Por Ti Seguirei... 2.1

 

 

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No horizonte erguia-se, ainda tímida, a maré dourada do Sol fulvo, e já aquela voz ferida abafava em silêncio estremunhado os noviços e espreguiçados sons matinais. Ouvira-se ao longe, talvez mesmo nos povoados mais próximos. Cortara o sono dos que se prolongavam no ócio do sonho, com a lâmina romba da garganta revoltada, de pesadelo padecente.

- Ibéria, nada temas! Por Ti Seguirei!!!...... – gritou-o em timbre carregado e ressoante.

Promessa gemida com dor estridente, selada para testemunho dos deuses e de todos quantos a escutaram. Rubínia respondia com firmeza à nova e inesperada convocatória de um destino que esbulhava os desejos por uma vida serena, determinado a fazer-se gravar pelo estilete da espada e o pigmento de sangue.

Os mensageiros arévacos haviam sido claros e seguros na comunicação das trágicas novas: Os Romanos – esses necrófagos de povos e costumes, sem palavra ou honra – embustearam uma vez mais, apunhalando a confiança e a esperança numa convivência pacífica. Pelo amor aos deuses das trevas, perdera-se a oportunidade… perdera-se a oportunidade…

 

De nada valeu a louvável coragem do Tribuno Fábio Fúlvius, patenteada no enfrentamento do Cônsul Quintus Scipius, e mesmo a arriscada ousadia para o retirar do comando, no momento limite.

Aquele nobre romano tivera discernimento lúcido para procurar alcançar as tréguas possíveis com os Iberos, conseguindo evitar a hecatombe total das legiões que Roma enviara (aproveitando o impulso emocional inicial da liderança do jovem Aníbal) para aniquilar as resistências na Ibéria e reclamar para si uma das fontes de maiores recursos do seu arqui-inimigo de Cartago.

Realista, íntegro na dignidade de patrício e de militar, o Tribuno que impusera garrote às feridas de sangue e detivera o trabalho funesto da morte, acabou por receber o seu abraço frio e irónico, por mão dos seus pares. Jazeu o homem e o sonho de paz a poucas milhas de Sagunto, quando aqueles de sua maior confiança o degolaram sem parcimónia. Fábio, salvador e oficial supremo… Deixaram-no a afogar-se no seu próprio sangue, sem conseguir falar ou respirar nos brevíssimos instantes em que ainda teve consciência do miserável golpe dos algozes. Reconheceu-os, mas não teve sequer tempo para mostrar perturbação pelos atos daqueles que conhecia de longa data.

Finou-se sem estrebuchar.

 

Com o assassinato de Fábio Fúlvius impunha-se igualmente, em traços rebuscadamente insidiosos, a sorte trágica para o corpo expedicionário Ibero.

Alépio, conforme o acordo estipulado com o Tribuno, assumira a chefia de um grupo com algumas centenas de guerreiros, provenientes das diferente tribos iberas aliadas, o qual tinha por missão acompanhar à distância a retirada dos do Lácio, verificar o desmantelar de todas as estruturas militares romanas em solo pátria, e aguardar a ratificação do tratado de paz pelas cúpulas governativas da República Romana.

Desprevenidos e sem conceberem que, dadas as circunstâncias, a Legião pudesse revolver-se em revoltas internas - chegando mesmo ao assassinato do comandante máximo pelos seus subalternos próximos -, aos Iberos de nada serviu a rígida e experiente disciplina militar, cumprindo escrupulosamente os preceitos da vigia e defesa do acampamento. O inimigo era ainda avassaladoramente numeroso e exalava à distância um pronunciado odor a rancor de vingança pela enorme catástrofe e derrota sofrida sob os sustentáculos graníticos de Ribasdânia.

Com tamanha ânsia e azedume, aniquilado o homem que garantira a frágil ponte do respeito e afastava as intenções de retaliação dos Romanos sobre os autóctones, a invasão do assentamento ibero e o massacre dos que resistiram foram decididos e culminados sem demoras ou freios de pudor.

Furtivos, os Romanos acercaram-se sorrateiramente do campo do inimigo, exterminaram as sentinelas e irromperam pelo seu interior, de todas as bandas e em grande força, animados pela tensão faiscante da morte.

Alépio, logo que saiu da tenda, recebeu uma forte pancada na fronte, caindo inconsciente. Quando despertou, já com luz do dia, estava deitado, velado por Talauto, que por sua vez tinha um braço imobilizado e uma das faces completamente inchada e negra como breu. Lutara bravamente até que feriram fatalmente o cavalo que montava. Na queda o animal rolara sobre o Vetão, comprimindo-o contra um afloramento granítico. Salvara-se porque a robustez física e a caetra evitaram danos extremos, ficando com o braço partido e uma longa área ferida e dorida, desde o dorso até à face.

Irineu fora brutalmente chacinado, assim como muitos guerreiros. Outros haviam logrado escapar pelos matizes sombrios da noite.

Ainda o corpo do Tribuno se encontrava quente e já Alépio e Talauto eram empurrados e açoitados por legionários desvairados pelo furor provocado pelo morticínio desencadeado, enquanto seguiam acorrentados com os restantes sobreviventes a caminho do cativeiro.

 

Alépio atravessou as portas de Sagunto acompanhado de cerca de três centenas de Iberos. Tranquilizados por poções sedativas, desprovidos de atilhos de captura, limpos, vestidos e apostos com armas, entraram na cividade integrados nas fileiras de legionários, perfeitamente alienados do ambiente que os rodeava, mas aparentando normalidade e ordem para quem os observava à distância; àquela distância criada e mantida de forma atenta pelos Romanos. O afastamento espacial dos olhares providenciava-lhes tempo. O tempo essencial para levarem a bom porto os seus novos planos.

As circunstâncias só começaram a motivar estranheza nos dias seguintes, quando o acesso a Sagunto passou a ser controlado e condicionado, e só permitido às gentes de confiança dos do Lácio. Adensava-se mais o mistério com a atividade de carregamento de galeras a altas horas da noite, escutando-se por vezes alguns gritos e gemidos. Dos Iberos mais nada se soube.

 

Apenas alguns dias mais tarde, e já com as primeiras remessas camufladas dos prisioneiros para Roma, é que os Iberos que haviam conseguido escapar à fúria do inimigo estabeleceram alguns contactos com os naturais daquelas regiões. A uns sorriu a sorte e a assistência de que tanto careciam; de outros riu-se o infortúnio, caindo em domínio de gente colaboracionista com os invasores, sendo aprisionados ou mesmo executados.

Os rumores de que algo estava errado espalharam-se rapidamente, viajando com os andarilhos e os comerciantes, acabando por alcançar os territórios dos povos iberos aliados.

Os esculcas arévacos enviados por alvitre de Gurri confirmaram-no, quer através dos testemunhos recolhidos nos povoados, quer, por fim, no encontro de um dos grupos que havia escapado do ataque romano.

Demoraram uns dias largos a alcançar Tanábriga e a dar conhecimento da hedionda realidade a Rubínia e a seus pares.

 

Os Romanos aproveitaram este período que mediou desde a traição ao pacto de tréguas (após o assassinato de Fábio Fúlvius) e a propagação das notícias sobre o ocorrido para se entrincheirarem em Sagunto, despacharem os primeiros escravos com destino à Península Itálica, apresentarem a situação ao governo da República e solicitarem reforços e ordens.

 

Andarilhus

XXII : VI : MMXII

publicado por ANDARILHUS às 00:00