O Gelo Rubro I

 

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O Gelo Rubro I
(reacendido e atiçado)
 
Opah, valquíria das terras dos Dríades, no extremo norte de Zenith, tinha porte e gesto de bela princesa humana. E fora princesa e mesmo rainha na sua gesta de vida. Porém, pelo solstício de Verão, a insurreição súbita dos goblins, adoradores das estalactites de cobre e provenientes das misteriosas Cavernas da Penumbra, colocara o território a ferro e fogo e destronara a regente. Opah, a custo escapara a um destino mais atroz, conseguindo fugir e refugiar-se na fronteira dos seus antigos domínios, em zona remota e de acesso difícil. Aí, inalcançável nas grandes estepes geladas, sobrevivia com os parcos recursos que pudera arrastar aquando da evasão. O seu exército e demais súbditos erravam, foragidos, algures pelos segredos da densa Floresta Mágica.
Conseguira escapar prodigiosamente graças aos seus 3 magníficos cavalos da linhagem da Túmedra: o Linho, o Fio e o Cordel. Os possantes animais corriam como um só novelo, de vento e mel, com uma desenvoltura que deixava marca no olhar a quem houvesse privilégio de os mirar no deleite da velocidade e da formatura estética. Eram do mais puro cristal e partilhavam o espírito e a racionalidade com os humanos e demais seres de Zenith.
O Linho era branco opaco e geria bem e com sabedoria a liderança reconhecida pelos companheiros. O Fio era de um azul-água, verdadeiro golfinho da superfície dos lagos gelados e o Cordel de um verde-líquen que enchia as copas alvas das árvores com promessas de Primavera.
O trono de Opah era agora a sela de prata e couro dedilhado com que trajava majestosamente os seus cavalos, à vez. Tratava-se de uma cavaleira impar, sem rival na arte equestre. Eles respeitavam-na na minúcia e alegravam-se na sua pureza animal quando lhes tocava a oportunidade de transportar a sua senhora.
No desterro, passavam-se os dias sem que Opah lograsse juntar as forças suficientes para reclamar o que lhe pertencia por direito de herança e tradição. Magoava a sua beleza com o carregar de expressões tristes e preocupadas. Consumia horas em silêncio e olhares vagos e perdidos. Esmorecia em farrapos de manhãs ou tardes, deitava-se em dormitar desiludido mas despertava alegre e confiante pelo grito da alvorada. E retomava, do início, a contagem de forças e a preparação da estratégia, como se fosse o primeiro dia de exílio. Todavia, as horas continuavam a passar e o desalento avançava com o Sol…
Nos fiéis cavalos encontrava alguma paz, algum consolo. Esquecia-se por momentos das agruras deixando-se levar por longos passeios. Num desses deambulares, junto do ponto em que o mar beija a terra, viu numa enseada, sita no sopé do monte onde repousava, a chegada de umas embarcações estranhas. Eram barcos longos e esguios, com uma longa vela quadrada ao centro, temíveis cabeças de animais à popa e uma espécie de cauda nas proas. Reluziam como ouro.
- “Conheço-os…”, disse o Cordel, prontamente. – “São os elfos dos Canais Floridos, também designados de vikings. Vêm de terras ligeiramente mais a Sul, belas e coloridas, resgatadas aos Pântanos do Azedume. São guerreiros formidáveis, mas muito cruéis. Vamo-nos daqui antes que nos vejam!” E saíram dali com o repente do trovão.
Nos dias seguintes não se afastaram demasiado do acampamento. A rotina continuava. Opah fazia planos sobre planos e debatia-os com os equídeos, enquanto deambulavam pela floresta próxima. Nessa tarde, estavam mais efusivos do que o normal na discussão, tanto que não se deram contam de estranhas presenças. Quando entraram numa solarenga clareira, fechou-se à sua volta um forte e metálico biombo de seres muito semelhantes aos humanos. Os vikings! Eram guerreiros possantes, esguios, de longos cabelos e barbas, claros, cintilantes nas suas armaduras.
O Linho tomou posição imediata de defesa, exortando os parceiros na protecção a Opah. Cerraram fileiras e mostraram os cascos e os dentes e sobretudo a sua beleza sem par, na mescla das suas tezes.
Adiantou-se um distinto dos elfos, de farta guedelha castanha clara, ao jeito do carvalho polido e que sobressaía naquela pequena multidão de loiros.
- “Nada temam. As nossas intenções são pacíficas. Eu sou Yopulus e estes são os meus conterrâneos. Sou o chefe ungido desta expedição. O que nos trás por cá, tão a Norte, é a busca de solução para um momento de flagelo que cobre a nossa pátria. Mas, quem sois vós, estranhas criaturas?”
Linho não facilitou e manteve a formação disciplinada. Ela, menos alarmada e mais relaxada, respondeu de dentro da sua fortaleza de cristal: - “Sou Opah, Rainha das terras que pisais. Fui destronada por uma seita que, como erva daninha, irrompeu do solo e tomou vorazmente toda beleza e alegria do meu reino. Estou exilada nestes lugares gelados, onde eles não conseguem chegar por falta de resistência ao frio extremo. Estes são os meus bravos companheiros. Não são meros cavalos, mas isso até um bárbaro como vós já deve ter reparado”. Firme e segura, mostrava-se digna da realeza. Mesmo em perigo e desvantagem manifesta, impunha-se perante os estranhos.
- “O que nos quereis? Porquê este cerco? Que fazeis aqui?”
Yopulus olhou em volta e fez um sinal. Foi obedecido num ápice. Os guerreiros afastaram-se e procuraram lugar para repousar e recuperar forças. Quedou-se apenas o chefe viking.
- “Perdoai a nossa rudeza, mas tínhamos de nos certificar que éreis inofensivos e de confiança. Agrada-me a vossa coragem e arrojo. Rivaliza definitivamente com a vossa beleza… Bem, mas falemos do que nos trouxe às vossas costas.
Arghard, a nossa pátria, sempre foi uma terra próspera. Abundante e fértil nas suas mulheres e culturas, venturosa nas suas demandas comerciais e engenhosa nos mil ofícios. Escolhemos desde há muito a via pacífica e a troca de saberes e produtos com outros povos. Seguimos o curso da guerra apenas quando olhares de cobiça se lançam sobre as nossas casas e posses. Infelizmente, estamos em guerra agora. Todavia, é uma peleja diferente e não convencional. A amargura veio connosco, mas o desespero e a dor ficaram no nosso país. Vou contar-te o nosso terrível fado e razão desta nossa jornada.”
Após novo sinal do caudilho, os elfos, com movimentos ligeiros e sem qualquer ruído – como lhes era característico –, estenderam várias capas no solo, criando um espaço aprazível ao diálogo e ao descanso. As vestimentas tradicionais, labores inenarráveis, obra quase imaterial dos tecelães élficos, tornavam o ambiente ainda mais empático. Ao gesto anfitrião de Yopulus, os equídeos afrouxaram a guarda e Opah aconchegou-se no recosto da casca macia de um roble, sentando-se candidamente, arrebatada pela arte que lhe servia de manta. Trouxeram algumas vitualhas, que não só afagaram o estômago castigado por dieta forçada da princesa-rainha, como tiveram o condão de lhe trazer doces recordações de tempos idos, tempos de paz.
E era a questão da paz – perdida – que afligia o coração e o pensamento do chefe viking.
Assim que retomaram as energias e dissiparam as defesas, Yopulus continuou a sua narrativa: -“Somos, geneticamente, uns incorrigíveis viajantes, visitantes e conhecedores de muitos portos e lugares. Todavia, Arghard é a mais bela terra que jamais admirarei, por muitas léguas que galgue. É credora de tanto suspiro e sorriso, de tanta felicidade e agora preocupação. Está-me no sangue, segue-me sempre em caloroso remanso do pensamento. Por estes dias, precisa de nós para que não se transforme num mero sonho e numa vã memória…”
Emudeceu e notou-se a mão da dor a percorrer-lhe sinistramente a face.
-“Diz-me, Senhor dos elfos, que desgraça maior te cega a luz da alegria?”, retorquiu Opah, procurando segurá-lo à realidade e não permitindo que largasse em nova jornada pelas imagens negras que o assaltavam.
-“É a própria alma de Arghard que se extingue. Se não tivermos êxito e não formos lestos, perder-se-á para sempre a nossa pátria. Eras, gerações esforçadas para criar tão belo paraíso, recebido por dádiva da própria Mãe-Terra e trabalhado arduamente no desejo de construir o maior templo aos deuses, através da edificação de um estado, paradigma da justiça, da fraternidade, da ética, da sabedoria… da perfeição. Vou relatar brevemente a calamidade que se abateu sobre nós.
Em tempos ancestrais, os nossos antepassados encontraram perdidos no lamaçal do pântano que povoavam uma expedição humana já exangue e com poucos sobreviventes. Tinham vindo do Norte em demanda do Ninho do Sol. Seguiram-no e arruinaram-se. Estavam longe de casa e completamente desorientados. Os deuses assim o quiseram, porque sempre reagiram mal à revelação dos seus segredos. Os nossos antigos avós valeram-lhes, salvaram-nos e levaram-nos até à fronteira do seu território. Como recompensa receberam das mãos dos visitantes do Norte um esplendoroso cristal rubro, com a indicação de que era um rubi retirado da Árvore Ardósia do Alento. Para ser favorável, deveria ser colocado no lugar mais sagrado que a natureza por ali havia criado. Pois bem, no pântano o único lugar salubre era a nascente de água pura que saciava a sede das minhas gentes antigas. Nesse sítio – actualmente no centro de Arghard – designado desde então como a Nascente Primaz, foi levantado uma base marmórea junto à saída das águas e aí depositado o cristal. A transformação foi imediata. Aumentou o caudal líquido e a energia vital. O pântano drenou-se como que por magia e logo surgiram as mais belas espécies vegetais, silvestres e florais. Iniciou-se época de fecundidade e de expansão pelo conhecimento e pelo mundo. Tornámo-nos num povo evoluído e respeitado. Mas também invejado…
Os trolls de Anquilão, território vizinho, a leste, enviaram uma embaixada para rectificar os tratados de paz e de comércio. Tudo embuste! O séquito não era mais do que uma mão cheia de guerreiros audazes que pretendiam roubar-nos a pedra preciosa do vigor. Tentaram e quase conseguiram levá-la. Não tiveram sucesso mas a miséria e o castigo caiu sobre nós. Enquanto perseguíamos os infames, o troll que carregava o nosso tesouro caiu num precipício sem fundo, perdendo-se para sempre a relíquia. Trucidamos os inimigos remanescentes e fizemos inúmeras tentativas para descer ao abismo mas, mesmo com a ajuda de duendes mineiros e grifos, foi impossível recuperá-lo.
Sem a fonte de ânimo, a fonte da água já não consegue manter a prosperidade e a felicidade. Aos poucos e incessantemente, o pântano regressa e ganha terreno. É este o nosso infortúnio. E por isso, numa derradeira tentativa, avançamos para Norte na esperança de encontrar o nobre povo que nos entregou a luz rubra”.
Opah estava estarrecida com tudo o que ouvira. Quase perdia a compostura e dir-se-ia que tremia, nervosa. Não se conteve mais e falou apressada: -“Então é verdade o que a lenda conta! Entre os seus escritos, os nossos antepassados deixaram uma passagem em que narram uma viagem a Sul e o encontro providencial com gente estranha e algo selvagem. E mais te digo, Yopulus: a árvore de que falas está no jardim a nascente do palácio capital do meu reino e continua a dar frutos. Os nossos povos conheceram-se há muito tempo, em momento oportuno!”
-“E porque esperamos?!” – retorquiu em sorriso o elfo –“Sigamos para esse bendito palácio! Nós ajudaremos a escorraçar os invasores e vós, se nos considerardes dignos, ireis recompensar-nos com mais um precioso fruto da Árvore Ardósia. Reeditemos a História!”
 
(continua...)
 
Andarilhus
XX – IX - MMIX

 

publicado por ANDARILHUS às 22:10