Por Ti Seguirei... (2.2)

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Cumprida a primeira guerra púnica, e para compensar a perda das ilhas nas águas tirrenas do grande mar interior para o domínio dos do Lácio, Cartago voltou-se para a Península Ibérica.

A estratégia foi confiada a Amílcar Barca. Transitando da Trinacria[1], buscou sucesso com a conquista de boa parte do território do Sudeste da Ibéria, apoderando-se de zonas ricas em minerais e outros importantes recursos, na mesma proporção que acumulava inimigos entre os povos autóctones.

Amílcar morreu jovem, tombando em combate após um ataque fulminante dos Vetões a mais um dos sucessivos acampamentos de acantonamento das tropas durante a sua campanha pela meseta central da península.

Sucedeu-lhe o genro, Asdrúbal, líder com uma visão menos violenta e mais construtiva. O novo General cartaginês criou condições de tolerância e cooperação com os Iberos, e assinou tratados com os Romanos, estabelecendo as áreas de influência e ocupação de cada qual. A partir daí focou a sua política colonialista essencialmente na exploração e desenvolvimento económico da Ibéria, fundando também a grande base naval de Nova Cartago.

Porém, expirou às mãos de um celta, em ato de vingança pela morte do seu chefe tribal (apunhalado por soldados do General, no decurso de uma escaramuça de embriagados).

Substituiu-o o jovem Aníbal Barca, seu cunhado e filho do pioneiro Amílcar.

 

Aníbal herdara a mesma índole belicosa e a tenaz ambição do pai, fermentando em si o sonho de recuperar os territórios perdidos e vingar duramente a afronta romana, derrotando-os e submetendo-os aos desígnios de Cartago. Odiava-os, simplesmente. Aliás, o seu pai instigara-o e exigira-lhe juramento.

Assim que investido do poder, concentrou as tropas disponíveis, arregimentou por soldo um vasto número de mercenários ibéricos e solicitou a Cartago que enviasse um novo exército das costas magrebinas. Pretendia exterminar o inimigo e arrasar a sede da República concorrente – Roma – enquanto aquela praga não solidificasse e rentabilizasse as conquistas obtidas.

Com a impaciência própria da juventude inflamada, antes de receber os soldados esperados da cidade-mãe, atravessou o Ebrol, rasgando os compromissos de Asdrúbal e, arrojado, procurou surpreender os Romanos galgando os Montes Pirenaicos longe das rotas mais vigiadas.

Contudo, corrompidos pelos sestércios e ambiciosos na perspetiva de tomarem as rédeas do governo das possessões ocidentais de Cartago, alguns dos oficiais do seu alto comando entregaram os ousados planos militares ao inimigo.

 

Perdido o segredo, a surpresa foi sim preparada pelos do Lácio, emboscados nos escarpados e sinuosos trilhos que rasgavam passagem difícil pelas misteriosas entranhas pirenaicas.

Aníbal e os seus homens entregaram-se à mercê da morte como cordeiros tresmalhados no meio da alcateia de lobos. Foram desbaratados, expirando aos milhares, deixados simplesmente para os abutres da montanha, enquanto os restantes se atropelavam pelas rodeiras sinuosas da fuga, de retorno aos sopés de arranque do malogrado assalto. Destes a maioria escapou, dirigindo-se para Sul, em busca do refúgio de Nova Cartago, e aí reagrupando com o seu comandante.

No entanto, muitos guerreiros acabaram capturados, após perseguição das matilhas da Legião, entre os quais se contavam grande número de mercenários ibéricos, incluindo Tongídio.

Para Aníbal a derrota não fora definitiva. Pelo contrário, servira-lhe de experiência para organizar nova investida e acrescera-o de novos ensinamentos, preciosos para a excelência da preparação para o expoente de estratega castrense que almejava ser.

Estava realmente convencido de que o seu plano resultaria. Aquela era a táctica certa para ferir de morte o coração de Roma.

Após os preparativos necessários, voltaria a tentá-lo, da mesma forma e pelo mesmo caminho…

 

Entretanto, o General Cartaginês via-se favorecido por um desenrolar de acontecimentos inusitados na Ibéria, os quais ninguém adivinharia ou ousaria sequer imaginar que pudessem ocorrer, mesmo por atrevimento jocoso dos deuses.

A intrépida Rubínia, esposa extremosa e imparável perante os obstáculos, garantira-lhe tempo e espaço, facilitando-lhe – sem saber – a tarefa de refazer o exército e delinear a expedição seguinte.

A mulher celta, por amor ao marido, Tongídio, sustentando sofregamente a vontade tenaz de o recuperar, obtivera dois triunfos espantosos: inflamara os iberos, unindo-os numa causa comum, e conseguira destroçar, humilhantemente, as poderosas legiões romanas, contrariando a invasão e a conquista dos do Lácio.

Áh, Aníbal sabia bem o quanto lhe tinha valido a insurreição dos Iberos contra os invasores. Estava-lhes eternamente grato e contava com eles para aniquilar o poder dos itálicos. Tê-los-ia por parceiros de igual direito, e devolver-lhes-ia todas as possessões cartaginesas na Ibéria assim que concretizasse os seus objetivos.

Em breve, o General descendente da linhagem dos Barca estaria em condições de retomar os seus desígnios. Aproveitaria o revés dos Romanos perante os Iberos e não permitiria que se reorganizassem ou reforçassem posições. Sabia bem onde lançar a segunda vaga da ofensiva: a cidade aliada do inimigo e seu refúgio, Sagunto. Aí seria o primeiro campo de batalha do reinício da segunda fase da guerra púnica (como lhe chamavam os latinos).

 

Sagunto era também a confluência de todos os pensamentos e preocupações de Rubínia e companheiros.

Ultrapassado o choque inicial das notícias, e espalhado o seu conhecimento até ao recanto mais extremo de Tanábriga, reuniram-se os anciãos, os dignatários e os representantes da casta dos guerreiros, na casa do Concilio dos Ilustres.

- Faz já algum tempo que, em condições igualmente críticas, recebi Alépio. Assombrado, escutei as trágicas novidades que me aportava então. Porém, senti igualmente uma serenidade e até descontração, contagiado pela força e pela convicção que o nobre Brácaro emanava, confiante na reviravolta dos azares da guerra. – recordou Aegídio, introduzindo o difícil problema com que se debatiam:

- Depois, foi Rubínia: como um furacão estival rasgou a terra em busca de Tongídio, inspirando e precipitando com êxito a crença de Alépio e de tantos outros. Uniu a Ibéria e determinou a derrota dos seus invasores.

Eis-nos, contudo, novamente em provação… E Alépio, o bom Alépio, o fulgor celta por um ideal, perdido nas mãos do inimigo sem sabermos qual terá sido a sua sorte.

Alépio não abandonou os seus irmãos de sangue, e nós não abandonaremos Alépio e os restantes filhos da pátria que possam ainda estar vivos e à mercê dos romanos. Tanto mais que temos de concluir a missão despoletada por esta mulher – apontou a Rubínia -, gerada pelo amor matrimonial, e que nos fez despertar a todos para um amor à nossa terra, à Ibéria!

Eu, Aegídio, chefe de Tanábriga, digo-vos que temos de completar e encerrar o capítulo da presença de invasores na Ibéria! Vamos atirá-los ao grande mar interior e arrasar com todos os rastos que eles tenham deixado por cá!!!

 

Empolgados, na assembleia desembainhavam as espadas, ao mesmo tempo que acusavam sonoramente o assentimento e a concordância com o orador, intercalando as manifestações com palavras de blasfémia e impropérios ao inimigo.

Tongídio, sempre imponente, ergueu-se sobre um dos longos bancos e confluiu as atenções sobre si. Pretendia falar. Ergueu o braço e amansou os vozeirões.

- Alépio e Talauto merecem o empenho do meu sangue, pois partilham-no em irmandade. Partirei para Nascente em seu socorro e em resgate de todos os iberos que se encontrem oprimidos pelo inimigo; irei acompanhado ou mesmo só. Embora saiba que alguns estarão comigo. – disse-o, enquanto encarava Gurri com olhar decidido.

- Juntaremos forças com todos quantos queiram dar braço às palavras sábias de Aegídio: é urgente atirar com a corja dos Romanos ao mar, antes que eles se agigantem novamente!!

Reacendeu-se a assembleia, com todos os presentes a opinar e a fidelizarem-se com as diferentes ideias de intervenção militar que iam sendo desfiadas para a discussão. Cada um mais arrojado do que o outro, os planos para libertar os compatriotas e suprimir a presença dos estrangeiros apontavam todos para efeitos heroicos e de execução sobre-humana.

Gurri, que se mantivera sereno e em silêncio, olhou para Rubínia e depois para Aegídio. Este entendeu os pensamentos do vacceu.

 - Silêncio; terminem com o burburinho! Vamos ouvir como este aliado e amigo pensa dos acontecimentos e o que nos pode sugerir para resolução das presentes dificuldades. – entoou Aegídio, para reclamar a atenção dos mais exaltados, passando de seguida a encarar Gurri, que se movimentou de modo a ser visto e escutado por todos.

- Para quem não me conhece, sou Gurri, chefe de clã vacceu. Amigo do vosso povo; irmão de alguns dos vossos valorosos.

Não devo intrometer-me nos assuntos internos de outros povos, mas parece-me que este problema afeta toda a Ibéria, uma vez mais.

Escutei-vos. A vossa revolta é justa e entranha-se no espírito de todos nós; a vontade de resolver tudo de forma limpa e rápida germina até no coração do mais duro. Como guerreiro entendo bem esta euforia desmedida em atacar a adversidade e o inimigo.

Naturalmente, sois livres na determinação das vossas decisões e na entrega às respetivas consequências. Deixem, no entanto, defender um pouco as causas da deusa da prudência, e ouçam um pouco da racionalidade que consegui acumular com a experiência de muitos episódios de vida.

As circunstâncias dizem-nos que os Romanos são ainda muitos: mais do que uma Legião; estão bem entrincheirados em Sagunto, o que lhes garante o acesso ao grande mar interior e, com isso, a possibilidade de receber reforços ou tomarem o caminho da fuga, em segurança. Julgo que apostam mais em guarnecer-se com mais efetivos e de forma célere. Sabemos por fonte credível que já o solicitaram a Roma. Assim como já começaram a enviar para o Lácio os nossos infelizes conterrâneos.

Deste modo, neste momento, é um risco fazer preparativos intempestivos para marchar sobre o inimigo, uma vez que desconhecemos a sua verdadeira força e mesmo da condição dos prisioneiros. Os próprios Alépio e Talauto poderão já ter sido embarcados.

Já pensaram que tudo isto pode ser mais uma armadilha daqueles filhos de ratazana?!

- Se não te conhecesse, diria que és exageradamente comedido, meu amigo. Mas, a memória não se esquece que foi a tua calma que nos salvou um punhado de vezes de enrascadas muito complicadas. Certamente, terás uma visão atinada para enfrentarmos esta embrulhada, com êxito. Adianta… conta-nos como julgas ser a forma mais fria de abordarmos a situação. – atalhou Tongídio, sustentando a exposição de Gurri perante os presentes.

 

Andarilhus

IX : VII : MMXII



[1] Trinacria: nome arcaico da Sicília. As “três Montanhas”.

publicado por ANDARILHUS às 22:47