Por Ti Seguirei... 2.5

 

 

 

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As lágrimas ainda corriam na face de Rubínia sempre que recordava a voz da própria Trebaruna. Fosse por obra de poderes superiores ou apenas o resultado das beberagens alucinogénias de Lualto, o episódio tinha ficado cravado em profunda emoção na mulher. A sua protetora descera até junto dos veneradores mortais, e transmitira-lhes coragem e aconchego nas previsões do advir.

Ainda abstraída pela agitação transcendente, carregava o último alforge com as vitualhas e utensílios, e vestia a grossa capa de viagem.

Entretanto, Tongídio despedia-se de Abilino, vizinho a quem confiara o cuidado do pequeno rebanho e outra criação, sobretudo aves, e lhe solicitava zelo pelo casario e pequenos pertences familiares. Apertaram os antebraços e trocaram um olhar cúmplice. Abilino encomendava os votos pelo bem-estar dos amigos e pelo seu sucesso, em prol da sobrevivência das tribos e das tradições iberas. Foi entendido sem que se proferisse palavra.

Carregados e prontos para partir, o casal desceu as veredas de Tanábriga trocando saudações com muitos que saiam ao caminho para lhes dedicar um gesto ou uma palavra de conforto para a jornada.

Quase à saída da cidadela, Aleutério - a quem Aegídio havia agraciado com uma robusta jumenta – e Leuko aguardavam, por indicação do líder da comitiva. Juntavam-se também ao grupo Caturnino e Runaekoi, dois fortes guerreiros.

Assim que os seis atravessaram as portas exteriores, Tongídio olhou para trás, numa derradeira mirada a Tanábriga, endireitou-se sobre a montada, ergueu a cabeça para inalar longamente os odores outonais, ainda iniciais, cerrou os olhos e declarou:

- Para Tongóbriga, onde o meu sogro, Físias, nos providenciará uma embarcação para mais rapidamente atingirmos o Grande Mar Interior. Por terra levar-nos-ia a eternidade de que não dispomos. O dia ainda vai jovem; temos bastante tempo de luz para avançarmos. Tentaremos fazer a deslocação com uma só pernoita ao relento.

A aragem seca e tépida ajudava os viandantes e, no céu, os deuses suavizavam o caminho com longas nuvens brancas, tão imaculadas como a pelagem que cobria o Leuko, suprindo-os de abrigo fresco, interrompendo, a espaços, o abraço acalorado do disco solar.

Galgavam um itinerário ancestral, de Sul para Norte, ao longo do qual haviam prosperado alguns povoados, cuja origem também desaparecera da memória dos Homens. Não entraram em qualquer dos castros com que se cruzaram, para não perder tempo. Estavam precavidos para qualquer agrura ou moléstia daquela andança: comida, agasalho e tudo o demais para a curta distância a que se propunham.

Porém, com a tarde madura, decidiram dar um curto repouso aos animais de carga, antes do assentamento noturno. Encostaram a pequena distância do trilho, em lugar fresco, aberto, onde corria um esguio, mas célere, regato. Aliviaram das posições rígidas, afrouxaram as correias das armas e da roupa. Descansaram. Humanos e animais regalaram-se na água corrente e vigorosa.

O casal apoiou-se num freixo para espreguiçar os corpos. Os demais empoleiraram-se num tronco de carvalho tombado. Leuko desapareceu, em visita breve aos seus domínios naturais.

Runaekoi retirou o elmo cónico com haste pontiaguda, caraterístico dos lusitanos, expôs o tom afogueado da sua farta cabeleira, a qual deixou arejar após soltar o fino cordão de couro que sustinha o rabo-de-cavalo. Em conjunto com a barba rala do mesmo matiz e os intensos olhos azuis, apresentava uma figura de fundição entre os elementos das montanhas do maciço central e as essências das planícies junto ao rio Tagono.

- Gosto de ter os pés bem assentes no solo. Isso de andar sobre água deixa-me algo confuso. Antes me enviasses numa longa jornada a pé, a ligar os extremos da Ibéria, do que isto, Tongídio! Sou pastor; não sou pescador. E logo agora que consegui a promessa de casamento de outra consorte, após ter perdido a minha querida Adília em Ribasdânia, atravessada por um dardo romano… Esses miseráveis! Também fiquei à entrada dos portões do reino subterrâneo de Endovélico, levado pela barca da morte – Lá está, as malditas barcas! – mas Atégina resgatou-me, seduzindo o amado. E com isso não pude vingar a minha doce Adília, nem tão pouco despedir-me dela e dizer-lhe o quanto a amava… Mas, agora, passada mais esta provação das águas, com o apoio de Nábia, vou até contar os romanos que abaterei em honra e graça pela minha falecida mulher.

- Terás oportunidade para isso, certamente, Runaekoi: os romanos são como os cogumelos pela queda da folha; aparecem, de repente, e aos magotes. – disse-lhe Rubínia, com um sorriso, embora contido pela memória do flagelo de morte que afligira todos no curso da grande batalha no bastião vetão.

- E tu, Aleutério, conheces as grandes águas, os mares? Já encetaste deslocação sobre eles? Na verdade, pouco sabemos do teu passado. Apenas que, há já muitos ciclos lunares vencidos, vieste até nós, com pouco mais do que uns farrapos e ofereceste-te ao vetusto Salzidos para lhe pastoreares o grande rebanho, por uma diária de uma simples tijela de migas de farinha e guarida, junto às cabras. Desde então, construíste um abrigo teu e passaste a produzir e vender alguns bens alimentares, sempre só, tão só e apartado do mundo e da realidade…

O interpelado manteve-se em silêncio, enquanto remexia nas longas barbas. Ajeitou a túnica de lã, o chapéu de palha, puxou de um ramo de carvalho e começou a destacar os bugalhos. Cada vez mais inquieto, parecia indeciso. Mexia muito os dedos e murmurava algo para si. Parou os movimentos e firmou o olhar na mulher. Então, como se furasse por entre o jugo que o oprimia, verbalizou o pensamento:

- Não sei o que faço aqui; qual o meu papel ou qual o interesse em participar nesta expedição. Também eu ouvi Lualto, ou quem quer fosse que ele representava, mas não admiro os deuses. Pelo contrário, tenho-lhes aversão ou mesmo ódio… ódio, não, porque já não contenho emoção suficiente para comportar sentimentos tão extremados. Melhor dizendo: os deuses não me dizem respeito, nem fazem parte da minha vida. Por outro lado, se pudesse odiar alguma coisa, seriam certamente os Cartagineses… Mas, nem mesmo sobre esses consigo emanar qualquer espécie de perturbação… A mim, chamam-me de “apátrida” porque os deuses me atribuíram um destino de perda, tristeza e desterro, quando permitiram que a minha família morresse às mãos dos Púnicos, deixando-me sobreviver a essa padecimento, abandonando-me na solidão e numa velhice antecipada.

Os que o escutavam fizeram uma expressão de resignação e compreensão pela sorte do companheiro.

Apenas Caturnino não presenciou a confidência de Aleutério. Ausentara-se em reconhecimento das imediações. Atraído ao longe pela azáfama de um enxame, afastara-se ainda mais. Era um guerreiro duro, mas não resistia à gulodice e à possibilidade de conseguir uma refeição fortuita, que adoçasse a tarde.

Contudo, o mel que buscava fez-se espinho amargo, e dos mais dolorosos. Na verdade, a agitação das abelhas devia-se à presença de um outro intruso. Um urso castanho, adulto e de proporções agigantadas, mantinha-se suspenso no tronco largo do castanheiro, enquanto se lambuzava nos favos, invadindo o buraco da colmeia com as garras da graúda manápula.

Do lado oposto, aproximou-se Caturnino, sem dar conta do feroz competidor. Já salivava, contente, imaginando-se com o “ouro” meloso ao seu alcance. Pouco antes de se achegar definitivamente à recompensa cobiçada, e sem parar, arrancou uns ramos finos de loureiro para enxotar as abelhas. Ainda os juntava para aumentar o impacto do auxiliar vegetal quando, desviando um pouco os passos em torno da árvore, descobriu o imenso urso a banquetear-se, a tão incómoda distância…

O maior problema foi, justamente, expor-se ele também à acuidade visual do animal. Largadas as varas de loureiro, o surpreendido lusitano, sabendo do perigo, não esperou conselho dos deuses ou inspiração do vento, e tomou iniciativa de fugir dali, sem cerimónia ou despedidas. Ato contínuo, o urso escolheu nova presa e concentrou-se no alvo, dando descanso às infatigáveis abelhas. Em dois movimentos estava pelo chão e impulsionava o pesado - mas lesto - corpo em perseguição do infortunado lusitano.

Em desespero, o acossado não demorou a cobrir o terreno que o separava do poiso dos companheiros. Ainda ao longe, já gritava para que o ouvissem:

- Fujam! Prepararem-se, vem aí sarilho dos grandes! Um urso!!!!!

A evocação de “urso” acirrou todos ao estado de alerta. Runaekoi colocou o capacete, com o cabelo solto, e buscou pelo chão uma vara forte; Tongídio pediu a Rubínia e Aleutério – alguém que lhe parecia demasiado frágil para enfrentar tamanho desafio – que se afastassem, pondo também as montadas a salvo, enquanto tentariam aplacar a fera. Segurou o único dardo que o grupo trazia e colocou-se em guarda, paralelo ao companheiro.

Quase de imediato, chegou Caturnino, banhado em suor e marcado pelo impacto das ramagens. Atrás de si, escutava-se madeira a esgalhar e uns urros, progressivamente mais audíveis.

O furioso bicho atingiu a clareira e mais encarniçou as manifestações intimidadoras perante a multiplicação dos intrusos que lhe ameaçavam o território de seu domínio. Ergueu-se nas patas traseiras e mostrou o colosso do seu porte. Enrugou o focinho e mostrou as presas; encrespou as garras, como se fossem punhais.

O dardo e a vara de freixo serviam como a única paliçada que mantinha os humanos precariamente separados do flagelo. Todavia, sabiam que o choque seria inevitável: estavam em espaço marcado e defendido pelo atacante.

- Todos ao mesmo tempo; vamos surpreendê-lo, investindo. Eu vou pelo centro e cada um de vós pelo respetivo flanco! – determinou, Tongídio.

Com gritos selváticos, avançaram. O caudilho logrou chegar-se o suficiente perto para espetar o dardo superficialmente acima do ventre do urso. Na verdade, tentara apontar ao pescoço, mas o animal dobrara-se sobre si, em reação, e a arma falhara o alvo, acabando por encontrar a barreira óssea de uma costela, interrompendo precocemente a perfuração. Ficou-se pelo lancetar da pele, apenas. Ao mesmo tempo, no movimento descendente do animal, a pata poderosa desferiu uma palmada no ombro de Tongídio, que o atirou vertiginosamente pelo ar, rasgando-lhe a carapaça de linho entrançado e marcando-lhe a carne com várias incisões das lâminas que formavam as garras. Aterrou a vários passos da escaramuça, aturdido e quase inerte.

Runaekoi procurava afastar a besta do companheiro tombado estocando-o com o varapau, e Caturnino, empunhando a caetra como proteção, arrimava com a falcata, conseguindo aplicar pequenos golpes no grande mamífero.

Porém, a força bruta não dava tréguas. Com um movimento circular em abertura, atirou com Rukaenoi e o bastão que o importunava, prostrando-o também. Sobrava um, e o urso mantinha-se determinado a lutar pelo seu quinhão de existência.

Com arma tão curta para tamanho adversário, Caturnino fazia o que podia para proteger os companheiros indefesos. A coragem que lhe transmitia Bandua – por si muito venerado – mantinha-o abnegado, mesmo na inferioridade. Por alguns momentos, o guerreiro ainda conseguiu deter a fúria que enfrentava. Contudo, o urso avançou para o inevitável: lançou-se sobre o lusitano, imobilizando-o, após lhe prensar os braços contra o solo com as patas. Os dentes, longos e afiados, salivavam sobre o rosto apavorado de Caturnino. Rugia ainda mais, com o sentido odorífico da presa que encontrara primeiro. Mostrava plenamente o que o instinto lhe exigia.

Com mais uma manifestação de domínio intensamente sonora, a fera atacou com sentido de abocanhar a cabeça indefesa do guerreiro. O Leuko apareceu então, providencialmente, atirando-se sobre o lombo do urso e conseguindo cravar as presas no seu peludo e musculado pescoço. O ataque não provocou feridas decisivas, mas logrou distrair o urso da sua presa, fazendo-o erguer sobre as patas traseiras, alheado pela dor.

Com dois safanões de dorso, projetou o lobo à distância, aliviando da pressão da mordedela. Sacudiu a cabeça e focou novamente a situação. Caturnino já se levantava para continuar firme perante a ameaça. Tongídio e Rukaenoi também recuperavam, embora algo cambaleantes e com capacidade reduzida para combater.

Ainda alçado, o urso preparava-se para acabar o que começara. Avançou em movimento agressivo renovado, até que sofreu um choque potente, provocando-lhe uma intensa dor aguda. Recuou um pouco, enrolou e espojou-se pelo chão, tateando o focinho ferido pelo impacto do projétil demolidor. Aleutério regressara depois de deixar Rubínia e os equídeos em lugar seguro. Exímio operador de funda – como lho exigia o ofício de pastor -, escolhera o seixo maior que repousava no regato, girara o lançador em potência, fazendo um arremesso perfeito para o alvo pretendido na zona exposta mais sensível da fera: o focinho.

Rapidamente, aproveitando a perturbação do monstro castanho, Aleutério cravou as mãos em Runaekoi, o mais abalado, amparando-o, e instigou todos os companheiros a afastarem-se céleres para lugar resguardado.

O urso agoniava, em mau estado. Sobreviveria, embora a pedrada permanecesse marcada e trouxesse sequelas para o resto da sua existência.

 

Andarilhus

II : IV : MMXIII

 

publicado por ANDARILHUS às 22:02