Por Ti Seguirei... (54º episódio)

 

A indumentária leve, o caminhar despreocupado e a distracção aos rumores omnipresentes da guerra aportavam um bem-estar, já há muito não sentido. Somava-se-lhes a paz recebida do bucólico cenário envolvente, que se esgueirava pela alma, pelo mundo interior. Os sentidos, como que libertos da acumulação de clausuras abafadas e infectas, despertavam para os - já algo esquecidos - sons das aves, os odores maduros do estio, a diversidade dos tons arrebatantes da flora e das mantas de nuvens no céu que se avistavam dos miradouros verticais consentidos pelas copas das árvores.

Seguiam de mão dada, apoiando-se reciprocamente no avanço pela vertente escorregadia, provocada pelo plano oblíquo constante e dificultado pelo tapete de caruma que cobria longas áreas ou pelos trilhos e barrancos de saibro solto. Aqui e ali pontapeavam pinhas, subiam às fragas cinzentas, enfeitadas por líquenes, em forma de rosáceas brancas e cinza-claro, e por musgo… aquele musgo, farfalhudo como barbas, de diferentes cambiantes de verde.

Divertiam-se com bolotas, oferta dos carvalhos e, num relance de sorte, toparam com uma velha pavieira, atestando-se de saborosos frutos, somados às múltiplas framboesas e amoras que iam colhendo. Saciaram-se de mais frescura em pequenos regatos, superaram o confronto estático de tojos e silvados até que, após ultrapassarem uma barreira cerrada de giestas, encontraram um lugar mais chã, onde prosperava um belo prado, com pequenos desníveis. Ao fundo de um curto outeiro, o curso de um dos canais aquíferos formava uma ligeira queda da água cristalina, a jeito de uma bica, sobre uma singela represa. Ai, Tongídio e Rubínia fizeram uma parada a pedido dela. Numa fresca oferecida por um negrilho, sentaram-se a admirar o lugar abençoado pelos deuses.

Aproveitaram para tratar de alguma higiene pessoal e para enxaguarem as roupas encarquilhadas pelo suor e pela poeira das muitas demandas. Rubínia limpava também o amuleto da “Senhora das Águas”, enquanto se recordava da amiga Bolota e dos momentos penosos passados em Pellenda. A tranquilidade dominava.

As sensações eram tão avassaladores que quase se permitiam iludir, julgando-se repousar no bosque do termo de Tanábriga, numa daquelas saudosas rotinas em que visitavam as matas para aprovisionar lenha e apanhar alimentos silvestres. Recordaram alegremente alguns dos episódios que mais marcavam a memória, como aquele em que enfureceram um ninho de vespas, quando, em busca da fruta doce, sacudiram a ramagem de uma amoreira; escaparam ilesos porque a “Lagoa das Chagas” estava muito próxima e o mergulho salvou-os de dezenas de ferroadas certas.

- “Já não faltará muito para nos podermos banhar novamente na lagoa… Anseio-o e estou determinada a completar o meu destino para regressar aos meus hábitos…

- “… É só darmos a sova final nos visitantes que não foram chamados a estas paragens! Mas, espera Rubínia, façamos silêncio… escuta…

O ouvido treinado de Tongídio pusera-o alerta. O burburinho, inicialmente ténue, crescia rapidamente. Não demorou a perceber-se o som característico do choque de cascos de cavalo sobre pedra e o tilintar de peças metálicas.

- “Rápido, toca a recolher tudo e passar para lá do giestal. Vem aí tropa!

Semi-nus e descalços carregaram os pertences e correram no sentido do alto da montanha. Já depois dos arbustos, vestiram à pressa a roupa ainda bastante húmida e ficaram de atalaia.

O instinto aconselhara-os bem: um esquadrão de mais de 5 decúrias de cavalaria romana irrompeu do matagal. Os viandantes chegaram-se à fonte de água e desmontaram. Eram certamente batedores avançados, em busca dos limites das posições dos iberos e reconhecimento do território.

Tongídio fez sinal à mulher para se afastarem em silêncio. Recuaram uns bons trinta passos quando, após passarem por uma faixa densa de fetos, deram com um bando de perdizes que, alvoraçadas da sua quietude, imediatamente, largaram em esvoaçar furioso e estridente. Raios, lá se iam o silêncio e o ensejo de se afastarem sem perigo, devido àquelas aves de escarcéu! A reacção dos romanos foi contínua. Os cavalos começaram a relinchar e logo se ouviram a galopar. Daí até se sentirem as ramagens a gemer e a estalar com a pressão dos corpos dos predadores a furar foi um instante.

- “Por todos os deuses, corre Rubínia! Escala o monte e coloca-te a salvo. Eu retenho-os o máximo de tempo que puder!

Ela olhou e ainda hesitou, mas não havia outra solução que não fosse ir lá acima pedir ajuda; os dois jamais conseguiriam uma fuga com sucesso. Arrancou como um javali, atravessando a vegetação em linha recta e sem olhar a obstáculos.

O lusitano pegou num galho graúdo de freixo e, ladeado por duas árvores, colocou-se entre o sítio em que aguardava o aparecimento do inimigo e a direcção que a mulher tomara. Não esperou muito. Como a vegetação não permitia outra formatura, os legionários rompiam pelo mato em fila.

O da vanguarda, apanhado de surpresa, tombou do cavalo, inanimado, com o nariz desaparecido no interior da cavidade do rosto. O seguinte ainda puxou do gládio, que logo largou com a forte pancada no ombro e braço armado. A ponta da vara fibrosa apontada à fronte determinou a estocada final para o derrubar e pôr fora de combate.

Os romanos já eram muitos à vista de Tongídio e tentavam contornar a sua posição, para o dominar. Este, agora armado com a espada do adversário abatido, dirimia golpes com os que se aproximavam, provocando-lhes mais baixas. Porém, como o número de inimigos crescia rapidamente e se tornava sobre-humano enfrentar tantos, começou a deslocar-se em busca de refúgio em áreas cada vez mais densas da floresta, mantendo a luta acesa e puxando os legionários para longe da companheira.

Por sua vez, Rubínia progrediu bem na ascensão da encosta. Quando já avistava ao longe o clarão de luz que significava a adjacência da cinta desflorestada e o alto dos Pentões, percebeu também que a perseguiam de perto.

Alguns dos legionários deixaram a caça a Tongídio para se enveredarem na floresta no encalço de outros potenciais inimigos. Encontraram os rastos de outro indivíduo e seguiram-nos. Porém, a marcha não era célere quanto o desejado: as montadas esforçavam-se, contudo o declive e a vegetação tolhia-lhes o ânimo e a resistência. Abeiravam-se lentamente de Rubínia com, cada vez mais, acrescida dificuldade.

Estavam praticamente a alcançá-la quando a mulher arribou ao descampado e puxava das últimas energias, agarrando-se ao mato que subsistia hirto, para fazer as passadas finais até ao cume. Estava quase à distância de um braço quando também os cavalos entregavam as últimas forças, empinando-se nas patas traseiras sem que conseguissem avançar. Enquanto os cinco romanos desmontavam para prosseguirem a pé, Rubínia ganhou alguns passos de vantagem e gritou lá para o alto: -“Gurri! Alépio! Todos! Acudam; ajudem-me! Sou perseguida!

Do cabeço, os iberos acorreram céleres às fragas limítrofes e espreitaram para baixo, na direcção dos apelos. Zímio que reconhecera de imediato a voz de sua senhora foi o primeiro a acudir, pulando como um felino para o exterior e rebolando pela vertente, com a dificuldade de estacar o salto. Levantou-se, puxou Rubínia para cima e enfrentou o inimigo. A fúria pelo receio de perder a sua protegida, arrepiou-lhe o sangue e, da sua colocação superior, com facilidade rompeu o pescoço do primeiro adversário e cravou a ferro o peito do seguinte. Ainda com a arma presa no externo do oponente, avançaram os outros legionários. Estava iminente o disparo de um dardo sobre Zímio, mas uma pedrada violenta, aplicada pela funda bem treinada de um cantábrico, adiou o perigo e estoirou com o crânio do litigante. Entretanto, chegavam os reforços, e os romanos sobreviventes correram para os cavalos, pondo-se em fuga.

Alertados por Rubínia, Talauto e a maioria dos guerreiros mergulharam na floresta em socorro de Tongídio. O lusitano continuava a deambular pelo arvoredo acossado pelos muitos inimigos. Escondia-se, para atacar de surpresa os grupos mais pequenos de romanos - de 2 e 3 homens -, dispersos na busca, e voltar a fugir e acoitar-se.

As circunstâncias mudaram radicalmente com a aparição dos reforços ibéricos. A vantagem romana perdia-se em número e em capacidade de combate naquele ambiente. Vendo os seus soldados a serem abatidos com rapidez e certa facilidade pela impetuosidade dos autóctones, o centurião ordenou o recuo até ao local onde haviam deixado os cavalos e, daí, a retirada para longe daquele nefasto encontro. O importante estava feito: localizaram o extremo Norte dos defensores. Embora lhes tivesse custado mais de duas dezenas de baixas.

Gurri encontrou Tongídio exausto e de tal forma sulcado por múltiplas feridas superficiais que parecia ter tido um mau encontro com um bando de gatos-bravos. Na verdade, o corrupio e a luta tinham-lhe valido as inserções tatuadas dos galhos e ramos da vegetação e também algum pequeno toque de um gládio mais acertado. Refrescou-se e lavou os maus tratos num ribeiro, juntou-se aos amigos e regressaram à fortificação, carregando os despojos de guerra.

Já sob a protecção dos contrafortes do Padrelas, tiveram notícias do aparecimento de romanos noutras posições. Os sinais de fumo de Ortas comunicavam que o inimigo já se tinha mostrado por Montes Negros e no sopé da grande fortaleza, Ribasdânia. Os romanos chegavam por fim e mediam a situação do terreno e do inimigo.

Alépio deu instruções para manterem o estado de alerta máximo, conterem o inimigo em caso de assalto, enquanto fosse possível e, tendo de recuar, sinalizar por fumo ou fogo o abandono do Alto dos Pentões. Em caso de evacuação, deveriam tomar a direcção de Campo-da-Égua, um planalto assim denominado pelos naturais daquelas paragens, por estar associado ao mito de uma égua sagrada, prodigiosa e raramente vista, que estaria na génese das centenas de potros selvagens que pululavam nas alturas e jamais alguém conseguira domar. Nem os lobos ousavam acometer sobre os equídeos que passeavam os deuses sobre os seus dorsos mágicos.

Feitas as despedidas e as recomendações finais, a comitiva de Alépio partiu para Ortas, um baluarte pequeno mas muito robusto. Era fulcral como praça-forte de apoio a Risbasdânia. Se este precioso amparo, a fortaleza-mãe ficaria por sua conta, quanto a possíveis investidas – embora pouco expectáveis pelas dificuldades do relevo - surgidas a Norte.

O futuro da Ibéria estaria em breve definido…

(continua)

 

Andarilhus

XXVI : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:51