Por Ti Seguirei... (67º episódio)

http://caminhocelta.blogspot.com/2009/11/lendas-celtas.html

 

Rubínia abraçou carinhosamente Zímio, irrompendo em pranto contido e soluçado, enquanto embalava o corpo sem ânimo. Tongídio juntou-se-lhe no abraço e todos se aproximaram, sentindo enorme pesar. Ali ficaram por algum tempo.

Talauto buscou uma manta, onde colocaram o falecido, já aliviado do varapau lascado que o fulminara irremediavelmente. Levaram-no para Ribasdânia, carregado em ombros.

Fábio ordenara também a recolha das duas partes do corpo de Quintus. Inumaram-no aos pés de um grande carvalho. Se fora razão de sofrimento e morte para muitos homens, agora seria sustento de um magnífico espécime vegetal ibérico, longe da sua pátria.

 

Alépio acordou com o Tribuno que o exército romano deveria agrupar todo no vale, iniciar o levantamento do acampamento e preparar a logística para partir, com todos os efectivos, inclusive os enfermos e feridos. O prazo para a saída ficava marcado para daí a três dias.

A comitiva de Iberos também estaria pronta para os acompanhar, dentro do acordado no princípio de tréguas.

 

Pelo entardecer, o corpo de Zímio estava limpo, recuperado, purificado e solenemente adereçado para o rito fúnebre. Construíram-lhe um palanque e, sobre este, um entrelaçar de múltiplas camadas de ramos, mais alto do que o habitual. Rubínia pedira uma pira funerária digna de um chefe.

A grinalda de flores viçosas, colocada na fronte, transmitia a cor de vida que faltava ao defunto. Colocaram as armas a seu lado, as vírias e o torque cerimonial, alguma comida, cerveja e um amuleto muito antigo, talhado numa estranha madeira muito escura, único elo remanescente que, desde sempre, ligara Zímio à sua família natural, de quem o fadário o tinha apartado desde que mal principiara a andar.

Entre as ramas espalharam ervas e pequenos galhos secos. Regaram tudo com gordura animal derretida. A incineração deveria ser total para que aquele que partia chegasse ao outro lado com todas as suas capacidades e posses.

Ao sinal da companheira, Tongdio atirou a tocha acesa para meio da estrutura. O lume alastrou-se faminto pelo sebo, ouvindo-se quase de imediato os estalidos da massa vegetal. A labareda galgou pela pira, alcançando o cadáver e consumindo tudo com grande fulgor e rapidez.

 

No interior e pelas cercanias de Ribasdânia, ensaiaram-se alguns festejos pelo término da guerra, porém compostos por manifestações de alegria muito contidas e de fraca expansão. O conflito fora longo e destruíra um sem número de recursos e vidas. Os que prevaleciam conheciam alguns ou pelo menos alguém dos que haviam perecido, com diferentes graus de parentesco ou amizade.

Chegara agora o momento de reconstruir, povoados, populações, famílias. Regressar aos lares e reocupar as casas.

Sobretudo o território vetão estava absolutamente desorganizado e muito marcado pelas chagas da guerra. Iria demorar a reunir os habitantes tresmalhados por serras e leiras ocultas em longínquos e isolados lugares, a arrancar com a reconstrução e a retoma das actividades normais do quotidiano.

 

Passaram-se os dias aprazados na recuperação dos feridos e preparativos de debandada das comitivas dos diferentes povos. Trocaram-se abraços de amizade e promessas de reencontro e de alianças duradouras.

Cada tribo indicou um conjunto de guerreiros, entre líderes e escolta, para o contingente ibero que acompanharia o destroçar dos Romanos. Elegeram um triunvirato, composto por Alépio, Irineu e Talauto para conduzirem a delegação. Ao todo eram cerca de 350 homens.

Tongídio também pretendia acompanhar os amigos, mas logo entendeu que era altura de abraçar outros dos seus deveres; alguns dos quais descurara, por força das circunstâncias ou mesmo por algum exagero de intrepidez e aventura, que admitia, tão-somente no seu íntimo. O olhar de Rubínia mostrava-lhe que não a poderia abandonar, desta vez. Decisão ponderada, como o futuro próximo lho justificaria, por motivos diversos.

 

Primeiro abalaram os povos do Sul - Cónios, Túrdulos, Batestanos, Turdetanos e os arqueiros Cartagineses -, em conjunto. Os restantes guerreiros ibéricos concentraram-se ao longo do início do caminho que os levaria de regresso, para saudar em despedida, sempre em desgarrada de gaita-de-foles e outros instrumentos, entre a gritaria alvoroçada. Passariam por Lijós e daí para Sudoeste, em busca da costa Atlântica, a qual contornariam até encontrarem o Grande Mar Interior, junto ao estreito que aproximava a Península à Mauritânia.

Seguiram-se os do Norte e da Meseta da Ibéria. Também agrupados e desaparecidas as velhas rivalidades, Astures, Cantábricos, Vascões, Vacceus e Arévacos, marcharam lado a lado, alegres e festivos com as despedidas dedicadas dos aliados.

Mais intensa foi a despedida de Gurri com amigos de sangue, granjeados na epopeia em que o destino o envolvera. Abraçou calorosamente Alépio, Talauto e Tongídio para, depois, ir ao encontro de Rubínia e segurar-lhe as mãos: “Amiga, irmã… o Gaulês tinha razão: és uma deusa. Ou pelo menos, és uma enviada dos deuses! Dou-te todos os louvores previstos só para as divindades, pela Ibéria, pelo meu povo e por mim, também. Deste-me uma missão, um fim, que enobreceram e valorizaram os meus dias. Sou agora um melhor indivíduo, um melhor líder… um melhor amigo. A minha amizade é eterna para contigo e os teus; e a minha vida também será tua, sempre que o necessitares. Deste o exemplo e agora sou eu – e muitos outros – que por ti, pelas tuas causas, seguirão sempre! Espero rever-vos em breve. Visitar-vos-ei!

Finalmente, garantiu a Irineu que acompanharia e auxiliaria os caudilhos arevacos enquanto ele estivesse ausente. Visitaria também Bolota. Sem vazar as lágrimas que bordejavam as pálpebras, retendo-as no seu orgulho de guerreiro, montou e acelerou o trote para alcançar os seus, que já se adiantavam.

 

Assim que Fábio enviou emissário, declarando-se pronto a partir, Alépio deu ordens para se juntarem aos do Lácio. Tomariam a direção de Sagunto e, após essa escala, passariam a Roma, para os acordos e o tratado de paz.

No raiar do Sol matinal do dia seguinte, todos estavam apostos para a jornada. A separação era dura e difícil após o acumular de tantos momentos inesquecíveis, partilhados pela irmandade de amigos, que o destino resolvera congregar.

O Brácaro, mais emotivo que os demais, não escondia a tristeza do afastamento, e sempre ia dizendo que partia para tratar do futuro da Ibéria, mas logo regressaria para bem perto daqueles que agora tinha por família.

Talauto, em longo abraço a Tongídio, pedia-lhe para visitar seu idoso pai, Talamo, em Obila e o ajudasse em alguma coisa que fosse necessária. Entretanto, Pardo e Mauri ficariam responsáveis pela segurança e reconstrução. O Lusitano comprometeu-se.

Rubínia agradeceu a ambos o apoio e a força com que se haviam empenhado na sua demanda. Desejou-lhes sucesso nas negociações e a máxima cautela com os estrangeiros. Não eram de confiar. Por fim e para amenizar um pouco a tensão que se sentia no ar, gracejou, dizendo que os aguardaria com Tongídio e Gurri, junto às saudosas termas de Obila. Devia o acerto de conversas a Talauto.

Partiram, à cabeça do grande contingente ibérico e romano. O pequeno grupo sobrante de Titos e Belos integrava-se também na coluna, uma vez que se dirigiam para uma zona contígua do Sudeste ibérico.

 

Os restantes ficaram mais um punhado de dias por Ribasdânia, auxiliando na limpeza e recuperação do lugar, assim como de Ortas. O Pendão foi abandonado ao avanço da natureza e não sofreu novos trabalhos de fortificação.

De todos os clãs do exército ibérico, destacou-se um número significativo de guerreiros, alguns deles já acompanhados das famílias, outros que, através dos que regressavam, enviavam mensagens para que a eles se reunissem, decididos a ficar e povoar aquelas paragens.

Em breve surgiriam pequenos assentamentos populacionais, de um ou mais casebres, que originariam, com o tempo, povoados de quintas e de aldeias.

 

Terminados os trabalhos e emanados para o além todos os cadáveres, por expedito fumo de piras gigantescas, comuns, chegou o momento de desmanche do ajuntamento das três principais tribos celtas. Vetões rumariam a Nascente e Lusitanos e Calaicos tomariam as sendas para Ocidente. Sacrificaram em agradecimento ao grande baluarte. Ribasdânia ficava-lhes no pensamento e mantinha-se nos seus corações.

Tongídio liderou a força conjunta de Lusitanos e Calaicos até ao termo de Tanábriga. Aí, as diferentes tribos e clãs saudaram-se fraternalmente e dirigiram-se para os territórios e cidadelas das suas gentes. Para muitos, era o regresso depois de um longo período de ausência.

A aproximação dos contingentes de homens (e mulheres) de armas aos povoados causava o alarido e a curiosidade de ver quem chegava e de quem faltava. A surpresa inicial com a massa compacta de gente que se acercava ao longe dava, paulatinamente, lugar ao choro de alegria pelo reconhecimento e ao conforto do abraço, do beijo e, na mesma medida, motivo ao choro da amargura e ao grito da desilusão com a falta daquele ou daquela que com tanto fervor, eram aguardados. Os povoados enchiam-se novamente de população, notícias e novidades, trazendo a alegria, mas também a dor e o luto aos familiares dos parecidos na guerra.

 

Assim ocorreu também na entrada de Tongídio, Rubínia e conterrâneos na cividade lusitana. Aegidio aguardava-os junto às portas principais, ladeado pelos anciãos e ilustres e acompanhado por grande multidão sôfrega por ver os seus regressados de perto e tocar-lhes.

 

Andarilhus

VII : X : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 22:27