Por Ti Seguirei... (52º episódio)

http://mediateca.educa.madrid.org/imagen/imagenes/publicas/tam3/fh/fh9rpkfsjhj8d62z.jpg

 

- “Logramos levantar um exército na Ibéria, entre as várias facções tribais, como jamais alguém conseguira, ou sequer ousara.

Temos uma mescla de povos de origens muito diversas: do Norte, entre Astures, Cantábricos, Vascões e Vacceus, são cerca de 3000 homens; do outro extremo, Turdetanos, Túrdulos, Cónios e Batestanos, trouxeram-nos outros tantos; Vetões, Lusitanos e Calaicos, são uns 10000 guerreiros; Aníbal também quis dar uma ajuda e enviou 1000 dos seus cartagineses. Finalmente, e sempre uma reserva de grande moral e bravura, alguns dos homens fazem-se acompanhar das mulheres, habituadas a combater a seu lado. No conjunto, julgo que somos aproximadamente 17000 combatentes.

Ribasdânia não tem condições de entrincheirar semelhante força. Uma vez que terão de se acantonar pelo exterior, porque não instalá-los em mais alguns pontos estratégicos de forma a criar um sistema defensivo?

Assim o fizemos. Ao longo desta crista do Padrelas distribuímos os guerreiros de Norte para Sul. Colocamos os montanheses no setentrião, num alto chamado de Pentões e outro com nome de Ortas. No outro extremo fixaram-se os povos do Suão, desde Jou, passando depois pelo castro de Montes Negros e um local de retaguarda e reserva, que os orientais enviados por Aníbal nomearam de Serapiscos, em honra do seu deus Serápis. Aqui na fortaleza central fica o dorso da força: vetões, lusitanos e calaicos. Todos os pontos foram fortificados a partir das condições naturais e reforçados com madeira e pedra.

Esperamos assim desconcentrar também as forças inimigas e ganhar uma oportunidade para os atacar devastadoramente a partir deste núcleo central, com algumas surpresas que lhes preparamos.”

- “Bravo Alépio! Somos em número inferior a romanos e aliados, mas temos as nossas vantagens. Desde logo, são eles que têm de tomar a iniciativa e subir estas arribas para nos desafiarem. O nosso abastecimento está garantido de água e alimento, pela riqueza natural e pelo acesso garantido por Oeste. Só por desgaste é que nos baterão!” Enalteceu Talauto, pleno de perspectivas positivas.

- “Ora aí está; muito bem colocado: estamos numa situação que nos favorece grandemente. Temos os sítios altos, temos logística e temos a vantagem de determinar e pautar os momentos fulcrais da batalha.”

Abeirou-se novamente da placa de xisto e riscou umas setas no sentido Este – Oeste, na direcção dos diferentes pontos defensivos marcados no mapa: - “Confio que será esta a manobra do inimigo. Assentarão no grande vale que se vê ao fundo. A princípio, explorando a nossa tradicional “irracionalidade” e impulso compulsivo, tentarão atrair-nos para o cenário do terreno plano e aberto, onde estariam em grande superioridade, não só no número de efectivos, como também na aplicação das suas tácticas costumeiras e eficazes de batalha.

Porém, nós, - custe o que custar! -, ficaremos serenos nos nossos ninhos alcantilados. A não resposta e a demora de actividade levá-los-á a procurarem-nos e, então, jogaremos os nossos dados… É sobre isso que vos vou expor algumas tácticas e saber da vossa aprovação. Será arriscado…

O brácaro inclinou-se um pouco mais sobre a ardósia e fez as gravuras ilustrativas dos planos, descrevendo ao pormenor as acções que concebera.

Face à discrepância das duas forças em conflito, os iberos estavam obrigados a retraírem-se nas suas defesas e a rentabilizar ao máximo as suas posições estratégicas. Alépio e todos os presentes no Conselho sabiam-no e foi com espontaneidade que aceitaram e confiaram nos admiráveis projectos relatados pelo brácaro. Aqui e ali sugeriram pequenos acertos, ficando acertado o plano geral de combate.

- “Se estamos todos de acordo, agora que já está entre nós, peço a Talauto que dê as ordens para as tarefas finais de preparação das linhas defensivas. Há que terminar o desbaste e limpeza da encosta a Este e abrir, assim, um tapete para a subida facilitada do inimigo – hehehehe!!! -, aparar os galhos das árvores e colocá-las deitados e camuflados por vegetação espinhosa em frente à muralha, formando mais uma barreira defensiva… e não só…

- “Um momento Alépio. Tu és o mentor da estratégia. Daí ser minha opinião e, se necessário, decisão, que continues a orientar as operações de logística e comando. Aliás, tenho a propor ao Conselho, e sobretudo a cada um dos líderes dos diferentes povos irmãos, que deleguem a chefia em Alépio. Durante a viagem para cá estive a pensar nesta questão: há que designar um líder que a todos guie e que por todos seja respeitado em absoluto, sendo as suas decisões lei. Haverá certamente muitos entre nós capazes de tão excelsas funções, porém parece-me que aquele que, por muitas razões, está melhor preparado e cuja escolha é mais pacífica e natural é este nobre brácaro! O que vos parece?

Talauto tocara o ponto sensível e mais susceptível. Não só os acontecimentos não haviam permitido esta resolução anteriormente como era expectável o adiamento cúmplice desta decisão. Todavia ela era crucial para a conjuntura e o tempo urgia. Chegara o momento de ungir alguém como comandante geral das forças ibéricas.

Os chefes das tribos confrontavam-se novamente com o dilema que lhes mexia com as entranhas. O sentido de independência e o espírito autêntico individualista e de domínio próprio, e a não sujeição a outros, sobretudo estranhos aos seus clãs, estavam bem marcados e sempre à flor da pele. Abdicar desta liberdade, deste poder, era como uma auto-mutilação, um acto de flagelo, pessoal e colectivo. Por isso, tão grande era a dificuldade de congregar interesses e anuências.

Era certo que tinham admitido integrarem a resistência ao invasor, combatendo ao lado dos outros povos; era certo que tinham aprovado a liderança de Alépio na condução da fuga de Obila e na preparação das defesas de Ribasdânia. Contudo, era agora que se definia vida e morte, glória e fracasso, o destino dos povos. Seria de entregar o comando a um guerreiro que não partilhava o mesmo sangue? E seria Alépio a pessoa indicada? Estariam os Homens com virtude e esclarecimento suficientes para fazerem tamanha eleição?

Como seria de prever, embora com menor contestação, a maioria dos caudilhos reconheceu o valor de Alépio, mas exigiu que fossem os deuses a decidirem se haveria um só chefe e qual ou quais os mais aptos para a responsabilidade.

Talauto ainda tentou demovê-los. Aquele debate poderia minar a união e tanto esforço já realizado. A Talauto juntou-se Sonim pelos lusitanos, jurando fidelidade a Alépio. O grosso do exército, com vetões, lusitanos, calaicos e também os vacceus de Gurri, estava do lado de Alépio, mas as restantes tribos mantinham a pressão para que se praticasse uma auscultação aos deuses.

Começavam a extremar-se as opiniões e a inflamar as palavras, no Conselho. Estava difícil o consenso. Alépio verificava a inutilidade de projectar planos ou implementar trabalhos no terreno quando o principal factor para o sucesso não era possível alcançar. Lentamente, distanciou-se do grupo que disputava, arrastando o carro com a ardósia, desalentado.

Rubínia, cujo estatuto lhe permitia permanecer na sala como mera observadora, assistia à argumentação agitada e ao afastamento de Alépio. Sentiu o sangue a fervilhar e o rosto a ruborescer. Ergueu-se do escabelo, pegou numa larga caneca de barro e saltou mesmo para cima da mesa. Atirou com o objecto, partindo-o estridentemente e gritou: - “Mas vocês estão loucos?! Quem é que precisa de romanos, quando já tem motivos mais que visíveis para arranjar querelas internas?! Espécie de fanáticos pelos próprios cueiros! Calem-se, por Terbaruna! Jamais sonhamos, sequer, em chegarmos aqui e conseguirmos reunir estas condições, que talvez não sejam suficientes para a vitória, mas serão certamente suficientes para mostrar ao inimigo que a Ibéria se consegue unir e nunca se renderá! E agora, por um pormenor, por um pedido de esquecimento momentâneo do egocentrismo e do narcisismo de cada um de vós, não se consegue concretizar o que já obrigou a muitas dificuldades e empenhos? Mas, pergunto mais uma vez: estão loucos?!...

Fez-se um silêncio sepulcral na sala. Uma vez mais aquela mulher intrépida assumia o protagonismo só reconhecível aos homens. Porém, a reputação de Rubínia autorizava-a agora a manifestar-se, sem que alguém ousasse negar-lhe esse privilégio.

- “Ouçam, ouçam senhores que tendes o domínio – e o dever! - sobre milhares de pessoas. É o futuro delas, o futuro da Ibéria que está em causa. Sem um comandante único não conseguiremos enfrentar com sucesso os experientes legionários; não seremos um exército, mas antes um conjunto de farrapilhos a porfiar cada um para o seu interesse. Já que não se entendem, deixem-me fazer uma proposta para sairmos deste impasse. Perante as exigências apresentadas por alguns de vós, tenho a reafirmar o quanto é imprescindível designar uma pessoa para ser o nosso maior, durante esta fase de guerra. Quanto a saber quem seja, vejo como genuína essa preocupação e concordo com a mediação divina na escolha. Assim, sugiro o seguinte: quem se quiser candidatar a chefe supremo que se chegue à frente; escutaremos depois a vontade dos deuses pela voz dos druidas. Parece-vos ser uma opção justa?”

Parecia que ninguém queria quebrar o silêncio. A intervenção de Rubínia acalmou os vozeirões e sossegou quase à letargia os espíritos, agora mais pensativos do que impulsivos. Adibérico, chefe Cónio, primeiro a sair do torpor, deu então um murro na mesa e puxou por plenas goelas: - “Concordo! Assim seja feito.”

Um a um, todos os restantes líderes mostraram-se alinhados com a proposta. E “chegaram-se à frente” quase todos eles, também. Alépio mantinha a confiança de 4 das tribos. Com ele, como candidatos independentes, estavam os demais caudilhos. No conjunto apresentavam-se 8 pretendentes à liderança dos iberos.

Foram chamados os homens-sagrados para execução do ritual. Trouxeram um cavalo de batalha, um garanhão negro, dos mais belos e possantes exemplares da manada.

No exterior, em frente à casa do Conselho, uma laje granítica acamada - e bem fixa - sobre dois penedos pouco altos, servia de mesa cerimonial. O declive do terreno permitia que o animal subisse, por um dos flancos, para o rude altar. Prenderam-no a um poste, estacado dentro de um buraco fundo da pedra, aberto para o efeito.

Os druidas juntaram-se à vítima a imolar. Ouviram-se dizeres antigos, com fórmulas mágicas que só os próprios conheciam. De braços erguidos, os sacerdotes evocavam vários deuses, apelando ao seu olhar e à sua ponderação. Acalmaram-se então e chamaram Runo, um robusto guerreiro, o qual, munido de um pesado martelo de pedra, se colocou em frente ao equídeo. Deram-lhe a ordem que aguardava e, movida a massa rochosa, o cavalo caiu sem estrebuchar. A morte fora imediata, sem tempo para sensação de sofrimento.

(continua)

 

Andarilhus

XIX : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 21:15