Segunda-feira , 25 de Março DE 2013

Por Ti Seguirei... 2.4

 

 

 

O crepúsculo era já evidente quando Lualto e seguidores chegaram ao altar-mor de Tanábriga. Aí, concentrava-se boa parte da população, aguardando pelo início da formalidade cerimonial.

A presença de Leuko provocava a dilatação da passagem entre a multidão, fazendo recuar instintivamente os mais próximos à sua trajetória, reagindo com estupefação e algum temor pela presença do lobo.

- O que trazes contigo para os sacros ritos, Lualto? Uma espécie de cão?! Não é nosso costume sacrificar esse tipo de animais. Bem o sabes que deve ser uma rês, e não um predador! - insurgiu-se Aegídio, perante as circunstâncias inesperadas.

- Entendo a tua ira, meu senhor. Porém, por mais que procurasse e perante a inédita situação de não haver animal próprio para a cerimónia, com a alvura que esta especial ocasião exige, este bicho é a única vítima possível para dedicar às divindades. A forma misteriosa como entrou nos nossos domínios, através de Aleutério, é também pronuncio de ser aprovado pelos próprios deuses para os honrarmos…

- Aleutério?! Esse louco?! Que narrativa agoirada nos trazes. Estamos a abrir a porta da desgraça! Assim, não pode ser; sofreremos o castigo com o fracasso e com a morte! - gritou Aegídio, em cólera.

Virou-se para o favo de povo que ruminava à sua frente e elevou ainda mais a voz: - Quem tem um animal propício para ser entregue a este oráculo? Que seja branco ou, pelo menos, praticamente branco?

Mas, Lualto tinha sido eficiente na sua demanda, e não existia tal ser. Os deuses, a natureza, ou o que quer que fosse, haviam manipulado a criação para que tal não sucedesse, logo em momento de maior aperto.

Agitavam-se as gentes, enquanto o Sol escorria ao fundo, acenando já o adeus. Os mais conservadores enjeitavam o sacrifício do lobo; os mais flexíveis defendiam a execução do animal, acreditando que os deuses assim o exigiam, uma vez que também assim o tinham planeado.

Aegídio desesperava. Esgotava-se o tempo e não aparecia solução oportuna e ajuizada.

- Esperem! Não desanimem! – impôs-se Rubínia, repetindo as palavras até que o povo acalmasse, ajudada pelos gestos do chefe e de alguns guerreiros mais próximos.

- Como temos duas posições estremadas e já sem tempo para as debater, proponho que adiemos a cerimónia para o amanhecer. Aliás, quando Endovélico nos providenciar o renascer da luz de amanhã, será até ensejo mais favorável a um tal ato religioso. Entretanto, deixemos o escolhido a pernoitar solto junto ao altar e aguardemos que os deuses nos deem um indício. Se o lobo, pleno de liberdade, aqui estiver pela alvorada, então é porque está prenunciado para vitima. Caso se vá, parece-me que será revelador de que as divindades nos entregam a decisão de escolha de outro animal, mesmo que não seja de imaculado branco. Parece-vos razoável, Aegídio e Lualto?

Concordaram e, de um modo geral, o povo encarou a proposta como atinada e de compromisso. Aos poucos, ainda a manifestar considerações entranhadas, individualmente ou em pequenos grupos, as gentes divergiram para retomar aos seus afazeres quotidianos, preparando-se para a refeição tardia e para passar a noite.

Rubínia afagou Leuko, fitando-o de modo imerso e prolongado. Parecia conhecê-lo de longa data, e que até comunicava com o animal.

Finalmente, afastaram-se os últimos resistentes junto ao altar, com Aegídio, mais brando, a argumentar com Lualto, enquanto aproveitava também para lamentar a forma como apelidara Aleutério, apesar de que a este jamais algum dizer o ofendia ou afetava. Estava já imune à palavra, tal era o memorial de ditos jocosos e vexativos, escutados de muita gente e por tanto tempo…

Para trás e cada vez mais distante, ficava aquele ponto resplandecente na negrura do escurecer cadente.

 

Assim que os galos começaram a desgarrada do despertar, Lualto, apressado, deixou o calor do colchão de folhelho, ataviou-se, mirou-se no espelho de cobre polido, ajeitou o manto sacerdotal e a pele de raposa que lhe proporcionava maior quentura, calçou os botins de couro entrelaçado e abalou para o exterior, furando entre a bruma matinal, enquanto percorria o caminho que levava ao oráculo.

Não foi o primeiro a chegar. Já lá se encontravam Rubínia e Tongídio. Contemplavam a grande e achatada pedra que servia de pia de imolação. Apesar do frio, estavam rigidamente imóveis. O druida forçava o passo, curioso, já que, ainda à distância e com a cortina de nevoeiro, não conseguia enxergar o que, avassaladoramente, lhes cativava a atenção.

A arfar, Lualto colocou-se a par da mulher, verificando a expressão fascinada dos rostos do casal. Quando procurou a razão, percebeu a maravilha, contendo mesmo o respirar atribulado e espontâneo, transformando-o num longo suspiro…

Na concavidade do altar, encontrava-se deitado sobre as gâmbias elegantes, sereno, um cervo branco, de tal forma imaculado, que era quase perturbador para o olhar que sabia o destino que o aguardava.

- Foi o Leuko que o trouxe; ainda os vimos a chegar. O animal seguia o lobo pausadamente, como se com ele formasse alcateia. Isto é, sem dúvida, obra dos enigmas divinos. Sabemos agora qual é a oferenda desejada pelos deuses. Talvez nos permitam obter as respostas para estes acontecimentos tão estranhos. – proferiu Tongídio, em tom arrastado e incrédulo.

 

Uns após os outros, os habitantes de Tanábriga assomaram ao altar mor e formaram a assembleia religiosa. Já ninguém arriscava uma explicação para os fenómenos que se iam multiplicando. Simplesmente, deixaram-se embalar pelos ritos e cânticos próprios da solenidade sacra que entretanto se iniciara.

Enquanto Lualto invocava os nomes das entidades superiores que presidiam às vicissitudes da vida e da morte na tribo, um dos acólitos preparava o pequeno cervo, dando-lhe a beber uma infusão de ervas relaxantes e anestesiantes, e lhe escovava a, já de si, lustrosa pelagem.

Leuko manteve-se sempre junto da pia do sacrifício. Ninguém ousou enxota-lo.

O druida mantinha a ladainha com voz pausada e em timbre natural. Ingeriu dois goles de uma beberagem encantatória, que libertava o espírito do corpo e abria os portões da clarividência, promovendo a comunicação com os deuses, recebendo deles as orientações que acompanhavam os presságios, interpretados pela leitura das entranhas dos animais imolados.

- Mãe Atégina, que estás prestes a começar o caminho em reencontro com o teu amado, e por nós muito reverenciado, Endovélico, confirma-nos e acompanha-nos na jornada a que nos propomos… – recomeçou a liturgia, Lualto, erguendo os braços e medindo o horizonte que se abria à sua frente, para poente, enquanto o ajudante colocava o animal em posição.

- … E contigo, se acerquem Bandua, com os laços mágicos de honra e de sangue, que nos unam a todos nesta causa comum, e Laebo e Reva, os maiores guerreiros, dando-nos o exemplo da força que nos mantenha empenhados na senda da vitória. E, quando cansados ou em provação, pedimos a graça de Nábia, com a sua frescura e génio de águas estimulantes, e nos acuda na sede, durante a agrura das poeiras das batalhas… - mantinha em ritmo brando, a evocação, e já retirava a lâmina sagrada da bainha, aproximando-se do cervo.

- … E Nábia, quando chegar o momento da nossa partida para o mundo dos mortos, indica-nos, diligentemente, o pórtico para o reino do nosso maior Senhor, nosso pai primordial, Endovélico. Encomenda-lhe que nos dê nova oportunidade…

O punhal entrou como relâmpago cirúrgico no peito da vítima, talhando o sopro da pequena vida, num acutilante e breve estrebuchar do coração arrombado. O cervo caiu inanimado sem emitir som. Numa sucessão de golpes rituais, o sangue corria pelos canais inscritos no bloco lítico, confluindo para a fossa central.

O druida ajeitou o manto e a grinalda de azevinho que sustinha sobre as grossas e longas cãs, e acercou-se do limiar da plataforma, sobre a qual se erguia o altar. Desceu os curtos degraus que desembocavam num terraço abaixo, onde se encontrava embebida, por talhe, a fossa, recetáculo do fluido sagrado. A uma vintena de palmos à frente abria-se a queda a pique, numa verticalidade que terminava junto ao pano interior do sistema amuralhado.

Amparado à testa de pedra do socalco superior, Lualto observava a queda sucessiva do sangue e a dispersão dos círculos que os pingos grossos do mosto denso provocavam no líquido acumulado. Na assembleia, os da frente vislumbravam apenas a mão morena agarrada à pedra cinzenta e plena de líquenes; os restantes perderam-no de vista, de todo. Uns e outros aguardavam o início das “leituras” e interpretações, enfim, das revelações. O silêncio deixava pairar os múltiplos pensamentos e rezas aos diferentes deuses, conforme a estima e veneração de cada um.

Enquanto se perspetivava o retorno do líder espiritual para junto do altar, a multidão ocupara todo o espaço mais próximo do centro da celebração, cerrando fileiras. A expetativa e a ansiedade granjeavam pelos presentes. Tanto se apertavam, que os da dianteira já se sentiam comprimidos contra o alicerce rochoso do culto.

Mas, rapidamente, a pressão e o aperto do povo cedeu perante uma sucessão de eventos, assustando-os para lugar mais recuado e de maior sujeição e receio individual.

A voz, aquela voz cavernosa, de grotesco timbre, simultaneamente feminino e másculo, ouriçou as guedelhas e as pelugens dos mais arrojados. A um arrepio coletivo, seguiu-se o instinto geral de mover alguns passos à retaguarda.

O som vinha do lado contrário do recinto, onde se encontrava Lualto. Deste, já nem a mão se via. Era terrível: alguma figura lendária enviada das profundezas - jazida das vidas - por Endovélico, furioso com os seus súbditos, começara por aniquilar o elo de ligação com o além…. E agora, como poderiam os mortais tentar apaziguar o desagrado divino?!

Enganavam-se… O druida não desaparecera. Pelo contrário encarnava a voz medonha que se fazia escutar.

Lualto, por instantes, mudo, subia os degraus para o topo do oráculo. Todo ele aparecia numa chaga vermelha, tinto pelo sangue da imolação. Entrara na fossa e cobrira-se, manto, pele e cabelo, da tez da vida e da morte. Achegava-se lentamente, hirto, olhos esbugalhados e vítreos. Escorria a seiva da existência, criando uma pequena poça no local em que estacou e encarou a audiência, agora, ainda mais terrificada.

Encolheram-se, no que sobrava por encolher, quando o homem sagrado vociferou novamente, naquele tom amalgamado:

- Escutem-me! Sou Trebaruna, indigitada pelo concílio dos deuses para vos orientar e acompanhar. Sim, acompanhar! Devem partir em socorro dos que estão nas mãos dos ímpios, e tudo fazer para salvar a Ibéria, nestes tempos e no futuro. Pelo lobo, a minha encarnação natural, estarei convosco, para vos proteger. Através do apátrida, os deuses vos darão o melhor conselho e guia…

A voz retumbava frenética na boca de Lualto, apesar do seu corpo se conservar rigidamente imóvel. O povo, perante as profecias, olhou para Leuko e de imediato para Aleutério.

- … O lobo branco da Ibéria levará a falcata da justiça e a funda da vingança ao covil dos filhos da loba cinzenta[1]. Isto vos garanto: os predadores passarão a presas… Nós, deuses, estamos agradados com os nossos devotos, e seremos afáveis e cuidadosos com eles. Ide o quanto antes. O destino está propício!

O druida calou-se e, num repelão, saiu da alienação paralisante. Esgotado, tombou do altar, sem qualquer reação de proteção à queda. Tongídio, o mais próximo, lançou-se em frente e conseguiu amparar o gélido corpo de Luauto. Nos braços do guerreiro, este gaguejava e não conseguia articular palavra. Levaram-no, para se lavar e repousar. Quem o auxiliou percebeu que estava ainda mais leve do que já lhe conheciam do físico singelo. Trebaruna, para o bem de todos, havia-lhe consumido parte da vitalidade, tal era o desgaste de energia para a honra de acolher em si um deus.

O Sol descrevia o crescimento habitual na abóboda sagrada. Após uma curta refeição, Aegídio e a sua guarda pessoal partiram, sem mais tardança, ao encontro de Sonim. O plano estava em marcha, e ratificado pela esfera divina.

O chefe de Tanábriga, entretanto, comunicara as suas instruções: emissários iriam rasgar a Ibéria, levando aos amigos as revelações e a convocatória para se prepararem; a Tongídio estava determinada a missão de contactar o Grande General, Aníbal. O guerreiro recebera também plenos poderes para escolher a comitiva que o acompanharia em delegação.

 

Andarilhus

XXV : III : MMXIII



[1] A lenda da criação de Roma remete para os seus fundadores, Rómulo e Remo, os quais, ainda crianças de tenra idade, depois de abandonados, salvaram-se graças à proteção e amamentação de uma loba.

 

publicado por ANDARILHUS às 21:15
Segunda-feira , 11 de Março DE 2013

Por Ti Seguirei... 2.3

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- Eu só vejo uma forma de escorraçar de vez estes insolentes Romanos e garantirmos que não nos atrapalham no advir: não chega defendermos a pátria dos invasores; é preciso levar a guerra ao Lácio e dar-lhes uma lição!

No salão agitado, repentinamente, fez-se um silêncio sinistro, enquanto os olhos esbugalhados diziam bem, alarmados, de sua surpresa…

- … Só assim os forçaremos a manterem-se longe da nossa pátria, e a preocuparem-se seriamente com os seus próprios domínios, esquecendo a ambição de conquistar outras terras. No entanto, e apesar da recente aliança dos filhos da Ibéria, não me parece que tenhamos a união e a força suficientes para assumirmos nós mesmos tal façanha; penso que só se nos juntarmos a Aníbal e reforçarmos o seu exército é que, sob o seu comando, conseguiremos aniquilar o poderio de Roma. Bem sei que contrario a minha natural aversão vacceia contra os cartagineses, mas reconheço que vivemos um momento em que nos obrigam a assumir posição nesta guerra dos dois gigantes, e estou agora convencido de que os de Cartago são os menos ruins…

- Como mudaste, Gurri… - sussurrou Rubínia, deixando escapar um sorriso tímido.

Gurri sorriu também e ganhou fôlego, focando novamente a assembleia.

- Apesar do vosso assombro, proponho duas ações a desencadear sem perder mais tempo: contactar os povos irmãos que queiram sacrificar-se pelo nosso solo sagrado e, por outra via, ir ao encontro de Aníbal, oferecendo-lhe coligação nesta causa.

Gurri calou-se, e manteve-se hirto a contemplar a assistência em busca de reação. Ninguém teve a ousadia de ser o primeiro a manifestar-se. Olhavam-se entre si com os rostos mais taciturnos do que o costume, sem emitirem qualquer som. Até que…

- Assim é que é falar! Façamos atinadamente o que temos a fazer e o sucesso será garantido! Bravo Gurri, explicaste bem o caminho, o único caminho que nos resta! Se o nosso chefe, Aegídio, aprovar, terás a nossa companhia nesta empreitada. E quanto mais rápido a começarmos melhor, que já se faz tarde: Alépio e os restantes assim o merecem! – Vibrou alto, Rubínia, plenamente escutada por todos, dentro daquele círculo de mudez.

- Concordo, sem dúvida! Está visto que este vacceu aprendeu rápido com os talentos deste canto da Ibéria! - riu-se Tongídio, desencadeando uma gargalhada geral, e o fim do torpor.

Pelas manifestações, a ideia ousada ganhava adeptos entre a maioria dos presentes. Impunha-se então que Aegídio tomasse uma decisão e proclamasse a posição da sua tribo. Não foi de imediato. Percebia-se que matutava, imerso nas suas reflexões. Tinha bem a noção de que problemas maiores exigem a superação na intrepidez. Na verdade, estavam reduzidos à escolha entre uma arriscada morte rápida e a certeza de morte lenta, do mundo herdado dos seus antepassados.

- Muito bem, parece-me que o que Gurri propõe é ponderado e inevitável para a nossa existência, bem como para a permanência dos nossos costumes e liberdade. Como líder da tribo dos Lancienses Transcudani dou o meu aval ao plano. Veremos o que os povos irmãos têm a dizer. Hoje mesmo desloco-me a Aegitânia, ao encontro de Sonim, o chefe maior dos Lusitanos. Ainda hoje, também, partirão mensageiros para os Brácaros, Vetões, Zoelas e para os demais povos da nossa raiz e tradição. Conto com Gurri para ir ao encontro do seu povo e outros clãs das proximidades.

- Sim, podem contar comigo para convocar os meus, e chamar à liça os Arévacos, os Astures e restantes povos do Nordeste da pátria. Regresso ao meu povoado em breve, e aí ficarei a aguardar notícias vossas para entrar em ação.

- Isso Gurri: tomada a decisão, elegeremos um local de confluência para reunirmos todos quantos nos acompanharem nesta guerra de sobrevivência. Quanto a ti Tongídio, com os ensinamentos na arte do escambo recebidos do teu sogro entrego-te a tarefa de preparação e direção da delegação que negociará o trato com Aníbal. Visitaremos os povos do Sul, durante a passagem da expedição a Nova Cartago.

- Magnífico, vou rever velhos companheiros dos dias aziagos dos Pirenaicos!

- Temos de agir rápido. A queda da folha vai já avançada, e restam poucos ciclos da lua para entrar o solstício do frio. Vai ser à justa que chegaremos às portas de Sagunto, preparados para resgatar os nossos camaradas, antes que as neves nos tolham definitivamente os passos. Assim que tornar de Igaeditânia daqui a poucos dias – confiante de que Sonim validará o plano - iniciaremos as movimentações. Entretanto, também começarão a chegar as reações das restantes tribos do Oeste.

Aegídio chegou-se à entrada da casa do concílio, ansioso por dispersar o olhar pelo vasto horizonte que o alcantilado do povoado proporcionava. Ficou refém pela imagem dos cachos graúdos de nuvens, ostentando bagos intermináveis em tons cinzentos. O vento arrastava-os como trepadeiras pelos campos do céu. Seriam os precipitados paramentos pardos dos esquivos e ocultos deuses, denunciando o seu debruçar nas falésias celestes, enquanto apreciavam os seus domínios terrenos e a sua criação?

Antes fossem, realmente. E que os divinos sapientes tomassem particular atenção aos perigos que se premeditavam contra a Ibéria, e não deixassem de acorrer em socorro dos que os adoravam.

Aí se os deuses se esquecessem dos seus povos eleitos! Perante tamanhos trabalhos, para a empreitada tão arriscada que se antevia, havia que ganhar a atenção e a benevolência dos senhores eternos. Sem dúvida!

Congeminava assim Aegídio, enquanto enrolava pausadamente alguns fios da barba branca encrespada, quando um não menos vetusto ancião lhe deu um pequeno encosto no momento em que franqueava a saída do edifício, assim minguada pelo obstáculo do chefe do povoado.

- Espera Lualta, quero falar-te! Agora que está decidida a retoma da guerra, faremos cerimónia própria para louvar os deuses, pedir a sua proteção e sondar os seus desígnios. Deve ser um momento de especial devoção; algo irrecusável e apelativo para granjear a proteção dos divinos. É determinante ganhar os seus favores para a nossa causa. Pensa rápido: ao pôr-do-sol evocaremos os poderes superiores e tentaremos mostrar a justeza das nossas próximas ações. Que eles entendam e nos acompanhem… escolhe bem a oferenda, sem olhar a meios ou a propriedades. Será uma honra para a família que entregar a vítima a imolar.

Lualta era o detentor mais ilustre dos poderes mágicos, com especiais dotes de curandeiro, e inquestionáveis capacidades para comunicar com os deuses e interpretar os seus sinais. Tratava-se de mais um daqueles seres destacados entre os celtas, conhecidos por diversas designações entre as diferentes tribos e povos. Para uns tomava a nomeação de sacerdote, para outros, de xamã, ou ainda denominado por druida, em muitas regiões.

- Farei o que me pedes, Aegídio. Irei escolher o animal mais alvo que encontrar, como reflexo da pureza dos nossos propósitos e prova da nossa dedicação e constrição à nossa terra e ao nosso oráculo. A aliança será renovada e reforçada entre os homens lusitanos e os seus senhores divinos. Com os meus seguidores, correrei Tanábriga e as cercanias, em busca da oferenda perfeita. Reúne o povo junto do altar central, à hora marcada.

 

Aleutério habitava numa pequena casa de traçado redondo, formada por um amontoado de pedras imperfeito e copioso de frinchas, algumas calafetadas por adobe, outras não. Compunha-se ainda, num dos flancos, com uma pequena e tosca cerca de madeira, vedada pelo entrelaçado desordenado de gravetos secos e espinhosos, onde mantinha encerrados os animais e os protegia dos predadores. Tanto a casa como o aido encobriam-se dos humores dos soberanos das alturas por espessa entaladura de fenos, estes bem talhados e melhor emparelhados.

Aleutério mostrava idade matura, mas não era tido por sábio e ilustre, como ocorria com os pares que partilhavam essa idade maior. Pelo contrário, conheciam-no como doudo e solitário. Nunca fora violento ou inconveniente, mas falava sozinho e gesticulava muito, como se tivesse visões. E isso trazia receio aos seus conterrâneos: para tratar o mistério, o sagrado e o invisível, bastava o druida; a populaça comum não deveria imiscuir-se nessas coisas esquivas.

Aleutério viera do Sul ainda jovem e assentara em Tanábriga. Era natural de uma cidade junto do Grande Mar Interior, onde, há copiosos ciclos lunares, perdera a família, mulher e filhos, num ataque de negociantes de escravos cartagineses. Desde então isolava-se no seu mundo estranho e não compreendido pelos demais. Em resultado deste afastamento anímico, morava a uns bons cem passos fora da muralha exterior e já na orla do bosque. Visitava e servia-se do povoado, mas não permanecia aí longamente. Deambulava pelas vendas o estritamente necessário. Fazia o escambo dos produtos da pastorícia e da recolha silvestre pelos bens de que carecia.

 

Foi, portanto, com grande surpresa que recebeu a visita do respeitado Lualta.

Estava sentado num banco de amieiro, que não era mais do que uma secção de um tronco largo serrado longitudinalmente a meio, elevado por dois cabeçotes de granito, que mantinham o equilíbrio do assento inclinando-o um pouco contra a parede do casebre. Retirava os pinhões de uma braçada de pinhas que trouxera numa das últimas visitas à floresta. Ao lado, uma cesta de vime, já esburacada, deixava espreitar umas quantas abóbadas acastanhadas e brancas de míscaros, respolgas e outros exemplares de cogumelos.

Sentiu o aproximar de gente, mas manteve-se inclinado sobre a tarefa que levava a cabo.

- Vejo que os deuses da floresta continuam a agraciar-te com dádivas suculentas, Aleutério. Conheces bem o equilíbrio entre os humanos, a natureza e os deuses. Daí, vives sereno e em harmonia. De certo modo, invejo-te a condição…

- Lualto, não cobices a minha existência; tenho esta vida moribunda porque os deuses me falharam. Ou me castigaram, embora não saiba porquê… respondeu Aleutério, brandamente e sem erguer a cabeça, sempre a voltear uma das pinhas entre mãos.

- De outros tempos pouco sei e só a ti te diz respeito, bem como a escolha de rumo que decidiste para os teus dias. Porém, parece-me que agora os deuses te têm por instrumento da sua superior vontade. Disseram-me que tens contigo um animal de incomparável alvura. Ninguém sabe bem do que se trata, porque só o conseguem ver ao longe.

- As pessoas só não enxergam corretamente porque têm o olhar enevoado por preconceitos. Mas isso não me incomoda.

- Acontece que temos de fazer uma oferta aos deuses ao final da tarde. Há uma grande expetativa nesta cerimónia. Já corri quase todas as casas e, estranhamente, não há cordeiro, cabrito ou outra rês pura. Até que alguém se lembrou do teu misterioso bicho. Precisamos dele. Está no curral?

A pinha fugiu das mãos de Aleutério. Ergueu a cabeça, e de imediato elevou-se com vigor determinado, deixando aos presentes a impressão de ter soprado para longe os atavismos de ancião. Encarou o druida, de tal modo sério que os acólitos se aproximaram, com receio de alguma ignição furiosa.

Afastou-se um pouco na direção do bosque e assobiou longo e agudo.

A atenção geral concentrou-se nos primeiros pinheiros que serviam de entrada para o reino vegetal. Não esperaram muito para terem uma visão única. Um lobo, um belo e jovem lobo, de imaculado branco, acorria ao chamado, a passo rápido e majestoso. Apesar de porte ainda pequeno, causava arrepios na espinha dos que o observavam a aproximar-se. Mas era manso; tão manso como um cordeiro.

Já junto a Aleutério, chegou-se e lambeu-lhe a mão. Depois, para pasmo de todos, virou-se, dirigiu-se e sentou-se ao lado de Lualto, bem encostado, como a aguardar que o conduzissem. Ninguém articulou ideia em palavras, perante aquele comportamento invulgar e de difícil compreensão para o Homem.

- Encontrei-o na floresta, pequenino. A ele e à restante ninhada. A loba assim que me viu, não me atacou. Limitou-se a chamar pelos filhotes e a levá-los para outras paragens. Mas este, diferente de todos os outros, não avançou com os irmãos. Pelo contrário, e para espanto meu, correu para mim e colocou-se entre as minhas pernas. Apesar dos apelos sucessivos da progenitora, o “Leuko” – como lhe chamo, pela designação grega de “Branco” - não se moveu. Restou à loba desistir e seguir com a restante prol. Desde então, tem sido o meu companheiro, enquanto o vejo crescer há já 7 ciclos lunares. Nunca encontrei razão para os acontecimentos, mas agora vislumbro um propósito, parece-me…

- Julgo que tens de rever essa teu juízo sobre os deuses. Os indícios são claros, reconhecendo-te como um eleito. Não foste tu que encontraste o lobo; foi o lobo que te encontrou a ti. Os vossos destinos estão em comunhão e também ligados ao que o futuro trará aos nossos povos. Vem, acompanha-nos tu também. Há algo aqui a deslindar.

 

Andarilhus

XI : III : MMXIII

publicado por ANDARILHUS às 19:22

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