Por Ti Seguirei... (Epílogo)

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A hora era já derradeira na claridade. No horizonte, numa repetição a que recuperara o hábito, a vigília introspectiva propagava-se pelo acolhimento do crepúsculo. O tombar do Sol amadurecia por mais um dia a reflexão sobre o passado recente, o momento presente e a perspectiva do advir.

Rubínia, lá bem no topo do promontório que definia o centro do povoado, olhava, como tanto gostava, para a entrada Este, bem demarcada no terceiro e mais exterior anel do sistema amuralhado de pedra ciclópica. Todos os dias, dentro do possível, ali galgava, fintando as fragas cascudas e algumas giestas que irrompiam intempestivas por entre o solo e a pedra. Movia-a o encontro e a carícia da brisa, como voz, como toque de outras dimensões; desejava expor-se aos sinais, à inspiração dos deuses, que lhe oferecessem a ponderação de equilíbrio necessária para alcançar algumas respostas, algumas certezas, sobre a sua condição, a sua vida.

 

Quando já se viam os primeiros fumos a libertarem-se por entre o colmo dos telhados das típicas casas de planta redonda e a noite começava a sugar a luz natural, teve ainda tempo de recordar o instante em que colocou Tongídio, desajeitado, de joelhos sob a ombreira do templo maior de Panoia.

A inusitada circunstância ocorrera quando, alguns dias depois de regressarem a Tanábriga, impondo-se o agradecimento das dádivas, conselhos e protecção recebidos de Trebaruna e de outras divindades, decidiram visitar o Santuário de Panoia e realizar as suas preces e ofertas.

Foi o momento que considerou oportuno. Assim que entraram no recinto sagrado e foram, primeiramente - como manda o ordenamento ritual -, prestar os seus respeitos ao concílio dos deuses, no Templo Central, logo à entrada, sob o olhar granítico e fulminante do atento Reva Marana, estacou, deteve o avanço de Tongídio, segurando-lhe as mãos e disse-lhe, então: “Meu querido, acertaste quando contrariaste o teu desejo de fazer parte da delegação que partiu para Roma. Sabe que é agora que eu preciso mais de ti. E não sou só eu. Há mais alguém que, apesar de eu o suspeitar há já algum tempo, só se revelou logo que arribamos ao nosso povoado. Tenho agora a certeza que fomos abençoados com o dom da concepção; vamos ser pais…

Não contava com reacção negativa de Tongídio, porém sabia que um rebento seria, de todo o modo, um factor que tolheria a constante ânsia de aventura, a liberdade de movimento do enérgico marido. As lágrimas precipitaram-se, ainda em dúvida se estaria a dar uma boa ou inoportuna notícia ao companheiro.

Tongídio desceu um degrau, carregado nas feições, mas com os olhos esbugalhados. Nada disse, prostrou-se de joelhos, afagou e beijou repetidamente a fecunda barriga, abraçou-a pela cintura e ali ficaram em feliz contentamento, até que tiveram de dar passagem a outros acólitos. As lágrimas de Rubínia engrossaram, agora de alegria e certeza.

Visitaram Trebaruna, no mesmo lúgubre espaço entre altas fragas e tapado com a manta desbotada de sempre, onde se haviam conhecido. Dedicaram à divindade. A mulher relembrou particularmente a intervenção da deidade quando muito padecia em Pallenda.

Esse episódio puxava por tantos outros, como imagens que saltavam à consciência e até arrepiavam o corpo, de vivências e sobrevivências tenazmente vencidas para cumprir aquilo que a havia impelido numa demanda, que a princípio, pensava então, seria breve e circunscrita, mas que acabou por a levar a deambular por boa parte da Ibéria e a impelir a própria Ibéria para os desafios do seu futuro. Recuperara Tongídio e ajudara a libertar a sua amada terra do jugo e da exploração do soberbo inimigo.

 

Sim, podia afirmar que viviam agora tempos em que tudo estava na ordem de acontecimento e de lugar. Em breve a delegação estaria de regresso, certamente com excelentes notícias e tinha assim mais do que garantida a presença do marido a seu lado, concentrado na família e nos negócios.

Recordava-se, também, como há dias, quando entravam finalmente em casa, após tão longa ausência, tudo parecia igual mas, também, absolutamente diferente. Crescera com as experiências somadas. Sentia-se de volta ao reduto, ao casulo da crisálida, embora sentisse que já havia ganho as asas de borboleta e o ferrão da abelha, que lhe permitiram superar as distâncias da dificuldade e a agressividade das adversidades.

 

No alto do promontório de Tanábriga, Rubínia olhava para a porta Leste e esperava… desta vez, não só por Tongídio, mas também pelas sempre acalentadas lembranças da sua aventura e o consequente restabelecimento do quotidiano.

Se fosse menina, chamaria “Bolota” à criança que trazia no ventre, em honra da sua amiga, ou “Tongidínio”, se fosse varão, para seguir a tradição do seu clã.

Ainda não o sabia, porém, chegado o momento, nasceria Tongidínio, entre estações, no permeio do maduro renovo e do precoce estio, o qual, por sua vez, entre os seus filhos, conceberia uma menina de nome “Rubea”. Esta neta de Rubínia, atingida a idade de matrimónio, desposaria um tal de “Cumínio”, natural de terras mais a Sul, com quem formaria a família progenitora do mais ilustre Lusitano que a Ibéria conheceria. Dar-lhe-iam o nome de “Viriato”.

 

Após um curto repouso e já entediado com a vida demasiadamente confortável de casa, Tongídio partira com o sogro, por um curto período, guiando uma caravana mercante para os povos do Norte. Fruto dos novos conhecimentos, inauguravam uma nova rota comercial com destino aos domínios Vacceus. Levavam uma grande variedade de artigos para escambo pelos metais nobres, armas e gado equídeo, de tão boa qualidade, como só Gurri e os seus conterrâneos sabiam produzir.

Para o Lusitano tratava-se, sobretudo, de mais uma oportunidade para viajar e visitar os amigos. Porém, quando lá chegou, os nativos deram-lhe conta da ausência de Gurri e dos seus guerreiros mais próximos. Abalara para território Arevaco. Primeiro a Numântia, cumprindo a promessa dada a Irineu e depois a Pallende, para visitar familiares e também Bolota.

Tongídio deu atenção ao trato comercial. Deslocou-se a várias povoações, onde foi sempre bem recebido e logo reconhecido pelas tatuagens azuis, que o associavam às narrativas, já difusas e célebres, das recentes façanhas.

Quando de volta, Gurri encontrou Tongídio já a preparar a viagem de retorno a Tanábriga. Pediu-lhe apenas um dia de espera, para acertar alguns assuntos domésticos e militares, para depois partir com a caravana para Ocidente, e matar saudades de Rubínia e outros. Estavam muito satisfeitos pelo reencontro, mas também algo apreensivos com as notícias confusas sobre a delegação ibera, recolhidas entre os Arevacos.

 

A penumbra abafava os sons e os brilhos do dia, com a paciência pausada de tudo adormecer em embalo suave, decidido. Sentia-se o frio montado num vento irreverente que fizera correr a brisa tépida para longe. Rubínia cerrava o manto de lã, erguendo-se da fraga que lhe servira de assento para volver ao convívio com familiares e vizinhos. A mãe ficara com ela, enquanto Físias se ausentava com o genro. Já teria o fogo aceso e o pote de ferro a aquecer, prestos para preparação da refeição nocturna e agasalho.

No alto do promontório de Tanábriga, Rubínia olhava para a porta Leste e despedia-se do seu fado, das suas viagens, dos seus sonhos, com um “Até amanhã…”, sussurrado. Deu o primeiro passo descendente, porém sentiu uma enorme ânsia de lançar um derradeiro olhar para a porta do destino. Focou o olhar: uma correria de cavaleiros, ainda tão distante que não se lograva qualquer som - apenas se avistava -, apontava à entrada na cidadela. Quem seriam? Teve um esgar de pronuncio, de sensação de inesperadas notícias que voltariam a revolver a sua vida… Seria?!

Apesar do anoitecer, com a aproximação, reconheceu facilmente o marido, e os restantes… Sim! Aquelas figuras compactas, com cabeleiras longas muito claras, quase albinas sob as tonalidades do ocaso, só poderiam ser Vacceus, e o de diante parecia mesmo Gurri. Sim, também confirmava a presença daquele. O que se estaria a passar? Para quê a pressa?! Desceu o mais rapidamente possível. Como Alépio outrora, eles dirigiam-se para a Casa do Conselho.

 

Aegídio já conversava com os elementos recém-chegados, formados em semicírculo.

Rubínia! Rubínia! Que bom ver-te.” Disse Gurri, com a voz elevada.

Sim, minha amiga, que felicidade poder agora cingir, sem que haja grilhões ou condições de disputa que nos apartem.” Secundou Bolota, surpreendendo a amiga com a sua presença. Correram a abraçar-se em grande alegria e festejo.

 

Rubínia juntou-se ao grupo, de sorriso aberto, cumprimentou os visitantes e encostou-se a Tongídio.

Que Trebaruna continue a dar-me estes excelsos momentos. Já nos começamos a reunir e em breve, outros teremos em comunhão, quando deixarem Roma e regressarem à Pátria. Alépio – esse, então – deve estar a remoer argumentos para concluir rapidamente o tratado com os do Lácio, para tomar o caminho para a Ibéria!

Era exctamente sobre a delegação que falávamos a Aegídio e as estranhas e, por vezes, contraditórias novas que chegam de Sagunto. Afirmam que viram os nossos representantes entrar no baluarte romano e, no dia seguinte, a embarcarem nos seus navios, com destino a Roma. Tudo decorreu de forma tranquila e aparentemente normal. Contudo, disseram também os observadores que, quanto a Iberos, só se terão feito ao mar menos de uma centena e que as portas de Sagunto estão permanentemente encerradas, o que não acontecia antes. Poucos são autorizados a entrar e a sair do sítio.

E Tongídio continuou: “Numântia, seguindo a opinião de Gurri, enviou uma coluna de batedores perscrutar as imediações de Sagunto, para reunir informações. Se necessário, contactarão directamente os Romanos, na fortificação. Resta-nos agora aguardar e votar para que tudo tenha corrido bem e dentro do previsto.

Acredito que sim! Logo, logo, chegarão novidades sobre Alépio, Talauto e os restantes, se não forem eles mesmos a portarem-nas.” Atalhou a optimista Rubínia, para mudar de assunto, segura que estava no êxito da missão: “Agora quero saber como pude ser afortunada com a presença de Bolota, aqui, na minha terra!? Despeçam-se de Aegídio, por ora, e vamos para casa. Deveis estar famintos e há muita conversa para pôr em dia! Já repararam na minha barriguinha?! Tenho um milagre a crescer dentro de mim!” Abriu a manta e expôs a ainda pequena, mas notável, gravidez.

 

Com algum alvoroço, percorreram as ruelas até ao conjunto de casa circulares, confinadas por um muro de meia-altura, pertences de Tongídio e Rubínia.

Alguns frangos, peças de caça, frutos e vegetais silvestres e ainda as castanhas novas passaram de mão em mão, pelos comensais, sentados sobre mantas, no chão. Os rostos risonhos reflectiam as chamas da fogueira central, por entre gargalhadas e figurações a retratar gestos e acontecimentos, palavras e todas as memórias das vivências comuns.

O repasto perdurou, enquanto a Lua empertigada buscava o zénite no firmamento. Os cães ladravam aos pequenos sons impertinentes que rasgavam o sacro silêncio da noite. Dentro da morada alegre, ninguém os escutava, concentrados nas histórias, velhas e novas, felizes pelo amor que reunira Gurri e Bolota, felizes pelo amor que brotara a semente da criança que Rubínia carregava no ventre; felizes pelo reencontro, pela paz, pela união.

 

O sono, empurrado pelo cansaço, tomou amparo entre os convivas, quando já estes faziam planos para o futuro, perspectivando a influência daquela irmandade em proveito da maior consistência e aliança entre os povos Ibéricos.

Como vaticinadores e sem o imaginarem, a determinação das forças positivas que geraram e mantinham tão espontâneos e firmes laços de afecto e amizade, seriam colocados novamente à prova, perante a retoma de insidiosas investidas dos invasores da Ibéria.

Agora descansavam, entre sonhos de confiança num advir próspero e sossegado. Porém, pela manhã, assomaria um grupo de guerreiros Arevacos a Tanábriga. Seriam mensageiros de uma realidade preocupante e que obrigaria a colocar a tenacidade e a resistência ibéricas em alerta e movimento.

 

Os batedores que se haviam aproximado de Sagunto recolheram rumores e confirmaram-nos quando encontraram um grupo de Vetões e Calaicos, esfarrapados, com feridos e moribundos, que revelaram a perfídia dos Romanos.

Souberam então que, Fábio, homem honrado, pretendia cumprir o pacto firmado com Alépio. Porém, no acampamento que precedeu a chegada a Sagunto, foi traído pelos seus subordinados de maior patente. Assassinaram-no enquanto dormia, aniquilando de seguida os partidários íntegros do Tribuno e subornando os restantes. Tomaram o poder e, na sequência, ficaram com o caminho livre para abater a guarda do campo dos Iberos, chacinando os que não conseguiram subjugar e capturando todos os outros. Depois, sedaram-nos para os fazer entrar na cidadela e, daí, alguns nas embarcações, para seguirem para a servidão a Roma.

O contingente de representantes sofreu forte castigo, desmanchando-se entre mortos, prisioneiros nos calabouços da fortaleza do inimigo e primeiro conjunto de escravos despachado por mar.

 

Rubínia, quando conhecedora da traição e dos incidentes conjugados, sobressaltou a ainda ensonada Tanábriga, expelindo um profundo fôlego de respiração quente, entre a neblina fria matinal, enquanto vibrava um profundo grito indómito e de raiva:

 

Ibéria nada temas! Por Ti Seguirei!!!!!!.....................”

 

 

 

FIM

 

Andarilhus

XII : X : MMXI

publicado por ANDARILHUS às 20:24