Quarta-feira , 12 de Outubro DE 2011

Por Ti Seguirei... (Epílogo)

http://flawegmann.files.wordpress.com/2010/07/celta1.jpg?w=396&h=628

 

A hora era já derradeira na claridade. No horizonte, numa repetição a que recuperara o hábito, a vigília introspectiva propagava-se pelo acolhimento do crepúsculo. O tombar do Sol amadurecia por mais um dia a reflexão sobre o passado recente, o momento presente e a perspectiva do advir.

Rubínia, lá bem no topo do promontório que definia o centro do povoado, olhava, como tanto gostava, para a entrada Este, bem demarcada no terceiro e mais exterior anel do sistema amuralhado de pedra ciclópica. Todos os dias, dentro do possível, ali galgava, fintando as fragas cascudas e algumas giestas que irrompiam intempestivas por entre o solo e a pedra. Movia-a o encontro e a carícia da brisa, como voz, como toque de outras dimensões; desejava expor-se aos sinais, à inspiração dos deuses, que lhe oferecessem a ponderação de equilíbrio necessária para alcançar algumas respostas, algumas certezas, sobre a sua condição, a sua vida.

 

Quando já se viam os primeiros fumos a libertarem-se por entre o colmo dos telhados das típicas casas de planta redonda e a noite começava a sugar a luz natural, teve ainda tempo de recordar o instante em que colocou Tongídio, desajeitado, de joelhos sob a ombreira do templo maior de Panoia.

A inusitada circunstância ocorrera quando, alguns dias depois de regressarem a Tanábriga, impondo-se o agradecimento das dádivas, conselhos e protecção recebidos de Trebaruna e de outras divindades, decidiram visitar o Santuário de Panoia e realizar as suas preces e ofertas.

Foi o momento que considerou oportuno. Assim que entraram no recinto sagrado e foram, primeiramente - como manda o ordenamento ritual -, prestar os seus respeitos ao concílio dos deuses, no Templo Central, logo à entrada, sob o olhar granítico e fulminante do atento Reva Marana, estacou, deteve o avanço de Tongídio, segurando-lhe as mãos e disse-lhe, então: “Meu querido, acertaste quando contrariaste o teu desejo de fazer parte da delegação que partiu para Roma. Sabe que é agora que eu preciso mais de ti. E não sou só eu. Há mais alguém que, apesar de eu o suspeitar há já algum tempo, só se revelou logo que arribamos ao nosso povoado. Tenho agora a certeza que fomos abençoados com o dom da concepção; vamos ser pais…

Não contava com reacção negativa de Tongídio, porém sabia que um rebento seria, de todo o modo, um factor que tolheria a constante ânsia de aventura, a liberdade de movimento do enérgico marido. As lágrimas precipitaram-se, ainda em dúvida se estaria a dar uma boa ou inoportuna notícia ao companheiro.

Tongídio desceu um degrau, carregado nas feições, mas com os olhos esbugalhados. Nada disse, prostrou-se de joelhos, afagou e beijou repetidamente a fecunda barriga, abraçou-a pela cintura e ali ficaram em feliz contentamento, até que tiveram de dar passagem a outros acólitos. As lágrimas de Rubínia engrossaram, agora de alegria e certeza.

Visitaram Trebaruna, no mesmo lúgubre espaço entre altas fragas e tapado com a manta desbotada de sempre, onde se haviam conhecido. Dedicaram à divindade. A mulher relembrou particularmente a intervenção da deidade quando muito padecia em Pallenda.

Esse episódio puxava por tantos outros, como imagens que saltavam à consciência e até arrepiavam o corpo, de vivências e sobrevivências tenazmente vencidas para cumprir aquilo que a havia impelido numa demanda, que a princípio, pensava então, seria breve e circunscrita, mas que acabou por a levar a deambular por boa parte da Ibéria e a impelir a própria Ibéria para os desafios do seu futuro. Recuperara Tongídio e ajudara a libertar a sua amada terra do jugo e da exploração do soberbo inimigo.

 

Sim, podia afirmar que viviam agora tempos em que tudo estava na ordem de acontecimento e de lugar. Em breve a delegação estaria de regresso, certamente com excelentes notícias e tinha assim mais do que garantida a presença do marido a seu lado, concentrado na família e nos negócios.

Recordava-se, também, como há dias, quando entravam finalmente em casa, após tão longa ausência, tudo parecia igual mas, também, absolutamente diferente. Crescera com as experiências somadas. Sentia-se de volta ao reduto, ao casulo da crisálida, embora sentisse que já havia ganho as asas de borboleta e o ferrão da abelha, que lhe permitiram superar as distâncias da dificuldade e a agressividade das adversidades.

 

No alto do promontório de Tanábriga, Rubínia olhava para a porta Leste e esperava… desta vez, não só por Tongídio, mas também pelas sempre acalentadas lembranças da sua aventura e o consequente restabelecimento do quotidiano.

Se fosse menina, chamaria “Bolota” à criança que trazia no ventre, em honra da sua amiga, ou “Tongidínio”, se fosse varão, para seguir a tradição do seu clã.

Ainda não o sabia, porém, chegado o momento, nasceria Tongidínio, entre estações, no permeio do maduro renovo e do precoce estio, o qual, por sua vez, entre os seus filhos, conceberia uma menina de nome “Rubea”. Esta neta de Rubínia, atingida a idade de matrimónio, desposaria um tal de “Cumínio”, natural de terras mais a Sul, com quem formaria a família progenitora do mais ilustre Lusitano que a Ibéria conheceria. Dar-lhe-iam o nome de “Viriato”.

 

Após um curto repouso e já entediado com a vida demasiadamente confortável de casa, Tongídio partira com o sogro, por um curto período, guiando uma caravana mercante para os povos do Norte. Fruto dos novos conhecimentos, inauguravam uma nova rota comercial com destino aos domínios Vacceus. Levavam uma grande variedade de artigos para escambo pelos metais nobres, armas e gado equídeo, de tão boa qualidade, como só Gurri e os seus conterrâneos sabiam produzir.

Para o Lusitano tratava-se, sobretudo, de mais uma oportunidade para viajar e visitar os amigos. Porém, quando lá chegou, os nativos deram-lhe conta da ausência de Gurri e dos seus guerreiros mais próximos. Abalara para território Arevaco. Primeiro a Numântia, cumprindo a promessa dada a Irineu e depois a Pallende, para visitar familiares e também Bolota.

Tongídio deu atenção ao trato comercial. Deslocou-se a várias povoações, onde foi sempre bem recebido e logo reconhecido pelas tatuagens azuis, que o associavam às narrativas, já difusas e célebres, das recentes façanhas.

Quando de volta, Gurri encontrou Tongídio já a preparar a viagem de retorno a Tanábriga. Pediu-lhe apenas um dia de espera, para acertar alguns assuntos domésticos e militares, para depois partir com a caravana para Ocidente, e matar saudades de Rubínia e outros. Estavam muito satisfeitos pelo reencontro, mas também algo apreensivos com as notícias confusas sobre a delegação ibera, recolhidas entre os Arevacos.

 

A penumbra abafava os sons e os brilhos do dia, com a paciência pausada de tudo adormecer em embalo suave, decidido. Sentia-se o frio montado num vento irreverente que fizera correr a brisa tépida para longe. Rubínia cerrava o manto de lã, erguendo-se da fraga que lhe servira de assento para volver ao convívio com familiares e vizinhos. A mãe ficara com ela, enquanto Físias se ausentava com o genro. Já teria o fogo aceso e o pote de ferro a aquecer, prestos para preparação da refeição nocturna e agasalho.

No alto do promontório de Tanábriga, Rubínia olhava para a porta Leste e despedia-se do seu fado, das suas viagens, dos seus sonhos, com um “Até amanhã…”, sussurrado. Deu o primeiro passo descendente, porém sentiu uma enorme ânsia de lançar um derradeiro olhar para a porta do destino. Focou o olhar: uma correria de cavaleiros, ainda tão distante que não se lograva qualquer som - apenas se avistava -, apontava à entrada na cidadela. Quem seriam? Teve um esgar de pronuncio, de sensação de inesperadas notícias que voltariam a revolver a sua vida… Seria?!

Apesar do anoitecer, com a aproximação, reconheceu facilmente o marido, e os restantes… Sim! Aquelas figuras compactas, com cabeleiras longas muito claras, quase albinas sob as tonalidades do ocaso, só poderiam ser Vacceus, e o de diante parecia mesmo Gurri. Sim, também confirmava a presença daquele. O que se estaria a passar? Para quê a pressa?! Desceu o mais rapidamente possível. Como Alépio outrora, eles dirigiam-se para a Casa do Conselho.

 

Aegídio já conversava com os elementos recém-chegados, formados em semicírculo.

Rubínia! Rubínia! Que bom ver-te.” Disse Gurri, com a voz elevada.

Sim, minha amiga, que felicidade poder agora cingir, sem que haja grilhões ou condições de disputa que nos apartem.” Secundou Bolota, surpreendendo a amiga com a sua presença. Correram a abraçar-se em grande alegria e festejo.

 

Rubínia juntou-se ao grupo, de sorriso aberto, cumprimentou os visitantes e encostou-se a Tongídio.

Que Trebaruna continue a dar-me estes excelsos momentos. Já nos começamos a reunir e em breve, outros teremos em comunhão, quando deixarem Roma e regressarem à Pátria. Alépio – esse, então – deve estar a remoer argumentos para concluir rapidamente o tratado com os do Lácio, para tomar o caminho para a Ibéria!

Era exctamente sobre a delegação que falávamos a Aegídio e as estranhas e, por vezes, contraditórias novas que chegam de Sagunto. Afirmam que viram os nossos representantes entrar no baluarte romano e, no dia seguinte, a embarcarem nos seus navios, com destino a Roma. Tudo decorreu de forma tranquila e aparentemente normal. Contudo, disseram também os observadores que, quanto a Iberos, só se terão feito ao mar menos de uma centena e que as portas de Sagunto estão permanentemente encerradas, o que não acontecia antes. Poucos são autorizados a entrar e a sair do sítio.

E Tongídio continuou: “Numântia, seguindo a opinião de Gurri, enviou uma coluna de batedores perscrutar as imediações de Sagunto, para reunir informações. Se necessário, contactarão directamente os Romanos, na fortificação. Resta-nos agora aguardar e votar para que tudo tenha corrido bem e dentro do previsto.

Acredito que sim! Logo, logo, chegarão novidades sobre Alépio, Talauto e os restantes, se não forem eles mesmos a portarem-nas.” Atalhou a optimista Rubínia, para mudar de assunto, segura que estava no êxito da missão: “Agora quero saber como pude ser afortunada com a presença de Bolota, aqui, na minha terra!? Despeçam-se de Aegídio, por ora, e vamos para casa. Deveis estar famintos e há muita conversa para pôr em dia! Já repararam na minha barriguinha?! Tenho um milagre a crescer dentro de mim!” Abriu a manta e expôs a ainda pequena, mas notável, gravidez.

 

Com algum alvoroço, percorreram as ruelas até ao conjunto de casa circulares, confinadas por um muro de meia-altura, pertences de Tongídio e Rubínia.

Alguns frangos, peças de caça, frutos e vegetais silvestres e ainda as castanhas novas passaram de mão em mão, pelos comensais, sentados sobre mantas, no chão. Os rostos risonhos reflectiam as chamas da fogueira central, por entre gargalhadas e figurações a retratar gestos e acontecimentos, palavras e todas as memórias das vivências comuns.

O repasto perdurou, enquanto a Lua empertigada buscava o zénite no firmamento. Os cães ladravam aos pequenos sons impertinentes que rasgavam o sacro silêncio da noite. Dentro da morada alegre, ninguém os escutava, concentrados nas histórias, velhas e novas, felizes pelo amor que reunira Gurri e Bolota, felizes pelo amor que brotara a semente da criança que Rubínia carregava no ventre; felizes pelo reencontro, pela paz, pela união.

 

O sono, empurrado pelo cansaço, tomou amparo entre os convivas, quando já estes faziam planos para o futuro, perspectivando a influência daquela irmandade em proveito da maior consistência e aliança entre os povos Ibéricos.

Como vaticinadores e sem o imaginarem, a determinação das forças positivas que geraram e mantinham tão espontâneos e firmes laços de afecto e amizade, seriam colocados novamente à prova, perante a retoma de insidiosas investidas dos invasores da Ibéria.

Agora descansavam, entre sonhos de confiança num advir próspero e sossegado. Porém, pela manhã, assomaria um grupo de guerreiros Arevacos a Tanábriga. Seriam mensageiros de uma realidade preocupante e que obrigaria a colocar a tenacidade e a resistência ibéricas em alerta e movimento.

 

Os batedores que se haviam aproximado de Sagunto recolheram rumores e confirmaram-nos quando encontraram um grupo de Vetões e Calaicos, esfarrapados, com feridos e moribundos, que revelaram a perfídia dos Romanos.

Souberam então que, Fábio, homem honrado, pretendia cumprir o pacto firmado com Alépio. Porém, no acampamento que precedeu a chegada a Sagunto, foi traído pelos seus subordinados de maior patente. Assassinaram-no enquanto dormia, aniquilando de seguida os partidários íntegros do Tribuno e subornando os restantes. Tomaram o poder e, na sequência, ficaram com o caminho livre para abater a guarda do campo dos Iberos, chacinando os que não conseguiram subjugar e capturando todos os outros. Depois, sedaram-nos para os fazer entrar na cidadela e, daí, alguns nas embarcações, para seguirem para a servidão a Roma.

O contingente de representantes sofreu forte castigo, desmanchando-se entre mortos, prisioneiros nos calabouços da fortaleza do inimigo e primeiro conjunto de escravos despachado por mar.

 

Rubínia, quando conhecedora da traição e dos incidentes conjugados, sobressaltou a ainda ensonada Tanábriga, expelindo um profundo fôlego de respiração quente, entre a neblina fria matinal, enquanto vibrava um profundo grito indómito e de raiva:

 

Ibéria nada temas! Por Ti Seguirei!!!!!!.....................”

 

 

 

FIM

 

Andarilhus

XII : X : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:24
Sexta-feira , 07 de Outubro DE 2011

Por Ti Seguirei... (67º episódio)

http://caminhocelta.blogspot.com/2009/11/lendas-celtas.html

 

Rubínia abraçou carinhosamente Zímio, irrompendo em pranto contido e soluçado, enquanto embalava o corpo sem ânimo. Tongídio juntou-se-lhe no abraço e todos se aproximaram, sentindo enorme pesar. Ali ficaram por algum tempo.

Talauto buscou uma manta, onde colocaram o falecido, já aliviado do varapau lascado que o fulminara irremediavelmente. Levaram-no para Ribasdânia, carregado em ombros.

Fábio ordenara também a recolha das duas partes do corpo de Quintus. Inumaram-no aos pés de um grande carvalho. Se fora razão de sofrimento e morte para muitos homens, agora seria sustento de um magnífico espécime vegetal ibérico, longe da sua pátria.

 

Alépio acordou com o Tribuno que o exército romano deveria agrupar todo no vale, iniciar o levantamento do acampamento e preparar a logística para partir, com todos os efectivos, inclusive os enfermos e feridos. O prazo para a saída ficava marcado para daí a três dias.

A comitiva de Iberos também estaria pronta para os acompanhar, dentro do acordado no princípio de tréguas.

 

Pelo entardecer, o corpo de Zímio estava limpo, recuperado, purificado e solenemente adereçado para o rito fúnebre. Construíram-lhe um palanque e, sobre este, um entrelaçar de múltiplas camadas de ramos, mais alto do que o habitual. Rubínia pedira uma pira funerária digna de um chefe.

A grinalda de flores viçosas, colocada na fronte, transmitia a cor de vida que faltava ao defunto. Colocaram as armas a seu lado, as vírias e o torque cerimonial, alguma comida, cerveja e um amuleto muito antigo, talhado numa estranha madeira muito escura, único elo remanescente que, desde sempre, ligara Zímio à sua família natural, de quem o fadário o tinha apartado desde que mal principiara a andar.

Entre as ramas espalharam ervas e pequenos galhos secos. Regaram tudo com gordura animal derretida. A incineração deveria ser total para que aquele que partia chegasse ao outro lado com todas as suas capacidades e posses.

Ao sinal da companheira, Tongdio atirou a tocha acesa para meio da estrutura. O lume alastrou-se faminto pelo sebo, ouvindo-se quase de imediato os estalidos da massa vegetal. A labareda galgou pela pira, alcançando o cadáver e consumindo tudo com grande fulgor e rapidez.

 

No interior e pelas cercanias de Ribasdânia, ensaiaram-se alguns festejos pelo término da guerra, porém compostos por manifestações de alegria muito contidas e de fraca expansão. O conflito fora longo e destruíra um sem número de recursos e vidas. Os que prevaleciam conheciam alguns ou pelo menos alguém dos que haviam perecido, com diferentes graus de parentesco ou amizade.

Chegara agora o momento de reconstruir, povoados, populações, famílias. Regressar aos lares e reocupar as casas.

Sobretudo o território vetão estava absolutamente desorganizado e muito marcado pelas chagas da guerra. Iria demorar a reunir os habitantes tresmalhados por serras e leiras ocultas em longínquos e isolados lugares, a arrancar com a reconstrução e a retoma das actividades normais do quotidiano.

 

Passaram-se os dias aprazados na recuperação dos feridos e preparativos de debandada das comitivas dos diferentes povos. Trocaram-se abraços de amizade e promessas de reencontro e de alianças duradouras.

Cada tribo indicou um conjunto de guerreiros, entre líderes e escolta, para o contingente ibero que acompanharia o destroçar dos Romanos. Elegeram um triunvirato, composto por Alépio, Irineu e Talauto para conduzirem a delegação. Ao todo eram cerca de 350 homens.

Tongídio também pretendia acompanhar os amigos, mas logo entendeu que era altura de abraçar outros dos seus deveres; alguns dos quais descurara, por força das circunstâncias ou mesmo por algum exagero de intrepidez e aventura, que admitia, tão-somente no seu íntimo. O olhar de Rubínia mostrava-lhe que não a poderia abandonar, desta vez. Decisão ponderada, como o futuro próximo lho justificaria, por motivos diversos.

 

Primeiro abalaram os povos do Sul - Cónios, Túrdulos, Batestanos, Turdetanos e os arqueiros Cartagineses -, em conjunto. Os restantes guerreiros ibéricos concentraram-se ao longo do início do caminho que os levaria de regresso, para saudar em despedida, sempre em desgarrada de gaita-de-foles e outros instrumentos, entre a gritaria alvoroçada. Passariam por Lijós e daí para Sudoeste, em busca da costa Atlântica, a qual contornariam até encontrarem o Grande Mar Interior, junto ao estreito que aproximava a Península à Mauritânia.

Seguiram-se os do Norte e da Meseta da Ibéria. Também agrupados e desaparecidas as velhas rivalidades, Astures, Cantábricos, Vascões, Vacceus e Arévacos, marcharam lado a lado, alegres e festivos com as despedidas dedicadas dos aliados.

Mais intensa foi a despedida de Gurri com amigos de sangue, granjeados na epopeia em que o destino o envolvera. Abraçou calorosamente Alépio, Talauto e Tongídio para, depois, ir ao encontro de Rubínia e segurar-lhe as mãos: “Amiga, irmã… o Gaulês tinha razão: és uma deusa. Ou pelo menos, és uma enviada dos deuses! Dou-te todos os louvores previstos só para as divindades, pela Ibéria, pelo meu povo e por mim, também. Deste-me uma missão, um fim, que enobreceram e valorizaram os meus dias. Sou agora um melhor indivíduo, um melhor líder… um melhor amigo. A minha amizade é eterna para contigo e os teus; e a minha vida também será tua, sempre que o necessitares. Deste o exemplo e agora sou eu – e muitos outros – que por ti, pelas tuas causas, seguirão sempre! Espero rever-vos em breve. Visitar-vos-ei!

Finalmente, garantiu a Irineu que acompanharia e auxiliaria os caudilhos arevacos enquanto ele estivesse ausente. Visitaria também Bolota. Sem vazar as lágrimas que bordejavam as pálpebras, retendo-as no seu orgulho de guerreiro, montou e acelerou o trote para alcançar os seus, que já se adiantavam.

 

Assim que Fábio enviou emissário, declarando-se pronto a partir, Alépio deu ordens para se juntarem aos do Lácio. Tomariam a direção de Sagunto e, após essa escala, passariam a Roma, para os acordos e o tratado de paz.

No raiar do Sol matinal do dia seguinte, todos estavam apostos para a jornada. A separação era dura e difícil após o acumular de tantos momentos inesquecíveis, partilhados pela irmandade de amigos, que o destino resolvera congregar.

O Brácaro, mais emotivo que os demais, não escondia a tristeza do afastamento, e sempre ia dizendo que partia para tratar do futuro da Ibéria, mas logo regressaria para bem perto daqueles que agora tinha por família.

Talauto, em longo abraço a Tongídio, pedia-lhe para visitar seu idoso pai, Talamo, em Obila e o ajudasse em alguma coisa que fosse necessária. Entretanto, Pardo e Mauri ficariam responsáveis pela segurança e reconstrução. O Lusitano comprometeu-se.

Rubínia agradeceu a ambos o apoio e a força com que se haviam empenhado na sua demanda. Desejou-lhes sucesso nas negociações e a máxima cautela com os estrangeiros. Não eram de confiar. Por fim e para amenizar um pouco a tensão que se sentia no ar, gracejou, dizendo que os aguardaria com Tongídio e Gurri, junto às saudosas termas de Obila. Devia o acerto de conversas a Talauto.

Partiram, à cabeça do grande contingente ibérico e romano. O pequeno grupo sobrante de Titos e Belos integrava-se também na coluna, uma vez que se dirigiam para uma zona contígua do Sudeste ibérico.

 

Os restantes ficaram mais um punhado de dias por Ribasdânia, auxiliando na limpeza e recuperação do lugar, assim como de Ortas. O Pendão foi abandonado ao avanço da natureza e não sofreu novos trabalhos de fortificação.

De todos os clãs do exército ibérico, destacou-se um número significativo de guerreiros, alguns deles já acompanhados das famílias, outros que, através dos que regressavam, enviavam mensagens para que a eles se reunissem, decididos a ficar e povoar aquelas paragens.

Em breve surgiriam pequenos assentamentos populacionais, de um ou mais casebres, que originariam, com o tempo, povoados de quintas e de aldeias.

 

Terminados os trabalhos e emanados para o além todos os cadáveres, por expedito fumo de piras gigantescas, comuns, chegou o momento de desmanche do ajuntamento das três principais tribos celtas. Vetões rumariam a Nascente e Lusitanos e Calaicos tomariam as sendas para Ocidente. Sacrificaram em agradecimento ao grande baluarte. Ribasdânia ficava-lhes no pensamento e mantinha-se nos seus corações.

Tongídio liderou a força conjunta de Lusitanos e Calaicos até ao termo de Tanábriga. Aí, as diferentes tribos e clãs saudaram-se fraternalmente e dirigiram-se para os territórios e cidadelas das suas gentes. Para muitos, era o regresso depois de um longo período de ausência.

A aproximação dos contingentes de homens (e mulheres) de armas aos povoados causava o alarido e a curiosidade de ver quem chegava e de quem faltava. A surpresa inicial com a massa compacta de gente que se acercava ao longe dava, paulatinamente, lugar ao choro de alegria pelo reconhecimento e ao conforto do abraço, do beijo e, na mesma medida, motivo ao choro da amargura e ao grito da desilusão com a falta daquele ou daquela que com tanto fervor, eram aguardados. Os povoados enchiam-se novamente de população, notícias e novidades, trazendo a alegria, mas também a dor e o luto aos familiares dos parecidos na guerra.

 

Assim ocorreu também na entrada de Tongídio, Rubínia e conterrâneos na cividade lusitana. Aegidio aguardava-os junto às portas principais, ladeado pelos anciãos e ilustres e acompanhado por grande multidão sôfrega por ver os seus regressados de perto e tocar-lhes.

 

Andarilhus

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publicado por ANDARILHUS às 22:27

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