Por Ti Seguirei... (57º episódio)

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A bateria de descargas dos engenhos bélicos de Fábio Fúlvios era tão intensa que chegou a um ponto em que se esgotaram os dardos. Então, para improvisar e manter a pressão sobre o inimigo, deitaram mão a ramos e troncos de pequenas árvores, com as dimensões adequadas, afiaram-nos num dos extremos e queimaram-nos ligeiramente em fogueira branda. Produziram assim chuços, para utilizarem como objectos de arremesso.

Entre os iberos procuravam-se todos os meios para protecção do ataque aéreo inimigo. Uns cavavam buracos nas barrondas de saibro, outros erguiam pequenos muretes de pedra e, a maioria, mantinha-se sempre a coberto da muralha. Os mais audazes, que se deslocavam em campo aberto, expunham-se a ficar violentamente varados pelas estacas voadoras de madeira ou com os ossos amassados pelo choque de pedradas de grande volume. A constância destas casualidades era grande e muitos caíram por semelhantes ferimentos.

A situação mantinha-se num impasse. O Tribuno alterou então um pouco a táctica. Após estudar meticulosamente a fortaleza, deu indicação para que as catapultas concentrassem a acção num segmento da muralha que se mostrava mais frágil (zona onde existira uma porta; agora emparedada por rochas mais miúdas), sobretudo com um aparelho que demorara mais tempo a montar: uma catapulta de maiores proporções. O objectivo era abrir brecha com a colisão de grandes seixos contra o aparelhamento ciclópico. Das posições que haviam alcançado, o efeito das máquinas balísticas era poderoso, apesar da imponência dos muros que atingiam. Os da península não haviam contado com a possibilidade dos romanos arribarem tão próximo com tamanho poder de devastação.

Desprevenidos, os defensores que se abrigavam junto ao local apontado para abrir rombo foram apanhados pela ruína das pedras em grande quantidade. A largura da barricada lítica atrasava uma queda definitiva da secção mas não impedia a sua crescente fragilidade e decadência.

Fábio sabia que não poderia deixar chegar a Lua sem que aproveitasse a ruptura já provocado nas defesas. O inimigo, na escuridão da noite, certamente que reconstruiria o pano fendido. Sem descanso, continuaram a fustigar a posição alvejada, alargando progressivamente o buraco, que crescia de cima para baixo.

Os de dentro nada podiam fazer, sob pena de sofrem perdas maiores. Comunicaram à distância com Ribasdânia, acusando o risco da iminente entrada dos romanos em Ortas e pedindo reforços.

Com a tarde já bem adiantada e os dois terços superiores daquela faixa da muralha derribados, as armas calaram-se. Fez-se um silêncio assustador. A cadência ritmada dos estrondos das pedras desaparecera e deixava um ambiente de mistério, de interrogação aos iberos. “O que se passará? Será que os cães desistiram? Ou ficaram sem projécteis?” Começaram a erguer-se dos esconderijos, a alçar os pescoços e a espreitar para fora.

E o que viram arrepiou-os: os legionários alinhados numa coluna de fileiras sucessivas de 6 elementos, que se perdiam de vista para os lados dos Pentões, mantinham-se quietos, mas em formatura de ataque. Ao lado das primeiras linhas, um conjunto de homens – talvez uma centúria completa, segurava uma longa e pesada plataforma de madeira. Atrás destes, mais cinco coortes permaneciam em formação tradicional.

No interior do reduto, alguém teve enfim a visão do que ia acontecer e gritou bem alto: - “Às armas que eles vão tentar passar pela falha na muralha! Acudamos todos ao local; concentremos lá as nossas forças!

E de facto, após ordem do comandante, os corneteiros da Legião deram o sinal sonoro esperado. Rapidamente os que carregavam a plataforma de madeira movimentaram-se em passo leve, colocando-a como uma rampa que levava topo da secção diminuída da muralha. O manejo oposto das fundas e lanças causou forte redução dos efectivos que garantiam a acção de sapador.

Ainda mal colocada em posição e já os legionários galgavam a rampa, iniciando novo assalto. Umas após outras, as fiadas de latinos abeiravam-se dos adversários, encarando-os de perto. Reiniciaram-se os combates corpo a corpo e ressoaram novamente os tinires das armas. Das laterais, os iberos faziam chover pedras e dardos sobre os inimigos que se encontravam na boca da invasão. Uma grande multidão de indivíduos apertava-se naquele estreito ponto, acumulando-se os abatidos, cujos corpos eram desgraçadamente profanados por espezinhamento, perdendo mesmo as formas humanas, despedaçados e inchados.

Apesar de alguns momentos em que os romanos conseguiam avançar para o interior da fortificação - para serem, com maior ou menor dificuldade, rechaçados -, os iberos mantinham as posições iniciais ainda em sua posse.

Porém, o tribuno tinha ainda outro dado para jogar: as coortes que se mantinham em formatura. Pleno de astúcia e excelente estratega, Fábio Fúlvius conservava uma reserva de tropas, para fazer avançar subitamente quando o inimigo estivesse distraído e completamente envolvido noutras prioridades.

Assim que o combate se tornou mais encarniçado, as unidades que aguardavam investiram sobre as muralhas, numa zona afastada da contenda que concentrava o grosso das forças, procurando transpô-las com recurso a escadas. A resistência dos iberos foi muito débil, mercê da falta de efectivos.

Sem grandes sobressaltos, a quase totalidade das 5 coortes entrou em Ortas, convergindo na direcção dos camaradas que forçavam a entrada no local inicial do ataque, flanqueando, deste modo, o inimigo. Pressionados de dois lados, após momentos intensos de combate, os iberos não tiveram outra alternativa que não fosse retrair-se e buscar protecção junto dos muros de Sul, evitando a manobra de cerco que os romanos procuravam levar a cabo.

O crepúsculo anunciava-se a passos largos. O cenário estava igualmente turvo para as hostes locais. Perdida uma parte significativa dos guerreiros, os iberos eram agora um magote bastante reduzido de homens, encurralados contra os muros, angustiados nas suas perspectivas, e que se viam confrontados com uma massa de legionários, sedentos por concretizar a vitória, altamente motivados e pouco interessados em fazer prisioneiros.

Virar as costas aos oponentes e ensaiar a fuga pela saída próxima não era solução: a perseguição acabaria com o que restava dos cantábricos, vascões e astures. Os portões estavam abertos mas, apesar da tensão e ansiedade, não houve tolo que para ela corresse. Os celtas montanheses estavam determinados a morrer e a vender caro cada singular sopro de vida. Mantiveram-se aprumados e coesos. E foi o que os salvou, ou pelo menos, foi o que salvou a maioria deles.

Reunidos e reorganizados no interior do baluarte, os romanos preparavam-se para a estocada final. Soou novamente o toque de trompa. Retomaram o movimento, com passada lenta, avançando com os escudos ostensivamente à frente e os pilluns e gládios prontos para a função.

As circunstâncias revelavam que a noite iria cair definitivamente para muitos. Ouviam-se promessas e preces aos deuses, entre alguns gritos de desespero, vozes de despedida a presentes e ausentes. Inusitadamente, o conformismo à certeza de um desfecho previsto caiu e revigorou-se o moral celta, com o aparecimento de reforços - um grupo alargado de várias centenas de cavaleiros, liderados por Gurri - que arremeteram sobre a formatura inimiga, pretendendo desbaratá-los.

Logo aos primeiros confrontos do contra-ataque, verificou-se que, com aqueles parcos efectivos e quase com o Sol sobre o leito do horizonte, já não conseguiriam inverter a situação e fazer capitular os do Lácio. Gurri determinou a retirada, ficando a cavalaria a aguentar a pressão do combate, até que os peões se pusessem a salvo. Esta fuga apoiada permitiu que muitos guerreiros fossem poupados, para continuar a luta, noutro dia, noutra fase da guerra.

Os romanos estavam vencedores, mas praticamente reduzidos a dois milhares de soldados. Pago desta forma o esforço de conquista, restava agora ao Tribuno entrincheirar-se no sítio fortificado e pedir mais legionários, para posterior avanço sobre Ribasdânia.

No pólo central da ameaça romana, Quintus Scipius, tentara novas manobras que provocassem o contra-ataque ibérico. Porém, nada surtia o efeito pretendido. Antes pelo contrário, todas as iniciativas tinham redundado apenas na morte de mais umas centenas de legionários. Passara o dia a enviar tropas para a chacina.

Em mais um acto de crueldade desnecessária, que chocava os próprios compatriotas, ordenou a presença de meia centena de cativos (os mesmos que haviam sido capturados em Freixieiro, entre outros, e cujo envio para Sagunto fora, entretanto, adiado), colocou-os bem junto ao sopé do morro que suportava Ribasdânia. De seguida, posicionou um soldado nas costas de cada um dos prisioneiros. Com o aparato pronto, gritou bem alto, para as silenciosas multidões – acima e no vale - que assistiam à cena e não estavam a compreender o motivo da mesma: -“Como os covardes não saem do refúgio onde se acoitam, vou mostrar-lhes que o sangue, que tanto escondem e receiam perder, será pago por outros que não têm sequer a capacidade de lutar. Estes aqui serão os primeiros, mas, ao ritmo da ampulheta, serão massacrados novos grupos destes reles cativos, até ao último, enquanto, não saírem daí de cima e se renderem! Legionários ao meu sinal, cumpram a execução!

Talauto, Pardo, Mauri e outros vetões, que até reconheciam alguns dos que Quintus marcava de morte, bem como todos os que, incrédulos, fitavam atónitos, na perspectiva do que iria acontecer. Alépio reagiu imediatamente, mandando preparar a cavalaria para um ataque. Porém, o Cônsul, fanático, não perdeu tempo: -“Agoooraaa!!!”

Naquele instante, os que observavam sentiram no íntimo, de algum modo, as lâminas dos gládios com que os soldados trespassavam as vítimas, vazando-os acima da zona da cintura. Escolhidos indiscriminadamente, como exigira Quintus, anciãos, jovens, mulheres e crianças tombavam em dor e golfadas de vida, perante os olhos húmidos dos iberos, alguns deles familiares ou vizinhos…

Nas muralhas, agonizavam de raiva, arrancavam porções de cabelo e auto-infligiam-se de golpes, tamanha era a fúria contra o carniceiro. Tongídio encarou Alépio: -”Dá as ordens certas Alépio! Há que vingar os nossos conterrâneos e acabar com estas feras imorais. Não podemos deixar que execute impunemente mais mártires. Temos de os enfrentar! Dá as ordens certas ou perdes o controlo sobre os teus guerreiros…

-“Sim, para destruir este discípulo do mal, temos de tomar a iniciativa. Reúnam-se na sala do Conselho, vou explicar o que vamos fazer.”

Já era tarde, Quintus deu instruções para prepararem o campo, zelando pela segurança e vigília nocturna.

(continua)

 

Andarilhus

IV : VIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:41