Sexta-feira , 11 de Setembro DE 2015

O Abraço

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Desconjuntados os ossos

Em músculos laxados,

Mantidos em movimento

Ao som dos cacos do coração

Conduzidos pela alma trilhada,

Desci a escada,

Ainda mais para baixo.

 

Despedi-me do acreditar,

Despedi-me de ti

Sem esperança.

Guinei para a saída,

Mas, por esquecimento,

Regressei

(onde te deixei)

Para galgar a escada até ao topo

E topei-te a ti.

 

Abraçaste-me

Com vontade,

Apertada, com os corações a tocarem-se

Num abraço interior, só seu.

Uniram-se os ossos,

Alinharam-se os músculos

Ao som do pranto doce do coração

Na parada da alma reanimada.

 

Queria assim envelhecer!

Despedi-me da saída,

Despedi-me do desalento,

Agarrei-me a ti

Com todas as forças

Como despenhado em abismo.

Galguei a fuga até ao topo,

Arrisquei olhar:

(não era alucinação)

Continuei a te topar!

 

Mais acreditei;

Beijei-te

Com o desejo da saudade

Tocaram-se os lábios, num beijo íntimo,

 Só seu.

Soldaram-se os ossos,

Avivaram-se os músculos

Ao som do musicar melódico do coração

Sob a batuta da alma radiante.

 

Como a vida pode renascer

Num só abraço…

 

 Andarilhus

XI : IX : MMXV

 

publicado por ANDARILHUS às 18:50
Quinta-feira , 10 de Setembro DE 2015

Querer (as estrelas)

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Queria não te querer

Como tanto te quero

Neste querer

Que a mim nada me quer.

E, na verdade,

É como que sem querer

Que gosto de ti,

Porque tanto querer

Me afunda em tristezas

E muito sofrer.

… Mas é mais forte do que eu,

Do que o meu próprio querer…

Amo-te

Assim dizer te quero,

Pois

Para mim és bem-querer,

És toda a minha vida,

Tão querida.

 

Porque não te deixas querer

Da mesma forma desvelada?

E assim querendo

Em igual querer

Deixaríamos de padecer,

Deixaríamos a gesta cansada,

Para nos encantarmos

Num permanente real-querer.

 

Porque não soltas o querer

Que sei manteres aprisionado?

E assim liberto, como o quero,

Acarinhava-o com o coração

Transbordante de querer,

Como está,

Sentinela, a aguardar

O teu despertar

Para o maior dos quereres.

 

Não consigo deixar de tanto te querer…

 

Andarilhus

X : IX : MMXV

 

 

 

publicado por ANDARILHUS às 07:53
Quarta-feira , 02 de Setembro DE 2015

Oração Celta: indulto

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Pelo poder do fogo, da terra, da água e do ar

Suplico às entidades primitivas, criadoras,

Que escutem a minha prece, a minha oração.

Peço às árvores ancestrais que me deem

A virtude da robustez e da força

Para suportar as agruras e os reveses

Que teimam em me prender à má fortuna,

E me tolhem todos os passos que avanço nas areias da indiferença;

Rogo aos ventos experimentados nos 4 caminhos

O caráter da tenacidade e da inconformidade

Para enfrentar e derrubar as paredes surdas e intransigentes,

E que as possa ultrapassar, fazendo chegar a minha palavra ao âmago do coração;

Imploro à Chama Sagrada, de eterno labor,

A retidão para ser verdadeiro, espontâneo, genuíno

E assim consiga incinerar todas as dúvidas, desconfianças, receios

Com que a minha conduta e vontade são recebidas no âmago do coração;

Ao Primordial Manancial Aquífero exorto compaixão

Para com as minhas debilidades, fraquezas, erros

E que me permita tecer um manto de águas de remissão, renovação,

De modo a conseguir refrescar, hidratar os portões do coração,

E assim fazer rodar os gonzos que me conduzam ao seu interior,

Com afeto, carinho e amor.

Suplico às entidades primitivas, criadoras,

Que escutem a minha prece, a minha oração.

Sou granítico, mas em fase de escultura,

Sei que em mim há sabedoria e querer com honestidade e bravura.

Aos louvados, a minha libação e dedicação.

 

Andarilhus

XXIII : VI : MMXV

publicado por ANDARILHUS às 18:44
Quinta-feira , 13 de Agosto DE 2015

Oráculo: A voz que Dita a Profecia

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Em Delfos, pela voz da Pítia, dito aos idos do mês de Augusto, do ano terribilis.

 

“Padecente

Estás há muito prostrado,

Sobre a terra queimada

Da tua Roma,

Destruída pelo Anjo Negro do destino.

Escutei o teu carpir,

Vi-te tentar levantar os escombros;

Aguardaste por auxílio, recebeste uma única visita: a solidão.

Escondes a dor, mas não de mim.

Acercam-se outros tempos,

A Loba prenha prepara a refundação de Roma.

Aproxima-se Anjo diamante

De esperança,

Uma luz dourada, brilhante,

Que te acompanhará no caminho.

Prepara-te para receber o (verdadeiro)

Abraço sentido, o sussurro apaixonado,

O beijo apaladado, saboreado

Como manjar do querer, do amor.

É hora de deslaçar o sofrimento,

E expurgar os sentimentos sobrevivos

Nas motivações artificiais com que te iam distraindo.

Nada receies, porque o Anjo Negro já vai longe,

E sem sucesso nos seus intentos,

Pois, como Troia nunca deixará de ser

A cidade do amor de Páris por Helena,

Também Roma será a tua cidade eterna.

Prepara-te,

Abre os braços para receber e cuidar da Loba,

Do Anjo Dourado.

Está atento!”

 

Andarilhus

XII : VIII : MMXV

 

 

publicado por ANDARILHUS às 18:55
Quarta-feira , 29 de Julho DE 2015

O sonho de Lázaro [quimeras]

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Ver-te sair de mim,

Como o espírito abandona o corpo

É a mesma mortificação

A mesma dolorosa separação

Da sombra que abandona a luz

Descobrindo o vazio.

E se o Sol irradia até ao chão

Sem esbarrar em obstáculo,

É porque alguém desapareceu

É porque alguém se volatilizou

Na indesejada existência,

No nada dissolvente.

Ver-te verter para fora de mim,

Como a maré se torna vaza

É a mesma perda

A mesma dolorosa derrota

Do mar sem fundo,

Escoado e fragmentado

Em ondas pela inércia atmosférica.

E se os mares se suspendem no céu

Sem se precipitar na ínfima gota,

É porque alguém revirou o mundo

É porque alguém trocou as chaves do ser

Para trancar a realidade,

Para não perder o sonho de outro destino.

 

E o Lázaro amortalhado sem afeto e carinho

Vindimado na maturação do sonho,

Suspira por aquela voz que o chame:

Levanta-te Lázaro,

Levanta-te e caminha comigo.

A tua hora, a nossa hora, ainda não chegou;

Temos mais uma mão cheia de eternidade

Para apaziguarmos as dores,

Beijarmos a esperança dos sorrisos,

E para reconstruirmos o nosso mundo.

Vá, tonto,

Desce os oceanos aos fundos abissais,

Reaviva a tua sombra sob a luz pura do Sol,

Reintegra o meu espirito,

Desterra o corpo

e

Reentra no teu tão querido sonho real!

 

Andarilhus

XXIX : VII : MMXV

JP

2015.07.29

publicado por ANDARILHUS às 18:45
Sexta-feira , 10 de Julho DE 2015

Conciliar os ventos cruzados

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Vejo-te

Emaranhada na penumbra.

Quero puxar-te

Para onde te escute

E te observe profundamente,

Para onde te possa sentir respirar.

Deixas-me suspenso,

Num efervescente vento.

Só te contemplo ao longe

Pareces derivar em afastar…

E no rodar, vais mostrando as dores,

Os espinhos, que não queres desenraizar.

… Achega-te, mesmo que fira as mãos

No arrancar dos cardos que te vão trajando!

… Deixa-me achegar, mesmo que esfacele os dedos

No escavar dos vidros quebrados que te vão tumulando!

Serão menores os flagelos ensanguentados

Do que esta angústia de espera

Preso no tempo, preso no vento…

Aqui contigo, aqui sem ti

Com tudo ao alcance dos braços,

Sem nada que abrace,

Não sei se vivo ou sigo em mortalha…

E, enquanto esvoaço,

Como pardal caído do seu beiral,

Chilreio por ti…

… baixinho, para não te ferir

Nos teus silêncios.

 

Confesso que já se me cansam as asas,

Confuso, sem saber onde pousar.

Mas resisto, e assim continuarei!

Acredito, confiante, na pequena centelha

Que acende o arco-íris após cada tormenta.

Anseio que destapes o teu céu

Para o pintar de múltiplas cores!

Dá-me luz, dá-me ânimo

E tingirei as sombras do teu coração

Com os pigmentos da felicidade!

 

A atenção, o carinho,

Afugentados outrora,

Por semelhante desatenção,

Pela mesma dita indiferença,

Regressam, repatriados.

Façamos o percurso inverso

De encontro ao ponto de onde,

Em sorriso entrelaçado,

Partimos para a nossa odisseia.

Vejo-te ainda emaranhada

Mas peço-te que amaines os ventos

Dá um passo para fora de ti,

Para fora da penumbra.

Reconstruamos o beiral,

Onde possamos poisar

E retomar a composição de uma vida…

 

Andarilhus

X : VII : MMXV

publicado por ANDARILHUS às 07:52
Quarta-feira , 08 de Julho DE 2015

Placebo: Oração celta pela libertação

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Deidades,

Entranhais o ERRO na carne e no sangue.

Mas, já entendi o porquê de nos criardes assim,

Imperfeitos:

É a prova, a escola do nosso percurso…

Tenho consciência das minhas falhas,

Jamais premeditadas ou

Com intenção de causar dano aos outros, a mim…

Lamento todo o sofrimento que os meus erros provocaram.

É com eles que sigo em aprendizagem

Peregrino pelo aperfeiçoamento do meu ser.

Cresci, melhorei (tenho essa consciência).

Mas, também sei que jamais aniquilarei o erro

Porque é profissão de vida

Sempre apreender.

Estou atento:

A cada erro deve surgir uma lição;

A cada lição deve surgir uma interpretação;

A cada interpretação deve surgir uma correção.

Sobe-se um patamar na nossa existência,

E com ele, um novo nível

Na nossa presença na existência dos outros…

.

Aqueles que se distraem dos seus erros,

Continuam sem entrar na real academia da vida,

Fechados em si, fechados num autoconvencimento artificial

De perfeição, de exemplo imaculado;

Não admitem que,

Se negas o erro ou subestimas o seu potencial positivo,

Sofres porque não aprendes a crescer com ele,

Devoras-te em guerras internas, maquiavélicas,

Porque não passas a renovado patamar da tua existência;

Definhas em autoflagelação,

Porque vais acumulando a dor, a raiva, e delas te alimentas,

Em todas as tuas decisões e comportamentos.

Deviam despertar e saber que:

Se aprendes a conviver com os teus erros,

E deles tiras o proveito da elevação pessoal,

Reconheces nos erros dos outros

Igual oportunidade, e os respeitas,

Mesmo que te tenham sido dolorosos;

Ignorando os teus erros,

Jamais desculparás os erros dos outros

Serás irredutível e surdo aos apelos do perdão,

Desenvolverás a ira, mesmo sobre aqueles

Que outrora abraçaste em amor…

E os que padecem desta perturbação

Ficam tão sufocados que

Entendem ser mais fácil desistir,

Deixar para trás os erros,

Os próprios e os dos outros;

Procuram, simplesmente, apagar a mágoa,

Sem a tentar vencer

(como se tal fosse possível!!),

E emigrar do seu mundo, das suas relações,

Das suas responsabilidades,

Dos seus sentimentos.

Perdem a coragem de persistir,

Entregam uma vida ao abandono

Para não dar muito trabalho….

.

A sabedoria da Fénix,

Em morrer para renascer,

Aproveitando cada erro para uma nova libertação

Dentro do MESMO ser,

Dentro da MESMA vida,

Dentro do MESMO contexto.

Isto sim é crescer!

Isto sim é ter a valentia de uma plena existência!

.

Louvado seja o erro.

Louvado seja a luz que nos ilumina

Para bem lidarmos e aprendermos com o erro.

Assim o desejo, intensamente, para ti…

 

Andarilhus

VIII : VII : MMXV

publicado por ANDARILHUS às 07:46
Terça-feira , 07 de Julho DE 2015

A Demência da Teimosia

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Remar, remar, remar

Com o barco encalhado

Em atol de densos enigmas,

Encharcado em incertezas e intimidações.

Correr, correr, correr

Descalço, sôfrego,

Sobre os cacos esmigalhados

Das telas esquecidas, banidas,

Sangrado o coração vencido.

 

Ensandeceste?!

Abriste a porta ao diabo

Que te dirige

Como marionete do destino?!

Desperta!

Respira, respira, respira,

Esfumaça a loucura,

Exorciza as forças malignas

Que te sopram ao ouvido,

Que te latejam na mente…

Desperta!

Desperta!

 

Não te deixes vencer pela fantasia,

De vida mais cómoda,

De advir de facilidades,

De amores de galanteio,

Por sonhos que te impingem

Para te levarem…

Não te iludas com terras prometidas…

 

Remar, remar, remar,

Sempre

Nem que se calcinem os remos.

Submergir o atol; colar os cacos.

Correr, correr, correr,

Fulminante,

Para enxotar os enigmas, as dúvidas

E calcinar a ferida rasgada no peito.

 

Desperta!

Respira, respira, respira,

Esfumaça a loucura,

Exorciza as forças malignas

Que te sopram ao ouvido,

Que te latejam na mente…

Desperta!

Desperta!

 

Não te deixes convencer,

Pelas vozes

Que te oferecem alvissaras,

Que te seduzem com acenos de felicidade

Que te cativam com comoções, desassossegos,

Que te juram um reino e um trono de rainha…

 

Cuida

Que a demência da teimosia

Gera desfechos imprevisíveis,

Avança impiedosamente,

Afeta a vida de todos aqueles

Que nutrem verdadeiro querer e se preocupam

Com o teimoso.

 

Respira, respira, respira,

Desperta deste maldito pesadelo!

 

Andarilhus

II : VII : MMXV

publicado por ANDARILHUS às 19:20
Sexta-feira , 22 de Maio DE 2015

Auto da oração do mafarrico aflito

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http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/resources/mpalla/photo8.jpg

 

Um mafarrico, na sua vida mundana, exposto às tentações, à prepotência, à frieza, facilidades e garantias que lhe assistiam, empacotado, calibrado, chave-na-mão, encontrou a adversidade num elo quebrável, não previsto no contrato do inferno.

Confrontou-se com uma falha não informada no acordo, e encontrou a dor. Não a dor que lhe era aprazível (pelo sofrimento masoquista), mas a dor insuportável da pureza das coisas. A dor que dói. Aquela dor que não conseguia apelidar; aquela dor de que não lhe haviam falado; aquela dor que não constava no pacto. Simplesmente, a verdadeira dor…

A princípio lidou com o problema como mais uma questiúncula constante dos parâmetros convencionais, previstos com adequadas panaceias. Porém, as receitas de protocolo não funcionavam neste padecimento: encontrou um coração dentro de si.

Sentiu-se um diabo sem cauda, um poder ruido, uma estátua desmorona pelos pés ocos… E o que fazer? O contrato de purgatório não contemplava reclamações.

Vagueou. Vagueou entre a terra da mente e a planície da alma. Correu o estuário do espírito já quase insolvente e … esbarrou, novamente, com o coração que sentira. Não compreendia. Apenas sentia uma estremunhada aflição.

Rua após rua, pensamento atrás de pensamento, sentimento soluçado a sentimento, continuou a vaguear. E de tanto deambular, acabou por entrar numa igreja.

Não tinha jeito para a oração - palavras ou atos – mas, sentou-se no banco imenso de silêncio, tamanho de solidão e incertezas. Correu o espaço com olhar até se concentrar na figura cimeira, sobre o altar. Tremeram-lhe os lábios, merujaram os olhos. Sentiu uma incomensurável vontade de desabafar. Escutou, então, a Voz. Através da sua própria voz interior, alguém lhe falava:

- Mafarrico, procuras-me? O que fazes longe da tua vida mundana?

Não sabia o que responder, nem entendia bem o que fazia ali. E aquele nó apertado no peito…

- Senhores do lugar, estou confuso, não sei como lidar com esta estranha dor que me aflige…

- E como é essa dor, mafarrico?

- … Sinto um vazio, uma perda colossal, que julgo igual à que será a morte. O problema é que não compreendo porque o sinto. Deveria estar isento de sensações; assim o contratualizei ao entrar neste mundo.

Tinha uma vida pacata, constituída com todas as condições previstas, com tudo garantido. Agora, corro o risco de perder os que me estão mais próximos. Porém, não sei porque me incomodo com isso; na minha vida infernal aprendi que é tão fácil granjear novos amigos, constituir outras famílias. Agora, no entanto, e contra as regras que nos deram, cresce em mim esta fraqueza de sofrer e de não querer outros amigos ou outra família, mas desejar ardentemente manter os entes próximos que tenho. Estou em dilema de dúvida e confusão…

- E porque vais perder os teus entes “queridos”, mafarrico?

- Porque - dizem-me -, fui altivo, indiferente e afastado do meu agregado. Não apoiei, não dei segurança, afecto ou atenção. Mas, isso faz parte da minha natureza diabólica. Contudo, não deixo de os bem-querer e, mesmo parecendo longe, sempre os acompanhei de perto.

- E nada fizeste para remediar as tuas falhas e, assim, eliminares esse teu pesar? Se fores sincero com os teus próximos, se te arrependeres dos teus comportamentos e atitudes que os afastaram, e passares a cumprir com o que eles esperam de ti, deves conseguir terminar com essa tua dor.

- Sim, tentei e continuo a tentar, com grande dedicação, ganhar a confiança dos meus, convencê-los que mudei e jamais serei o mesmo, que tanto os magoou.

- Então estás no bom caminho…

- Não sei… Não sei se terei êxito (e este sentimento é que me acossa a dor e me deixa preocupado). As minhas palavras são recebidas com indiferença, a minha presença quase ignorada. Desviaram a atenção para outros, que aos olhos do conhecimento superficial - onde sobressaem as proezas, as simpatias, os troféus, os triunfos – surgem como anjos perante os meus entes queridos. Na verdade, se os conhecessem com outras experiências e mais profundamente, descobririam que aquelas gentes-novidade são diabretes como eu, com os seus respetivos defeitos e pecados… Mas, estão ainda dentro de uma aura de graça. Eu perdi-a.

- Ainda assim, terás de ser humilde e paciente. E autêntico. Mas, porque soluças mafarrico? Não está na tua natureza insensível a aspersão de lágrimas. A dor que te tem agrilhoado é realmente poderosa…

Levanta-se o mafarrico do banco da igreja, disposto a abandonar o lugar e o diálogo com a entidade superior. Roda para a porta, com os pingentes de cristal a escorrerem dos olhos. Estaca e grita para o altar:

- Jamais serei anjo, jamais terei as qualidades que outros têm. Mas, tenho uma forte vontade de me converter numa boa alma, prestativa, carinhosa e cuidadosa com os meus amigos e família. Preciso de uma real oportunidade para recuperar a credibilidade. Há dias que mudei, que faço os possíveis para ajudar em tudo, que converso, que manifesto sentido afeto, carinho e até paixão. No entanto, mantêm-me apartado, só, como se fosse uma vida paralela à principal deles. Tanto batalho e não consigo as suas atenções ou demonstrações de afeição.

- Tens de lhes dar espaço e tempo, mafarrico.

- É muito difícil - apenas apanágio dos teus santos – ter a temperança para suportar esta falta de resposta, de reação às minhas diligências de bem-querer, dia após dia.

Na verdade, estou por um fio; estou sufocado por uma amargurada depressão. Preciso de AJUDA! E talvez seja este estado de desespero que me trouxe a esta casa que sempre me foi apátrida. Recorro a todos os meios, porque estou AFLITO! Por mercê ou nem que seja por caridade, olhem para mim, olhem por mim. Nunca vi o chão tão próximo… SEGUREM-ME!

- Acalma-te mafarrico. O teu sincero desabafo será um sopro fresco nessa tua alma enovoada. Vai, deixa, por aqui, ficar parte dos teus tormentos. Arrependido e convertido em melhor pessoa, mereces a oportunidade. Auscultarei o coração dos teus entes queridos.

Agradeceu. Saiu cabisbaixo, ainda com o rosto embebido no soro salgado. O mafarrico que desistira da diabólica vida de purgatório, sozinho num mundo para si renovado, continuava com a tristeza da incerteza do seu futuro. Tinha sim absoluta convicção do que queria. Dependia dos seus entes queridos permitirem-lhe, acolherem, a chegada do homem renascido, recuperado no seu génesis.

Sabia agora que, na vida poderão ser sempre concedidas novas oportunidades. Quando assim é, não se deve hesitar: há que agarrá-las com total firmeza e comprometimento, sem perder tempo. No entanto, nas vicissitudes da vida, e na forma como encaramos os dias e convivemos com os nossos semelhantes, a melhor prudência será escutarmos atentamente o que nos solicitam, e mantermo-nos fiéis e diligentes quanto às nossas responsabilidades e, assim, evitar a necessidade de pedidos de (novas) oportunidades.

 

Andarilhus

XXII : V : MMXV

publicado por ANDARILHUS às 07:36
Quarta-feira , 13 de Maio DE 2015

Completude

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Quando estou contigo

Sinto-me inteiro, alado.

Em ti, são em mim

Superadas as faltas, as falhas,

As incongruências, o vazio,

As páginas grisalhas

Do meu ser inacabado.

Quando estou contigo,

Enfuno o olhar no gáudio do vento,

Impregno o sorriso na exultação;

Quando te sinto comigo

Reacendo o alento,

Para me erguer diante do perigo,

Para avançar na escuridão.

 

Quando te sinto por perto,

Célere me abeiro,

E em ti

Recentro o meu mundo incerto,

Abrando o pensamento forasteiro.

Porém,

As minhas sombras devo enxotar

E, assim nítido, me possas avistar

Além do muro que te cerca,

Que nos separa entre cismas escusadas.

E, enquanto, rondo a tua cidadela

Para topar aberta

E a ti chegar,

Mitiga o meu desfalecer,

E, entre as pedras amontoadas

Desvenda porta de guarida

Por onde possa atravessar

Ao encontro

Da tua existência, tão querida.

 

Mantenho, a cada dia,

A resiliência do peregrino

Na demanda da minha “fé”;

Mantenho, enfim,

A esperança do menino

Que resta em mim

E supera, tenaz, cada agitada maré

Mesmo que com barcos de papel fantasia.

E nem que seja um sonho

Ou mera melancolia,

Entende

Que quando te sinto por perto

[ardentemente]

Quero estar contigo!…

(E tu comigo)

 

Andarilhus

XIII : V : MMXV

publicado por ANDARILHUS às 07:43
Terça-feira , 05 de Maio DE 2015

Carta de Um Amor Com Paixão

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Fugir de sentir

Para não padecer

Na fábula desconstruída.

Acoitar o coração, a expressão,

O toque,

Deixar engavetado o carinho.

Açoitar em desacerto os encontros,

Para não engordar o remoque,

A fome da discussão.

Desligar o olhar, o sorriso,

A palavra,

Trazer a recordação açaimada.

                Suspender, adormecer…

Caí do (teu) céu,

Talvez culpado;

Talvez incompreendido;

Talvez por castigo justificado;

Talvez sem sentido.

Caí e ergui

Tantas vezes como as tuas incertezas;

Tantas vezes como as minhas mutações…

                Talvez. Talvez…

Mas porquê? - Resisto ainda -

Porque se exige a morte da paixão

No parto do amor?!

                (Como borboleta sobreviva

                À mártir ninfa)

Assim penso,

Assim volto a cair

Paladino

Do nobre coração

Onde perdura, tenaz, a chama enamorada da paixão

Luz da crisálida do amor!

                (... Extinguindo-a, dilaceram o coração,

                Degenera em curta vida a borboleta de tanto bem-querer…)

Mas, se assim intransigente o amor,

E para te não perder,

Poderei erguer-me, mais uma vez,

                (Agora sem talvez)

Nas tuas incertezas,

Nas minhas mutações?

                (O erro não é cair;

                O erro é desistir de erguer…)

A voz que entoa

Da caixa mágica da determinação,

Sobe das minhas fundações

Para te chamar na distância que te leva

E, enquanto te estendo a mão,… o coração,

Declarar-te

                Fuego camiña comigo,

                Colina sê o meu chão, a minha doce paisagem…

 

Beijo-te.

 

Andarilhus

VI : V : MMXV

 

publicado por ANDARILHUS às 19:30
Quarta-feira , 22 de Abril DE 2015

Por Ti Seguirei... (2.15)

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 http://victoraguilarchang.com/el-corvus-el-gran-destructor-de-barcos-cartagineses-y-romanos/

 

Destacada na vanguarda, a embarcação controlada pelos cilícios tomou a iniciativa do ataque com o envio de uma repetida salva de flechas. Duas das trirremes romanas avançaram, uma em rota de colisão e a outra a descrever um semicírculo, procurando ganhar o flanco ao inimigo. A terceira galera latina colocou-se em linha de confronto com o navio principal dos piratas, mas à distância.

Intensificou-se o arremesso de projéteis entre os beligerantes, surgindo as primeiras baixas de parte a parte e o aparecimento de pequenos focos de incêndio. No meio da fumarada - que começava a tolher a visibilidade - percebia-se a intenção dos romanos: enquanto o inimigo se concentrava no embate com o navio que chegava de frente - já muito próximo do contacto entre cascos -, o movimento da segunda galera ganhava uma posição perpendicular ao adversário com a intensão de lhe ferrar o seu espigão demolidor no ventre.

No tombadilho inferior, afastados das escaramuças, os iberos tiveram imediata perceção das consequências dos acontecimentos que se adivinhavam. Agitaram-se, procurando, ingenuamente, libertar-se das correntes que os aprisionavam, mostrando sinais de pânico, levando alguns a autoflagelar-se com o esfacelar de pele e carne. Os grilhões de ferro começaram a ruborescer com a efusão de sangue.

Zlaton, ao longe, parecia distraído e negligente, permitindo a manobra tática do inimigo. Porém, para os que o conheciam, o pertenço descuido não era por acaso. Tinha o plano traçado…

A pertença inércia dos cilícios, e perante um risco elevado de desaparecerem nas profundezas do grande oceano, os iberos continuavam em luta desesperada por se soltarem de um destino agoirento, indiferentes às chicoteadas dos piratas que, em vão, os subjugavam à quietude e a manterem-se no controlo dos remos.

Tongídio esperou pelo melhor momento e, num balanço do barco que trouxe um dos piratas ao seu alcance, acertou-lhe uma vigorosa patada, atirando-o contra Caturnino. Este, por sua vez, apanhou o pescoço do desgraçado no cerco dos seus braços, apertando-o com a corda que lhe prendia os punhos. Asfixiou-o rapidamente. O outro cilício acorreu a socorrer o companheiro, mas levou com o peso do moribundo, arremessado por Caturnino, tombando e desmaiando de seguida, quando recebeu o embate do calcanhar de Tongídio. Conseguindo alcançar o punhal de um dos desfalecidos, os iberos acabaram por se soltar das cordas, despachando-se, depois, a libertar das amarras os demais que se encontravam aos remos.

Entretanto as embarcações colidiam à proa. O raspão corrediço dos bronzes dos esporões forçou ao encosto lateral dos cascos, entoando o som de lenhos deformados, estalados, também pela quebra dos remos não recolhidos. Imediatamente, os romanos deixaram tombar o corvus, espetando profundamente o espigão afiado daquela espécie de ponte levadiça no convés inimigo. Estava garantida firme passagem entre as embarcações, e a imobilidade da presa.

As escaramuças iniciaram-se sobre a tábua que prendia os dois navios, mas sem que os romanos – em número esmagador perante a tripulação adversária – forçassem a abordagem. Continham-se em espera pela chegada dos companheiros que ganhavam a posição tática pretendida.

Acelerada para o embate, a segunda trirreme latina investia perpendicularmente, direta à contenda e próxima de causar estrago irreparável.

Por Trebaruna, rebentem com a escotilha! Temos de fugir para a coberta! Vejam, já se vê o brilho do metal da quilha. Vamos ao fundo! – gritou Rubínia para os que esgalhavam nas madeiras que envolviam a grade que os fechava.

Os receios de Rubínia concretizaram-se. Num ápice, com grande estrondo, o casco de madeira cedeu à frieza bruta do metal. Arrombada e invadida no porão pelo ferrão inimigo, a galera dos iberos começou a engolir grandes quantidades da água salgada. A sua sorte estava traçada.

Redobrados os esforços, por fim, o alçapão cedia, deixando que os aflitos subissem para espaço, por enquanto, seco.

Com as galeras romanas, de uma maneira ou de outra, encaixadas e retidas na embarcação que premeditadamente fora enviada como chamariz, Zlaton decidiu, então, prosseguir com a etapa seguinte do plano. O navio principal dos cilícios arrancou veloz, determinado a alcançar a trirreme latina que acabara de levar a cabo a manobra de abalroamento.

Aproximaram-se pela popa, bloqueando o movimento daquela, retida à frente na galera que se afundava e entalada atrás pelo cerco de Zlaton, sendo de imediato abordada pelos cilícios. Os romanos, surpreendidos, passaram de atacantes a invadidos.

Entretanto, para evitarem o apoio das tropas da primeira galera inimiga, os piratas ainda presentes na embarcação dos iberos lançaram fogo à proa. Alimentado pelo inflamável óleo gorduroso com que haviam untado a madeira, o incêndio deflagrou rapidamente, propagando-se ao corvus e daí à trirreme latina. Em poucos instantes toda a ação concentrava-se no navio romano, com as investidas à vante e à ré dos guerreiros cilícios.

Já no convés, com a sua embarcação inclinada pela submersão nas águas e a arder (apenas à tona por estar suspensa nas duas trirremes romanas), Tongídio viu que o salvamento do seu séquito só seria possível se saltassem também eles para o palco da luta. E assim fizeram.

O som das armas, os gritos de raiva, os ganidos sofridos, misturavam-se com o intenso fumo negro que chegava das lavaredas crepitantes que consumiam os dois navios em chamas. Os iberos procuravam evitar os confrontos, guiados por Rubínia, que tinha como meta atravessar a embarcação latina e alcançar a dos cilícios. A fraca visibilidade ajudava, mas não evitava que Caturnino, Tongídio, ou outros guerreiros, tivessem de abater alguns opositores, independentemente da fação beligerante. Leuko, na vanguarda, ajudava a furar a cortina nebulosa, vigilante com o que ia surgindo pela frente.

- Vamos aproveitar a confusão e tomar o barco cilício. A maior parte dos piratas está entretida com os romanos. Precisamos retomar a nossa demanda; atrasamo-nos com estes loucos! – Rubínia entusiasmava os restantes, quando já se aproximava da amurada que buscavam ultrapassar.

Conseguiram-no. Primeiro pularam para o interior do navio cilício os guerreiros mais fortes, determinados a dominarem a tripulação que permanecia em vigilância. Os restantes foram passando entre amuradas, despercebidos aos que se encontravam envolvidos na batalha com os do Lácio.

Dominados os poucos guardas, os iberos cortaram as amarras e, com os longos cabos dos arpões, empurraram as embarcações entre si, deixando as duas fações beligerantes a disputarem a galera romana.

Do outro lado da confusão, acercara-se também a terceira galera romana. Apesar da fraca visibilidade provocada pelo denso fumegar das temperadas madeiras, as dificuldades dos camaradas percebiam-se bem à distância, nomeadamente, o perigo de afundamento de uma das embarcações da esquadra e o abandono em debandada da tripulação para as águas frias.

Às ordens do comandante, a galera intacta posicionou-se entre as outras duas embarcações latinas já envolvidas na batalha para, com a proa próxima do palco dos confrontos, permitir que os legionários lançassem as pranchas e reforçassem as linhas do combate. Enquanto, à popa, iam resgatando os companheiros náufragos que se haviam lançado ao mar para fugir das chamas.

Com a reorganização das hostes romanas, os cilícios sofriam uma crescente desvantagem numérica, e não tinham para onde recuar.

Aleutério observava todos os movimentos de Zlaton, completamente absorto ao que o rodeava e à manobra de afastamento que os iberos levavam a cabo. Rubínea, no meio da azáfama, encontrou-o como que refém do momento, e atentou no que o paralisava. Entendeu. Travou a passagem do marido, e disse-lhe:

- Tongidio, repara em Aleutério. Aquele amuleto de Zlaton aprisionou-o ao passado. Nunca soube o que sucedeu realmente com a família, e agora encontrou uma possibilidade de desvendar o mistério. E… Trebaruna sopra-me aos ouvidos alguns pressentimentos… Tongidio, temos de salvar Zlaton, para bem de Aleutério, e dos nossos próprios desígnios… sinto-o!

O Lusitano contemplou os acontecimentos, o envolvimento de Zlaton nos combates e a situação difícil dos cilícios. Ponderou o risco de se intrometerem na refrega e não aproveitarem para fugir. Mas, o contraste entre as faces lívidas de Aleutério e o fogo dos seus olhos, que ofuscavam as vivas labaredas dos incêndios que pejavam o palco da batalha, levaram-no a uma decisão. Estava-lhe no sangue e na natureza dos seus pares, ser indomável, suscetível e intrépido…

- Parem! Temos de fazer algo por Aleutério, e também por nós… Zlaton tem muito o que nos contar. Foi nosso cárcere, mas os deuses atravessaram-no no nosso destino por alguma razão – sorriu para Rubínia. Vamos resgatá-lo dos romanos e limpar o sebo a algum dos nossos inimigos. Não poupem nas lâminas das falcatas!

Leuko uivou, como se entendesse o que havia sido dito…

 

Andarilhus

XXII : IV : MMXV

 

publicado por ANDARILHUS às 21:29
Segunda-feira , 13 de Abril DE 2015

Por Ti Seguirei... (2.14)

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 https://documentariofundeadouroromano.files.wordpress.com/2013/06/rec-hist-2.jpg

 

Quando retomou os sentidos, o líder lusitano viu-se no tombadilho inferior da galera, deitado numa esteira de palha, com Caturnino a seu lado, ainda tolhido por sono profundo.

Runaekoi, despido da parte superior do sago de lã, expunha o peito e o ombro esquerdo enfaixado, e o braço esquerdo suspenso por uma cinta em linho, suspensa pelo pescoço. Deambulava entre as laterais do casco, resmungando para si. Próximo, acompanhando com o olhar aquela deriva sôfrega, estavam as mulheres da expedição. Todos os homens sobrevividos ao ataque encontravam-se agrilhoados nos remos, aos quais iam dando movimento ritmado, às ordens de dois dos marinheiros cilícios.

No convés da embarcação estava mais uma vintena de piratas, atarefados na execução das reparações possíveis após a destruição superficial causada pelo incêndio. Com madeiras, cordas e um pano de vela trazidos do seu navio, iam remendando e remediando os estragos. Ao mastro chamuscado acoplaram uma nova cruzeta, estando a jeito para receber o velame. Limparam o sobrado e consertavam partes fragmentadas da amurada.

- O que se passou? Por Nábia, que sede! – ressoou Tongídio, com a voz cavernosa e rouca, acompanhada de um catarro grosso.

Ergueu-se desajeitado, tomado por náuseas e tonturas. Desequilibrado e sem dar tempo para que o amparassem, foi trôpego até bater e apoiar-se no costado. Deixou-se deslizar, acabando por se sentar.

Rubínia e as túrdulas acorreram, levando-lhe água. O guerreiro saciou-se, mas a voz continuou amarga:

- Só me lembro de ser picado por algo que me lançaram… áh, já me lembro: foi um destes vermes com uma espécie de cana! Vai engoli-la, mald…

- Calma. Foi um dardo com uma poção venenosa. Apenas vos adormeceu. Caturnino também já desperta. – disse Rubínia, virando-se para o lugar em que Caturnino começava a mexer-se – Até a picada já quase desapareceu do teu pescoço. De facto, é uma arma estranha, mas muito eficaz.

 

Pelo entardecer, Zlaton desceu ao tombadilho, acompanhado por alguns homens fortemente armados.

O seu porte e a presença firme e segura impunham respeito. Assim que entrou, concentrou a atenções. Mesmo Tongídio sentiu a aura de solenidade que emanava do chefe dos piratas, mantendo-se em silêncio e quieto, junto a Rubínia.

- Quis o destino que se cruzassem connosco. Pela embarcação, julgávamos que iríamos enfrentar romanos e garantir um novo arsenal de armamento. Afinal, não são latinos, e por isso sereis poupados. Mas servirão para engrossar o pecúlio da nossa arte, pela perda da liberdade e a desgraça da condição de escravo. Sereis vendidos nas costas de Cartago, daqui a poucos dias. – determinou, Zlaton, em tom calmo.

- Espera!... peço-te… - gritou, primeiro, para depois amaciar o timbre, Tongídio – Também nós somos inimigos dos de Roma e temos uma missão. Liberta-nos; deixa que a cumpramos…

- É da natureza do mester que escolhemos granjear riquezas e apropriarmo-nos dos bens e das vidas dos outros, sem exceção.

- E porque protegeste, então, as mulheres que capturaste?

Zlaton aprumou-se e fixou Tongídio com o olhar, sustendo a respiração ao longo do pensamento que o mantinha concentrado, enquanto remexia no amuleto de prata que cingia ao pescoço.

- Somos piratas, mas comigo há regras de conduta a respeitar.

Sem mais, rodou e saiu. Deu instruções para que distribuíssem água e alimento aos prisioneiros. Havia que os manter em forma até ao mercado de escravos.

Debruçado sobre o remo, Aleutério soprava e mostrava-se incomodado. Transpirava, bufava, e balbuciava algumas palavras, impercetíveis.

Rubínia correu para o ancião:

- O que se passa Aleutério. Pareces com febre… Mas, o que dizes? O que dizes?!

- … O amuleto. O amuleto que ele tinha… Só há um amuleto assim… Fui eu que o fiz, há muito tempo, batendo a prata com o cinzel… Fui eu que o fiz…

Ninguém entendia o pobre do homem, que pensavam endoudecer, doente e em estado febril.

Mas, Monda recordou-se da conversa que tivera com Aleutério e aproximou-se:

- O que dizes faz parte dos lugares e dos tempos do teu passado?

Aleutério despertou da visão que lhe tomava o espírito, apossou-se da razão e resolveu contar o que o afligia, com sobriedade.

- O amuleto que Zlaton ostentava, e que tanto apertava na mão, foi feito por mim. Não tenho qualquer dúvida. É uma peça única, feita pela arte do amor que um pai tem pelo seu filho. O meu filho, Tudérico. A quem perdi, conjuntamente com a minha mulher Estefala, após um assalto de cartagineses. Durante o ataque os meus queridos desapareceram. Procurei-os e esperei longos dias para os voltar a ver. Acabei por encontrar apenas as vestes de Estefala no extremo de uma falésia. Julguei-os os mortos. Chorei-os, perdi a vontade de viver. Acabei por abandonar aqueles lugares, deambulando para Norte.

- Sossega Aleutério: ainda teremos uma oportunidade para recuperar o teu amuleto e as memórias que guarda, cortando o pescoço ao pirata. – à sua maneira, Tongídio tentava confortar o companheiro de infortúnio.

- Quão pueril era Tudérico quando o perdeste?

- Caminhava há pouco tempo… - respondeu Aleutério a Rubínia, deixando-a a pensar enquanto esboçava um sorriso sustido.

 

Pelo início da tarde seguinte, o ritmo da deslocação dos navios foi acelerado. Os cilícios mostravam-se atarefados e inquietos, fazendo grande rebuliço no convés. Ouviam-se as ordens dos oficiais e a pronta movimentação dos marinheiros.

- Devemos estar próximos do Grande Mar Interior. Estão a ajustar a cadência para passarmos as Colunas de Hércules durante a noite. É aí que se concentra uma grande força da marinha romana, controlando todos os navios que avistam. – explicou Taer.

Próximos do entardecer e já a vogar para Este, agora a bordejar a costa, acompanhando os seus contornos para não serem tão percetíveis às vigias de Levante, as galeras seguiam perfiladas, com as velas recolhidas e com os remos a tocar as águas plenos de pujança. Muitos dos piratas dormiam, preparando-se para a longa vigília noturna. Só se mantinha ativo o pessoal necessário para assegurar a viagem. Zlaton facilitava, para depois tirar o proveito máximo das capacidades dos seus homens nos momentos mais delicados, que se previam.

Como o destino gosta de zombar e enviesar os cálculos dos Homens, desta vez, os romanos provocavam a falência da estratégia militar de Zlaton, surgindo inesperadamente com 3 galeras de guerra, de grande porte, assim que os piratas contornaram um pequeno cabo.

Sarapantados pelo alerta vigoroso das vigias, os cilícios acorreram aos postos de combate, quando já as embarcações latinas cresciam na aproximação, alinhando-se numa formação que servia de barreira, obstruindo a passagem. O combate era inevitável: qualquer manobra para voltear, procurando a fuga em sentido inverso, deixaria as embarcações dominadas pelos piratas completamente expostas ao abalroamento pelos esporões das galeras romanas. Assim constrangido, Zlaton deu instruções. A galera capturada e com os reféns a bordo serviria de isco. Mandou avançá-la, enquanto preparava a embarcação principal, com a maioria da sua guarnição, para atacar as ilhargas dos navios romanos que se adiantassem para combate.

 

No tombadilho inferior da galera de engodo, enquanto alguns piratas se apressavam a amarrar com cordas todos os iberos que não estavam ainda agrilhoados a um remo, outros vibravam chicotadas sobre os remadores, instigando-os a aumentar a cadência, que permitisse à embarcação assumir a frente da frota.

Entre os agrilhoados no porão, o nervosismo aumentava com o avistamento das quilhas de bronze dos adversários. O drama do abalroamento e consequente afundamento do barco a que estavam presos passava na mente de todos.

Concretizada a manobra, ficaram apenas dois cilícios no tombadilho, enquanto os restantes subiram ao convés, para atrair e enfrentar os romanos.

 

Andarilhus

XIII : IV : MMXV

publicado por ANDARILHUS às 19:33
Segunda-feira , 23 de Março DE 2015

Caminho Francês de Santiago

 

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… Não deve estar, mas se na próxima sexta-feira, 27 de março, o dia estivesse ensolarado como o da fotografia, seria ótimo…

Se tudo correr como planeado, vou lá passar!!!!!!

 

ULTREIA ET SUSEIA!

Desta vez pelo Caminho Francês de Santiago, 1ª parte, de San Jean Pied de Port até Leon.

Logística pronta, viagem marcada, ansiedade ao rubro para a 1ª etapa que atravessa os Pirenéus…

 

Bom Caminho!

 

Andarilhus

XXIII : III : MMXV

publicado por ANDARILHUS às 19:24
Quarta-feira , 26 de Novembro DE 2014

Por Ti Seguirei... (2.13)

guerra_naval.jpg

 

http://www.sistema.templodeapolo.net/imagens/textos/guerra_naval.jpg

 

Apesar do sobressalto, a reação foi rápida e bem coordenada. Entre os resíduos em tição e sebo derretido que juncavam o tombadilho, os iberos acorriam aos focos de incêndio com mantas e água.

Taer movimentou o leme procurando uma posição perpendicular à nave agressora. Desta forma, reduziriam a exposição ao armamento de arremesso. Contudo, dada a limitada presença de remadores, a manobra não foi tão lesta quanto o desejado.

Após uns zumbidos a cortar o ar, o som cavo de grilhões a ferrarem na madeira interior das amuradas embebeu-se nos estalidos da combustão e no frenesim geral dos ocupantes. Os atacantes acercaram-se prontamente, iniciando o assalto e preparando a abordagem. Quando a distância o permitiu, começaram por lançar as fateixas, com as quais prenderam a presa e, a força de braços, foram puxando as cordas que afivelavam os dois navios. Em breve, obrigariam ao encosto total dos cascos com o apoio dos arpões.

No meio da fumarada, Taer conseguiu enxergar o pavilhão que sacudia no alto do mastro do inimigo.

- São Piratas! Cilícios! A grande irmandade de pirataria que agrega guerreiros de todo o Mar Interior.

- Comigo! Temos de cortar as amarras que nos lançaram. Caturnino, reúne os mais fortes e formem uma linha de defesa junto à amurada, para rechaçar o assalto que aí vem! – ordenou Tongídio, ao mesmo tempo que deitava mão a um machado de dois gumes.

Enquanto Caturnino organizava os túrdulos e kalaedónios como um escudo à aguardada investida, Tongídio, Runaekoi e mais dois possantes guerreiros brandiam as armas para rasgar os grossos cabos de fibra que aprisionavam a galera aos braços dos agressores. No convés inferior, os menos afeiçoados a combates esforçavam-se nos remos, tentando romper o abraço de ferrolho do navio atacante. Aí, também, Rubínia, Aélcio e Aleutério mantinham-se em prevenção ao socorro da linha avançada, protegendo a área de controlo da embarcação e as mulheres túrdulas. Leuko andava por parte incerta.

Na amurada, as cordas decapitadas das fateixas saltavam como os tendões de um arco. Já poucas restavam a evitar o afastamento entre os barcos, porém, os piratas logravam alcançar a presa com os longos cabos de madeira dos arpões, anulando o esforço dos iberos.

Os aguerridos assaltantes começavam, então, a abordagem, com a colocação de pranchas. Os primeiros não chegaram a entrar a bordo da galera ibera. Os braços certeiros que governavam as fundas asseguraram golpes líticos fatais, que os derrubavam em mergulho no mar frio, amassando os corpos contra os duros remos, na queda.

Todavia, a torrente de invasores avolumou-se e os fundibulários não tinham cadência suficiente para deter a todos. Tongídio teve de largar o machado - que ficou impossível de descravar do esterno de um opositor - logo ao primeiro golpe, para sacar a fiel falcata, passando o seu punho firme a ser o sono de morte para aqueles que lhe iam surgindo pela frente. Rodeado de inimigos, renovava de sangue a lâmina da arma a cada movimento giratório. Já sem conseguirem travar a passagem dos piratas sobre os singelos passadiços, os iberos da formação defensiva acabaram envolvidos em combates diretos, estendendo-se a peleja a todo o sobrado da galera.

Runaekoi, pela sua ferocidade e a grande mortandade que ia provocando, também concentrava para si múltiplos oponentes. Em seu redor amontoava já uns quantos piratas, mortos ou feridos. Começou a recuar para espaço mais aberto e onde poderia movimentar-se melhor, aproximando-se da zona do mastro. Quiseram os deuses – talvez para alterar o rumo que levava o espetáculo da guerra, que tanto apreciavam - que o infortúnio se abatesse sobre ele. Queimado o velame, as laçadas que prendiam a cruzeta ao mastro arderam também, fazendo com que a viga de madeira se precipitasse e atingisse Runaekoi entre o rosto e o ombro, tombando-o e deixando-o aturdido, sem reação.

Caturnino, seguido de Tongídio, reagiram rápido em socorro do amigo, atirando-se aos vários inimigos que se preparavam para golpear aquele espírito funesto que os aniquilava sem se cansar. A refrega intensificou-se enquanto Runaekoi estrebuchava pelo chão, na tentativa de recuperar total consciência. Embora tivessem uma vantagem numérica arrasadora, os piratas demoravam em dominar a situação. Pelo contrário, as baixas eram manifestas, em contraste com os iberos.

Mas havia outra razão que justificava o atraso na conquista. O chefe dos piratas queria aprisionar os iberos, evitando a sua morte. Eram uma mercadoria de grandes réditos nos mercados de escravos.

Ainda a bordo da embarcação atacante, o líder dos assaltantes percebeu que a resistência dos atacados se devia, sobretudo, à força e arte de guerra exemplares de alguns deles. O carisma destes eleitos pelos deuses da guerra instigava os restantes a uma defesa acirrada. Se anulasse os líderes, os demais seriam meros cordeiros. Assim fez.

- Nassir passa para a galera romana e coloca aqueles dois fora da batalha – ordenou, Zlatan, chefe dos piratas, enquanto apontava para Tongídio e Caturnino.

Nassir, egípcio, cumpriu de imediato as instruções. Leve e ágil como um gato, atravessou a prancha e colocou-se em boa posição. Com a zarabatana apontada, primeiro acertou em Caturnino e depois, quando Tongídio se virou para si, procurando a origem do dardo que acabava de se cravar no pescoço do amigo, acertou-lhe com igual precisão.

O veneno imobilizador começou a fazer efeito, descoordenando os movimentos dos atingidos. Os piratas afastaram-se e deixaram que o vigor abandonasse completamente os dois iberos. Caturnino ajoelhou e caiu junto a Runaekoi. Tongídio ainda tentou alcançar Nassir arremessando a falcata, mas o discernimento fraquejou: não atingiu o alvo e acabou por cambalear até tombar.

Inerte no chão, nos momentos em que os sentidos e a mente se mantiveram em vigília, Tongídio viu Rubínia, seguida dos que aguardavam no porão, correr em seu auxílio, reclamando a vida àqueles que lhe obstruíam a passagem. Nos lentos piscar de olhos, ainda assistiu a Leuko saltar do alto da torre da embarcação sobre o pirata que conseguira agarrar a sua mulher. As presas do lobo branco perfuraram a jugular do inimigo, fazendo o sangue jorrar em esguicho, atemorizando, por breves instantes, os piratas.

Porém, Tongídio, que procurava encontrar forças para se erguer, sem o conseguir, ainda assistiu ao aprisionar de Rubínia e Leuko com redes e à rendição de todos aqueles que estavam sob seu comando. Ouviu o riso dos piratas e as suas vozes excitadas, vexatórias e obscenas, dirigidas às mulheres.

Antes de adormecer, já com os olhos semicerrados, conseguiu escutar um dos agressores, que se destacava pelas vestes refinadas, a chicotear os homens que já avançavam para a satisfação das lascívias carnais. Estranhamente, parecia indignado com o comportamento dos subordinados e exigia-lhes respeito pelas mulheres e restantes prisioneiros, sob pena de morte para os infratores. Era Zlatan.

Tongídio adormeceu…

 

Andarilhus

XXVI : XI : MMXIV

publicado por ANDARILHUS às 19:29
Quinta-feira , 20 de Novembro DE 2014

Por Ti Seguirei... (2.12)

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 https://www.flickr.com/photos/dayanapessanha/6078069610/

 

A situação manteve-se calma entre os tripulantes, embora com maior apreensão pela perda do conforto das vistas sobre solo firme. A chuva dava tréguas, mas o frio, particularmente o noturno, exigia maiores agasalhos e recolhimento aos espaços mais abrigados da galera.

Uma acolhedora fogueira, montada dentro de uma larga taça de bronze com 4 apoios em forma de patas de felino, e colocada sobre uma rija lage de xisto, era o centro de reunião daqueles que, no momento, estavam dispensados de serviço à embarcação.

No teto celeste, com a tresmalhação das nuvens, as estrelas brilhavam como se fossem buracos no véu negro que procurava encobrir a força da luz de vida do senhor Sol. Sem os obstáculos próprios do terreno e da vegetação, parecia que as estrelas desciam até ao mar, mergulhando naquele. Era ainda mais belo.

Também no afago da clareira iluminada pelo borralho, Rubínia enroscara-se nos braços do marido. Nesta calmia, Tongídio sossegava do estado de alerta e descontraía, mimando o ventre da mulher, onde residiam os seus sonhos mais queridos do vindouro. Pouco ainda se notava do estado de gravidez de Rubínia, porém, o pai radiante e esperançoso por um filho varão, conversava com a pequena vida em gestação como se já fosse um menino desenvolvido, prometendo-lhe grandes aventuras e ensinando-lhe as virtudes próprias de todos os grandes chefes. Rubínia ria-se das cândidas doidices do companheiro, assim como os mais próximos.

O cansaço começou por tolher a vigília de uns e de outros, obrigando-os a acomodar o sono, ou por ali, junto à fonte de calor, ou noutras áreas cobertas, tapando-se do relento.

Monda e Aleutério mantinham-se ainda acordados, ambos em silêncio, com o olhar concentrado no rubor das labaredas. Leuko estava próximo, deitado e com o focinho entre as patas.

- Aleutério, o que faz um nobre ancião – que deveria estar resguardado e mais em meditação do que em esforços físicos – a acompanhar uma missão destas, com tantos perigos? É para trazer algum cuidado e ponderação a estes jovens temerários? É por causa do braço com boa pontaria? Já me contaram a passagem do confronto com o urso – sorriu.

- Nem eu sei, Monda… Dizem que foram os deuses que me escolheram; a mim e ao Leuko. Nós tínhamos uma vida pacata em Tanábriga. E de rompante, o nosso homem sagrado resolveu envolver-me nas tropelias desta gente que só está bem a fazer correr sangue ou a morrer. Não entendo, mesmo. Agora vejo-me a seguir este destino, a regressar ao mar e… - Aleutério como que engasgou quando o pensamento se antecipou às palavras.

- E…? Pareces confuso, Aleutério, como se enfrentasses uma visão assombrada!

- …e, e a voltar a lugares e a tempos do passado, do qual fugi e que pensei já ter ultrapassado. Não sei o que me espera, quando…

Monda percebeu que tocara num ponto muito sensível para o ancião. Da reação de Aleutério, do timbre, das palavras e da expressão, mesmo no lusco-fusco, compreendia-se uma dor profunda, que ao mesmo tempo, era acompanhada por uma luta para a abafar. Monda recebia esses sentimentos mesclados, entranhando-os, tanto mais que ela própria carregava um sofrimento semelhante, constantemente açoitado na memória devido a um passado recente.

- Escuta, amigo: perdoa-me por te fazer relembrar… Não era a minha intenção…

- Atenção, vejam a poente! Uma luz que faísca ao nível do mar. E não é uma estrela, tenho a certeza! – gritou um dos guerreiros que estava em serviço de vigia, cortando a conversa dos dois que partilhavam a fogueira, e despertando todos na galera.

Alarmados, concentraram-se no convés. Entre comentários sobre manifestações do além ou a aproximação de monstros marinhos, mantiveram-se todos na amurada, na expectativa da evolução dos acontecimentos. A estranha luz era apenas um pequeno ponto ao longe, mas era bem visível.

- Se fosse do outro lado da galera, diria que seria uma fogueira de algum acampamento junto à costa, avistável porque se destaca bem na noite. Agora, deste lado… - cismava Taer, em médio tom de voz. – Mas, é claro! Aquilo deve ser outra embarcação! Rápido apaguem o lume na lareira da galera! Assim, como nós os vemos, também eles podem descobrir a nossa presença! Queremos passar despercebidos e temos um azar destes…

Na realidade, o ponto luminoso parecia crescer, devagar, mas via-se nitidamente melhor. O que significava que, o que quer que fosse, ou ganhava maiores dimensões ou – para apreensão de todos – estava a aproximar-se!

- Rápido Taer, dirige o barco para nascente. O que ali vem não chegará certamente com boas intenções. Se possível evitaremos o contacto. Não podemos perder tempo ou arriscar o nosso encargo. E quero todos bem despertos e prontos para o que for preciso. Aos remos e força! – ergueu-se a voz do líder, Tongídio.

Com o esforço na manobra da embarcação, o estranho clarão voltou a reduzir de intensidade e acabou por se extinguir, tão de repente como havia surgido. No sentido oposto, começava-se a vislumbrar no horizonte o traço da linha de costa, sobretudo porque já espreitava, tímido, o pronúncio da aurora, naquele fugaz momento de suspensão do tempo, em que a noite e o dia trocam uma respeitosa vénia, tal beijo apaixonado de dois amantes. O Sol nascente descobria o Oriente.

Ainda a braços com as limitações da escuridão, julgando-se já a Sul do perigoso entreposto romano e a salvo dos perseguidores noturnos, a ordem foi para abrandar o ritmo e passar à remada de cadência normal.

- Em breve estaremos visíveis para o inimigo. Tenha-se o máximo de cautela. Só quando puder observar os pontos de referência de terra é que poderei assegurar o ponto em que estamos. – disse Taer, enquanto forçava os olhos na expectativa de enxergar qualquer sinal que o pudesse orientar na penumbra.

O silêncio imperava a bordo. Os olhares cansados perfuravam as trevas dos sentidos e as da ansiedade, à espreita de algo que não fosse só o ondular do mar. De tal modo dominou a quietude de movimentos e de fala, que a audição passou a impor-se à visão.

Começaram, então, a escutar uma estranha agitação nas águas, em contraste com o normal serpentear das ondas. Algo, não muito afastado, mergulhava ritmadamente na superfície aquífera.

Os sons enigmáticos aportaram imediatamente os receios com a recente imagem do misterioso clarão. Todavia, ainda no breu da despedida da noite, nada se vislumbrava e, subitamente, desapareciam também os ruídos.

Nem o respirar ganhava sopro; pareciam estátuas dispersas no convés e colados às amuradas. Ouvia-se apenas o mar a roçar no casco da embarcação e, aqui e ali, a brisa a gingar entre os cordames mais tensos.

Hirtos e atentos, saíram do estado de quase transe, quando do lado oeste ecoou o grito: - Acender e armar!

Na negridão surgiu, repentinamente, novamente o clarão, agora em tamanho amplo, na forma de lareira similar à que tinham a bordo, com labaredas crispantes. Via-se agora, a duas centenas de braçadas, um navio de grandes proporções, mesmo maior do que a galera, apinhado de gente, que segurava o que se assemelhava a longos guiços, com as pontas afogueadas.

- Disparar! – escutou-se novo grito.

O céu pardo encheu-se de múltiplos pontos incandescentes que se deslocavam rápido na direção da galera ibera.

- São setas incendiárias; abriguem-se! Atrás da torre ou encostados à amurada. Rápido! – reagiu Rubínia, instintivamente.

- Recolham a vela! – completou Taer.

Mas, já não foi a tempo. O dilúvio de fogo castigou duramente o costado e o convés da galera. O grande pano quadrado ardeu calorosamente, queimando também aqueles que deambulavam próximo, com os farrapos incandescentes que tombavam junto ao mastro. Assim caídos ou por razão de serem atingidos diretamente pelos dardos pontiagudos, verificaram-se algumas baixas na tripulação.

O dia vingava, enquanto a embarcação ibera se debatia com um incêndio de crescente proporção. O fumo negro já se via a longa distância.

 

Andarilhus

XX : XI : MMXIV

publicado por ANDARILHUS às 07:47
Quinta-feira , 13 de Novembro DE 2014

Por Ti Seguirei... (2.11)

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http://www.areamilitar.net/DIRECTORIO/NAV.aspx?nn=98

 

Na margem Sul, a hoste guiada por Monda havia conseguido similar sucesso, aniquilando uns e aprisionando outros, das cerca de duas dezenas de legionários que patrulhavam a Citânia Marinha e a zona da fortificação romana. Leuko dera o seu contributo: com o medo provocado pela sua aparição, enregelando os pobres dos latinos, obstou a que não fossem totalmente dizimados, por optarem pela rendição.

Apesar do morticínio, não deixaram de celebrar e expressar o seu agradecimento aos deuses, através de uma longa procissão ritual de abates e oferendas de toda a espécie. Às emanações dos sacrifícios juntaram-se as exalações voláteis dos corpos cremados, entranhadas pelos odores adocicados do combustível vegetal e das flores que coloriam de vida as homenagens fúnebres. Por algum tempo, a forte e costumeira fragância a maresia daquelas paragens submeteu-se à ligação aspergida entre o mundo dos homens e o além dos deuses.

Reuniram-se na Citânia Marinha para comemorar e relançar os costumes diários, sobretudo daqueles que haviam passado uma longa temporada aprisionados e apartados dos seus parentes e haveres. O reencontro e a alegria marcaram o final da tarde, atrasando a majestosa soturnidade da noite.

Túrdulos e Kalaedónios selavam a aliança que os comprometia a combaterem juntos novos assaltos inimigos. O alto da Peñaventosa seria o último refúgio para ambos os povos, em caso de necessidade.

Entre festejos, a noite reservou alguns momentos para preparar a partida da comitiva ibera. O Grande Mar Ocidental estava tão perto, aguardando para ser descoberto e calcorreado, como rodeira, até ao domínio dos Cartagineses.

 

Ainda o próprio Sol espreguiçava em acordar, já Tongídio e os seus carreavam, buliçosos, a carga da viagem para os porões da galera romana maior. A galiota, conduzida por Hermineu, acompanhado pelos juvenis do grupo de Aelcio, regressava a Tongóbriga, para inteirar Físias acerca das últimas novidades.

Ao grupo inicial da missão, juntavam-se Taer, perito na navegação, Aelsio (depois de tanto desgastar a paciência a Tongídio, que o considerava ainda muito novo para a empreitada), e um conjunto alargado de Túrdulos (no qual se incluíam Monda e Noa), em agradecimento pelo auxílio recebido, e para estabelecerem contacto com as raízes originais da tribo, a Sul da Ibéria. Com a recruta suplementar de uns quantos Kalaedónios, conseguiram, assim, os braços necessários para instar movimento a um número de remos suficiente que garantissem o deslizar a embarcação sobre as águas. Com o sopro dos deuses, a grande vela central também ajudaria a incrementar velocidade. Assim o urgia o passar do tempo.

 

Concluídas as despedidas, Taer assumiu o manobrar da galera rumo ao ponto de diluição do Durio na infusão salgada.

A imensidão azul do mar abria-se como se fora um segundo céu. Não se conseguia definir um termo, e desaparecia no próprio firmamento. Seriam estes uma só coisa, um só elemento, um só céu, dobrado no horizonte pelo abraço de algum deus? Uma cortina que tapava a morada dos divinos? Haveria alguma frincha, lá junto à dobra, que desse para espreitar os lugares idílicos, divinos?

A admiração e o êxtase dançavam, cingidos, nos rostos daqueles que só conheciam as larguezas de planícies e planaltos, em terra firme. Terra essa que, afinal… tinha um fim. E era ali, onde estavam agora. Seguia-se tanta água, tanta água… Certamente, escorrera pelos rios até àquela zona mais baixa… Seria mais fundo do que o Durio ou o Taamaco? Teria fundo?! E as ondas, que fazem suster a respiração quando a galera se ergue no seu dorso e passa acariciada como pelo roçar do lombo de um gato mimalho?! São enormes e magníficas as obras dos deuses! O seu poder é imenso!

Praticamente todos os que encaravam as novas e estranhas formas do Mundo mantinham-se em silêncio transcendente, maravilhados, como se contemplassem uma visão do sagrado, pelo encantamento de um druida. Pelo contrário, Runaekoi sentia uma terrível comichão nos pés, e barafustava, manifestando, uma vez mais, a sua aversão à água. Aliás, o grande mar era ainda pior, os sobressaltos da ondulação provocavam-lhe enjoos. E não era só a ele; acontecia o mesmo a todos os inexperientes nas jornadas marítimas. Com o desenrolar da viagem, acabariam por se adaptar como o haviam feito quando aprenderam a cavalgar a galope.

Taer manteve a embarcação alinhada e à vista da costa, com o rumo apontado ao Sul. Os dois primeiros dias foram difíceis. Os estômagos dos inusitados marinheiros, vazios, porque a vontade por alimento era nula, buscavam as entranhas para darem alguma matéria aos espasmos dos vómitos. Doíam de tanto esforço.

Para agravar o estado de agonia generalizado, a chuva regressava em força, alertando para o avanço da época do frio. O vento ganhava corpo, zurzindo na galera e bulindo as águas, muito agitando a sua superfície.

Todos os dias, Rubínia e Tongídio endereçavam as suas preces aos deuses de sua maior afeição, com especial devoção pelos amigos e compatriotas aprisionados sob jugo romano. Pediam, para aqueles, o amparo divino que assegurasse a proteção e a perseverança face às agruras, mantendo-os vivos até à chegada da falcata ibera, para os libertar do cárcere.

No silêncio da partilha dos seus pensamentos com o sagrado, Tongídio padecia de uma outra grande preocupação: o estado de graça em que se encontrava Rubínia. Com o ventre da mulher carregado por tanta esperança, sentia-se constrangido a redobrada atenção e alerta para qualquer perigo. Tanto mais que a empreitada a que se propunham era arriscadíssima, plena de balanços entre a vida e a morte.

Aleutério e Leuko, na companhia das duas mulheres túrdulas, serviam-se do abrigo de uma tenda improvisada, montada na ilharga da torre da embarcação.

Aelsio passava o tempo junto a Caturnino e Runaekoi. Expostos às águas dos céus, o jovem galaico convencia os guerreiros experimentados a atividades de treino militar. Ávido por aprender todos os movimentos com a falcata e a caetra, espicaçava os seniores a darem o seu melhor nas artes bélicas. Eram entusiasticamente observados por outros companheiros de viagem.

Passadas as dificuldades iniciais, o bom ambiente entre os presentes afastava a melancolia que o espaço exíguo do navio e o rigor climatérico tendiam em provocar, com o passar do tempo. As refeições começaram a entrar na normalidade da rotina e a agregar grupos, que aproveitavam para conversar. Dormir voltava a ser uma realidade natural.

Com o esforço revezado de todos os ocupantes nos remos, a galera seguia em forte cadência. O vento, apesar de arisco, também se apresentava de feição, enfunando a grande vela quadrada. Avançavam expeditos no carreiro das águas. Aqui e ali, uns peixes graúdos ladeavam a embarcação, como se fossem cães de companhia. Leuko, esticado na amurada, uivava-lhes, ao que respondiam com uma espécie de assobios estridentes. Eram uns bichos alegres e simpáticos.

- São golfinhos, Leuko. Conheço-os bem, da minha juventude, quando me dedicava ao mar… - sussurrou Aleutério, quase impercetível.

Monda deixou escapar um olhar de ternura sobre Aleutério, aquele estranho ancião. O próprio não reparou, mas Rubínia sim, e sorriu, como se aprovasse o enlevo do momento.

Taer dirigiu-se ao líder da expedição e deu-lhe a entender que se aproximavam do estuário do rio Tagono, local conhecido pelos mercadores como uma zona controlada pelos navios de guerra romanos. Numa das margens, os latinos haviam instalado um entreposto de apoio à armada. Uma pequena, mas bem preparada, fortificação.

- Para evitarmos encontros nefastos, será melhor confiar o curso da galera por paragens mais ao largo, e passar assim longe dos vigias inimigos. Deixaremos de ver terra, por um ou dois dias. – sugeriu Taer, com a cautela da sua experiência no transporte de mercadorias. Salvar as preciosas cargas exigia, por vezes, correrem outros riscos, como desorientarem-se na imensidão do mar e perderem-se irremediavelmente. Porém, as estrelas e as correntes acabavam por virem em socorro, transmitindo as indicações desejadas.

- Assim seja. Parece-me o mais certo. Não temos capacidade para enfrentar as forças romanas, sobretudo as treinadas para combates navais. – concordou Tongídio, e continuou: - Ainda temos mantimentos suficientes para vários dias. Afastemo-nos da costa, assim que consideres prudente, Taer.

À ordem do piloto, o leme rodou a embarcação para poente. A costa perdia-se de vista rapidamente. Já só com o mar no horizonte circundante, Taer corrigiu novamente o leme para Sul. Mantinham a mesma rota, embora sem a referência visual de terra. Acompanhar e ler os sinais naturais era agora fundamental.

 

Andarilhus

XIII : XI : MMXIV

 

 

publicado por ANDARILHUS às 18:50
Sábado , 25 de Outubro DE 2014

Caminho Primitivo de Santiago (8º dia: Salceda - Santiago Compostela)

E ao 8º dia (2014.08.19) fizeram-se

30,6 km

em 5h23.

 

Passagem em Pedrouzo e Monte Gozo.

 

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... E assim culminou mais um estágio desta transcendente, intemporal e inspiradora aventura que é percorrer o(s) Caminho(s) de Santiago...

 

Venha o Próximo!

(Caminho do Norte?!...)

 

Andarilhus

XXV : X : MMXIV

 

 

 

 

 

publicado por ANDARILHUS às 18:24
Sexta-feira , 24 de Outubro DE 2014

Caminho Primitivo de Santiago (7º dia: As Seixas - Salceda)

Pelo 7º dia (2014.08.18) fizeram-se

42,3 km

em 8h39.

 

Passagem em Melide e Arzua (troço comum ao Caminho Francês).

 

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Andarilhus

XXIV : X : MMXIV

 

publicado por ANDARILHUS às 19:36
Quarta-feira , 15 de Outubro DE 2014

Caminho Primitivo de Santiago (6º dia: Lugo - As Seixas)

No 6º dia (2014.08.17) fizeram-se

35,6 km

em 7h39.

 

Passagem em S. Romão de Retorta.

 

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 Andarilhus

XV : X : MMXIV

 

publicado por ANDARILHUS às 19:31

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