O Gelo Rubro II

 

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(continuação...) 
 
- “Assim seja.” – Anuiu Opah.
No cômputo das forças leais à princesa-rainha e já com o apoio dos vikings, contar-se-iam pouco mais do que 450 lanças. Do outro lado da liça, poderiam esperar mais de três milhares de goblins, só na capital, Dríadson. Precisavam de um plano…
Opah convocou o conselho dos seus ilustres para preparar a estratégia de combate e começou a reluzir na sua aura de valquíria. Aproximava-se um daqueles momentos solenes em que cumpriria o seu destino em honra dos deuses. Melhor! Desta vez, trataria dos guerreiros vivos primeiro, como humana e depois vestiria a sua túnica de deidade e escolheria os melhores guerreiros entre os que tombariam no campo de batalha.
A surpresa e a audácia seriam as armas a empunhar. Explicou o seu plano e apurou-o ao detalhe com os membros do concílio. Era essencial capturar Mordaz, chefe militar e sacerdote maior dos goblins, a quem seguiam como se fosse um deus vivo. A perspicácia de Opah apontava para uma das fraquezas do líder dos inimigos. Mordaz ambicionava capturar o Linho, o mais forte dos 3 últimos cavalos túmedros para, com os exorcismos de feitiçaria que tão bem dominava, tomar-lhe os poderes mágicos e assim adquirir o domínio de se transformar em centauro, o que o tornaria invencível e muito próximo da imortalidade. Aliás, fora também essa a razão que o movera à insubordinação e à conquista dos Dríades, mas os equídeos haviam escapado à sua teia.
De acordo com o plano, puseram-se em marcha para Dríadson, para lá chegar no crepúsculo do dia seguinte. Pelo entardecer calculado, aproximaram-se das fortes muralhas da capital. Opah usou os poderes da metamorfose e perdeu-se no grupo dos elfos. Era agora mais um dos da comitiva viking que se acercava da urbe. O plano estava em marcha e já não podiam desistir. Dirigiram-se a um dos portões.
-“Alto! Quem vem lá?”, grunhiu um dos guardas goblins, em palavras tärkish, o dialecto mais popular e conhecido em Zenith.
Yopulus respondeu pausadamente: -“Somos um grupo dissidente dos vikings das Terras Baixas. Somos mercenários e caçadores de troféus, dispostos a servir quem pagar mais. Deixa-nos entrar, temos algo que pode interessar ao teu senhor…”
-“Alto! Nem mais uma passada ou sereis frechados e dizimados como gansos do fiorde” - gritou o guarda, apontando para as ameias, onde inúmeros arqueiros esticavam as armas - “Que negócio quereis com o nosso amo?”
Yopulus, fez-lhe a vontade e respondeu-lhe com uma visão que aterrou o goblin, Orvi, de nome. Com um suave gesto, ordenou aos seus homens que se afastassem e destapassem a magnífica imagem do Linho.
- “Encontrámos… ahahahaha… saqueámos algo que de certeza fará as delícias do senhor desta grande cidade. Não foi fácil. Aquela gente deu luta, mas foram todos passados a espada. Foi pena é terem escapado os outros dois cavalos semelhantes a este. Agora, com este belo exemplar, contamos colectar um pequeno tesouro e, já agora, agasalho e estadia por uns dias”.
Orvi engoliu em seco mas evitou os comentários. Sabia que seria castigado e poderia estragar o negócio ao seu chefe. – “Esperem. Vou relatar a vossa chegada”.
Encerrou os grossos portões sem grande alarido para, depois, longe dos olhares dos estranhos, desatar a correr como se fugisse do Sol. Não demorou muito a regressar e a deixar entrar os cerca de 30 companheiros que seguiam Yopulus.
- “Venham, tenho ordens para vos levar à cidadela. A todos não. Escolhe uma dezena dos teus guerreiros para te acompanharem. Estão convidados para cear com o nosso muito ilustre senhor, Mordaz. E tragam o equídeo. Os restantes irão acampar junto à segunda muralha”.
Dríadson era uma grande cidade e uma verdadeira fortaleza. Ostentava uma poderosa muralha exterior e mais duas, ligeiramente mais leves, no interior. No ponto mais alto contava ainda com um último reduto de segurança, uma cidadela, onde se elevava o palácio e o centro político e religioso da capital.
Uma escolta conduziu os viandantes à presença do grande líder. Entraram numa sumptuosa e gigantesca sala. Estribaram após a porta. Em frente e espalhados pelo chão do salão, dezenas de goblins comiam descontraidamente. Não havia mesas ou cadeiras. Mantinham o costume das cavernas. Um dos elfos suspirou baixinho, decepcionado. Era Opah. Porém, logo se aprumou porque um dos comensais levantou-se, passou por eles e posicionou-se a admirar o Linho. Brilhavam os olhos e um sorriso macabro esgueirava-se dos lábios brancos de Mordaz. – “Deveis saber quem sou. Juntai-vos ao repasto. Veremos que tipo de fortuna vos traz por cá…”
- “A do ouro!” gracejou Yopulus.
Este e três dos seus homens agruparam-se com Mordaz e os dignitários goblins. Os restantes permaneceram junto do Linho.
- “O que pretendeis em troca desse animal de gelo? Sem esquecer que estais sob a minha hospitalidade e mesmo, se não me agradar a vossa arrogância, sob os meus caprichos…”
- “Ora, ora, senhor Mordaz, este belo espécime é de uma raça singular e exemplar quase único. Com todo o respeito, vale bem uma recompensa generosa de vossa parte. Dai-nos 100 lingotes de ouro e a guarida por 3 dias.” - Retorquiu o líder dos elfos.
- “Muito bem, a guarida fica acertada. Quanto ao ouro, vou pensar se vos darei 50 ou 25 lingotes. Agora, sereis levados para uma ala do palácio onde passareis a noite, bem guardados. O cavalo ficará convosco. Com a vossa ânsia pelo vil metal, ninguém o protegerá melhor”.
Foram instalados noutra grandiosa sala, mais uma vez, sem qualquer mobiliário. Opah assumiu a sua fisionomia de valquíria e humana e correu para uma laje vertical que se demarcava numa das paredes. A grande maioria das divisões do palácio estava munida de uma ou mais passagens secretas, que ramificavam no interior dos grossos muros da cidadela e muralhas até ao exterior. - “Rápido! Ajudem-me a puxar esta pedra azul, é o manípulo para abrir a porta da vingança!”.
Pela manhã, os goblins acordaram com a cidade cercada com todo o tipo de criaturas das paragens mais escusas de Zenith. Parte do plano consistia em procurar e anunciar a todos os seres o iminente confronto com os opressores goblins, procurando recrutar todos os que se quisessem bater pela liberdade e a paz. O Fio correra à Floresta Mágica e reunira todos os dríades extraviados e tantos outros, de outras espécies, que quiseram engrossar as fileiras da reconquista. O Cordel, de cavalgada de luz, visitara os muitos povoados e agremiara para a causa umas largas centenas de guerreiros.
Uma algazarra de vozes e dialectos anunciava a presença de humanos, fadas, gnomos, gigantes, duendes, dragões, elfos, faunos, gárgulas, entes, grifos e até trolls. Nunca a terra de Zenith e os seus habitantes estiveram tão unidos.
Avisado, Mordaz subiu a um torreão da cidadela para avaliar a situação.
-“Pobres, desgraçados e pretensiosos. Finalmente, tiveram coragem. Mas, não terão qualquer hipótese de vencerem a nossa fortaleza. É um bom momento para lhes dar um golpe de misericórdia e capturar os rebeldes. Preparem-se! Vamos fazer uma sortida de surpresa e esmagar estes imbecis. Um lingote de ouro para quem me trouxer Opha – que os deve estar a comandar – viva ou morta!”
As falanges goblins começaram a abandonar a cidadela e a concentrarem-se no largo adjacente à porta principal da muralha exterior, para a formação de ataque. Tudo tinha resultado bem para Opah e os seus, até então. A reacção dos goblins fora bem ponderada. O palácio estava agora ocupado apenas pela minguada guarda pessoal de Mordaz. Era o momento de ferrar a tenaz na hierarquia goblin.
Quando se preparava para deixar o torreão, o pálido Mordaz ficou translúcido. Sem saber como e de onde, contemplou a cidadela a encher-se de grupos crescendos de elfos e humanos, sobretudo. Estes, rapidamente, correram a manipular a guarnição das portas da cidadela, para as encerrar e assim, isolá-la da restante cidade e do grosso do exército sitiado.
Durante a noite, Opah fizera com que os seus leais súbditos e aliados se infiltrassem na cidade, através dos túneis e portas secretas, que tão bem conhecia. Fora um golpe de mestre. Encontra-se agora em perigo a elite goblin.
Os aliados da reconquista lançaram-se em caça daqueles, abatendo, um a um, todos os que oferecessem resistência. Por fim, cercaram Mordaz no seu último reduto: um amplo terraço da cidadela e o seu ponto menos alto. Com pouco mais do que 20 dos seus seguidores, o chefe procurava fugir da sua própria fortaleza, através de uma longa corda que – amarguradamente, verificou – mal chegava para cobrir metade da vertigem da muralha.
Opah e os seus dominaram os goblins, com a preciosa ajuda do porte do Linho. Aprisionado, Mordaz rangia os dentes, espumando de ódio e não tirando os olhos do cavalo de cristal. Estava desesperado e disposto a tudo e enquanto humanos e elfos, risonhos, relaxavam após a contenda, empurrou os guerreiros que o agarravam, conseguiu pegar num machado e correu para o Linho.
-“Maldito sejas! Se não és meu, também não serás de ninguém!”. Na passada, puxou a arma acima do ombro e desferiu um violento golpe. O Linho, expoente máximo da agilidade, facilmente se esquivou ao ataque, colocou-se em posição de defesa e presenteou Mordaz com um potente coice de luz que o fez passar directamente sobre as ameias e cair no terreiro, de uma altura equivalente a 6 árvores centenárias. Terminava assim e ali a vida mal fadada de Mordaz, o responsável por tanto mal, destruição e dor.
O exército goblin presenciou a queda e morte do seu senhor e a notícia espalhou-se qual fogo em erva seca. Como num fosso, entre os dois braços do adversário e decapitados no comando, depuseram as armas e renderam-se.
Opah deixou que regressassem às Cavernas da Penumbra, com a obrigação de enviarem periodicamente os seus representantes às reuniões do Conselho Geral das terras dos dríades. Queria-os controlados, integrando-as nas decisões governativas daquelas paragens.
A princesa-rainha tinha um longo caminho pela frente para reorganizar o reino e restabelecer os padrões da vida e das vivências. Contava com o Linho, o Fio e o Cordel para a ajudarem.
Os vikings elfos receberam um novo rubi, o gelo rubro que tanto aguardava o seu povo. E, na despedida, Yopulus sentiu um arrepiar com as promessas de amor no olhar descuidado da valquíria rainha…
… mas isso é uma outra LONGA história…
 
Andarilhus
XX – IX - MMIX

 

publicado por ANDARILHUS às 22:26