Por Ti Seguirei... (2.8)

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Deleitaram-se com as iguarias tão costumes, mas com travo marinho e fluvial. Ao queijo, às frutas silvestres e às carnes de caça, sem esquecer o pão de bolota, acrescia o peixe do rio fresco, o peixe salgado e os víveres do litoral: ameijoa, ostras, búzios e mexilhões. Tudo novidade para a maioria dos forasteiros, e sobretudo, o grande pasmo: um polvo cozido, inteiro, com um pouco de banha de cabra e ervas aromáticas.

Após o repasto e o farto convívio, o dia ia longo e não esticava mais do que para fazer planos.

- Antes que Endovélico procure o seu reino noturno, aproveitemos bem a luz do crepúsculo para verificar as condições do que falta para terminar o curso do Durio, a posição e o movimento do inimigo. Temos de conceber um plano para passar por eles, encobertos, e podermos continuar viagem. Este inesperado empecilho só dificulta ainda mais chegarmos a Aníbal dentro do prazo previsto. Os nossos companheiros contam com o êxito da nossa missão!

- Tens razão, Rubínia. Porém, julgo que não será possível, mesmo durante a noite, deslocar a vossa embarcação até ao mar, sem que os Romanos a detetem. Eles estão em alerta para a vossa chegada. Ao longo da margem esquerda há atalaias. Poderíamos tentar retirar o barco da água e, a pulso, carrega-lo pelo interior até à costa… Bem, se construirmos uma padiola de suporte que facilite o seu transporte por umas dezenas de braços…

- Frágua, escutando-te assim, parece-me ouvir Alépio, o grande estratega de Ribasdânia, a falar por tua boca. Vejo que se dariam bem os dois! – riu-se Tongídio, acompanhado por um sorriso rasgado de Aélcio.

- E já convivemos como irmãos de sangue. Na verdade, pertencemos à mesma geração de fraternidade de moços: cresci e troquei muitas ideias com Alépio. Cosua será gracioso e permitirá que reveja o meu amigo... Entretanto, vamos ao exterior da muralha e observar o lugar do rio onde escondeis o barco, e tentar definir um caminho para o levar rápido e em segurança.

 

Saíram de Kale, com a tarde já em estado avançado de desfecho. Endovélico empurrava o disco solar em queda suave, ao encontro do limiar do mergulho no misterioso lençol azul afogueado do grande mar ocidental.

De cima do escarpado, as perspetivas afiguravam-se bastante complicadas para aquilo que pretendiam. Ainda desceram um pouco nos patamares abruptos que corriam até ao rio. Porém, confirmavam-se as agruras, e logo perderam a esperança de carregarem o peso bruto da galiota através das ladeiras rudes e da vegetação entranhada. Com a ajuda divina, talvez o conseguissem, contudo, iriam precisar de vários dias para o executar, e provocariam incontida azáfama e ruído…

Nestas condições, arruinava-se a expedição. Preocupados, de rostos carregados e olhar estático, ficaram a contemplar o imparável Durio, prolongando um emudecimento geral.

Leuko, que se sentara junto a Caturnino, atalhou a meditação. Com os seus sentidos apurados, virou a cabeça na direção de um grande afloramento granítico que descia abrupto como uma cascata, rosnou e movimentou-se rápido para o ponto em que se focara. Quase pendurado no penhasco lítico, continuou com um rosnar abafado, reunindo os guerreiros.

Aleutério acalmou o lobo, mantendo-se todos em silêncio, na expectativa do que surgiria de baixo. Por momentos, não lograram escutar fosse o que fosse, apesar de Leuko continuar inquieto. Depois, e com uma progressiva ampliação, surgiram então distintos barulhos: alguém subia a escarpa, progredindo por entre a vegetação, quebrando-a, aqui e ali, para avançar.

Aproximava-se o que parecia ser um bando de sôfregos. Puseram-se em alerta, prontos para os receber. Esconderam-se nas ramagens, de armas em riste.

Aos sons do movimento, somavam-se já os gemidos típicos do esforço da ascensão. Quem arribava, vinha cansado e sem fôlego. Estava iminente o aparecimento dos estranhos.

E eis que, uma após outra, apoiando-se nas frestas e nos espigões do rochedo, amparando-se mutuamente, quer empurrando-se, quer puxando-se, três mulheres, muito coradas, suadas e quase desfalecidas, atingiram o socalco e prostraram-se pelo lajeado, já sem réstia de energia. Arfavam. Traziam mantos escuros de linho, com alguns rasgões, e semeados de restos de silvas, arbustos e cardos. Braços e pernas, sobretudo, testemunhavam que haviam passado sobre o lodo e a lama das margens do rio.

Ainda mal refeitas do cansaço, suportaram outra provação, encolhendo-se e apertando-se entre si, quando Leuko lhes saiu à vista, secundado pelos companheiros humanos.

- Que Vaelico nos proteja deste animal enfurecido! E vós, poupem-nos! Somos inofensivas e vimos em penitência pela desgraça do nosso povo. Precisamos de ajuda…

- Esta agora, e quais as razões que vos obrigam a aproximarem-se assim furtivamente de Kale? Não conheceis o caminho normal?... – perguntou Frágua à estranha.

- Somos dos Túrdulos Velhos, escapamos da servidão aos romanos, em busca de socorro. Estamos aflitos, os invasores têm-nos na mão. O meu nome é Monda e… - o choro compulsivo embargou o discurso, ainda ofegante, traduzindo a dor e a angústia que lhe tomava o sentimento.

Rubínia conhecia bem aquele estado de impotência e amargura. Segurou Monda e ergueu-a, abraçando-a, e logo puxou as restantes duas mulheres para um círculo de amparo e compreensão.

- Chefe Frágua, sugiro que regressemos ao interior dos muros e prestemos os cuidados necessários a esta gente túrdula. E, depois de recuperadas, será de todo o interesse ouvirmos o que nos têm a contar sobre a situação do outro lado do rio. – interveio Aleutério, com o seu ar calmo e vetusto.

- Sem dúvida, tanto mais que, se nos atrasarmos, em breve teremos de ir a tatear o caminho na penumbra. Garantirei os melhores cuidados a estas pessoas.

Aleutério apoiou Monda na subida restante, enquanto Rubínia e Runaekoi ajudaram as outras duas fugitivas.

 

Retemperadas as forças básicas, e após alguns momentos de reserva para recolhimento e acalmia do ânimo, higiene e tratamento de algumas feridas superficiais, reuniram-se para a refeição final do dia.

- Sentem-se nesse banco e comam tranquilas; aqui estão em segurança. – Frágua procurava transmitir confiança às túrdulas, enquanto as convidava para o repasto, indicando-lhes os respetivos lugares, na grande mesa do centro lajeado da casa do senhorio.

Deixaram que se ambientassem e se servissem de conduto. Com o decorrer da refeição e a propagação do convívio, as mulheres atenuaram os seus constrangimentos iniciais, entabulando conversas de circunstância, trocando conhecimentos e saberes, sobretudo com Rubínia e outros elementos femininos autóctones. Considerando ser a altura certa, Frágua tomou então a palavra:

- Monda e, sabemos agora, Noa e Bolena, a que se deve esta vossa aventura ou, pelo que me apercebo, desventura?

Fez-se silêncio de tumba no salão. As feições angustiadas regressaram, com sombras profundas, cravadas pela luz mortiça de candeias de sebo, apagando de sobressalto os tímidos sorrisos que iam florindo nos rostos das citadas. Entreolharam-se e ao fim de alguns momentos em que pareciam falar entre si sem verbalizar, Noa respirou intensamente e foi direta à questão:

- Escapamos das garras dos perversos romanos… Eramos cinco, mas duas – Lapéria e Tonga – caíram da jangada improvisada, quando esta se desfez em partes, e desapareceram nas águas do Durio. Nabia levou-as; que as tenha em tranquilo repouso…

- Desde que os desgraçados invasores ludibriaram os nossos guerreiros, atraindo-os com promessas de riquezas, de um novo mundo, pródigo em vivências modernas, impensáveis, por nós desconhecidas, que nos têm arruinado a existência, ameaçando a sobrevivência do nosso povo. – continuou Monda, perante a pausa de soluçar triste de Noa.

- … Contudo, sois descendentes da grande família Túrdula, originários do Sul da Ibéria. Quando ainda porfiava por terras cónias, soube da lenda que vos acompanha: há muitos solstícios atrás, os Túrdulos reuniram um grupo armado, conjuntamente com os Turdetanos, seus vizinhos, iniciando uma expedição de reconhecimento e conquista a Norte. Pelo que revela a narrativa, chegaram ao rio Limia e perderam a memória do regresso. Acabaram por assentar, primeiro entre o Limia e o Durio, e depois, definitivamente, onde se encontram ainda hoje, ganhando o epíteto de Túrdulos Velhos. Pelos vistos, o esquecimento provocado em vós pelos deuses também incluiu o olvidar da má fama que os romanos já granjeiam há muito nas terras à entrada do grande mar interior… - comentou Aleutério, concentrando um olhar meigo sobre Monda.

- Após várias gerações, a memória do nosso povo, seja por vontade dos deuses, seja por fraqueza dos Homens, não tem lembranças desses tempos longínquos. Tínhamos ouvido falar dos romanos, mas jamais os havíamos contactado. Por isso, quando chegaram há vários ciclos lunares atrás, facilitamos na confiança e, desprevenidos, fomos atacados violentamente, invadidos na nossa morada, nos nossos propósitos, na nossa liberdade e nos nossos corpos... – Monda irrompeu em lágrimas, sendo abraçada de imediato por Noa.

Coube então a Bolena continuar, perante o silêncio e o pesar galopante dos presentes.

- Desde o fatídico dia da submissão, os romanos mantém a maioria dos nossos homens jovens e as nossas crianças cativos: de dia levam-nos para trabalhar no nosso aluvião de ouro, explorado na ribeira Laborim; à noite encarceram-nos no convés inferior da galé maior, para evitarem tentações de resgate ou fuga. Dos restantes, sobretudo mulheres e velhos, escarnecem e abusam, dando azo às maiores barbaridades, matando aos poucos a vontade e a garra por nos mantermos vivos. Há mulheres que se atiram do alto do Pelar para não se sujeitarem às sevícias daqueles sebentos! Em resposta, para evitarem perder as “concubinas” que tanto apreciam, ameaçam-nos com a morte dos cativos… De tempos a tempos, alguém recebe, ou um membro decepado ou a cabeça decapitada de um seu parente… É terrível, não suportamos mais! Nós ficamos sem família e decidimos fugir; procurar ajuda para esta pestilência que nos aflige. Kale resistiu e conteve os invasores. Pedimos ajuda aos irmãos iberos… - não conseguiu segurar a agonia que a dominava, e ficou igualmente em pranto.

Rubínia recordou-se da predação e da depravação exercida pelos necrófagos Velenos sobre os Carpetas, destruindo quase completamente esta comunidade pacífica e produtora de criação e sustento.[1]

- Pelos bofes ofertados na pira de Belenos, assim sendo, o inimigo está em alerta total, talvez mesmo com espias nos matagais que bordejam a passagem até ao mar. Como é que vamos passar com a galiota?! – deixou escapar, Caturnino, interrompendo prolongada meditação geral.

- Tongídio é quem dirige esta expedição e decidirá os nossos passos. Porém, eu não consigo partir sem ajudar esta gente. Trebaruna, no meu íntimo, não me permite deixar em sofrimento estes irmãos iberos, oprimidos selvaticamente pelos invasores, sem procurar encontrar alguma solução. Acredito que a nossa luta contra o inimigo recomeça aqui!!... Depois, e com os deuses a soprarem em fole as nossas velas, recuperaremos a distância perdida, ao encontro de Aníbal, e ainda em tempo propício aos desígnios da Ibéria! – inflamou-se Rubínia, concentrando sobre si a atenção dos comensais, e rasgando um brilho especial no olhar das mulheres túrdulas.

Encrespados e com o sangue a fervilhar com as palavras da consorte de Tongídio, este viu-se quase refém de um cerco de gente sedenta por ação, sedenta por vingança, na espera ansiosa por uma resolução.

- Bem, que posso eu determinar com acerto, se adivinho em vós uma decisão comum, mais do que desejada, até por Frágua, conhecido por ser um dos mais ponderados?! E como posso eu contrariar a vontade da mulher que amo, e a quem os deuses entregaram intervenção fulgurante nos destinos da Ibéria?! – riu-se o caudilho – Claro que vamos amassar uns ossos àqueles filhos de lagartos parideiros!!!! Estou certo?! Conto convosco?!

Saltaram os bancos de meio tronco e os escabelos na trepidação do levantamento geral dos presentes, largando as mesas à investida de esfaimados e descarados cães. O reboliço foi tal, que pareciam já concentrados na peleja. A afirmação contundente da comunhão pela causa retumbou numa algazarra de adesão espontânea, crença e determinação.

- Muito bem, comprovo aqui a força que irradia de Rubínia e dos seus companheiros; entendo agora como foi possível a senda da vitória sobre um inimigo gigantesco. Acredito que os romanos continuarão a cair perante esta torrente inquebrantável. Honra vos seja feita; os deuses estão convosco! Kale será convocada para seguir os vossos planos! Agora, acabemos a ceia antes que os rafeiros devorem as melhores iguarias!

Uma risada geral selou o compromisso de união. O dia seguinte seria de grandes feitos.

Às portas do grande mar ocidental, a foz do Durio seria o chão do despertar das hostilidades, e a retoma da libertação da Ibéria e dos seus filhos, perante a voracidade romana. Começariam o resgate ali, em socorro dos Túrdulos; em breve, cuidariam de valer aos saudosos Alépio, Talauto e restantes prisioneiros em longínquos cárceres do inimigo.

 

Andarilhus

V : VI : MMXIII



[1] Ver: “Por Ti Seguirei: de um amor singular a uma pátria de afectos.”

publicado por ANDARILHUS às 21:23