O Tesouro

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Anunciou-se pela manhã
Vestido de punhal fero
Queimando no olhar de morte.
Buscou o cajado da partida.
Trincou a fortuita romã,
Esqueceu costumado esmero
E rasgou a ladainha da sorte,
Sem mais, tossiu a despedida.
Não chorou ou riu.
Cobriu-se de libertador véu,
Sem festa, sem exéquias,
Simplesmente saiu…
 
Puxou o céu,
Enrolou-o
Sem vinco ou esquina.
Espremeu o Sol,
Tirou-lhe o ar e dobrou-o
Como fole de concertina.
No baú de couro
Juntou algumas nuvens
Para melhor acomodar
O seu tesouro…
Todos guardou com afeição.
E neles espetou anzol,
No ensejo de reencontrar
O isco do coração.
 
Atrás de si, bateu a porta
Derrubou a casa e aniquilou a rua.
E não contente,
Extraiu aquele pedaço de mundo,
Como se fora dente estragado,
Triturou-o e purgou-o no fogo.
Às escuras aventurou
Só com noite e um pouco de Lua
Hirto como cardo indolente,
Sem topo nem fundo,
Vulto aleijado
Mas, sem lamento ou rogo…
 
Solitário de alma,
Desprovido de rumo,
Segue a direcção do vento,
Descrente do semelhante,
Sem fé de cristão ou mouro.
Virá manhã que salva
Lírica de rouxinol de fumo
Trovando o fim de tormento
E de novo, o infante,
Partilhará o baú do seu tesouro…
 
Andarilhus “(º0º)”
XV : I : MMIX
música: Heroes del Silencio: "Tesoro"
publicado por ANDARILHUS às 14:23