Quarta-feira , 26 de Novembro DE 2014

Por Ti Seguirei... (2.13)

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Apesar do sobressalto, a reação foi rápida e bem coordenada. Entre os resíduos em tição e sebo derretido que juncavam o tombadilho, os iberos acorriam aos focos de incêndio com mantas e água.

Taer movimentou o leme procurando uma posição perpendicular à nave agressora. Desta forma, reduziriam a exposição ao armamento de arremesso. Contudo, dada a limitada presença de remadores, a manobra não foi tão lesta quanto o desejado.

Após uns zumbidos a cortar o ar, o som cavo de grilhões a ferrarem na madeira interior das amuradas embebeu-se nos estalidos da combustão e no frenesim geral dos ocupantes. Os atacantes acercaram-se prontamente, iniciando o assalto e preparando a abordagem. Quando a distância o permitiu, começaram por lançar as fateixas, com as quais prenderam a presa e, a força de braços, foram puxando as cordas que afivelavam os dois navios. Em breve, obrigariam ao encosto total dos cascos com o apoio dos arpões.

No meio da fumarada, Taer conseguiu enxergar o pavilhão que sacudia no alto do mastro do inimigo.

- São Piratas! Cilícios! A grande irmandade de pirataria que agrega guerreiros de todo o Mar Interior.

- Comigo! Temos de cortar as amarras que nos lançaram. Caturnino, reúne os mais fortes e formem uma linha de defesa junto à amurada, para rechaçar o assalto que aí vem! – ordenou Tongídio, ao mesmo tempo que deitava mão a um machado de dois gumes.

Enquanto Caturnino organizava os túrdulos e kalaedónios como um escudo à aguardada investida, Tongídio, Runaekoi e mais dois possantes guerreiros brandiam as armas para rasgar os grossos cabos de fibra que aprisionavam a galera aos braços dos agressores. No convés inferior, os menos afeiçoados a combates esforçavam-se nos remos, tentando romper o abraço de ferrolho do navio atacante. Aí, também, Rubínia, Aélcio e Aleutério mantinham-se em prevenção ao socorro da linha avançada, protegendo a área de controlo da embarcação e as mulheres túrdulas. Leuko andava por parte incerta.

Na amurada, as cordas decapitadas das fateixas saltavam como os tendões de um arco. Já poucas restavam a evitar o afastamento entre os barcos, porém, os piratas logravam alcançar a presa com os longos cabos de madeira dos arpões, anulando o esforço dos iberos.

Os aguerridos assaltantes começavam, então, a abordagem, com a colocação de pranchas. Os primeiros não chegaram a entrar a bordo da galera ibera. Os braços certeiros que governavam as fundas asseguraram golpes líticos fatais, que os derrubavam em mergulho no mar frio, amassando os corpos contra os duros remos, na queda.

Todavia, a torrente de invasores avolumou-se e os fundibulários não tinham cadência suficiente para deter a todos. Tongídio teve de largar o machado - que ficou impossível de descravar do esterno de um opositor - logo ao primeiro golpe, para sacar a fiel falcata, passando o seu punho firme a ser o sono de morte para aqueles que lhe iam surgindo pela frente. Rodeado de inimigos, renovava de sangue a lâmina da arma a cada movimento giratório. Já sem conseguirem travar a passagem dos piratas sobre os singelos passadiços, os iberos da formação defensiva acabaram envolvidos em combates diretos, estendendo-se a peleja a todo o sobrado da galera.

Runaekoi, pela sua ferocidade e a grande mortandade que ia provocando, também concentrava para si múltiplos oponentes. Em seu redor amontoava já uns quantos piratas, mortos ou feridos. Começou a recuar para espaço mais aberto e onde poderia movimentar-se melhor, aproximando-se da zona do mastro. Quiseram os deuses – talvez para alterar o rumo que levava o espetáculo da guerra, que tanto apreciavam - que o infortúnio se abatesse sobre ele. Queimado o velame, as laçadas que prendiam a cruzeta ao mastro arderam também, fazendo com que a viga de madeira se precipitasse e atingisse Runaekoi entre o rosto e o ombro, tombando-o e deixando-o aturdido, sem reação.

Caturnino, seguido de Tongídio, reagiram rápido em socorro do amigo, atirando-se aos vários inimigos que se preparavam para golpear aquele espírito funesto que os aniquilava sem se cansar. A refrega intensificou-se enquanto Runaekoi estrebuchava pelo chão, na tentativa de recuperar total consciência. Embora tivessem uma vantagem numérica arrasadora, os piratas demoravam em dominar a situação. Pelo contrário, as baixas eram manifestas, em contraste com os iberos.

Mas havia outra razão que justificava o atraso na conquista. O chefe dos piratas queria aprisionar os iberos, evitando a sua morte. Eram uma mercadoria de grandes réditos nos mercados de escravos.

Ainda a bordo da embarcação atacante, o líder dos assaltantes percebeu que a resistência dos atacados se devia, sobretudo, à força e arte de guerra exemplares de alguns deles. O carisma destes eleitos pelos deuses da guerra instigava os restantes a uma defesa acirrada. Se anulasse os líderes, os demais seriam meros cordeiros. Assim fez.

- Nassir passa para a galera romana e coloca aqueles dois fora da batalha – ordenou, Zlatan, chefe dos piratas, enquanto apontava para Tongídio e Caturnino.

Nassir, egípcio, cumpriu de imediato as instruções. Leve e ágil como um gato, atravessou a prancha e colocou-se em boa posição. Com a zarabatana apontada, primeiro acertou em Caturnino e depois, quando Tongídio se virou para si, procurando a origem do dardo que acabava de se cravar no pescoço do amigo, acertou-lhe com igual precisão.

O veneno imobilizador começou a fazer efeito, descoordenando os movimentos dos atingidos. Os piratas afastaram-se e deixaram que o vigor abandonasse completamente os dois iberos. Caturnino ajoelhou e caiu junto a Runaekoi. Tongídio ainda tentou alcançar Nassir arremessando a falcata, mas o discernimento fraquejou: não atingiu o alvo e acabou por cambalear até tombar.

Inerte no chão, nos momentos em que os sentidos e a mente se mantiveram em vigília, Tongídio viu Rubínia, seguida dos que aguardavam no porão, correr em seu auxílio, reclamando a vida àqueles que lhe obstruíam a passagem. Nos lentos piscar de olhos, ainda assistiu a Leuko saltar do alto da torre da embarcação sobre o pirata que conseguira agarrar a sua mulher. As presas do lobo branco perfuraram a jugular do inimigo, fazendo o sangue jorrar em esguicho, atemorizando, por breves instantes, os piratas.

Porém, Tongídio, que procurava encontrar forças para se erguer, sem o conseguir, ainda assistiu ao aprisionar de Rubínia e Leuko com redes e à rendição de todos aqueles que estavam sob seu comando. Ouviu o riso dos piratas e as suas vozes excitadas, vexatórias e obscenas, dirigidas às mulheres.

Antes de adormecer, já com os olhos semicerrados, conseguiu escutar um dos agressores, que se destacava pelas vestes refinadas, a chicotear os homens que já avançavam para a satisfação das lascívias carnais. Estranhamente, parecia indignado com o comportamento dos subordinados e exigia-lhes respeito pelas mulheres e restantes prisioneiros, sob pena de morte para os infratores. Era Zlatan.

Tongídio adormeceu…

 

Andarilhus

XXVI : XI : MMXIV

publicado por ANDARILHUS às 19:29
Quinta-feira , 20 de Novembro DE 2014

Por Ti Seguirei... (2.12)

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 https://www.flickr.com/photos/dayanapessanha/6078069610/

 

A situação manteve-se calma entre os tripulantes, embora com maior apreensão pela perda do conforto das vistas sobre solo firme. A chuva dava tréguas, mas o frio, particularmente o noturno, exigia maiores agasalhos e recolhimento aos espaços mais abrigados da galera.

Uma acolhedora fogueira, montada dentro de uma larga taça de bronze com 4 apoios em forma de patas de felino, e colocada sobre uma rija lage de xisto, era o centro de reunião daqueles que, no momento, estavam dispensados de serviço à embarcação.

No teto celeste, com a tresmalhação das nuvens, as estrelas brilhavam como se fossem buracos no véu negro que procurava encobrir a força da luz de vida do senhor Sol. Sem os obstáculos próprios do terreno e da vegetação, parecia que as estrelas desciam até ao mar, mergulhando naquele. Era ainda mais belo.

Também no afago da clareira iluminada pelo borralho, Rubínia enroscara-se nos braços do marido. Nesta calmia, Tongídio sossegava do estado de alerta e descontraía, mimando o ventre da mulher, onde residiam os seus sonhos mais queridos do vindouro. Pouco ainda se notava do estado de gravidez de Rubínia, porém, o pai radiante e esperançoso por um filho varão, conversava com a pequena vida em gestação como se já fosse um menino desenvolvido, prometendo-lhe grandes aventuras e ensinando-lhe as virtudes próprias de todos os grandes chefes. Rubínia ria-se das cândidas doidices do companheiro, assim como os mais próximos.

O cansaço começou por tolher a vigília de uns e de outros, obrigando-os a acomodar o sono, ou por ali, junto à fonte de calor, ou noutras áreas cobertas, tapando-se do relento.

Monda e Aleutério mantinham-se ainda acordados, ambos em silêncio, com o olhar concentrado no rubor das labaredas. Leuko estava próximo, deitado e com o focinho entre as patas.

- Aleutério, o que faz um nobre ancião – que deveria estar resguardado e mais em meditação do que em esforços físicos – a acompanhar uma missão destas, com tantos perigos? É para trazer algum cuidado e ponderação a estes jovens temerários? É por causa do braço com boa pontaria? Já me contaram a passagem do confronto com o urso – sorriu.

- Nem eu sei, Monda… Dizem que foram os deuses que me escolheram; a mim e ao Leuko. Nós tínhamos uma vida pacata em Tanábriga. E de rompante, o nosso homem sagrado resolveu envolver-me nas tropelias desta gente que só está bem a fazer correr sangue ou a morrer. Não entendo, mesmo. Agora vejo-me a seguir este destino, a regressar ao mar e… - Aleutério como que engasgou quando o pensamento se antecipou às palavras.

- E…? Pareces confuso, Aleutério, como se enfrentasses uma visão assombrada!

- …e, e a voltar a lugares e a tempos do passado, do qual fugi e que pensei já ter ultrapassado. Não sei o que me espera, quando…

Monda percebeu que tocara num ponto muito sensível para o ancião. Da reação de Aleutério, do timbre, das palavras e da expressão, mesmo no lusco-fusco, compreendia-se uma dor profunda, que ao mesmo tempo, era acompanhada por uma luta para a abafar. Monda recebia esses sentimentos mesclados, entranhando-os, tanto mais que ela própria carregava um sofrimento semelhante, constantemente açoitado na memória devido a um passado recente.

- Escuta, amigo: perdoa-me por te fazer relembrar… Não era a minha intenção…

- Atenção, vejam a poente! Uma luz que faísca ao nível do mar. E não é uma estrela, tenho a certeza! – gritou um dos guerreiros que estava em serviço de vigia, cortando a conversa dos dois que partilhavam a fogueira, e despertando todos na galera.

Alarmados, concentraram-se no convés. Entre comentários sobre manifestações do além ou a aproximação de monstros marinhos, mantiveram-se todos na amurada, na expectativa da evolução dos acontecimentos. A estranha luz era apenas um pequeno ponto ao longe, mas era bem visível.

- Se fosse do outro lado da galera, diria que seria uma fogueira de algum acampamento junto à costa, avistável porque se destaca bem na noite. Agora, deste lado… - cismava Taer, em médio tom de voz. – Mas, é claro! Aquilo deve ser outra embarcação! Rápido apaguem o lume na lareira da galera! Assim, como nós os vemos, também eles podem descobrir a nossa presença! Queremos passar despercebidos e temos um azar destes…

Na realidade, o ponto luminoso parecia crescer, devagar, mas via-se nitidamente melhor. O que significava que, o que quer que fosse, ou ganhava maiores dimensões ou – para apreensão de todos – estava a aproximar-se!

- Rápido Taer, dirige o barco para nascente. O que ali vem não chegará certamente com boas intenções. Se possível evitaremos o contacto. Não podemos perder tempo ou arriscar o nosso encargo. E quero todos bem despertos e prontos para o que for preciso. Aos remos e força! – ergueu-se a voz do líder, Tongídio.

Com o esforço na manobra da embarcação, o estranho clarão voltou a reduzir de intensidade e acabou por se extinguir, tão de repente como havia surgido. No sentido oposto, começava-se a vislumbrar no horizonte o traço da linha de costa, sobretudo porque já espreitava, tímido, o pronúncio da aurora, naquele fugaz momento de suspensão do tempo, em que a noite e o dia trocam uma respeitosa vénia, tal beijo apaixonado de dois amantes. O Sol nascente descobria o Oriente.

Ainda a braços com as limitações da escuridão, julgando-se já a Sul do perigoso entreposto romano e a salvo dos perseguidores noturnos, a ordem foi para abrandar o ritmo e passar à remada de cadência normal.

- Em breve estaremos visíveis para o inimigo. Tenha-se o máximo de cautela. Só quando puder observar os pontos de referência de terra é que poderei assegurar o ponto em que estamos. – disse Taer, enquanto forçava os olhos na expectativa de enxergar qualquer sinal que o pudesse orientar na penumbra.

O silêncio imperava a bordo. Os olhares cansados perfuravam as trevas dos sentidos e as da ansiedade, à espreita de algo que não fosse só o ondular do mar. De tal modo dominou a quietude de movimentos e de fala, que a audição passou a impor-se à visão.

Começaram, então, a escutar uma estranha agitação nas águas, em contraste com o normal serpentear das ondas. Algo, não muito afastado, mergulhava ritmadamente na superfície aquífera.

Os sons enigmáticos aportaram imediatamente os receios com a recente imagem do misterioso clarão. Todavia, ainda no breu da despedida da noite, nada se vislumbrava e, subitamente, desapareciam também os ruídos.

Nem o respirar ganhava sopro; pareciam estátuas dispersas no convés e colados às amuradas. Ouvia-se apenas o mar a roçar no casco da embarcação e, aqui e ali, a brisa a gingar entre os cordames mais tensos.

Hirtos e atentos, saíram do estado de quase transe, quando do lado oeste ecoou o grito: - Acender e armar!

Na negridão surgiu, repentinamente, novamente o clarão, agora em tamanho amplo, na forma de lareira similar à que tinham a bordo, com labaredas crispantes. Via-se agora, a duas centenas de braçadas, um navio de grandes proporções, mesmo maior do que a galera, apinhado de gente, que segurava o que se assemelhava a longos guiços, com as pontas afogueadas.

- Disparar! – escutou-se novo grito.

O céu pardo encheu-se de múltiplos pontos incandescentes que se deslocavam rápido na direção da galera ibera.

- São setas incendiárias; abriguem-se! Atrás da torre ou encostados à amurada. Rápido! – reagiu Rubínia, instintivamente.

- Recolham a vela! – completou Taer.

Mas, já não foi a tempo. O dilúvio de fogo castigou duramente o costado e o convés da galera. O grande pano quadrado ardeu calorosamente, queimando também aqueles que deambulavam próximo, com os farrapos incandescentes que tombavam junto ao mastro. Assim caídos ou por razão de serem atingidos diretamente pelos dardos pontiagudos, verificaram-se algumas baixas na tripulação.

O dia vingava, enquanto a embarcação ibera se debatia com um incêndio de crescente proporção. O fumo negro já se via a longa distância.

 

Andarilhus

XX : XI : MMXIV

publicado por ANDARILHUS às 07:47
Quinta-feira , 13 de Novembro DE 2014

Por Ti Seguirei... (2.11)

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Na margem Sul, a hoste guiada por Monda havia conseguido similar sucesso, aniquilando uns e aprisionando outros, das cerca de duas dezenas de legionários que patrulhavam a Citânia Marinha e a zona da fortificação romana. Leuko dera o seu contributo: com o medo provocado pela sua aparição, enregelando os pobres dos latinos, obstou a que não fossem totalmente dizimados, por optarem pela rendição.

Apesar do morticínio, não deixaram de celebrar e expressar o seu agradecimento aos deuses, através de uma longa procissão ritual de abates e oferendas de toda a espécie. Às emanações dos sacrifícios juntaram-se as exalações voláteis dos corpos cremados, entranhadas pelos odores adocicados do combustível vegetal e das flores que coloriam de vida as homenagens fúnebres. Por algum tempo, a forte e costumeira fragância a maresia daquelas paragens submeteu-se à ligação aspergida entre o mundo dos homens e o além dos deuses.

Reuniram-se na Citânia Marinha para comemorar e relançar os costumes diários, sobretudo daqueles que haviam passado uma longa temporada aprisionados e apartados dos seus parentes e haveres. O reencontro e a alegria marcaram o final da tarde, atrasando a majestosa soturnidade da noite.

Túrdulos e Kalaedónios selavam a aliança que os comprometia a combaterem juntos novos assaltos inimigos. O alto da Peñaventosa seria o último refúgio para ambos os povos, em caso de necessidade.

Entre festejos, a noite reservou alguns momentos para preparar a partida da comitiva ibera. O Grande Mar Ocidental estava tão perto, aguardando para ser descoberto e calcorreado, como rodeira, até ao domínio dos Cartagineses.

 

Ainda o próprio Sol espreguiçava em acordar, já Tongídio e os seus carreavam, buliçosos, a carga da viagem para os porões da galera romana maior. A galiota, conduzida por Hermineu, acompanhado pelos juvenis do grupo de Aelcio, regressava a Tongóbriga, para inteirar Físias acerca das últimas novidades.

Ao grupo inicial da missão, juntavam-se Taer, perito na navegação, Aelsio (depois de tanto desgastar a paciência a Tongídio, que o considerava ainda muito novo para a empreitada), e um conjunto alargado de Túrdulos (no qual se incluíam Monda e Noa), em agradecimento pelo auxílio recebido, e para estabelecerem contacto com as raízes originais da tribo, a Sul da Ibéria. Com a recruta suplementar de uns quantos Kalaedónios, conseguiram, assim, os braços necessários para instar movimento a um número de remos suficiente que garantissem o deslizar a embarcação sobre as águas. Com o sopro dos deuses, a grande vela central também ajudaria a incrementar velocidade. Assim o urgia o passar do tempo.

 

Concluídas as despedidas, Taer assumiu o manobrar da galera rumo ao ponto de diluição do Durio na infusão salgada.

A imensidão azul do mar abria-se como se fora um segundo céu. Não se conseguia definir um termo, e desaparecia no próprio firmamento. Seriam estes uma só coisa, um só elemento, um só céu, dobrado no horizonte pelo abraço de algum deus? Uma cortina que tapava a morada dos divinos? Haveria alguma frincha, lá junto à dobra, que desse para espreitar os lugares idílicos, divinos?

A admiração e o êxtase dançavam, cingidos, nos rostos daqueles que só conheciam as larguezas de planícies e planaltos, em terra firme. Terra essa que, afinal… tinha um fim. E era ali, onde estavam agora. Seguia-se tanta água, tanta água… Certamente, escorrera pelos rios até àquela zona mais baixa… Seria mais fundo do que o Durio ou o Taamaco? Teria fundo?! E as ondas, que fazem suster a respiração quando a galera se ergue no seu dorso e passa acariciada como pelo roçar do lombo de um gato mimalho?! São enormes e magníficas as obras dos deuses! O seu poder é imenso!

Praticamente todos os que encaravam as novas e estranhas formas do Mundo mantinham-se em silêncio transcendente, maravilhados, como se contemplassem uma visão do sagrado, pelo encantamento de um druida. Pelo contrário, Runaekoi sentia uma terrível comichão nos pés, e barafustava, manifestando, uma vez mais, a sua aversão à água. Aliás, o grande mar era ainda pior, os sobressaltos da ondulação provocavam-lhe enjoos. E não era só a ele; acontecia o mesmo a todos os inexperientes nas jornadas marítimas. Com o desenrolar da viagem, acabariam por se adaptar como o haviam feito quando aprenderam a cavalgar a galope.

Taer manteve a embarcação alinhada e à vista da costa, com o rumo apontado ao Sul. Os dois primeiros dias foram difíceis. Os estômagos dos inusitados marinheiros, vazios, porque a vontade por alimento era nula, buscavam as entranhas para darem alguma matéria aos espasmos dos vómitos. Doíam de tanto esforço.

Para agravar o estado de agonia generalizado, a chuva regressava em força, alertando para o avanço da época do frio. O vento ganhava corpo, zurzindo na galera e bulindo as águas, muito agitando a sua superfície.

Todos os dias, Rubínia e Tongídio endereçavam as suas preces aos deuses de sua maior afeição, com especial devoção pelos amigos e compatriotas aprisionados sob jugo romano. Pediam, para aqueles, o amparo divino que assegurasse a proteção e a perseverança face às agruras, mantendo-os vivos até à chegada da falcata ibera, para os libertar do cárcere.

No silêncio da partilha dos seus pensamentos com o sagrado, Tongídio padecia de uma outra grande preocupação: o estado de graça em que se encontrava Rubínia. Com o ventre da mulher carregado por tanta esperança, sentia-se constrangido a redobrada atenção e alerta para qualquer perigo. Tanto mais que a empreitada a que se propunham era arriscadíssima, plena de balanços entre a vida e a morte.

Aleutério e Leuko, na companhia das duas mulheres túrdulas, serviam-se do abrigo de uma tenda improvisada, montada na ilharga da torre da embarcação.

Aelsio passava o tempo junto a Caturnino e Runaekoi. Expostos às águas dos céus, o jovem galaico convencia os guerreiros experimentados a atividades de treino militar. Ávido por aprender todos os movimentos com a falcata e a caetra, espicaçava os seniores a darem o seu melhor nas artes bélicas. Eram entusiasticamente observados por outros companheiros de viagem.

Passadas as dificuldades iniciais, o bom ambiente entre os presentes afastava a melancolia que o espaço exíguo do navio e o rigor climatérico tendiam em provocar, com o passar do tempo. As refeições começaram a entrar na normalidade da rotina e a agregar grupos, que aproveitavam para conversar. Dormir voltava a ser uma realidade natural.

Com o esforço revezado de todos os ocupantes nos remos, a galera seguia em forte cadência. O vento, apesar de arisco, também se apresentava de feição, enfunando a grande vela quadrada. Avançavam expeditos no carreiro das águas. Aqui e ali, uns peixes graúdos ladeavam a embarcação, como se fossem cães de companhia. Leuko, esticado na amurada, uivava-lhes, ao que respondiam com uma espécie de assobios estridentes. Eram uns bichos alegres e simpáticos.

- São golfinhos, Leuko. Conheço-os bem, da minha juventude, quando me dedicava ao mar… - sussurrou Aleutério, quase impercetível.

Monda deixou escapar um olhar de ternura sobre Aleutério, aquele estranho ancião. O próprio não reparou, mas Rubínia sim, e sorriu, como se aprovasse o enlevo do momento.

Taer dirigiu-se ao líder da expedição e deu-lhe a entender que se aproximavam do estuário do rio Tagono, local conhecido pelos mercadores como uma zona controlada pelos navios de guerra romanos. Numa das margens, os latinos haviam instalado um entreposto de apoio à armada. Uma pequena, mas bem preparada, fortificação.

- Para evitarmos encontros nefastos, será melhor confiar o curso da galera por paragens mais ao largo, e passar assim longe dos vigias inimigos. Deixaremos de ver terra, por um ou dois dias. – sugeriu Taer, com a cautela da sua experiência no transporte de mercadorias. Salvar as preciosas cargas exigia, por vezes, correrem outros riscos, como desorientarem-se na imensidão do mar e perderem-se irremediavelmente. Porém, as estrelas e as correntes acabavam por virem em socorro, transmitindo as indicações desejadas.

- Assim seja. Parece-me o mais certo. Não temos capacidade para enfrentar as forças romanas, sobretudo as treinadas para combates navais. – concordou Tongídio, e continuou: - Ainda temos mantimentos suficientes para vários dias. Afastemo-nos da costa, assim que consideres prudente, Taer.

À ordem do piloto, o leme rodou a embarcação para poente. A costa perdia-se de vista rapidamente. Já só com o mar no horizonte circundante, Taer corrigiu novamente o leme para Sul. Mantinham a mesma rota, embora sem a referência visual de terra. Acompanhar e ler os sinais naturais era agora fundamental.

 

Andarilhus

XIII : XI : MMXIV

 

 

publicado por ANDARILHUS às 18:50

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