Por Ti Seguirei… 2.6

http://i56.tinypic.com/jinawz.jpg

 

Um pouco à frente e sobre um maciço rochoso elevado, Rubínia ansiava. Acocorada sobre uma fraga mais saliente, espreitava para as bandas onde imaginava os companheiros. Porém, eles surpreenderam-na, aparecendo da parte contrária. Em vez de fazerem um trajeto direto, preferiram subir o riacho, durante algum tempo, para evitar deixar marcas odoríficas que poderiam servir de rasto a uma eventual perseguição do predador gigante.

A mulher acorreu ao marido, concentrando-se nos farrapos do vestuário e da pele. As fibras engrenhadas e amarelecidas da couraça apresentavam lavores avermelhados das fugas do soro freático que sustenta a vida. Tongídio não sangrava muito, mas o perigo estava na possível infeção das feridas.

Todavia, não havia tempo a perder. Com as devidas precauções, retomaram a marcha para se distanciarem do perigo e galgarem o máximo de terreno até ao anoitecer. O resto da jornada decorreu sem mais sobressaltos.

As aves do crepúsculo sugeriam o assentamento e o repouso. O grupo tinha já o Durio à vista, e a escolha para a pernoita recaiu num espaço abrigado entre dois penedos que a natureza havia unido. Com a cobertura lítica e a única passagem bloqueada pela forte fogueira que formaram, sentiam-se a salvo de surpresas desagradáveis.

- Estamos todos gratos pela tua coragem, ancião! Não tivesses tu regressado, e alguns de nós não estaríamos aqui, agora, sob o cálido afago deste fogo.

A voz de Tongídio cruzava a atmosfera mal iluminada, pardacenta pelo fumo e pelos cambiantes alaranjados dos paus incandescentes.

- Não me agradeças a mim; o Leuko é que obrigou o urso a pôr-se a jeito. A funda foi só o passo final…

O lobo mantinha-se deitado, numa das laterais daquela quase caverna, mas sempre atento, com a cabeça entre as patas, pronto a erguer-se rapidamente. Acusou a fala de Aleutério, rodando ligeiramente os olhos na sua direção.

- Provaste possuir um braço certeiro e forte, de fazer inveja a qualquer jovem! Sabemos agora que podemos contar contigo, mesmo nas situações mais agressivas! – gracejou o caudilho, enquanto molhava o pano no unguento que a mulher preparara para aplicar nas feridas.

Rubínia mantinha-se calada, enquanto tentava reparar os longos rasgões da loriga do marido, balanceando uma agulha de marfim. Não fora a robustez da couraça de linho e as garras do urso teriam arrancado os ossos ao guerreiro.

- Quando chegarmos a Tongóbriga, em casa de meu pai, com a ajuda do tear, acabarei este remendo com outra perfeição. Até lá, meu marido, irás um pouco mais arejado! – sorriu.

Já descontraídos e mesmo a brincar com a difícil situação que haviam passado, relaxaram e descansaram. Confiaram a vigia à natureza de Leuko.

 

Após o alvor, a manhã formou-se límpida e com Sol propício e de bons augúrios. Não muito longe, o ondular das margens de ombros largos do rio dominava a paisagem. A próxima etapa seria passar o magnífico Durio. Em Freixieiro[1] havia sido fácil, pela estreitura do curso; ali o caudal era bem mais alargado. Era impossível lançar ponte sobre tão longo vão de água.

Acompanharam a margem na direção de Poente, em busca de um dos poucos pontos de passagem. Normalmente, estes locais surgiam da sedentarização de grupos de pessoas muito pobres e básicas nos modos de vida. Refugiavam-se em grutas ou mesmo pequenas e insalubres construções em madeira bruta, acumulando troncos ligeiros e muita ramagem, viviam da caça, recolha silvestre e da generosidade com que o rio lhes enchia as redes de peixe. Conseguiam igualmente algum proveito, em moeda ou em géneros, com a passagem de forasteiros entre margens.

A delegação de Tanábriga cumpria já uma distância maior do que a que pretendiam como enfiamento mais direto para Tongóbriga, quando encontrarem finalmente um desses núcleos de gente que, isolados, ainda mantinham uma existência muito bravia, mostrando-se fugidios ao contacto com estranhos.

Aproximaram-se calmamente, para não correrem o risco de provocarem reações indesejáveis. Já a alcançar o centro do conjunto dos oito toscos abrigos erguidos numa orientação de quarto crescente da Lua, confrontado o braço fluvial, e a cerca de vinte passadas do limite da margem, Rubínia retirou um largo pão de bolota do alforge e mostrou-o, em oferta.

Os locais, até aí desconfiados e sempre de armas em riste, alguns escondidos no mato que circundava o aglomerado, descontraíram um pouco, e aquele que parecia ser o chefe da comunidade aproximou-se da visitante para recolher o pão. Depois, recuou sem virar costas e entregou a dádiva a uma mulher com guedelha encardida e pele enlodada, pouco vestida pela míngua pele de gamo que lhe tapava parte do tronco e cintura, esta também imunda e repleta de escamas e restos de vísceras de peixe. O cheiro tresandava a boa distância. Aliás, o fedor estava espalhado por todo o espaço.

Após o primeiro contacto, Tongídio, sem descer da montada, gesticulou ao que vinham: apontou para uma jangada, que ia bulindo suavemente ao ritmo da silenciosa ondulação que chegava ao limiar do curso de água, e fez sinal de quererem atravessar o Durio. Mostrou outro pão e uma cabaça de cerveja, assim como umas moedas de bronze.

O interlocutor acenou afirmativamente com a cabeça, grunhiu uns sons estranhos para o meio do matagal, e de lá saíram quatro juvenis quase nus, embora com aparência mais asseada. As brincadeiras no rio garantiam um mínimo de higiene.

Firmado o negócio, os forasteiros subiram para a embarcação, um emaranhado de troncos unidos por cordas entrelaçadas, de tal modo imperfeito e irregular, semeado de buracos e arestas vivas, que foi com grande dificuldade que conseguiram carregar os cavalos. Por fim, Runaekoi, que havia ficada para último, como segurança a qualquer eventualidade, saltou para o amontoado de madeira, e a jangada partiu, impelida por longos paus e remos, manobrados pelos jovens barqueiros.

Transposto o obstáculo aquático, despediram-se dos alegres gaiatos e tomaram o rumo pretendido. Se os deuses fossem coniventes, pelo final do dia estariam em casa de Físias.

A primeira etapa do percurso restante foi dura de vencer. Seguiram para Norte acompanhando, em sentido contrário, o curso vertiginoso do rio Ovilino (como lhe chamavam as populações nativas, inspirados na divindade com o mesmo nome), ascendendo ao dorso da montanha até ao ponto onde desembocaram num trilho que levava, de forma quase plana, a Tongóbriga. Em breve encontrariam o repouso e o sustento.

 

Físias não cabia em si de contente quando a comitiva se apresentou em frente à abertura que interrompia o alinhamento dos muros de meio corpo que circundavam a sua área habitacional.

- Que alegria! Minha Filha, Rubínia… E Tongídio! Todos os dias faço uma libação a Larouco para que vos traga até mim e por cá fiquem… Bem sei que é uma ideia tola de um velho casmurro, mas o que me move é um sentimento muito forte. – sorriu.

- Ora meu pai, nos bem o sabemos, Para já Tanábriga será a nossa morada. Quem sabe um dia… E apertou o pai num abraço.

Depois de se refrescarem e sacudirem a poeira acumulada no caminho, sem esquecerem de tratar do penso dos animais, introduziram-se na acolhedora moradia do mercador. No espaço maior da habitação, refastelados no conforto de uns magníficos tapetes orientais, adquiridos pelo anfitrião a um colega proveniente da longínqua cidade de Tiro, foi-lhes dado a saborear abundante e exótico alimento e bebida. Mais amainado no apetite, Tongídio revelou, então, ao sogro as circunstâncias na Ibéria e as razões que os levavam ali.

- Respeitado Físias, agora poderás compreender o que te vimos pedir: precisamos da tua preciosa ajuda para alcançarmos a costa Sul o mais rápido possível. Precisamos de um barco veloz que nos leve cerca do local onde terás permutado estes belos tapetes, que agora nos enfraquecem com a sua macieza e nos tornam tenros para os tempos que correm! – terminou risonho a sua apresentação, o caudilho.

- O barco de maior calagem está de viagem, para reabastecimento de produtos a Norte, junto dos novos amigos que contigo conheci. A única embarcação, com capacidade para trilhar os mares, que está no ancoradouro do Tamaco, é a pequena galera que usamos para transportar os artigos mais leves, como os panos, a qual designamos por “galiota”. Se não levar carga, transporta cerca de 15 pessoas e mantimentos, com ligeireza. Tem velas e 4 remos a cada ilharga. Mas o melhor e mais seguro, será esperar alguns dias; prevejo o regresso da galera maior em breve…

- Estamos grato pelo conselho e pela oferta, meu pai. Mas, não há tempo a perder. Temos de arriscar com a solução mais frágil e fazer-nos à viagem logo que esteja pronta para partir.

- Assim sendo, peço-vos que aguardeis um pouco após a alvorada. Durante a noite e início da manhã teremos a barca convenientemente apetrechada para se fazer ao mar, com todo o material que vos será necessário, sobretudo alimento e água potável. Agora comei e descansai serenamente. Vou dar instruções a Taer, e logo regressarei à vossa companhia.

Já algo dorido, quer pela fadiga do dia que desvanecia, quer pelo envelhecimento de um corpo marcado com muitas histórias de lida, Físias ergueu-se apoiado no seu fiel cajado e saiu em busca do criado.

Taer era um egípcio, cujo destino lhe aportou a fortuna de se cruzar com Físias. Este, tal como fizera com Zímio[2], libertara-o de uma vida de escravidão infantil, desviando-o de uma sorte atroz e de uma morte precoce. Comprara-o a um explorador de pedreiras cartaginês, trazendo o pequeno Taer para o seu serviço, entregando-lhe tarefas mais adequadas a uma criança, e deixando-o crescer em robustez e carácter.

 

Após uma noite pacífica, o disco solar impôs-se imponente, ainda a recordar a canícula tardia do estio.

Do patamar elevado onde se situava a casa paterna de Rubínia, enxergava-se todo o esplendor da Tongóbriga dos socalcos. Nível após nível, o casario emparelhava-se em altura, irrompendo como cogumelos de rocha entre o verde do ervado e as cores múltiplas pintalgadas nas flores, evidenciando-se os arbustos já em tons escarlates.

A flanquear a vereda que desenhava o serpenteado caminho que unia a rede de entradas nas plataformas aplainadas, inscritas na inclinação do relevo montanhoso, uma formação alinhada de castanheiros, nas duas faces da rodeira, guarnecia de abrigo e frescura os transeuntes. O piso rasgado na encosta granítica, que apresentava o reforço dos pontos mais areados com remendos de grandes e grosseiras lajes, descia até ao exterior, ultrapassando a porta central da forte muralha, ligando aos diferentes rumos da orientação.

A comitiva, guiada por Físias e alguns serventes, tomou a direção do areal onde estavam fundeados os barcos no rio Tamaco.

 

Andarilhus

III : V : MMXIII



[1] Ver: “Por Ti Seguirei: de um amor singular a uma pátria de afectos.”

[2] idem

publicado por ANDARILHUS às 07:57