Por Ti Seguirei... (65º episódio)

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Ainda antes do raiar da esfera matinal, já Fábio dava ordens a alguns serviçais para carregarem uma mesa de campanha até ao meio termo dos dois assentamentos. Assustados e fugidios como ratos, entre a neblina matinal, os serventes de baixa condição cumpriam as ordens, sempre atentos a qualquer manifestação que viesse dos bárbaros. Elevaram igualmente um conjunto de estacas, nas quais engataram as anilhas de um longo tolde, disposto sobre a tábula parlamentar. Carregaram uns odres de vinho e algumas taças e fugiram céleres, logo que terminada a tarefa.

Com semelhantes feições angustiadas e amedrontados, avançaram então dois escribas, fazendo-se acompanhar por umas quantas peças de pergaminho, uns boiões de tinta e penas de ganso. Na sacola, por prevenção, levavam também tabuinhas de cera e estiletes. Dois soldados acompanhavam-nos.

Finalmente, Fábio dirigiu-se para o lugar do encontro, sendo seguido por 15 oficiais, das mais altas patentes – incluindo o Cônsul - e escolta de 50 legionários.

A comitiva romana estava pronta para conferenciar.

 

Do lado oposto, os iberos vigiavam toda a movimentação e apresto do adversário, verificaram o aproximar dos oficiais e aguardaram um pouco. Viram então o acenar do sinal de vontade de parlamentar. Alépio, para além dos seus companheiros habituais, mandou formar um corpo de uma centena de guerreiros. Saíram em ordem de marcha lenta.

Quando chegados a cerca de 30 passos dos oponentes, o Brácaro deu instruções para que o grosso da guarda aí ficasse, de alerta. Continuou apenas com duas dezenas de guerreiros.

 

Saúdo-te ibero. Que este dia fique na memória da concórdia. Trazemos o desejo de paz e a vontade de pôr fim a esta disputa.

A Ibéria foi apanhada no meio do extenso conflito que divide Roma e Cartago. Aníbal fez desta Península uma base de recrutamento e fornecedora de recursos militares para as suas campanhas contra a minha pátria. Foi necessário reagirmos e avançarmos sobre o vosso território. Assim, sem ser nossa vontade e muito menos vossa, acabamos por nos provocar mutuamente e erguemos guerra entre nós.

Porém, julgo que poderemos conviver pacificamente. Certamente que o Povo Romano e o Senado terão a maior vontade por vos ter por “amicus”. Aliados e amigos!

Que a alvorada te sorria também em sabedoria, Tribuno. Estamos aqui com um propósito algo parecido: acabar com o morticínio e relembrar que há muito a viver e muito a zelar pela vida.

Tu estarás convencido da nobreza das razões que vos trouxe para cá. Acreditas realmente que os teus pares e quem os enviou tinham em convicção a defesa dos valores de Roma e pretendiam apenas atalhar as operações do ancestral inimigo cartaginês.

No entanto, eu digo-te que foi a cobiça e a ambição expansionista de um povo, exacerbada pela gula singular de alguns dos seus mais ilustres que arrastou estes milhares dos teus compatriotas, a maioria agora vitima do excesso de avidez e conquista que azeda o sangue dos seus líderes…

Hehehe, não vais conseguir ludibriar este bárbaro, Fábio! Esforçaste-te tanto por sair daqui com a tua miserável vida, tornando-te num grandessíssimo cobarde e conspurcando a dignidade dos gloriosos soldados da Legião. E agora está perante a tua rendição. Serás talvez executado ou escravizado, hehehehe!” Intrometeu-se Quintus no diálogo.

“…Não sejas ridículo… Cônsul! Nós, com alma celta e ibera, honramos a vida e respeitamos todos os seres; não somos aves necrófagas que perseguem senda sobre a humildade ou distração de outros povos. Desprezamos a vossa conduta e os meios que utilizais para subjugar e explorar tudo aquilo em que tocais! Estamos neste encontro para decidir se e em que condições nos comprometemos em pacto de não agressão, ou se reavivamos a guerra até ao último homem. Não queremos prisioneiros!

Quanto a ti, Tribuno, digo-te também que não me parece que algum destes chefes dos diferentes povos ibéricos pretenda ser amigo do Povo Romano. Sim, tendes gente digna e que merece consideração, mas a vossa maioria é predadora e calculista, fazendo apenas jogos de máscaras com os eventuais aliados.”

És duro com os meus. A má experiência aqui vivida tolda-te a análise. Eu, Tribuno de Roma, garanto-te com a minha palavra que o Povo Romano é, na sua maioria, de boa índole, atenta ao progresso e ao bem-estar de todos os povos. Porém, concordo contigo: nem sempre os nossos governantes dão o melhor exemplo ou têm em consideração os princípios que estão na génese da minha nação.

Estamos aqui para alcançar um pacto. É notório que não o pretendeis nas fórmulas tradicionais, dentro da equidade entre ambas as partes. Tendes a superioridade e ditareis leis. Diz-me então quais são os vossos termos.

É agora que este patranhista vai vender todos os seus companheiros e, quem sabe, até alguns bairros de Roma, para que estes bárbaros vão lá passar umas temporadas de vida romana, hahahaha!!!! Não fora a nossa humilhação, e este seria o melhor momento da minha magistratura de Cônsul!

Alépio fitou Fábio e apontou o dedo a Quintus:

Mas será que ninguém entre vós consegue amordaçar a baba dessa triste figura?!

Voltando ao que interessa… Concluíste bem Tribuno. Como atestam as circunstâncias, nós imporemos as nossas regras para um acordo. Mas, como verás, nada terás a recear: não aplicaremos os mesmos métodos que usais, sempre que vencem os que se vos opõem.

Se quiseres sair daqui, salvando a vida dos legionários que te restam, deves comprometer-te em que nunca mais invades a Ibéria e defenderás, arreganhadamente, esta causa no Senado Romano. Dirás que não queremos ser vossos aliados, mas também que não toleraremos mais operações romanas na nossa terra e, se tal acontecer, retaliaremos diretamente no vosso coração: Roma!

No regresso ao Lácio, deves desmantelar todos os campos romanos na Ibéria, libertar as populações que ainda mantendes aprisionadas e passar os Montes Pirenaicos, não deixando nada para trás. Se aceitares estas condições e as firmares em letra, poderás partir com os teus.

À distância, nós faremos o acompanhamento da vossa retirada, certificando-nos da execução destas exigências, até que passeis para o lado da Gália. O que me dizes?

 

Fábio cerrou as sobrancelhas, que pareciam ranger face ao peso da responsabilidade que lhe assolava o pensamento. Quedou-se calado e hirto durante algum tempo. Tanto que o próprio cavalo, instintivamente, começou a mexer pernas e pescoço, com a sensação de ter um moribundo no dorso, até que rodou e estimulou o movimento do Tribuno. Este desmontou e dirigiu-se a passo até à posição de Alépio.

Alépio assumiu comportamento idêntico. Encararam-se de perto.

Ibero, o que me propões é algo que não sei se poderei cumprir. Tomar tamanhas decisões transcende ainda mais as minhas competências, do que as transgressões das mesmas que já levei a cabo.

Escuta o que te tenho a responder. Fecharei os campos militares avançados. Todavia, não poderei simplesmente encerrar os postos romanos mais a Leste, sobretudo aqueles constituídos por muita população civil originária do Lácio e a prosperar em múltiplas actividades, na função de colónias comerciais e vilas agrícolas.

Sim, libertaremos os prisioneiros e abandonarei a Ibéria com o grosso do contingente das legiões.

Mas tudo isto só será possível - e para podermos assim também evitar mais derramamento de sangue, futuramente - se preparares uma comitiva, constituída pela vossa multiplicidade tribal e me acompanhares a Roma… sim a Roma, e apresentares a vossa determinação perante o Senado e aí negociares os termos finais do acordo. E, entretanto – para que desloque a força militar –, tens de garantir a segurança dos meus compatriotas que ficarem por cá, nas referidas colónias. Bem como acertares compromisso em que não vos aliareis a Aníbal nas guerras que vamos dirimindo.”

Desta vez, foi Alépio que ficou mudo e pensativo. Para evitar assumir tais compromissos só por si, recuou até aos camaradas e conferenciou. Ali estavam os chefes de cada um dos povos da aliança ibérica e, em breves momentos, alcançaram uma deliberação tácita.

Novamente junto a Fábio, o Brácaro firmou a voz e adiantou: “Muito bem. Os líderes das diversas tribos estão dispostos a enviar um séquito a Roma. A sua ida e regresso em paz e concórdia devem ser assegurados. Por cá, nenhum elemento integrado e obediente às orientações emanadas em cada um destes povos erguerá armas contra os romanos ou tomará parte das iniciativas cartaginesas, até que regressem os seus representantes. Não poderemos garantir o mesmo quanto a guerreiros tresmalhados, que agem individualmente.

Se concordares, podes colocar tudo isto por escrito e farei a minha marca de aprovação, em nome dos iberos.”

Excelente! Escribas comecem o vosso trabalho; irei relatar em voz alta os artigos deste acordo, para que todos o possam ouvir e depois comprovar no documento.” Disse Fábio, de forma clara e notoriamente aliviado.

 

Andarilhus

XXII : IX : MMXII

publicado por ANDARILHUS às 21:29