Coroa de Espinhos

 
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Esporão
Reclamado à terra
Para correr idade
Cravado no flanco do destino
Escravo de agitação e de desatino
 
Sei que me comporto mal
Contigo
Sempre que te desperto
Para degeneradas artes
E te enlameio de toxinas
E te destapo sob intempéries
Do irrazoável
 
Sei que abuso
De ti
Quando te imponho utópicos limites
Quando te abandono sobre precipícios
E te afogo em ácidos e diluentes
E te carrego com fardos nas encostas
Do mau génio
 
E tu resistes
Com feridas abertas aqui
Com dons encerrados ali
Aguentas com remendos
De plástico e vinil
Agregando a pouca carne que resta
No esvair de enxurradas de sangue
Das batalhas e dos sonhos ensaiados
 
Perdoa-me
(perdoa o meu desprezo e incúria)
Cada vez que fechas para obras
E escoras os alicerces
Sou só eu quem escarra a tua fachada
Apedreja os vidros de cristal
E te arranca as telhas de protecção
Sou só eu que te esmurro
E te apago as luzes violentamente
Sou só eu quem te seduz
Para a demolição
 
Esporão reclamado pela terra
Corroído em poucos anos
Repousa cansado de retalhos
Sobre o sudário do samaritano
É tempo de soltar os pontos do suplício,
Os gritos! Os lamentos… A raiva!
Extirpar as grades da prisão
Do ocupante demente e ruim
Invasor parasita da tua generosidade.
Vai corpo, vai.
Abandona-me mártir,
Eu não te mereço…
 
Andarilhus “(º0º)”
XV : IX : MMVIII
publicado por ANDARILHUS às 17:25