamente na direcção do local previsto para eventual fuga, perdendo o ensejo de provocar a ruína das grandes pedras que integravam o muro defensivo, sobre as posições do adversário.

Inesperadamente, os romanos mostravam-se tão lestos a conquistar o sítio que, mesmo apeados, dificultavam a evasão dos iberos, não lhes dando margem de manobra para se aproximarem dos cavalos e partir. Só a pronta chegada e carga da cavalaria dos vacceus de Gurri permitiu suster o ímpeto do inimigo e salvar os guerreiros sobrantes da guarnição de Pentões.

Os do Lácio não perderam tempo. Aberta aquela porta, afeiçoaram o terreno para a passagem dos equídeos àquele patamar um pouco mais elevado do Padrelas. Agora, a um nível da montanha similar, Fábio Fúlvius apontava ao baluarte de Ortas, novamente.

 

No cenário central da batalha, Quintus Scipius, seguindo uma das sugestões dos engenheiros militares, mandou construir um aríete montado sobre uma plataforma provida de 4 eixos de rodados, sobre a qual o tronco maciço com ponta de bronze balouçava, pendurado em 2 eixos laterais, fixos à estrutura que também suportava uma espécie de cobertura em vértice de duas águas, que protegia a arma. No conjunto, o aparelho de assalto parecia uma choupana. As 8 rodas significavam mais peso mas facilitavam a sua tracção pelo trilho, o qual corria paralelo e sob do pano de muralhas mais longo de Ribasdânia, fazendo o desnível do outeiro para o planalto que a fortaleza confrontava.

A iniciativa de ataque começou por contar com cavalos a arrastar o pesado arsenal, porém os de cima abateram-nos assim que ficaram ao alcance. Daí em diante, os próprios legionários, uns à frente a puxar através de cordas e outros à retaguarda a empurrar, serviram de força motriz. Apesar de se protegerem com os escudos, as baixas somavam-se a cada passada.

Atrás do aríete posicionavam-se os legionários para a investida, formando uma dilatada coluna, na expectativa de pancada que demolisse as pranchas da entrada da cidadela. Embora à custa de muitos mortos entre os atacantes, amontoados em volta do aríete, a arma foi colocada o suficiente cerca da porta para cumprir a sua função. Quando já recuavam o pesado cepo no eixo para o largar e abalroar tábuas e trancas, do cimo da muralha largaram uma substância líquida e gordurosa a ferver, que embebeu máquina e operadores. Os legionários atingidos pelo fluído gritaram aflitos pela dor das queimaduras, ficando esfacelados e com o corpo em erupção, em farrapos de pele. Rebolavam-se, espolinhavam-se no chão, sôfregos de fresco, de panaceias que minorassem o calor, o incêndio que os consumia. Em desespero, vários atiraram-se para os barrancos da montanha. Mas o golpe não ficaria por ali.

De seguida, os sitiados, com o arremesso de umas quantas tochas, vivas de lume, acenderam o carro de assalto molhado de combustível seboso, ardendo rapidamente o aríete e o plano ofensivo. Sem meios para continuarem o assalto, os romanos retiraram para o vale, sempre fustigados pelos projécteis que pareciam provenientes do céu. Muitos homens ficaram jazentes no caminho da fortificação castreja.

Quintus estava possesso, empurrava e batia nos que se colocavam ao alcance do punho. Acalmou um pouco assim que soube dos progressos de Fábio.

- “Finalmente uma boa notícia; Finalmente um oficial competente! E vós? Não há maneira de arquitectarem um esquema que force aqueles malditos bárbaros a saírem deste calhau gigantesco e os traga à batalha, aqui, em solo plano?! Raios, tenho de ser eu a tratar de tudo…

Dentro de Ribasdânia crescia a facção que daria esse gosto ao Cônsul. Intrépidos, aguardavam o momento em que pudessem correr montanha abaixo, como se fossem mensageiros da morte, sobre os invasores. Só com grande controlo das chefias é que se mantinham ainda na protecção dos muros, embora considerassem isso um comportamento pouco próprio para um guerreiro. Tongídio servia de porta-voz deste grupo.

- “Calma Tongídio e todos vós com ganas de “voar”. Cairemos sobre o inimigo como uma praga de dor, mas ainda não. Ainda não é tempo: os romanos têm de ficar mais maduros, para os colhermos pela rama. Antes de sairmos definitivamente de portas, eles virão cá acima novamente convidar-nos para a festa, e pagarão bem caro por isso!” Recomendava Alépio aos elementos mais instáveis.

O líder ibero estava mais preocupado com as ocorrências a Norte e na defesa de Ortas.

No dia seguinte, o bastião mais ameaçado tinha por vizinhos as tropas de Fábio Fúlvius. Em frente à muralha Norte, os legionários ocupavam cada pequena porção de terreno passível de estribar um ser humano. Pela direita estavam limitados e encostados à parede aprumada do Padrelas, e a Este confrontavam os precipícios para o vale e para as suas antigas posições, na anterior tentativa de tomar Ortas. O espaço era reduzido, mas permitia as manobras de umas centenas de soldados, desde que bem organizados.

Providos de ferramentas e peças, passaram a primeira metade do dia a montar duas dezenas de balistas e algumas catapultas. Pela tardinha, já despediam dardos e pedras sobre os iberos e terminavam a disposição da logística de cerco. A táctica do Tribuno baseava-se no enfraquecimento das forças de oposição, através da pressão psicológica constante, com o envio sistemático – mesmo durante a noite - de objectos mortíferos para o interior da fortificação, procurando desgastá-las ao ponto de lhes provocar o extremo da resistência mental e, daí, o erro… eventualmente a sortida de contra-ataque.

Na manhã seguinte, e ainda com as cordas e tendões quentes da actividade permanente das máquinas de guerra, os legionários iniciaram o assalto às muralhas.

No reduto, os quase 3000 iberos, algo encafuados num local muito exíguo para tanta gente, não tinham abrigos suficientes para todos, que os protegesse dos arremessos latinos. A contagem de mortos e feridos avolumava-se. O cansaço apossara-se dos guerreiros, dado o estado de alerta ininterrupto.

Apesar das circunstâncias, desta vez o número alargado dos defensores deu réplica suficiente à investida romana. À distância, os fundibulários equilibravam um pouco os danos causados pelas catapultas e, já no topo dos muros, as lanças e as falcatas cortavam os degraus nas escadas de ambição dos legionários. O tinir do metal replicava-se numa alargada extensão, misturada por gritos de raiva e ódio, estrebuchares de dor e alguns soluços de despedida. Os corpos de mutilados e mortos tombavam em grande cadência para ambos os lados da muralha, tingindo de sangue as pedras e os companheiros ainda activos, e que se acumulava em poças no correr da barreira que concentrava e separava ainda os oponentes.

Com grande esforço e pesadas perdas, os iberos lograram finalmente conter a poderosa acção do inimigo. Contudo, não granjearam tempo para descansar. Imediatamente ao insucesso da invasão, Fábio deu ordens para se retomarem os ataques com dardos e pedras. Recomeçava assim a ansiedade com a ameaça vinda dos ares para os ocupantes de Ortas. Deram conhecimento da situação a Alépio.

Entre os romanos, a ofensiva resultara numa razia das forças destacadas para a frente da batalha. Mais de mil mortos pesavam na decisão do Tribuno. A legião que assumira já a recebera diminuída pela derrota em Lijós. Com os parecidos agora, ficava com um corpo militar equivalente a menos de meia Legião. Sabia que para pedir reforços, estava obrigado a apresentar resultados que justificassem a passagem de mais efectivos para o seu comando. Era imprescindível arrasar com Ortas o mais rápido possível!

(continua)

 

Andarilhus

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