Por Ti Seguirei... (38º episódio)

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Aos poucos, todos os caudilhos acenaram afirmativamente com a cabeça, concordando. Areatavo ainda resmungou, mas percebeu que não teria outra solução que não fosse aceitar. Tanto mais que os druidas dos arévacos também estavam na enunciação do sortilégio. Também, não seria mais do que um pequeno adiar do desfecho que entendia por garantido.

Encerraram as vedações em madeira do campo de jogos e trouxeram um portentoso touro, conduzido entre vacas, as quais foram retiradas de imediato. O macho bobino certamente que teria comido urtigas e tojos – e não ervas tranquilizantes - tal era a ferocidade que mostrava, com os cascos a raspar no solo e os roncos que emitia enquanto ostentava, em desafio, os formidáveis e aguçados chifres.

Os que se apresentavam para dominar o bicho, rebuscavam as ideias, mas não concebiam como poderiam sujeitá-lo sem o ferir e deixá-lo ileso para o punhal cerimonial.

Acercaram-se das barreiras, distanciando-se ao longo daquelas. Só Tongídio, que substituía o incontrolado Sonim - e garantia assim mais uns dias de vida a Areatavo -, Gurri, que ocupava o lugar do seu vetusto chefe, Erizeu, e Talauto, por razão similar, se mantinham reunidos a ponderar uma estratégia comum. Tentaram agregar os restantes caudilhos, chamando-os para si. A custo, começaram então a conferenciar em conjunto, como agilizariam a imobilização do touro.

Sempre empenhado em destruir qualquer acção conjugada, Areatavo subiu para o topo da cerca e berrou para os que até então se tinham manifestado mais solidários consigo: -“Deixemos estas meninas a ver como domamos um animal bravio. Venham, vamos terminar com esta farsa e certamente que os deuses nos beneficiarão.”

Temerários, mas sem absoluta convicção, os líderes do Sul e Centro da Ibéria, acompanhados ainda pelo vascão, galgaram igualmente a tábuas. Talauto tentou persuadi-los: -“Esperem, vamos planear primeiro como, com a ajuda de todos, poderemos ludibriar o touro e apanhá-lo, vencendo o desafio…”

-“Não nos passes conversa de fraco; atenta e aprende!”

O bicho cheirava o ar e mostrava crescente fúria, com tamanha presença humana e por se encontrar fechado, sem saída para se afastar. Eram 6 os incautos. Saltaram para a arena no extremo contrário àquele onde permanecia o animal. Distribuíram-se pelo espaço, todos eles com uma corda, que tentariam colocar no cachaço da presa, pensando depois dominá-la por força de braços. Tinham tanto de coragem como de insensatez: aquele peso bruto tinha um poder físico suficiente para os arrastar a todos.

Areatavo, sem perder a postura de líder, adiantou-se lentamente, tentando surpreender o touro distraído com o ruído do público. Chegou-se bem próximo, a 10 passos do objectivo, mas foi descoberto. De imediato, a besta, que pingava abundante muco pelo focinho, virou-se, sacudiu a cabeça hasteada, sulcou profundamente o chão com os cascos e acelerou, levantando uma grossa nuvem de poeira.

O que se viu de seguida foi algo estranho e jamais presenciado por aquelas gentes. O arévaco e os restantes correram a bom correr em busca do tabuado que os libertasse daquele vertiginoso demónio chifrudo. O túrdulo e o batestano subiram num ápice a uma árvore que estava quase ao centro da arena, os demais, por estarem mais próximos, alcançaram a cerca e subiram-na. Porém, Areatavo não teve a mesma sorte: o touro alcançou-o já próximo das barreiras, baixou a cabeça e quando a ergueu trazia o infeliz espetado por um chifre, bem entranhado na coxa direita. Tal a força daquele pescoço musculoso que o atirou para lá da paliçada. Quando aterrou, Areatavo esvaia-se em sangue, sendo logo assistido pelos homens que aguardavam no exterior e pelos druidas.

O animal virava-se agora para os da árvore. Sentia-lhes o cheiro. Marrava com força no tronco que, apesar de alguma robustez, já mostrava sinais de ruptura, com as fibras a rasgar.

Talauto, apesar de saber que acabaria por ali o seu projecto para a Ibéria, preparava-se para dar ordens para abater o touro. Porém, Tongídio interveio: -“Espera meu irmão. Não podemos deitar tudo a perder. Temos de tentar: estas dificuldades são um sinal dos deuses; eles querem-nos unidos, e mandam-nos esta provação para nos obrigar a agir em conjunto!” Correu para o Sacerdote Mor e arrancou-lhe a grande capa vermelha, deixando-o a protestar. De seguida entrou no cercado, com ideia de atrair o bicho e, assim, criar o ensejo para que os outros pudessem fugir para lugar seguro.

Foi a tempo oportuno que o fez. A árvore era de porte pequeno e exíguo para permitir que dois musculados guerreiros se mantivessem nas suas curtas ramagens. Espónio e Alurso seguravam-se como podiam, a cada investida da possante cabeça. O galho que sustentava o batestano cedeu, fazendo-o cair e deixando-o à mercê do touro. Este focou o novo alvo e embruteceu as ameaças conhecidas. Já se preparava para acometer quando uma apelativa mancha de cor viva o atraiu irremediavelmente. Tongídio expunha e sacudia energicamente a capa vermelha, a pouca distância.

Instintivamente, o colossal bobino concentrou-se no pano e correu como louco na direcção do celta. Já praticamente a roçar a capa, Tongídio saltou para o lado e largou-a sobre a cabeça do animal. Enquanto este, tapado pelo manto, saltava sobre as patas dianteiras e sacudia ferozmente os chifres, o celta auxiliou Alurso a erguer-se (ferira-se na queda, lancetado no rosto e peito pelas arestas vivas dos ramos secos) e, já com Espónio pelo solo, saíram os 3 de perigo.

A multidão exultava! Dava vivas aos que saiam da arena e viam no episódio a intervenção e a inspiração divina. O guerreiro da tatuagem azul fora o braço dos deuses. O momento era propício aos desígnios dos defensores do concílio entre os povos, e não foi desperdiçado.

Novamente reunidos, e agora com a convicção e empenho de todos, os caudilhos prepararam a domínio daquela besta desafiante, que por eles aguardava.

-“Já vimos que o animal pode ser dirigido para um alvo: um manto vermelho. É nesta base que temos de planear a acção. Como fiz há pouco, vou atraí-lo novamente para a capa e tentar enleá-la nas hastes o mais possível. Enquanto espernear na escuridão das sombras, aproximamo-nos todos e cada qual coloca-lhe uma corda nas patas ou pescoço. Se o conseguirmos, obrigamo-lo depois a tombar pelo chão e amarramo-lo. Vamos tentar desta forma?”

Um brado uníssono de 10 gargantas em comunhão firmou o pacto de entreajuda. Finalmente, algo os unia em busca de um fim comum e do interesse global.

Ainda bem marcado pelas sequelas e pelo sangue seco, Alurso levantou-se da esteira onde o colocaram, mancou saltitante até junto da cerca e recolheu a capa vermelha que tinha sido, entretanto, projectada para fora. Dirigiu-se ao grupo que se preparava com os apetrechos necessários, estendeu a mão e encarou Tongídio: -“Toma celta. Nesta nova tentativa, estarei imediatamente atrás de ti e não recuarei; darei a vida se me for pedida. Há pouco encontrei a valentia e a fraternidade. E a importância destes valores para o futuro da Ibéria. Gostaria de ter a honra de te ter por irmão.

Tongídio aquiesceu, tomando o chamariz do plano e cumprimentando de seguida o batestano.

Ao ver o gesto, Talauto sorriu e sentiu-se iluminado com a sabedoria dos druidas. Na verdade, eles nunca pretenderam encontrar o destino das gentes da Ibéria no veredicto dos deuses. Apenas construíram, com astúcia, um artifício para que os homens se tolerassem e colaborassem entre si, enquanto porfiavam pela revelação divina.

Com retumbantes apoios de toda a assembleia, uma vez mais, saltaram para a arena. Tongídio colocou-se à frente e foi avançando. Os restantes guerreiros seguiram-no em fila, com espaços regulares, tal como o combinado. No passo seguinte da estratégia, contava-se com o êxito do lusitano na firme colocação da venda. Após a qual, os caudilhos correriam, um após outro, a apertar cordas ao corpulento animal. A seguir, divididos em duas equipas, colocar-se-iam de ambos os lados do bicho, não permitindo que ele se movesse. Depois, com esticões violentos tentariam derrubá-lo pelas patas e, então, lançar-se-iam sobre ele para o laçar.

Como estava previsto, o touro arremeteu contra a capa vermelha. Tongídio acelerou para encurtar espaço para o atacante. Já sobre o momento se devia desviar para o lado, escorregou ligeiramente e perdeu o equilíbrio essencial para o salto. Para assombro de todos, o manto enfaixou-se no focinho do animal e Tongídio, para não ser abalroado e espezinhado ou receber golpe fatal das pontas afiadas, quase instintivamente recebeu com o peito o embate da fera e encaixou-se entre os chifres, agarrando-se às orelhas e à parte de trás da cabeça do touro. Estava agora a ser sacudido violentamente, segurando-se firme, como uma sanguessuga.

O planeado estava às avessas e os companheiros tão estupefactos como o público. Mas, Alurso reagiu de imediato, agarrando-se ele também a Tongídio e aportando mais pressão à cabeça agitada do bicho. Talauto e Gurri fizeram o mesmo e os demais chegaram-se ao touro pelas laterais. Um deles, Arúspede, o calaico, agarrou-o pela cauda, obrigando-o a abrandar. Estava consumada a pega do demónio.

O touro lutou com toda a sua bravura para repelir as forças que o retinham, conseguindo ter algum sucesso. Porém, os guerreiros, e apesar das mazelas, erguiam-se e atiravam-se novamente a ele, com toda a ânsia. Os movimentos foram reduzindo de intensidade e então, Espónio armou duas cordas a cada dupla de patas, sem ainda as esticar. Prepararam-se e ao sinal de Tongídio – que, dada a sua posição, seria o último a sair da cara do touro – correram todos para ao mesmo lado, em dois grupos, e puxaram ambas as cordas em simultâneo, provocando a queda do animal. Saltaram-lhe em cima, amarraram-no pelos chifres para imobilizar a cabeça e ataram-lhe as patas. Estava pronto para a cerimónia.

A poeira assentou, mas por pouco tempo. De imediato uma torrente de gente descia das encostas para saudar os corajosos domadores do grande touro sagrado. Rubínia abraçou Tongídio, assim como Alépio e até Zímio expressou alguma alegria. Cada qual daqueles valorosos recebeu as manifestações de respeito e admiração. Foram erguidos em ombros.

O Sacerdote Mor, resmungão, mas sorridente, recuperou a sua capa, algo esburacada e suja, aproximou-se da vítima e cumpriu os rituais próprios. Um golpe perfeito no coração e o touro expirou sem maior sofrimento. A cor do sangue e o aspecto das entranhas confirmavam a graça dos deuses e a aprovação da amizade, da concórdia e do acordo conjunto entre os povos ibéricos. Os jogos deviam realizar-se.

 

Andarilhus

XXI : IV : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 08:23