Por Ti Seguirei... (43º episódio)

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Todavia, a estratégia não ficaria apenas por aquelas actividades e manobras. Antes mesmo de raiar o dia, umas centenas de cavaleiros vetões assomavam a Obila, oriundos de Ulaca, a praça-forte principal da tribo, do território a Leste.

Ainda mal despertos, mais atónitos e persuadidos ficaram os arévacos sobre a vontade de resistência do adversário. O inimigo entrincheirava-se e reforçava a guarnição da defesa. Para eles, naquele recinto amuralhado, estava concentrada a maior parte do exército vetão, secundado com tropas dos povos visitantes. No conjunto seriam uns bons milhares de guerreiros.

Na verdade, Talauto dispunha agora de cerca de 800 homens, experimentados no esforço de guerra, bem armados e excelsos cavaleiros, com os quais se propunha atrair e reter as atenções do inimigo até que Ribasdânia estivesse preparada para enfrentar o poderio bélico romano.

 

Não tardaram também a arribar os primeiros batedores romanos. As legiões estavam a menos de meio dia de marcha. Com eles, adiantada, vinha também a maioria dos aliados autóctones. Logo diligenciaram para recolher e difundir as informações que os vigias arévacos ansiavam por comunicar.

Conhecedor e convencido da veracidade dos factos transmitidos, o alto comando militar romano decidiu criar duas áreas castrejas distintas: uma no local onde se construíra o recinto dos jogos, aproveitando o terreno limpo, e a outra posicionada no extremo oposto de Obila.

Começaram imediatamente a elevar as bases de duas fortificações rudimentares, baseadas num fosso e numa elevação de terreno com a terra resultante da escavação. Nos dias seguintes, sequencialmente, passariam a erigir uma paliçada de madeira, a qual reuniria os dois fortes e circundaria Obila, de modo a aferrolhar o cerco ostensivamente. Aliás, era esta a prática e táctica comum da legião para a logística de estado de sítio: isolar completamente os assediados do exterior; impedir as comunicações, os reforços e os abastecimentos.

Os planos da aliança ibérica alimentavam-se sobretudo na demora de tais empreendimentos, na ocupação e concentração do inimigo sobre a Obila e na grande expectativa – quase dogmática - de resolverem a conquista da península de um só golpe.

As legiões dividiram-se pelos assentamentos, formando também postos de controlo e patrulhas constantes, a toda a circunferência da cividade.

Os trabalhos desenvolviam-se a bom ritmo e no final do primeiro dia de cerco, já os acampamentos, com a tradicional organização – também aplicada no forte junto a Sekia – em arruamentos orientados pelos pontos cardeais, estavam repletos de tendas e todos os apetrechos característicos. O fosso ganhava forma e os taludes cresciam a olhos vistos. Os milhares de legionários transpiravam colectivamente nas obras, com excepção dos que estavam destacados para guarda ou caça e recolha de alimentos e lenha.

Dentro das muralhas, enxameadas por todos os guerreiros disponíveis - para manter assim a trama -, Talauto e os amigos avaliavam a evolução do campo inimigo, perspectivando o momento ideal para passarem à fase seguinte da estratégia. Por aquela ocasião, Ribasdânia já estaria a receber as intervenções iniciais de preparação para a grande batalha.

Tongídio mantinha-se tristonho, sempre dividido entre as palavras cautelosas dos amigos e o seu instinto feroz e compulsivo que o instigava a arremeter pelo meio do inimigo e arrancar a sua amada às negras garras daqueles hediondos canalhas.

-“Temos de tentar salvar a minha mulher e Zímio, custe o que custar. Darei com prazer a minha vida nesse intento!

-“É difícil sabermos a sua localização exacta no vasto campo adversário, meu amigo. Carecemos desse conhecimento para realizarmos com êxito uma eventual investida relâmpago.”- Lembrou Gurri.

-“Ainda assim, é nosso dever tentar. Rubínia não só habita em nobreza os nossos corações e pensamentos, como também é um símbolo da resistência e um trunfo muito importante, depois das recentes aventuras e contrariedades provocadas ao inimigo. Assim como Zímio, claro.

Existem algumas passagens secretas para o exterior do povoado. Sairemos em missão pela noite, testando a nossa sorte e beneficiando do cansaço geral dos invasores.” Opinou Talauto, para grande alegria e vivas de Tongídio.

Pelo lusco-fusco, desaferrolharam a grade maciça, desceram as escadas circulares do poço central de Obila. Entraram na grande cisterna, atravessando-a a nado e deixando-a para trás, através de uma passagem para uma mina, no outro extremo. Seguiram o minguado curso de água que fornecia o reservatório (os do Lácio já tinham tratado de cortar o abastecimento).

O túnel freático era acanhado e fresco. Obrigava a alguns contorcionismos, mas foi superado, umas centenas de passos à frente. Saíram para o exterior entre uns silvados, numa encosta íngreme, em cujo pequeno parapeito havia sido talhado o canal aquífero. Plenos de cautela, tanto com o abismo que se abria sob os pés, como com a possível presença do inimigo, foram percorrendo a linha ténue até solo mais firme e amplo.

Pela lógica, deveriam procurar pelos amigos no arraial estabelecido no antigo campo de jogos. Porém, não seria fácil circularem sem serem identificados. A lei marcial imperava e era exigente em todos os pormenores.

Só havia uma forma para passarem despercebidos nas fileiras hostis: era vestir-lhes a “pele”. Assim que foi possível isolar 3 legionários, com estaturas similares, Tongídio, Gurri e Talauto confrontaram-se com a dificuldade de se acomodarem nas vestes e armaduras romanas. Deixaram as suas roupas e armas escondidas, e avançaram confiantes para o covil do inimigo. Tiveram o cuidado de amarrar os longos cabelos e escondê-los no interior dos capacetes, assim como enlamearam ligeiramente as barbas e bigodes para lhes dar uma tez mais escura.

Após infiltrarem-se entre os inimigos, misturando-se em mais uma coluna militar que chegava, encenaram que haviam ceado rijamente e bebido ainda mais e, sem atrair maiores atenções (porque tal levantaria suspeitas em tempo de campanha bélica), os celtas arrastaram-se pelo local, amparando o vacceu, que representava um estado de embriaguez absoluto e de inconsciência. Quem os via, deixava-os seguir, confiante de que já só buscavam um canto para dormir. Passaram por 3 patrulhas e o cruzamento decorreu normalmente. Era relativamente cedo e havia ainda muitos legionários a terminar diferentes tarefas.

Ao que vinham a terreiro hostil é que não produzia efeito. As tendas cumpriam maioritariamente a função de camaratas e só as viam ocupadas por legionários. Iluminados pelas múltiplas pequenas fogueiras e tochas, foram-se aproximando do centro do lugar, espaço reservado às chefias e comando. Já viam, não muito longe, alguns pavilhões mais destacáveis, quando passaram por nova patrulha. O decurião da ronda olhou-os fixamente e abrandou. Parecia tentar recordar algo. O trio passou naturalmente e continuou no seu périplo. Quando afrouxaram num pequeno largo do epicentro do campo, ouviram atrás de si o som de tilintar acelerado de várias peças metálicas.

 -“Vocês, os três odres, alto! identifiquem-se! Já vos vimos há bastante tempo a deambular nesses preparos, no extremo Sul do campo. O que se passa? Porque tardam a recolher-se aos aposentos? Já agora vão também explicar esse estado de embriagues, tão censurável, sobretudo neste período!

Os Iberos estacaram e continuaram a simular apatia e alienação ébrias. Na verdade, percebiam o sentido da interpelação, mas não conheciam boa parte dos dizeres latinos.

A explosão verbal atraiu 4 oficiais de alta patente – via-se pelas armaduras excepcionais que ostentavam -, para fora do pavilhão maior. Tratava-se de Quintus Scipius, Cônsul enviado por Roma para reorganizar e comandar todas as forças romanas na Ibéria, e o triunvirato dos seus coadjuvantes do estado-maior.

-“Decurião, a que se deve esta altercação? E estes três cachos? Como é possível tamanha negligência disciplinar?! Prendam-nos! Marquem-lhes bem o lombo com 20 chicotadas a cada um, para que não se esqueçam do seu juramento ao Senado e ao Povo de Roma!”

A tenda do comando ficara com a porta de manta entreaberta. No interior era visível uma grande concentração de móveis, objectos e armas e, algo bem mais importante para os interceptados iberos: encostados à base do pilar central, que sustentava o pano de tecto, estavam acorrentadas duas pessoas. A boa iluminação revelava as figuras de Rubínia e Zímio. Tinham-nos encontrado! As circunstâncias é que estavam longe de ser propícias…

A patrulha moveu-se para cumprir as ordens de imediato. Tinham de reagir e Tongídio deu voz à ideia de todos: -“A única saída é para dentro! Rápido!

Como javalis acossados, investiram sobre os oficiais, apanhando-os de surpresa. Os romanos nem tiveram tempo de desembainhar os gládios. Gurri, arrancado da letargia, ganhou velocidade e lançou-se sobre dois dos generais seniores, tombando-os pelo chão. Talauto fez o mesmo sobre o terceiro e Tongídio abraçou e empurrou Quintus, usando-o como peso de choque contra a sentinela que guardava a porta do pavilhão. Acto contínuo, agarrou o Cônsul por um braço puxou a si, elevando-o do chão e encostando-lhe o punhal à garganta. O vacceu e o vetão deram uns quantos esticões aos adversários aturdidos e projectaram-nos contra a patrulha que já acudia, contendo-a. A sentinela estava desmaiada com o impacto recebido. Não trazia qualquer perigo, por ora. Introduziram-se no pavilhão, arrastando o General Maior e tapando a entrada com a manta.

-“E agora?! Que fazemos? Tongídio tens ali um machado: tenta libertar Rubínia e Zímio. Passa-me esse tratante, vou amarrá-lo!”

(continua)

 

Andarilhus

XXII : V : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 08:07