Por Ti Seguirei... (55º episódio)

 

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Ortas já estava alerta. Dali conseguia-se avistar ao longe a aproximação e o assentamento das incontáveis tropas do Lácio em frente à vertente de Ribasdânia. Esta não se via, ocultada pelo cabeço mais elevado que ficava de permeio, o mesmo que alojava, no cume, o Santuário de Argerez.

O vale era uma extensa mancha em tons grená e vermelhos, onde cintilavam os materiais metálicos. O solo parecia mexer-se, como se fosse um formigueiro. Confirmava-se que a formidável máquina de guerra romana estava em marcha para a tomada do último reduto de defesa e oposição na Ibéria.

O alto-comando dos resistentes entrou em Ortas apenas para verificar a situação e deixar algumas advertências finais.

O lugar, rijamente encouraçado por muros de grande envergadura, rematava numa parede vertical de uma das escarpas mais inóspitas do Padrelas. Bem defendido na frente, era praticamente intransponível a qualquer assalto directo ou ao impacto de máquinas de guerra, por não poderem chegar-se o suficiente para atingirem e abrirem brechas na muralha.

A fortificação estava ocupada pelo grosso das forças dos cantábricos, vascões e astures. Deles dependia a sustentação do flanco Norte. Alépio empenhou-se em convencer os aliados para a situação crítica do sítio. Deveria ser defendida a todo o custo; só abandonada no limite, se os romanos tivessem êxito em invadi-la. Poderiam contar com os de Pentões, os quais recuariam para a reforçar, assim como seriam apoiados pelos inúmeros grupos de cavaleiros vacceus e vetões, os quais, dirigidos por Gurri, estariam em permanente cobertura do território da cordilheira defensiva, em apoio e vigia a alguma infiltração mais atrevida do inimigo.

Ortas encontrava-se encostada a uma das raras e exíguas passagens entre o planalto - vale - e a média e a alta montanha. Na verdade, tratava-se de um trilho mais calcorreado (e mais apropriado) pelo cabrito-montês do que pelo ser humano. O castro ancorava-se junto a uma curva muito apertada - em cotovelo - do carreiro, que ali, mercê dos degelos resultantes do termo das épocas do frio, se entranhava no chão, ladeada por dois taludes de saibro, a jeito de canal profundamente cavado.

Regressaram a Ribasdânia já as estrelas pintalgavam o firmamento. Após um dia bastante agitado, descansavam o possível enquanto miravam à distância a luz tremida das inúmeras centenas de fogueiras que confortavam os legionários, e deixavam o pensamento escorregar para a ansiedade da previsão dos acontecimentos que preencheriam o dia seguinte, duvidando se ainda gozariam, então, daquele sossego temporário e frágil.

Entretanto, irrompeu um par de mensageiros de Montes Negros pelas azinhagas escuras da fortaleza. Traziam notícia de circunstâncias idênticas. O campo romano era extensíssimo e cobria toda a área do sopé do Padrelas, correspondente à linha completa de protecção altaneira dos iberos. A quantidade e capacidade dos efectivos romanos eram elucidativas da sua determinação. A expansão pela Ibéria assumia-se como primordial para Roma, quer na conquista de mais território e respectivos recursos, quer na política estratégica face a Cartago e ao seu maior mentor, Aníbal.

Pela manhã seguinte, o cenário tinha tanto de avassalador como de confrangedor: os legionários eram como seixos numa margem fluvial e, para além das suas linhas, uma outra multidão - que se distinguia perfeitamente pelas tonalidades – denunciava a presença de arévacos, titos e belos. Para a maior parte dos guerreiros, sobretudo os celtas, que nunca tinham assistido a concentrações humanas daquela grandeza, apenas habituados a algumas dezenas ou eventualmente centenas de pessoas, ao observarem abaixo aquele mar de gente, julgavam que ali se reunia toda a população do Mundo. Aliás, nem sequer imaginavam que havia tanta gente…

Alépio ficou preocupado com o poderio do adversário. Eram tantos que, por muitos que aniquilassem, iam sempre aparecer mais. Realmente, só um golpe da fortuna traria a vitória. Mas, fosse como fosse, os guerreiros da pátria dariam o seu melhor – a vida – para escorraçar os invasores. E os planos, se bem delineados, ajudariam a compensar um pouco as diferenças entre as forças em conflito.

Entre os invasores, cumpria-se a já costumeira actividade de levantar estruturas de protecção. Criavam-se fossos e pequenas paliçadas nas zonas de redoma do acampamento e aprovisionamento, espalhavam-se barreiras e áreas fortificadas em madeira na vanguarda da fronteira com o baluarte ibero e montavam-se as máquinas de guerra possíveis e ajustadas às condições daquela batalha: balistas e catapultas.

Quintus Scipius, sem margem para novos fracassos, vivia numa azáfama que o predispunha ainda mais enfatuado e azedo do que já era usual. Ora fiscalizava os trabalhos em curso, hostilizando os soldados-operários, exigindo um esforço sobre-humano, não se coibindo mesmo de utilizar a vergasta para transmitir o exemplo através do suplício de alguns; ora convocava os oficiais e lhes passava uma reprimenda, obrigando-os, sob ameaças, a uma atitude tenaz, tão arrogante como a sua, a exercer sobre os subalternos.

Quando decidiu reunir o conjunto de generais e patentes superiores das diferentes legiões, já o descontentamento grassava nas hostes latinas. O exército romano era um corpo militar orgulhoso da sua tradição, a qual era entendida, de certo modo, como um legado de profissão. Compunha-se de gente de todas as condições sociais - representativo da pluralidade do povo de Roma -, nomeadamente, muitos patrícios, entre os quais, alguns provenientes de famílias de elevada notoriedade e reputação. Quintus tratava todos por igual, mas quase ao nível da inferioridade normalmente atribuída a escravos… uma humilhação e uma prepotência!

Porém, maior era o rancor que ruminava entre os aliados da península, sempre mantidos à parte das decisões e considerados apenas como uma matilha de cães a serem lançados ao inimigo a tempo conveniente.

O Cônsul começou por, insistindo na mesma nota, instigar à severidade na condução dos legionários, de forma crua, para os manter na linha: - “São uns relaxados, que vivem à custa do soldo de Roma! Têm a atitude de quem está em pleno descanso numa vila nas margens do Tibre. Há que os acordar para a realidade: se fazem parte desta campanha é para irem até ao limite, à morte se forçoso! Até agora só temos andado a passear pela Ibéria; adiante será para criarmos raízes e iniciarmos a construção do mundo romanizado, nestas terras!

Fez uma pausa para recuperar o fôlego que se escapara com a cólera verbalizada.

- “Para estendermos para cá as nossas províncias, primeiro temos de lidar com esses ratos de campo, que têm sido um empecilho e nos têm humilhado como se fossemos nós a presa. Mas, agora estão na toca. Taparemos as saídas do covil e vamos apanhá-los como furões, nem que para isso seja preciso fazer desmoronar a montanha que os acoita!

Ainda de rosto vermelho e inchado pela ira, teve de fazer nova pausa e sorver uns golos de vinho, para prosseguir depois.

-“Ora bem, a situação não é fácil: os bárbaros estão bem entrincheirados. Tal como vejo a situação, confio no seu comportamento irascível – termo que provocou alguns olhares cúmplices e de soslaio entre os oficiais, que viam em Quintus o exponente máximo da irracionalidade –, que os levará certamente a abandonar as posições de defesa para nos atacar aqui. E isso será o ideal. Pelo menos, evitaria as muitas baixas que poderão ocorrer se os formos tirar do ninho. Mas assim será, se eles não reagirem do modo que nos é mais conveniente.

Como é fácil verificar não temos aqui um estado de sítio vulgar. Não há forma de nos aproximarmos com protecção dos redutos fortificados. As vertentes escarpadas não facilitam o avanço de torres ou aríetes de campânula. Como não sabemos se a iniciativa terá de partir do nosso lado, quero que os engenheiros e sapadores comecem desde já a analisar a situação e que proponham soluções que nos permitam atingir os bárbaros sem que fiquemos muito expostos no avanço.

Entretanto, ordeno que as tropas do perecido General Octaviano Auris, agora sob comando deste jovem Tribuno, Fábio Fúlvius, se dirijam para o extremo Norte e aí exerçam pressão sobre as defesas, a ver se obtemos uma oportunidade para flanquear o inimigo. Deixemos por ora a via do Sul em acalmia.

Mantenham-se todos atentos às manobras bruscas dos iberos, sobretudo para uma eventual sortida. O contra-ataque deverá ser imediato e fulgurante!

Os maltrapilhos dos nossos aliados ficarão de reserva; não são de confiança para os colocarmos no âmago da batalha: podem desertar e enfraquecer a estratégia…

Se alguém se quiser pronunciar, que avance; se não houver opiniões, vamos ao trabalho que Roma aguarda notícias!”

Face a tamanha rispidez, e apesar de existirem múltiplas ideias, ninguém opinou, encerrou-se o concílio e cada um partiu para a sua missão.

Sob Ribasdânia mantiveram-se as operações de reforço do acantonamento, sempre com os do Lácio em prontidão para intervir ao menor sinal de movimento dos do alto. Assim que aprontaram as máquinas de arremesso, adiantaram-nas o mais possível e iniciaram as hostilidades contra os muros do reduto ibero. No entanto, a distância anulava a potência necessária para fazer mossa na muralha. Servia apenas para alvoroçar um pouco e provocar os defensores, tentando-os a uma resposta.

Alépio, com esforço, mantinha controlo sobre os eriçados celtas, sobretudo Tongídio, os quais pretendiam devolver aos romanos, em mão e com gratificação de mais uns quantos golpes de falcata, os projecteis que caiam na fortaleza.

Seguindo as instruções do Cônsul, Fábio Fúlvius organizou as suas forças e marchou para as proximidades de Pentões e Ortas, concentrando-se junto a esta última. Indicou o local da base de operações e começou a estudar as circunstâncias e sobretudo as dificuldades para trepar a montanha, com a oposição rapina a coroar a progressão.

Fez uma primeira tentativa, enviando duas centúrias para ganharem posição numa zona lateral a Ortas, num socalco amplo, que se abria a dado trecho da passagem para a montanha, logo após a curva afunilada e cavada, e que poderia ser utilizado como plataforma de ataque ao castro.

As intenções saíram frustradas quando, de cima, o envio de uma avalanche de enormes pedregulhos a rolar direitos ao trilho e os inúmeros rebos e setas lançados apanharam alguns dos atacantes e colocaram os restantes em retirada. O canal de passagem ficou praticamente entulhado, dificultando ainda mais posteriores iniciativas do género.

- “Vamos avançar para o outro bastião [referia-se ao alto de Pentões] – parece ser mais permeável – e, daí, procurar voltar para esta fortificação a cotas de altitude mais favoráveis”.

(continua)

 

Andarilhus

XXIX : VII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 19:56