Por Ti Seguirei... (58º episódio)

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Na manhã seguinte, em Ortas, os romanos recolhiam os mortos e faziam as exéquias possíveis. Tratavam de acomodar melhor os feridos e reorganizavam o interior da fortificação.

Fábio Fúlvios desceu ao vale, acompanhado de uma pequena escolta. Faria o relatório ao seu superior e pediria tropas auxiliares para continuar a campanha pelo dorso do Padrelas e a incursão sobre Ribasdânia, pelo flanco.

Quando chegou ao campo principal das suas forças, ouviu os relatos das ocorrências e, sendo um homem de princípios e de ética militar, sentiu-se enojado com os factos. Porém, era também disciplinado, tendo uma fé inabalável nas instituições e nas regras: respeitava e obedecia formal e absolutamente às hierarquias.

Quintus escutou com sofreguidão todos os pormenores que Fábio trazia acerca da escaramuça de Ortas. Revia-se na vitória e estava satisfeitíssimo com o subalterno. Quando a batalha terminasse, prometia distingui-lo magnificamente.

De tal modo, que foi com toda a naturalidade que destituiu o general de uma das Legiões – ganhando mais um inimigo tenaz – e a entregou a Tribuno triunfador.

Antes de regressares Fábio, quero que presencies como arrelio até à exaustão os malditos bárbaros. Vou sacrificar mais uns quantos bons escravos, só para os ver aos gritos lá em cima. Senta-te nesse lectus e goza a paisagem.

Tragam vinho e adiantem lá para a frente mais uma trintena de prisioneiros. Faremos como ontem!

Uma dúzia de cavaleiros dirigiu-se à retaguarda, próximo do assentamento dos arevacos, onde estavam agrilhoados algumas centenas de cativos, sobretudo vetões.

A diligência ficaria, no entanto, interrompida, com as mudanças que surgiram logo a seguir. Os iberos – vetões, lusitanos e calaicos -, a cavalo, saíram de muros e concentraram-se ao longo do caminho que levava ao vale. Cerca de dois milhares de cavaleiros, liderados por Talauto, apinhavam-se até quase metade da extensão da via. Mostravam intenções desafiantes.

Finalmente, eles saem! A postos! As “coortes” de impacto à frente, bem próximas da saída do trilho, seguidas das “coortes” mais ligeiras e manobráveis. Nas laterais e recuada, a cavalaria, o grosso aqui à esquerda e apenas 2 centúrias à direita. Vamos receber o primeiro confronto sem responder e, depois de os deixar emaranhar bem nas nossas unidades, abafamo-los com o cerco! Vamos, chegou o momento; que cada um cumpra a sua parte.” Gritava, excitado, o Cônsul para os oficiais.

E tu, Fábio, mexe-te célere lá para cima. Precisamos que pressiones os bárbaros, de outro ângulo. Entre dois fogos, acabamos com eles!

O Tribuno juntou-se à Legião que já havia iniciado a manobra de deslocação, seguindo a vereda ascensional, primeiro um pouco a Norte, para depois virar a marcha para Ortas.

Na verdade, os romanos reagiam precisamente como Alépio previra. Os iberos tinham uma lição completa, bem estudada, para aplicar ao inimigo.

O timbre das gaitas-de-foles ganhou o éter, cerimonioso e retumbante, de tonalidades agudas. Os guerreiros iniciaram cânticos de guerra e desataram a bater com as armas nas caetras. Os das muralhas acompanhavam. Talauto ergueu o braço e todos se calaram, ficando quedos, enquanto os cavalos, excitados pelo frenesim, relinchavam, erguiam-se nas patas e até se ferravam entre eles.

“Celtas, recordam-se da infâmia de ontem?! Não poupem nenhummmm!!!!!!!!!!!!!!”

Saltaram pedras no arranque dos milhares de cascos, ergueu-se densa poeira, por onde pouco se via, mas ouviam-se os gritos selváticos daquela gente que formava a onda de morte que descia a montanha numa rapidez alucinante.

Ao fundo do carreiro, a consciência de superioridade em efectivos não era suficiente para acalmar o intenso nervosismo dos legionários que preenchiam as primeiras linhas, as mesmas que susteriam o embate brutal daquela força destravada e fatal que se aproximava. Como mandava a experiência e a táctica, manobraram para as conhecidas disposições em “tartaruga”, por “manípulo”, protegendo-se atrás e sob os escudos, dando as pontas das lanças e pilluns ao adversário. Com os escudos bem fincados no solo e a eles encostados, amparavam-se também uns aos outros, em cadeia, para receber o impacto devastador que se agoirava. Os centuriões gritavam as ordens, obrigando à coesão e mantendo os homens concentrados e na sua função do conjunto, atentos a possíveis deserções.

Muito recuada, a cavalaria romana aguardava, algo relaxada. Só entraria em combate quando fosse o momento de rodear o inimigo.

A nuvem de pó ganhava cada vez mais velocidade e os gritos intensidade. Parecia a chegada de um furacão raivoso, ritmado pelo tremor do chão provocado pela corrida desembestada.

Quando já conseguiam mirar nos olhos, os legionários cerraram as formações, encolheram-se e esperaram pela violência e o caos do choque. O odor da tensão incitava os cavalos para o risco, sem contemplações instintivas de defesa, deixando-se conduzir directos às pontas afiadas das lâminas que reluziam no extremo das defesas romanas.

Deu-se então o golpe de mestre concebido por Alépio: como uma enxurrada repentina a passar entre as rochas mais altas dos ribeiros, a horda atacante dos iberos, em vez de se abater sobre a infantaria entrincheirada atrás dos escudos, passou-lhes ao lado, entre os corredores que separavam os “manípulos” das “coortes” da vanguarda, dirigiu-se como um vento, deliberado e ausente a distracções, na direcção da cavalaria contrária, cujos soldados foram apanhados desprevenidos e sem estar plenamente prontos para batalha.

Nos primeiros momentos do embate inesperado, os romanos tombaram em grande quantidade. Dir-se-ia que o primeiro golpe de cada celta da dianteira havia encontrado uma vítima. Após a surpresa inicial, os do Lácio contiveram melhor as investidas da passagem contínua da coluna ibérica, equilibrando os combates.

Para maior perplexidade dos estrangeiros, Talauto não deu meia volta para investir novamente sobre a cavalaria inimiga. Pelo contrário, seguiu em frente, levando a incursão para a retaguarda do exército romano, invadindo as zonas de logística e onde estava estabelecido o cárcere, já bem perto do acampamento dos arevacos.

A manobra deixou Quintus completamente desprovido de reacção, sem saber bem como contrapor ao adversário. Algo lento, acabou por concluiu que a razão de tão insólita acção apontava para a tentativa de libertação dos prisioneiros. Assanhou-se em despertar para a realidade, ordenando o contra-ataque da sua cavalaria.

Porém, outros motivos de preocupação apareciam, do alto da serrania. As portas de Ribasdânia expeliam mais uns milhares de guerreiros, a maioria apeados, desta vez. Pelo carreiro abaixo, chefiados por Tongídio, corriam em grande gritaria e arreganho.

A infantaria avançada romana que, face às ocorrências, saíra da formatura em “tartaruga” e estava mesmo algo desleixada a olhar para trás e a seguir a passagem indomável da cavalaria ibérica, sobressaltou-se com a nova avalancha mas, bem disciplinada, rapidamente se colocou em fileiras de contenção, às ordens dos centuriões.

O Cônsul, que tanto desejara a saída dos bárbaros, estava agora desvairado e quase rouco de tanto vociferar.

Entretanto, na outra ponta do campo, Talauto atacava os guardas que mantinham subjugados os seus compatriotas. Alguns dos cavaleiros aproveitaram para arremeter furiosamente sobre os traidores ibéricos, entrando ligeiramente no reduto dos titos. Foi nesse momento que se concretizou um dos eventos – premeditados - que marcariam o desfecho da guerra. Enquanto trucidavam os desorientados titos, semeando a confusão, com incêndios e destruição, cerca de uma dezena de guerreiros saltou dos cavalos, misturou-se e “desapareceu” na multidão tumultuada.

Já a enfrentar o contra-golpe da cavalaria inimiga, o caudilho vetão passou à fase seguinte do plano. Manteve o combate aceso durante algum tempo, depois, pegou na corneta e largou o sinal: logo que possível, os guerreiros libertaram-se do oponente directo e juntaram-se à fuga colectiva. Contudo, não tomaram como destino Ribasdânia; seguiram para Sudoeste, ao encontro dos termos de Montes Negros…

Sondado para que desse as ordens, Quintus Scipius, mais atento à nova investida dos bárbaros, deu indicações para que as unidades equestres perseguissem os cavaleiros ibéricos. Estavam em ligeira superioridade numérica, e poderiam assim, pelo menos, controlar aquela horda de selváticos e mantê-la afastada do teatro principal de operações. No entanto, esqueceu-se que ficava reduzido, mesmo que momentaneamente, a duas centúrias de cavalaria, as quais apartadas da força principal, se tinham conservado apenas em alerta e não haviam participado nos combates. Pouco importava porque o cuidado do Cônsul era agora a segunda vaga de ataque do inimigo.

Tongídio, à cabeça da torrente exaltada, levava em mãos um cajado com um capacete romano no topo. A menos de uma centena de passos do vale, estacou e ergueu o bastão, assinalando paragem. Os homens que liderava saíram do trilho e espalharam-se pelo monte, por toda a vertente Este de Ribasdânia. Uma vez mais, os legionários ficavam sem oponentes para combater. O desagrado provocado pela ansiedade, fundada na permanente perspectiva de combate e consequente adiamento, manifestava-se numa enervação galopante. A amargura começou a dar azo a alguma exaltação latente e exteriorizada, instigando-se mutuamente contra a humilhação e gozo protagonizados pelos bárbaros montanheses.

As chefias intermédias sentiram o controlo e a disciplina em perigo, a esvaírem-se. Comunicaram-no aos oficiais superiores.

Sintonizado com o espírito de raiva dos seus inferiores, Quintus ordenou o ataque a toda a extensão da força rebelde: “Subam o monte e deitem-nos cá abaixo!”

A princípio, ordenadas e coesas, as coortes dispuseram-se lado a lado para abarcar toda a encosta, na qual iniciaram a subida, a passo cadenciado pelos tambores de combate. Contudo, o bater dos tambores atrasou-se paulatinamente, face ao acelerar da passada anormal dos irados legionários. Em pouco tempo a organização e tradição do exército romano, construídos ao longo de séculos, indiciavam ruptura, transformando soldados profissionais numa multidão de rufias, sem ordem ou regra.

Apesar do esforço dos centuriões, dos decuriões e dos “optios”, 6.000 homens desvairados desmanchavam as formações, aqui e ali, até que desataram em correria, desalinhadamente, direitos aos odiados adversários.

Tongídio deixou-os arribar até meia centena de passos. Estando então já em adiantada ascensão a força que assaltava, o lusitano indicou a retirada.

Entusiasmaram-se os latinos, esquecendo o esforço da subida, para acelerarem e dispersarem ainda com mais furor. Queriam apanhá-los antes que transpusessem e fechassem as portas de Ribasdânia.

Sem o saberem, galgavam a montanha ao encontro de uma morte trágica…

Com os seus guerreiros a salvo, bem encostados aos muros da fortaleza, Alépio agitou o pano imaculado de linho e cumpriram-se de imediato as suas instruções. Homens escondidos ao longo da colina cortaram as amarras que retinham os pesados troncos de pinheiro, os mesmos que, aquando dos preparativos da batalha, haviam sido abatidos e acumulados na horizontal, paralelos ao declive, bem tapados pelos arbustos.

Com a encosta desbastada, plena de obliquidade, as centenas de madeiros, de perfil circular quase perfeito, ganharam rapidamente grande celeridade, precipitando-se a rebolar freneticamente, ao encontro dos romanos. A colisão deu-se quase instantaneamente: sem tempo ou espaço para evitarem a passagem dos duros troncos, a maioria dos legionários foi apanhada pelo deslizamento daqueles lenhos e de tudo o que entretanto arrastavam.

Uma grande quantidade dos atacantes pereceu no local, outros ficaram amputados e esmigalhados, agonizando numa morte lenta, escutando-se desesperados pedidos por um golpe de misericórdia. A hecatombe foi de tal proporção que alguns dos enormes troncos acabaram por ficar imobilizados antes de atingir o vale, travados pelas dezenas de cadáveres que amontoavam sob si. A vertente mostrava um aparato macabro: mortos, centenas de manchas de sangue, pedaços de corpos, pedaços de carne, roupa, armas e armaduras espalhavam-se copiosamente.

Cegos pela soberba e orgulhosos, os romanos perdiam, no tempo de tomar dois golos de vinho, 2.000 efectivos de uma só assentada e quase outros tantos nos dias seguintes, mercê das sequelas e ferimentos provocados.

(continua)

 

Andarilhus

VI : VIII : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 16:43