Por Ti Seguirei... (49º episódio)

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Quando terminou a chacina já a tarde ia a meio. Talauto ordenou a reunião das tropas junto à cividade de Lijós. Aproveitaram ainda para desbaratar a pequena guarnição romana que aí havia permanecido. Deste último exercício bélico resultou um maior proveito para os iberos: informações. Capturaram os correios da legião, os quais proporcionaram as tabuinhas de argila com inscrições, enigmáticas para a maioria dos guerreiros, mas minimamente inteligíveis para Rubínia, cuja educação também incluíra a aprendizagem dos rudimentos do latim e do grego, essenciais para a arte mercantil.

Rubínia começou por soletrar para si as letras, formando palavras e procurando o significado das frases. Finalmente, após algumas tentativas, lá foi adiantando os farrapos que ia decifrando da mensagem: - “Pelo que entendo destes gatafunhos, o General Octaviano Auris, chefe deste corpo militar que acabamos de arrasar, envia para conhecimento do Cônsul Quintus Scipius a notícia da sua chegada… por barco… através da costa Norte da península. Limpou o terreno na passagem para as encostas do monte Padrelas, onde se refugiam os bárbaros. Aguarda no povoado a que chamam Lijós pela chegada das restantes legiões… nos próximos dias…. para avançarem depois em força para Norte. Angariou muitos escravos, que já encaminha para passar para a Gália ou mesmo Roma.

Não é que o tratante chama-nos “bárbaros”?! Ele que comanda verdadeiros animais de cobiça e devassidão”

-“Seja como for, o sujeito até já pode ser um dos moribundos que pejam os pântanos insalubres de sangue. Com tanta confusão e mortandade nem se conseguiu distinguir as patentes. Apesar das diferentes condições hierárquicas, os romanos morreram da mesma forma e pela lâmina da falcata. Agora é sim tempo de retomarmos viagem. Não se esqueçam da menção sobre estarem à espera dos compatriotas, aguardando-os nos próximos dias. Devem estar perto; não podemos demorar-nos mais por estas paragens…” Avalizou Gurri.

Talauto concordou com o amigo, embora também quisesse que o momento fosse bem aproveitado para auto-estima dos homens, sentindo igualmente que deveria proporcionar algum descanso aos corpos cansados, pela viagem e pela batalha.

- “Meus amigos são de temperança as palavras do nosso ilustre vacceu e amanhã daremos grande folgo à deslocação e grande mingua à distância que ainda nos separa de Ribasdânia. Hoje, após os ritos próprios nas piras crematórias, dedicados aos nossos amigos tombados na peleja, afastar-nos-emos o mais possível deste lugar de morte, deixando-o para pasto das feras e dos deuses dos defuntos. Quando encontrarmos a noite, acamparemos e festejaremos então a vitória e a partida dos nossos idos.”

Um pequeno grupo retornou à floresta para recolher os cadáveres dos camaradas, colocando-os em esteiras improvisadas, montadas entre parelhas de cavalos, de modo a transportá-los para uma colina próxima, onde já outros acumulavam lenha para as piras. Enquanto andavam nestas tarefas, viram-se forçados a reassumir a postura de combate, perante o aparecimento de um grupo alargado de gauleses que se aproximava, saído timidamente da vegetação fechada, desarmados e com os braços erguidos, em sinal de submissão. Já próximos, pararam e um deles, de farto bigode e cabeleira loira, adiantou-se, humildemente agachado e com os olhos a fitar o chão, indo prostrar-se aos pés de Rubínia, a quem endereçou um apelo:

-“Divindade, sou Aternix. O meu povo pertence também à secular família celta. Temos tradições semelhantes. Em nome destes laços ancestrais, pedimos permissão para recolher os nossos mortos e prestar-lhes os ritos fúnebres que lhes são devidos. Sem isso, como é bem sabido, jamais serão recebidos no além, junto dos seus antepassados e dos deuses, teus irmãos. Estivemos no campo oposto da contenda, mas somos justos e crentes. Sempre respeitamos os inimigos abatidos, quando a vitória nos sorri. Peço-te que acolhas e aceites o nosso rogo.”

Rubínia ficou perplexa, tal como todos os companheiros presentes.

- “Hum, porque diriges a mim a tua petição? Acaso conheces-me de algum lado? E tens-me por divina! Serei eu parecida com a imagem de alguma figura sacra do panteão da tua tribo?

O homem puxou as bragas para a cintura, as quais se iam despindo pelo peso da lama que praticamente cobria a textura quadricular colorida do tecido de lã cardado, endireitou na anca a bainha vazia da espada, cingida ao ombro por grossa correia de couro, que atravessava o tronco nu e pintado com símbolos mágicos de guerra, ajoelhou e endireitou o dorso, encarando a mulher.

- “Assistimos ao teu poder no campo de batalha. És mais mortífera que o melhor dos guerreiros. E vi que são muitos e poderosos os que alinham nas vossas fileiras. Nenhum adversário escapou ao fio da tua espada. Sucumbiram todos os que tocaste… és certamente o braço inflexível da morte, a deusa da guerra que veio em auxílio dos iberos. Rendemo-nos à tua imortal potência. Por isso, te peço que consintas velar pelos que aniquilaste…”

Rubínia, ainda estupefacta, olhou para Talauto. Este, percebendo o que se passava e conhecedor do impregnado carácter supersticioso entre os gauleses, aprovou o solicitado com um pequeno sinal de movimento da cabeça.

- “Escuta Aternix: presta as honras de exéquias aos teus camaradas que tombaram em combate. Depois, retira com os que permanecem vivos para lá dos Montes Pirenaicos e regressem às vossas casas. Respeitem a Ibéria ou as suas tribos atravessarão a fronteira da montanha e cairão como um mar revolto, saído dos céus, sobre as vossas terras. Assim o determino eu, filha de Trebaruna!

- “Senhora celestial, ficamos em dívida e compromisso. A tua vontade será cumprida. De futuro, estarás presente nas minhas orações. Lembra-te também de nós e apoia-nos sempre que considerares justas as nossa guerras.

Aternix levantou-se, juntou as mãos e fez uma vénia. Recuou alguns passos sem virar as costas e juntou-se ao grupo que o aguardava. Iniciaram de imediato a recolha dos que haviam expirado. Após chamado, mais algumas centenas de gauleses apareceram e integraram-se na mórbida actividade.

Os iberos aproveitaram também para recolher armas e outros haveres dos cadáveres romanos. Não tocaram nos pertences dos celtas da Gália.

Pela tardinha, os dois grupos cumpriam a homenagem aos seus, em locais tão próximos que as chaminés do fumo da incineração dos dois lados acabaram por se entrelaçar e propagar pelos ares ao sabor dos ventos. Gauleses e iberos, que se haviam profanado mutuamente em vida, reuniam-se agora na última e sacra viagem rumo ao além.

De acordo com o estipulado por Talauto, a hoste abalou e já quase sem luz, afastada o suficiente de Lijós, acampou. O chefe vetão encomendou então um festim com as melhores provisões saqueadas aos romanos e recolhidas na cividade. Repartiram as vitualhas pelos vários grupos de guerreiros que se formaram, em volta de outras tantas pequenas fogueiras.

Rubínia ainda pensava na atitude do gaulês, enquanto depenava uns quantos melros gordos, apanhados por Tongídio. Um petisco muito apreciado. Para tal utilizava um capacete metálico romano como panela, onde aquecera água.

Remoía-se em dúvidas. Será que o fulano daquele capacete e os seus correligionários lhe tinham obrigado a uma transformação tamanha – e da qual não se dera conta até que fora abordada de forma inusitada pelo suplicante gaulês – que agora só se via como guerreira e abraçava a morte com tanta ligeireza? Teria ganho o gosto pelo derramamento de sangue e pela provocação da dor? O que seria a sua vida de futuro? Conseguiria voltar a conceber a paz, a ser mulher, retomar as lides civis, as de casa… eventualmente ser mãe?

Conseguiria cumprir o seu propósito de regressar a casa com Tongídio e aí o manter a salvo, concentrado numa vida de família? Ou já estava de tal modo empenhada na guerra que esqueceria os sonhos e partiria de vez com o seu amado para a aventura marcial? E assim sendo, até quando ele seria o seu amado? Ou passaria a ser a espada o seu ente mais querido?

Oh desgraça! As certezas já não são tão certas. O odor besuntado de corpos queimados, o paladar do suor embrulhado com sangue e poeira são uma maldição que se entranha nas veias e nos consome as virtudes e corrói os desígnios mais desejados…

Tongídio despertou-a daquele pesadelo.

- “Com algumas ervas especiais e um pouco de cerveja, poderemos fazer um belo caldo para molhar esses suculentos melros. Assa-os em lume brando, vou em busca das ervas.” Afastou-se depois de lhe beijar a testa.

Rubínia, já mais abstraída dos pensamentos que a inquietavam, procurou sentar-se de lado, sobre uma das pernas, como é usual entre as mulheres, mas a espada, ainda ajustada à cintura, atrapalhou o movimento. Enervada, ergueu-se, desapertou o cinturão e atirou a arma para longe de si. Acomodou-se então como queria e mais confortável na debulha das aves.

Gurri, que assistira ao comportamento da amiga, aproximou-se. Zímio também reparara na agitação anormal da sua senhora.

- “Rubínia, percebo que te sentes cansada desta vida de corrupio e incertezas. Alcançaste a libertação de Tongídio mas, desde então, ainda não lograste completar o objectivo que te moveu logo à partida. O inimigo não dá tréguas e são já incontáveis os trabalhos em que te envolveste. O teu antigo modo de vida começa a ganhar teias de esquecimento. Cresceste, amadureceste com os novos conhecimentos e circunstâncias. Tenho-te observado. Julgo que tens avaliado os sinais de mudança que em ti vais descobrindo…

- “Sim, Gurri!” Atalhou a mulher. – “Já não me conheço, na verdade. As palavras do gaulês anteciparam talvez aquilo que quero negar mas já não sei se serei capaz de dominar. Viste-me em combate? Fui realmente o braço da morte, como ele referiu?! Matar tornou-se tão vulgar que não me dei conta do sucesso da minha arma! Antes sentia pesadamente todas as espadeiradas que desferia na vida dos adversários; agora já nem me lembro dos rostos dos que abato. O que se passa comigo?!”

- “É o teu destino. Foste favorecida pelos deuses no deslaçar do teu sonho, porém agora estás nas suas mãos até que eles completem a missão que em ti depositaram: salvar a Ibéria! Sim a tua preocupação era apenas acudir a Tongídio. Os deuses, todavia, encontraram na tua vontade férrea o elo que ligaria os povos ibéricos num fim comum, em defesa da pátria contra o invasor poderoso. Só assim os conteremos… contigo. Por isso te peço, por todos os que estamos comprometidos com este sagrado dever, suporta mais um pouco esta provação e esta exigência que te coloca em conflito íntimo. Pelo teu sonho, pela sobrevivência da Ibéria, dos seus povos e costumes, segue… segue o teu destino.”

Gurri afastou-se. Ao passar por Zímio, que escutara a conversa, colocou-lhe a mão no ombro, e este, estranho à sua habitual não reacção, retribuiu.

Rubínia, por momentos, deu descanso aos semi-despidos melros, ficou imóvel e introspectiva. Depois, soltou um sorriso descansado, apaziguador. Olhou para Zímio e piscou-lhe um olho. Aquele sorriu igualmente e acenou afirmativo com a cabeça.

(continua)

 

Andarilhus

XXX : VI : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:34